Notas iniciais
Para Rennata, que não parou de me cobrar...

O copo de água explodiu na mão de Chloe devido a intensidade da força com que o apertou, mas ela não chegou a notar. Ela podia sentir, os três haviam se encontrado.

A porta de seu quarto foi aberta e Michael, seu namorado, entrou.

– Eu bati, porque você não… – sua face normalmente alegre foi tomada por uma expressão de alarme quando ele olhou de sua mão, ainda estendida no ar, para o chão, onde cacos de cristal se misturavam a água e sangue.

Ela estremeceu com a visão do líquido vermelho escorrendo ao longo de seu braço. Em breve mais sangue seria derramado. Mas dessa vez não seria o dela.

O som de água corrente tirou-a de seu torpor e então ela percebeu que Michael não estava mais ali. Olhou em direção ao banheiro e o viu saindo de lá segurando uma toalha.

– Ei, o que aconteceu? – ele perguntou apertando a toalha molhada contra sua palma para estancar o sangue.

– Tudo está acontecendo de acordo com a minha visão. – ela murmurou. – Os escolhidos finalmente se encontraram.

Ela nunca havia falado com ninguém além de Christopher sobre isso e mesmo assim, nunca contara a história toda a seu irmão. Michael, com certeza, não estava entendendo nada do que ela estava falando, mas ficou em silêncio, deixando-a continuar. Ele sabia como as visões a afetavam.

– Porque o destino não pode mudar ao menos uma vez? – ela perguntou olhando nos olhos dele. – Porque Selena tem que morrer?

Mais ela já sabia o porquê. Era preciso. Sacrifícios as vezes são necessários.

Michael a atraiu para um abraço, e pela terceira vez desde que tivera a visão, há mais de um ano e meio, ela deixou suas lágrimas caírem.

***

Ofuscante.

Foi a primeira palavra que veio a mente de Selena no instante em que viu Rennata. A garota emanava uma aura de luz de força esmagadora. Parecia ainda mais forte desde a última vez que a vira. E por mais estranho que pareça, Selena sentia a força das trevas em si mesma brigando para se libertar e essa força apenas aumentava, como uma corrente de poder passando através de seu corpo.

Luz e Trevas. Selena e Rennata eram duas forças de polos opostos.

– O quê que tá rolando? – Thomas perguntou parando ao lado de Rennata e estalando os dedos de frente ao rosto dela, fazendo com que não só ela, mais também Aaron e Selena saíssem do transe em que haviam estado.

Ela sentiu alguma coisa tocar sua perna e olhou para baixo, Cérberos a encarava.

– Obrigada, garoto. – disse ela tocando-lhe a cabeça. – Pode ir agora.

O cão infernal desapareceu no ar, sem deixar qualquer vestígio de que estivera ali.

Selena voltou a olhar para a Rennata. A pergunta da garota ainda ecoava em sua memória:

“… a gente se conhece?”

Ela havia tido essa mesma sensação quando a viu pela primeira vez, mas os acontecimentos seguintes acabaram por fazê-la esquecer. Agora a pergunta pairava no ar como uma pesada nuvem negra. Selena olhou para Aaron e percebeu que ele estava ainda mais tenso que ela.

Apertou sua mão com mais força, lançou-lhe um olhar de eu-sei-que-você-está-me-escondendo-alguma-coisa-importante e se voltou para Thomas sorrindo. Soltou a mão de Aaron e segurou os ombros do irmão, ficando nas pontas dos pés para lhe dar um beijo no rosto.

– Senti saudades, Thommy.

Ele lhe abraçou.

– Já disse para não me chamar assim. – a voz dele indicava que ele estava sorrindo.

– Você é meu irmãozinho caçula e tem que ser tratado como tal. – bagunçou o cabelo dele. – Agora seja educado e me apresente as garotas.

Ele assentiu. Passando um braço sobre os ombros dela virou-se em direção as meninas.

– Rennata, Isabella, essa é minha irmã, Selena Blake. Aproveitem para se tornar amigas hoje, porque parece que ela está de bom humor e não quer transformar ninguém em picolé ainda.

Selena lhe deu uma cotovelada nas costelas e ele se encolheu.

