Notas iniciais
Caramba, realmente, esse capítulo demorou! Mas chegou né? Enjoy :)

Naquela noite em diante eu não parei de sonhar com criaturas peludas e com presas afiadas. E também, em todos os sonhos, Luther estava no meio.

Além disso, eu não vira Luther desde aquele dia. Havia se passado três dias sem notícias dele. Ele simplesmente fugira do internato, assim tão fácil. Fez uma coisa que muitos queriam fazer, mas eles tinham medo da diretoria... mas acho que Luther não teve muita preocupação com a diretoria se no máximo a Sra. Perry soubesse de sua fuga e ainda ajudá-lo.

Era o último dia de aulas. As férias, para os que ainda tinham vida lá fora, começariam daqui a pouco, no meio da tarde quando acabasse a festa de despedida...

Festa de despedida. Deus, como eu odeio isso!

Não é inveja dos que iam embora (inveja pra quê se daqui a dois meses eles voltariam para cá?), mas odeio porque é uma coisa meio hipócrita. Como você faz uma festa de despedida se metade do internato está ali para sempre? É totalmente ridículo! Por isso, alguns de nós — até mesmo a Sra. Perry — chamamos isso de Festa de Verão. Não podemos se embebedar, mas sempre que podemos tomamos uns copinhos escondidos ali com os veteranos...

Droga, eu era um veterano.

Lembro-me de como eu cheguei aqui.

Eu acabei de sair do hospital, internado como se estivesse morto. Eu era dado como morto, depois do acidente de carro. Eu fui o único que sobreviveu. Eles morreram, injustamente. Fui encontrado nos escombros do carro, chorando, clamando por alguém para me buscar... levou cerca de dois dias para me acharem. Quando uma viatura me encontrou, não acreditaram que eu estava vivo. Era um milagre.

Fiquei internado por dois meses e fui encaminhado para cá, sendo a Sra. Perry a mais próxima da família.

Daí eu me pergunto: “Onde está o diabo do resto da minha família?”. Sempre me questionei sobre isso; era ilógico! Tinha que ter um parente perdido, mesmo que distante. Mas não. Ninguém.

Bufei. Eu estava sentado na minha cama, olhando a luz do sol avançar pelo quarto e chegar pelo menos nos meus pés.

Estranhamente, eu os recuei. Era um instinto impulsivo.

Lembrei da conversa sobre... sobre as Trevas.

Eu não tinha noção do que eu sou? E quem eu sou na verdade? Quem era Luther esse tempo todo?

O sinal da festa bateu. Era hora de ser idiota por algumas horas.

...

O pátio estava todo decorado com serpentinas, faixas dizendo: “Boas férias, ótimo verão” ou “O Internato Hummel deseja um bom descanso” e blá-blá-blá. Coisas assim nojentas.

Eu não tinha amizade por ninguém naquele internato. Então não procurei ninguém, mas vi caras reconhecidas.

Avistei Pete e seus capangas no extremo oposto do pátio. Não ia perguntar se estava tudo bem; a resposta viria com um soco bem dado em mim. Mas ele havia dado uma melhorada em comparação aos três dias atrás, quando ele na enfermaria tinha alucinações, febre altíssima e insônia. Agora, ele recuperava a cor rosada e a gordura, pois ele estava muito magro e pálido. Agora, toda vez que eu passo perto dele, ele simplesmente me olha como se fosse correr a qualquer minuto, tentando se esconder de mim. Que legal, ele tem medo de mim! Isso aliviou muito.

Eu fiquei sozinho naquela festa, assim como todas as outras. Menos o ano passado que pelo menos foi um pouco engraçado com...

... com Luther.

Eu não esquecia ele (e sei que isso pode ser estranho, né?), mas é que ele foi como um irmão pra mim. Ele me entendia e eu o entendia. Eu me sentia realmente em casa.

E agora o meu melhor amigo havia fugido.

Admito que eu ainda tinha pesadelos com aquela noite. O modo como ele me olhou e tentou me atacar... Não era ele. Era aquele ser que atacara Pete e tinha alguma raiva de mim também. Luther não faria isso, de jeito algum, pelo tempo que eu o conhecia. Mas eu não o conhecia por muito tempo.

— Michael. — A voz da Sra. Perry irrompeu às minhas costas. Virei e vi-a com um chapéu de cone colorido na cabeça — Está bem? Não vejo você feliz desde... — suspirou. — Enfim, você tem que se distrair.

Eu não queria incomodá-la, mas sentia que se não fizesse aquela pergunta agora, eu nunca mais iria saber a resposta.

— Sra. Perry, o que a senhora sabe de mim... o que eu não sei?

