Os Encontros da Nossa Vida
8 Dois Anos ATRÁS
Notas iniciais
Rangi os dentes. Passei a mão no cabelo. Meus olhos lacrimejaram por causa da raiva. Ela estava errada. Não tinha o direito de interferir no destino de Pax. Muitas pessoas dependiam disso. Eu provaria que ela estava equivocada.
Durante a votação, perceberam a ausência de Bee, mas não comentaram nada. O resultado da votação já estava previsto. Então, assinamos o contrato. Como eu tinha que fazer um relatório com Roberto, meu secretário, procurei não pensar muito sobre nossa discussão.
Quando cheguei em casa, meus pais estavam me perguntando com olhar o que aconteceu, já que o meu humor não estava dos melhores e Bee não tinha decido para assistir filme das quartas-feiras, mas os ignorei e eles não insistiram. Yure não estava presente, então não teve piadinhas ou indiretas deles, o que eu agradeci.
Bee já estava dormindo quando entrei no quarto. Olhei para o rosto dela que estava inchado e percebo que ela continuou com o mesmo vestido da reunião. Lutei contra minha vontade de deixar ela assim. Ela é sua esposa ainda. Tomei banho e me vestir para dormir e troquei a roupa dela pelo pijama. Deitei no meu lado da cama e fiquei de costa pra ela. Fechei os olhos desejando que o sono viesse mais rápido possível para não pensarem mais nada.
Quando eu pego o relógio de manhã percebo que está muito cedo, mas Bee já estava acordada. De costas para a cama, olhando para a janela.
Passo a mão no rosto tentando espantar o sono. Talvez hoje pudéssemos conversar. Com certeza ela percebeu que o contrato não tinha nenhum problema.
— Bee – chamo – Vamos conversar?
Ela nem se importou de se virar pra mim.
— Você se arrependeu de não ter me ouvido?
Franzi o cenho.
— Por eu me arrependeria? – perguntei – Já disse que este contrato pode mudar o futuro de Pax, Bee.
— Então, não temos nada para conversar – respondeu indo em direção a porta do quarto – Só estava te esperando para dizer que irei hoje, no seu lugar para a terceira parte da ilha, já que você tem certos assuntos para terminar e amanhã será minha folga.
Bufei. Teimosa! Que mulher teimosa! Também eu não daria o braço a torcer.
Isso continuou até sexta-feira a tarde na reunião com os representantes de escolas e vereadores da quarta parte da ilha.
— Alteza?! – Roberto começou falando baixo perto do meu ouvido – Tenho informações urgentes do seu irmão Yure, que a rainha está no hospital – terminou calmamente.
Levanto de supetão deixando as pessoas da mesa assustados. Fechei os olhos. Respiro fundo e olho para os presentes.
— Aconteceu um problema na minha casa e como sabem... – começo falando.
— Família vem em primeiro lugar – eles falam completando juntos me deixando atordoado. Quando foi que isso se transformou em meu jargão?
Antes que eu conseguisse falar alguma coisa começaram a se levantar e arrumando os notebooks e comentam:
— Estamos liberando sua Alteza, Roberto – disse um piscando.
— Se eu fosse você conversaria logo com a princesa, Alteza. – comentou outro.
— Concordo, Alteza!
— São elas que mandam, alteza!
— Isso mesmo. – disse outra por último saindo. – Sabemos de coisas que vocês não sabem.
Ainda em choque, Roberto pega o meu braço.
— Alteza, o carro já está o esperando – anunciou meu secretário – Já pedi para deixarem suas coisas no Palácio Dourado.
Nem percebi quando chegamos ao carro. Olhei para Roberto que estava dirigindo meu carro.
— Qual é a situação da Bee? – pergunto preocupado.
— Seu irmão não soube me informar se é grave – começa – Porém, disse que seu pai a encontrou chorando de dor na cabeça. O médico desconfia de uma crise de enxaqueca.