– Seria melhor se tivesse ficado calado… enfim, é um prazer conhecê-las, sejam bem-vindas. – olhou diretamente para a loira. – Rennata, da última vez que a vi, você estava desmaiada e não pude lhe agradecer devidamente pelo que fez por Thomas, aliás, acho que nunca conseguirei agradecer o suficiente, mas, obrigado por tudo, estou te devendo uma.

Ela negou com a cabeça e sorriu.

– Sem problemas. Afinal, foi uma experiência incrível, sabe? As almas das pessoas não podem esconder o que elas sentem e são um pouco mais simples de se entender do que elas em si, – olhou breve e diretamente para Thomas quando disse isso. –, mas será que você poderia me responder uma pergunta?

Ela estranhou.

– Claro, o quê?

– Você disse que Thomas é seu irmão caçula, né? Quantos anos ele tem?

Ela olhou para o irmão com as sobrancelhas franzidas e viu um meio sorriso aparecer em seu rosto. Ariel, que tinha sido apenas uma simples observadora até ali, deu uma risadinha nem um pouco discreta e disse:

– Isso vai ser interessante.

– Apesar de não parecer, eu sou sim a irmã mais velha, – Selena falou. – mas a diferença é de dez meses apenas. Tenho dezesseis, Thommy também. Infelizmente ele fez aniversário enquanto ainda estava em coma.

– Ah. – Rennata disse simplesmente.

Não havia entonação nenhuma em sua voz e por esse mesmo motivo, Selena ficou um pouco surpresa quando suas mãos em punhos cerrados, ao lado do corpo, irromperam em chamas.

– Então será que você poderia me explicar porque raios vive me chamando de pirralha se é apenas algumas semanas mais velho que eu?! – perguntou a Thomas, aparentemente sem se dar conta do que estava acontecendo.

– Porque irritá-la é divertido. – ele respondeu. – E modéstia a parte, eu tenho um talento especial para isso.

– Ora, seu...

– Ei, maninha, – Isabella tentou chamar sua atenção. – não vai incendiar a academia, tudo bem? O laboratório de química da outra escola já foi o suficiente.

– Mas o que você... – o olhar de todos desceram para suas mãos e ela as ergueu com os olhos arregalados. – Ah, droga.

As chamas alaranjadas subiram até seus cotovelos e ela estendeu os braços de frente ao corpo, claramente nervosa.

– Droga. – ela disse novamente. – Eu estou me tornando o tocha humana!

– Acalme-se. – disse Selena. – Feche os olhos, respire fundo e tente se controlar. Você pode acabar com meu irmão mais tarde, mas por favor, não danifique a academia.

– Eu também te amo, irmã. – Thomas murmurou ao seu lado.

Rennata assentiu e fez o que ela mandou. Passaram-se sete segundos antes das chamas se apagaram. Ela abriu os olhos e examinou ambas as mãos. Suas sobrancelhas se ergueram.

– Deses, isso foi muito estranho. – disse ela. – Eu me sinto diferente.

– Nada nessa situação é normal, – Aaron comentou e todos lhe encararam. Ele estava com os braços cruzados e não olhava para ninguém em particular, mas para o chão. – começando pelo fato de que você é humana.

– Ei, não tem nada de errado em ser humana! – Isabella reclamou cruzando os braços.

Aaron ergueu as sobrancelhas vendo que o que ele disse tinha sido interpretado errado.

– Eu nunca disse que tinha, as vezes os invejo. – disse sinceramente. – Mas humanos não possuem tanto poder e potencial quanto sua irmã tem. – ele olhou para Rennata. – Poderia me explicar o que aconteceu aqui?

– Não, eu não posso. Normalmente sou um desastre ambulante, mas só acontece algo quando minhas emoções estão muitos intensas e dessa vez eu só estava um pouco zangada com o idiota ali. – indicou Thomas. – Se a cada uma das vezes que ele me atormentasse minhas mãos pegassem fogo, eu já teria incendiado a mansão Elísio faz tempo. Aliás, quem é você? Lembro de te ver em Elísio, mas você quase sempre ignorava todo mundo, e não quero parecer grossa, mas conversar com pessoas sem saber seus nomes, é um pouco estranho.

Ele saiu de frente da porta e apontou para a placa onde lia-se:

AARON SAGE WATSON

E

THOMAS ANTONNY BLAKE

– Me chame de Sage. – pediu. – Agora, eu sei que pode parecer uma pergunta estranha, mas por acaso você tem uma marca de nascença semelhante a uma tatuagem em sua omoplata direita? Talvez, o desenho de um ômega com o símbolo de algum deus?