A mulher me fitou misteriosamente. Não pude saber o que realmente ela estava pensando; se era bom ou ruim contar algo pra mim, e algo que talvez pudesse ser perigoso.

— Vamos conversar um pouco, sim?

...

— Ok, Michael — ia dizendo a Sra. Perry, enquanto descíamos as escadas do hall de entrada. —, posso lhe contar de tudo um pouco.

— Então comece explicando o tudo — eu disse.

Ela me olhou profundamente. Acho que estava tentando encontrar as melhores palavras para descrever tudo.

— Sente-se — ordenou, sentando junto comigo no degrau da escada. — Olhe, antes de tudo, eu... eu sinto muito por não ter contado antes. É que nós estávamos tentando te proteger. Quanto menos você soubesse melhor seria. Mas então veio Luther...

A Sra. Perry parou. Coçou a nuca, desconfortavelmente.

— Luther é um vampiro. — Concluí. Ela não mostrou muita surpresa, pois já sabia. — E você sabia disso, não?

— Você contou pra mais alguém? — perguntou.

— Não... Mas ouvi aquela conversa que vocês tiveram depois que eu saí. Sobre um tal de Conselho, trevas e... e sobre mim.

Ela desviou o olhar, focou apenas na entrada do internato.

— Você sabe porque seus pais morreram — disse. —, assim como você sabe porque está aqui. Mas, então, você não sabe porque ainda está aqui.

Opa. Agora ela me pegou.

Bem, eu havia dito que eu não tinha nenhum parente para me buscar, e isso ainda me perturbava. Tipo, caramba, eu ainda estou vivo! Ainda existe parte do sangue deles vivo no mundo...

— A senhora sabe de algo... como esse? — perguntei cauteloso.

— Hã... Michael, e se eu te disser que eles ainda estão vivos? E que sua vida não passou de apenas ilusão e que na verdade, nada foi o que parecia ser? E se o destino no qual você vai tomar, pode resolver esse enigma?

Sinceramente, cara, a Sra. Perry sabia como me deixar transtornado.

— Então... meus pais ainda estão vivos? — indaguei muito, mais muito esperançoso.

A professora suspirou, levantou-se e sacudiu a sujeira da saia longa. Estendeu a mão e me levantou também.

— Bem, querido... acho que isso você vai ter que descobrir sozinho. — Concluiu, e então seguiu em frente, subindo as escadas para a sua sala, me deixando com uma dúvida cruel e uma festa idiota, que iria decidir o começo do meu sinistro destino de uma forma complicada.

...

Era cerca de quatro ou cinco horas quando tudo começou a dar errado pra mim.

A Sra. Perry estava no canto dos professores, rindo com todos. Às vezes ela olhava para mim, caçando entre os alunos, para ver onde eu estava e se eu ainda tava vivo. Ela realmente se importava comigo.

Mas eu fiquei pensando no que ela havia dito sobre o meu destino e meus pais. O que um e outro tinham em comum e por que o meu destino iria ajudar a resolver tudo? O que meu destino tinha de tão importante assim? São dúvidas desse tipo que me deixam mais maluco ainda.

Michael.

Uma voz invadiu os meus ouvidos. Era a voz dele — Luther.

Fuja. Você tem que sair daí!, me alertou.

— Luther? Onde está? — disse sozinho.

Você tem que fugir. Me encontre na porta dos fundos, a-go-ra!

— O que há? — perguntei. Rodei os olhos em todos os cantos, mas não o avistei. Será que devia mesmo ir à porta dos fundos? Será que era mais uma tentativa de Luther me matar?

Porém, havia urgência na sua voz. Era a voz de quando Luther me protegia dos valentões que me perturbavam, mandando eu me proteger, que ele iria resolver tudo.

Resolvi seguir o conselho de Luther e fui em direção à saída dos fundos.

Me afastei da festa, sem olhar para trás, sem olhar para a Sra. Perry.

Passei pelos corredores da escola, pela ala masculina até então chegar ao refeitório, onde ficava a porta dos fundos da escola, que vários alunos usam para fugir de vez em quando.

Abri as portas do refeitório, e encontrei-o vazio.

Bufei de ódio. Luther havia me enganado. Ou... ou será que eu imaginara a voz dele? Foi coisa da minha cabeça?

— Não Michael, é mais real do que imagina. — disse alguém, e então eu vi — a pessoa que iria me atormentar pelo resto da minha vida.

Uma voz ríspida e arrogante, vinda de um garoto com aparência ríspida e arrogante. Eu nunca tinha visto ele no internato, e não devia ser um aluno novo. Ele estava sentado numa mesa do outro lado do refeitório. Há um minuto, ele não estava ali...

— Quem é você? — perguntei. Alguma coisa me dizia para sair dali.