Respirei fundo. Com certeza a nossa discussão desencadeou isso. Já fazia meses que Bee não tinha uma crise. Fechei os olhos desejando olhos desejando que tudo ficasse bem.
Uma das coisas que meu irmão mais velho falava era que casamento é bom, mas é complicado, porque são dois mundos distintos que decidem virar um. As diferenças são gritantes depois de um tempo. Agora eu percebi isso. Meu casamento é real. É hora de acordar. Eu amo a Bee e quero muito que nossa relação dê certo.
— Em dez minutos chegamos.
Estes com certeza são os dez minutos mais longos. Precisava distrair minha mente.
— Roberto? – o chamo.
— Sim, Vin – responde. Sempre o pedi para me chamar pelo nome em momentos não oficiais, além do mais, ele tem a minha idade e estudou comigo.
— Estava tão na cara assim? – pergunto me referindo aos comentários dos vereadores e representantes das escolas.
Ele riu. ELE RIU. Que absurdo.
— Vin, você tem a mesma cara do seu pai, quando ele brigava com sua mãe. – compartilhou rindo novamente – Seu pai chegava emburrado. Não fazia nenhuma piadinha – ele balançou a cabeça continuando olhando para a avenida. Parecendo lembrar da época que era o secretário do meu pai. – E isso é uma coisa rara pra quem chegava dando bom dia pra Deus e o mundo.
Bufo.
— Estou perdendo a moral – disse passando a mão no cabelo.
— Relaxa, Vin – disse entrando na rua do hospital. – A maioria deles são casados. Entendem o que você esta passando. Meu pai sempre me aconselhou a casar quando tivesse certeza de querer voltar para casa com raiva mesmo estando brigado com a pessoa.
Eu não estava mais com raiva Bee, mas com certeza o meu orgulho falou mais alto. Tanto que depois que a gente assinou o contrato, mandei montarem uma equipe para investigar mais a fundo a empresa. Olhando agora percebo que deveria ter dado ouvido a ela. Não teríamos problemas se tivesse adiado a assinatura do contrato.
— Você quer que a imprensa saiba?
— Não estou com cabeça para isso, Roberto – respondi estralando os dedos de nervoso. Já estou até vendo o que vai sair no noticiário das 19 horas.
— Então, quando chegarmos entrará pela parte de trás do hospital – concluiu.
Passei a mão no cabelo de novo. Senhor, que a Bee esteja bem.
Chegamos ao corredor onde está o quarto de Bee. Meus pais estavam sentados conversando baixinho, que nem prestaram atenção quando e eu me aproximo deles.
— Mãe! Pai! – chamo – O que aconteceu? Bee está bem?
Os dois se entreolharam e se levantaram juntos.
— Quando chegamos em casa, o café ainda estava na mesa – meu pai começa sério – Yure foi para universidade tarde, mas mandou uma mensagem falando que Bee não tinha descido ainda.
Segui sua linha de pensamento passando a mão no cabelo.
— Ela não se alimentou. – completo o pensamento dele preocupado.
— Você sabe que ela não pode fazer isso. Ela estava desde ontem sem comer – mamãe me repreende. – Seu pai a encontrou chorando de dor. Não demos nenhuma medicação, porque você sabe o que aconteceu na última vez.
— Sim, eu lembro.
— A trouxemos direto pra cá, quando estávamos chegando aqui no hospital, ela desmaiou. – continua mamãe – Você lembra que dia é hoje?
— Eu... – começo. Dia, mas que dia? Não é aniversári... Caramba! Olho para meus pais com os olhos arregalados. – Esqueci totalmente. Hoje era nosso dia de folga, mas eu recusei ficar em casa. – Abaixo a cabeça – Não lembrei mesmo. Que raiva!
Sinto a mão do meu pai no meu ombro.
— Aconteceu. – ele fala – Vocês não podem mudar o passado. O que importa é o agora.