Rennata ofegou e deu um passo atrás, levando a mão ao ombro direito.

Não é possível! – foi o pensamento de Selena.

– Como você sabe?! – a loira parecia ainda mais assustada do que quando suas mãos e braços pegaram fogo.

Aaron xingou sob sua respiração.

– Parece que tem bem mais gente envolvida nisso do que eu imaginava. – ele disse.

De repente, Selena sentiu o chão desaparecer sob seus pés e seus joelhos cederam.

– Selena! – Aaron se ajoelhou e pegou seu rosto delicadamente entre as mãos. – Você está bem?

Ela segurou uma de suas mãos e olhou para os rostos preocupados ao seu redor. Thomas também se ajoelhou ao seu lado parecendo angustiado.

– Me sinto um pouco tonta, mas isso não é importante agora.

A única coisa que importava no momento era saber qual era a ligação entre Aaron, Rennata e ela.

– Claro que é. – ele disse ajudando-a a se levantar.

Thomas abriu rapidamente a porta do quarto e Selena caminhou até a cama, – com Aaron segurando-lhe pelo cotovelo o tempo todo. – onde se deitou. Sua visão estava turva e sua cabeça latejava um pouco. Ela fechou os olhos e se encolheu esperando que o mundo parasse de girar.

– Aaron, eu tenho uma marca de nascença como essa que você descreveu na minha omoplata direita. – disse tentando ignorar o máximo possível como se sentia.

– Eu sei. – ele disse afastando a franja de seu rosto e colocando-a atrás de sua orelha. – Vi naquele dia que você tentou me matar.

Ela gemeu a medida que sentiu seu rosto esquentar e enterrou o rosto em um travesseiro.

– Desculpe por isso, eu realmente não lembro de nada. – sua voz saía abafada e envergonhada.

– Não precisa se preocupar com isso. Você nunca conseguiria me matar de qualquer forma. – sua voz carregava um tom de riso. – Embora parecesse bem determinada a encontrar uma maneira daquela de vez.

Selena ergueu o rosto do travesseiro e o encarou com os olhos cerrados.

– Isso não está fazendo com que eu me sinta melhor.

– Tudo bem, parece que a Sel já está bem. – anunciou Ariel. – Vamos sair daqui, a não ser que queiram ficar segurando vela.

– O quê? – Thomas perguntou parecendo desnorteado.

– Sério que você ainda não percebeu? Thomas, o que você tem de bonito, também tem de bobinho. Sabe, o pior cego é aquele que não quer ver. – ela mudou sua atenção para Rennata e Isabella. – Vocês vem? A cerimônia já vai começar e nós estamos claramente sobrando aqui.

Isabella assentiu, parecendo se divertir com a confusão de Thomas, mas Rennata balançou a cabeça, dizendo que não.

– Podem ir na frente. – ela disse. – Eu tenho algo para tirar a limpo primeiro.

Isabella apertou brevemente o ombro da irmã, antes de sair, acompanhada por Ariel.

Selena viu os olhos de Rennata brilharem em desafio quando ela olhou para Aaron.

– Quero que saiba que não sou nenhuma garota estúpida que se esquece das coisas em um piscar de olhos. – afirmou. – E é bem óbvio que você está nos escondendo algo. Uma das coisas que mais odeio é que as pessoas saibam sobre a minha vida bem mais que eu. – Rennata sentou sobre a cama de Thomas, inclinando-se para trás, apoiando seu peso sobre as duas mãos. – Vamos, Sage, conte-nos tudo. Como você sabia sobre a minha marca e porque Selena tem uma igual?

***

O encontro com a irmã de Thomas não estava sendo bem o que Rennata imaginava. Pelo menos não depois que Aaron entrou em cena. A sensação de que já os conhecia não deixava de atormentá-la, e pior, seu corpo estava vibrando com energia, como uma bateria sobrecarregada. Estava sendo bem mais difícil que o normal se manter calma.

– Não acho que sejam idênticas. – Aaron disse em resposta a sua pergunta. – Quem é o seu deus patrono?

Ela não respondeu, apenas ergueu seus cabelos para o alto em um rabo de cavalo e levantou da cama, virando-se de costas.