— Ah!, que inconveniência da minha parte! — exclamou o garoto. Ele tinha um sotaque um pouco... sei lá. Francês? — Meu nome é Malcolm Bouvier. E não lhe trago... hã, boas notícias.

Eu já não gostei dele nos primeiros minutos, e acho que isso ajudou um pouco a odiá-lo pelo resto da minha vida. Malcolm era loiro, forte e alto. E seus olhos eram vermelhos. Já sabia o que eu podia esperar.

Eu não pensei duas vezes: “AAAAH!”

Eu berrei de pânico. Ele era um vampiro, é óbvio.

Dei meia-volta e corri em direção à porta que voltava ao outro lado do internato, mas ela bruscamente se fechou, ao mesmo tempo em que as janelas se fecharam — ficamos em uma medonha escuridão. E eu estava completamente perdido.

— Vocês mortais são sempre os mesmos! — debochou Malcolm, rindo de uma forma sinistra. — Porém, você não é tão... mortal, não é Michael?

— Onde está Luther? — gritei, no intuito de alguém ouvir e me socorrer. — Luther!

— O seu amiguinho traíra não pode lhe ajudar... Temo que tenha que me enfrentar sozinho.

— Enfrentar? — guinchei enlouquecido. — O que está acontecendo comigo?

— Tudo, Michael, tudo. A questão é que você e seu amiguinho estão interferindo na ordem das coisas... Você me trouxe aqui, sabia? Você tomou noção de quem é. Isso é o maior sinal de um ser das Trevas... mas acho que você não vai nem chegar a descobrir os seus poderes, não? É hora de me enfrentar; diga adeus Michael...

— Cala a boca, Malcolm! — surgiu uma nova voz, uma voz que eu senti alívio em ouvir: Luther.

O refeitório tinha um pouco de luz, podendo ver as silhuetas dos dois vampiros. Luther surgiu logo atrás de uma pilastra, e rapidamente, partiu para o ataque, dando tempo de Malcolm apenas se virar para olhá-lo e ser derrubado no chão.

— Luther! — gritei. — Socorro, alguém, socorro!

Enquanto eu pedia ajuda naquele refeitório vazio, a briga entre eles seguia freneticamente. Os dois estavam se engalfinhando no chão, até que Malcolm tentou empurrar Luther para longe, mas este voou para o teto e ficou lá, como se estivesse colado. Arreganhou as presas para o oponente e fez um movimento com as mãos, fazendo irromper varias sombras ao seu redor — as mesmas sombras que atacaram Pete.

Malcolm mostrou as presas também e foi ao encontro de Luther, e no teto, travaram uma briga de cabeça pra baixo. Eles não pareciam estar incomodados, lutavam com uma crueldade confortável para eles.

As sombras pareciam enroscá-los enquanto brigavam intensamente. Luther agarrou o pescoço de Malcolm, mas de nada adiantou. O outro vampiro não parecia estar intimidado com Luther — Malcolm era mais forte que Luther.

Eu tinha que parar aquilo, de alguma forma.

Os sinalizadores de incêndio! É claro!

Enquanto isso a luta seguia mal para Luther... as sombras se focavam mais nele, parecendo obedecer Malcolm.

Tateei as paredes para conseguir puxar a alavanca do alarme. Foi no canto do refeitório que eu achei. Quebrei o vidro que o protegia e sem hesitar, puxei a alavanca.

TRRRIIIIIM!!!

Pronto. Agora, dava pra ouvir o grito dos outros alunos lá fora. Era apenas uma questão de tempo até que nos encontrassem.

Malcolm parou e me fitou com ódio. Rugiu de raiva e jogou Luther para o chão com estrépito.

— Isso é apenas o começo, Michael! — esbravejou Malcolm, num tom ameaçador. — Vocês não irão escapar do Conselho! — E num piscar de olhos, sumiu do nada, com as sombras o engolindo.

O refeitório estava inundado. Fui até Luther e me agachei.

— Luther? V-você está bem? — gaguejei.

Ele tinha os olhos fechados e sua respiração estava pesada.

— Se-segure... minha... mão. — Esticou a mão para mim.

Olhei para trás e percebi o tropel de adolescentes pelos corredores. A Sra. Perry naquele instante devia estar enlouquecida tentando me procurar. Mas eu devia sair dali. Como Malcolm mesmo disse: “Você tomou noção de quem é. Isso é o maior sinal de um ser das Trevas”. Eu já sabia quem eu era (de alguma forma) e sabia que iriam vir atrás de mim mais uma vez.

Fitei Luther, que agora abrira os olhos vermelhos, e agarrei sua mão, me deixando desaparecer do Internato Hummel numa revoada de vultos negros intensos junto com o meu melhor amigo.

Notas finais
Gostaram? Reviews, please! Não doi nada... :B
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.