Levantei-me. O meu pai estava certo.
— O médico liberou a nossa entrada?
— Sim, mas filho... – meu pai diz me barrando na entrada do quarto dela. – Só entre no quarto se você tiver certeza que não irá brigar com ela – olho para ele. – Ela está tomando o soro ainda. Está fragilizada e não precisa de outra discussão.
A culpa me esmaga, porém, agora estou pronto pra conversar com ela e pedir desculpas. Eu a amo e estes dias foram muito longos e terríveis sem ela. Tenho que lutar para dar certo. E espero que ela queira lutar também junto comigo.
— Pode deixar, pai – respondo sério. – A última coisa que vou fazer é brigar com ela.
E entro no quarto. Bee estava um pouco pálida, tomando soro em cima de uma maca. Procurei uma cadeira no cômodo encontrei perto da janela a pego e coloco ao lado da cama da Bee. Pego sua mão e a beijo. Não sei quantos minutos se passam quando eu sinto sua outra mão passando na minha cabeça e olho pra ela.
— Oi! – falo sorrindo de lado.
— Oi! – responde com sua voz fraca.
— Não achava que você conseguiria ficar parecida com fantasma, mas agora está parecendo um. – comentei.
Ela abre um pequeno e triste sorriso. Pede um copo d’água e a ajudo se sentar direito. Pego sua mão novamente e começo.
— Você ficou sem comer.
— Você não me ouviu – rebateu – Então estamos quites!
Velhas manias as vezes são um conforto.
— Nunca me passou pela cabeça que a gente pudesse as novas diferenças no trabalho interferisse no nosso relacionamento. – brinco mexendo nos seus dedos.
— Nunca pensei que você discordaria de alguma opinião minha – responde a minha brincadeira. – E esse dia chegou! – ela se ajeita melhor na cama. – O que me machucou de verdade foi que você nem levou em consideração ao que eu disse. Você não parou para me ouvir.
— Eu... – respiro fundo e olho para seu rosto. – Eu percebo agora. Sei que não teria problema em adiar o contrato ou fazer uma nova revisão nos outros projetos que a empresa já concluiu. Bee me desculpa!
Ela anui com a cabeça. Ficamos em silêncio por alguns segundos nos olhando.
— Sei que não é justificativa, mas o fato de você não querer me contar sobre o te preocupava me irritou – começo. – Acho que naquele momento, eu percebi que, talvez, eu não saiba sobre todo o seu passado.
— Desculpa, não foi minha intenção, Vin. – diz ela. Sinto suas mãos tremerem. – Principalmente, com este dia chegando. Eu não gostaria de contar sobre a minha infância aqui. Você pode esperar até que eu esteja pronta?
— Sem problemas, amor – balanço a cabeça concordando. – Me desculpa por te ti pressionado. Demore o tempo que precisar. E me perdoar por não lembrar do dia de hoje. – digo e me levanto para beijar sua testa e seus lábios.
— Estava com saudades – comenta de olhos fechados.
— Eu também. – concordo apoiando meus cotovelos na cama dela, a olho e relaxo a postura. Que a minha mãe não me veja fazendo isso – Acho que a gente esqueceu que estamos na mesma embarcação.
— Deixamos a tempestade nos balançar, né? – pergunta triste.
Assenti chateado. Ninguém disse que seria fácil.
— Você tem caneta e papel? – pergunta de repente. Anui com a cabeça pegando a caneta e o bloquinho inseparáveis que não largo desde a faculdade no bolso interno do meu terno. – Vamos combinar uma coisa?
— Pode falar.
— De nunca dormirmos brigados novamente. – diz. – Não vamos dar brechas para nossa embarcação afundar, okay?
— Concordo. – repondo – Se precisarmos conversar que seja de cabeça fria e com maturidade, sim?
Ela balança a cabeça afirmando e eu escrevo o nosso contrato.
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