O vestido azul que Thomas havia colocado em sua mala seria mais útil do que ela havia imaginado. As alças finas e as costas baixas deixavam sua marca de nascença perfeitamente a mostra quando seus cabelos não estavam soltos.

Aaron riu, mas foi um riso amargo, como se ele estivesse com raiva de algo. Ou de alguém.

Rennata soltou os cabelos e voltou a se sentar na cama.

– Poseidon. – disse Aaron. – Eu deveria ter imaginado. O último dos Três Grandes.

– O último? – Thomas perguntou. Considerando a estranheza de tudo que estava acontecendo ali, ele parecia muito calmo. – Isso quer dizer que…?

– Você já deve saber que sua irmã tem a marca de Hades. – Thomas assentiu. – Sabemos agora que Rennata tem a de Poseidon. – ele pausou brevemente para depois dizer: – E eu tenho a do meu pai.

– Zeus. – a voz de Selena era baixa e cansada. – O trio está completo. Não me diga que você me contou isso no dia que tentei te matar também?

– Sim. – foi a única coisa que ele disse.

– Tem mais alguma coisa aí. – não era uma pergunta. Selena se ergueu, sentando-se, seu olhar estava triste. – Eu te disse algo, não foi? Eu preciso saber o que eu disse.

– Que tinha coisas mais importantes acontecendo no momento – ele hesitou. – e que alguém tinha te dado permissão para me matar.

– Quem?

– Você não disse.

Ela passou alguns segundos em silêncio e então trocou um olhar com Thomas, que pressionou os lábios em uma linha fina e assentiu uma vez. Selena se deixou cair de costas sobre a cama novamente, uma mão jogada sobre os olhos. Seus lábios se moveram articulando uma palavra, mas nenhum som saiu. Rennata se perguntou o que os dois sabiam e estavam escondendo, mas chegou a conclusão de que seria melhor continuar ignorante aquela questão. Se eles decidiram guardar um segredo em meio a toda aquela confusão, deveria ser algo sério, ela não precisava saber.

Thomas pigarreou chamando atenção para si mesmo e falou:

– Você ainda não disse como sabia que Rennata tinha a marca.

– Foi apenas um tiro no escuro. Quando vi Selena na Mansão Oceano, de algum modo, sabia que já a conhecia, e este diário – ele pegou um pequeno livro de capa vermelha que estava no final da cama. – é a prova disso. Ela registrou com palavras, cada uma das vezes que nos encontramos nesse último ano e meio, antes de perder suas lembranças. Quando vi Rennata tive uma sensação parecida, no entanto nem de longe tão intensa. Agora junte essa sensação com o fato de ela ser uma humana com poderes e vemos que toda essa bagunça pode ficar ainda pior. Rennata é claramente beneficiada pelos deuses no quesito poder, então não me custava nada tentar unir todas essas peças soltas e chegar a alguma conclusão aparentemente impossível. – Aaron parou por um momento, claramente absorvido pelos seus pensamentos e murmurou: – Um deus, uma feiticeira e uma humana. O conselho divino reuniu as três raças… fico imaginando o que deve ter acontecido para que eles chegassem a tal decisão.

Rennata não estava entendendo muito bem onde Aaron estava querendo chegar, mas as palavras dele, claramente, tiveram um peso mais significativo para Thomas do que para ela.

– Quer dizer que você é mesmo um deus? – ele perguntou vindo sentar ao lado de Rennata.

– Sim. – ele respondeu aquilo de forma tão simples como se dissesse “O céu é azul”, mas até Rennata sabia o que significava ter sangue divino nas veias e tentou, sem muito sucesso, se convencer de que o adolescente de jeans e camiseta a sua frente, aparentemente comum ao olhar de qualquer pessoa, tirando o fato de que era lindo de morrer, era na verdade um imortal. – Algum problema?

– Não, – disse Thomas. – é que você parece tão…

– Mundano. – Rennata completou por ele, percebendo que ele não havia encontrado a palavra certa.

Selena olhou para Aaron e sorriu, recebendo do garoto outro sorriso em troca. Um sorriso carregado de amor, carinho e adoração, que só um cego não veria.

Não, Rennata se corrigiu. Um cego 'e' Thomas Blake.

O moreno ao seu lado estava com o olhar perdido, alheio a tudo que não fossem seus pensamentos.

Rennata também gostaria de não ter percebido. Desde a primeira vez que tocara em Thomas – quando ele ainda estava em coma. – e absorvera suas emoções, seus poderes pareciam estar enlouquecidos e uma vez ou outra, ela era sugada pelos sentimentos de outras pessoas. Não era tão ruim ficar por perto de Ariel, – a feiticeira tinha uma autoestima inabalável, e parecia viver em uma bolha feliz. – mas o sentimento de frustração e culpa que ela sentia vindo de Thomas, sempre a deixavam triste.

Mas agora ela estava triste por Aaron, mesmo que o tenha conhecido a apenas alguns minutos atrás e que desde então, sua vida tenha parecido virar do avesso.

Triste porque ela sabia que ele amava Selena verdadeiramente, ou seja, Aaron era um imortal apaixonado por uma garota condenada a morte por um destino cruel.

– Um mundano. – Selena refletiu. – Não foi você que me disse uma vez que nunca havia sido como os outros deuses do conselho? Acho que a definição de Rennata e Thommy combina perfeita…

Suas palavras cessaram e ela mordeu o lábio inferior, respirando fundo. Suas mãos apertaram punhados da colcha da cama, uma lágrima silenciosa e solitária desceu pelo lado de seu rosto e ela fechou os olhos com força.

– Querida? – Aaron parecia estar sem ação e Thomas não estava muito melhor.

Ele levantou-se encarando sua irmã com o olhar vidrado e triste. Rennata pegou uma de suas mãos e entrelaçou seus dedos com os dele, lhe oferecendo força.

Ele lhe olhou agradecido. Sua feição tensa pareceu suavizar um pouco… até que Selena gritou. E foi nesse momento que Rennata sentiu o que se devia sentir quando alguém se chocava contra um muro de tijolos.

Era aterrador. Todos os sentimentos de Selena lhe atingiram de uma só vez, como tinham acontecido com os de Thomas… multiplicado umas cem vezes mais. Rennata levou as mãos a cabeça enquanto observava as lágrimas descerem incontroláveis pelo rosto da irmã de Thomas, que se dobrava de dor na cama.

Tanta dor.

Aaron se abraçou a Selena, sussurrando palavras de conforto, mas seu olhar lhe traía. Ele estava desesperado e dizer que tudo ia ficar bem não funcionaria, porque não ficaria. A respiração de Selena foi ficando mais superficial e poucos segundos depois ela ficou mole, perdendo a consciência.

Eu nunca pensei que algum dia veria um deus chorar. O pensamento atravessou sua cabeça enquanto observava Aaron.

Thomas caiu de joelhos e com a cabeça baixa, seus ombros tremiam. Rennata se ajoelhou perante ele.

– Erga a cabeça. – ela pediu. Agora que Selena não estava mais consciente, sentia-se mais no controle do próprio corpo e capaz de raciocinar coerentemente. A corrente de poder havia sumido, aquilo estava cada vez mais estranho. Thomas lhe obedeceu, seu rosto estava riscado por lágrimas e seus olhos estavam vermelhos. O garoto alegre e sarcástico parecia agora tão perdido quanto uma criança. O peito de Rennata doeu ao pensar em como seria dali para frente. – Essa foi a emoção mais verdadeira que você me mostrou desde que saiu do coma. – Ela beijou a testa dele suavemente. – Não se preocupe, eu vou consertar isso. Foi para isso que eu vim, não foi?

Eu posso fazer isso, repetia para si mesma. Eu posso fazer isso. Eu tenho que fazer isso.

Ela não sabia de onde vinha essa certeza e de como estava conseguindo manter a calma, mas pela primeira vez na vida, agradeceu aos deuses pelos poderes que tinha.

– Sage? – ela o chamou erguendo-se. – Há um modo de ajudá-la, você precisa confiar em mim. – Ele assentiu, um pouco exitante. – Deite-a.

Aaron seguiu sua instrução, e segurou a mão de Selena. Rennata sentou ao lado da feiticeira dormecida e olhou de Aaron para Thomas. Os dois possuíam o mesmo brilho no olhar. Esperança.

Rennata pegou a mão de Selena e fechou os olhos, sentindo algo que nunca poderia ter imaginado, um sentimento de completude, logo antes de ser tomada pelas trevas.