Os Encontros da Nossa Vida
9 Capítulo 4 - Vin.
Notas iniciais
Entro no quarto enxugando o cabelo com a toalha e encontro Bee encolhida no chão lutando contra o sono. Sorrio. O pensamento dela era se não ficasse na cama não dormiria tão rapidamente. O que no meu pensamento isso nunca daria certo, porque ela tem a capacidade de dormir em qualquer lugar se estiver com sono. Pego ela no colo e a coloco na nossa cama, mas ela se mexe e abre os olhos com dificuldade.
— Temos que conversar – diz bocejando mal conseguindo manter os olhos abertos.
— Amor, eu acho melhor a gente deixar para conversar amanhã – propus sentando do seu lado segurando o riso. Ela estava caindo de sono.
— Não – diz apagando e voltando – Podemos conversar. Estou acordada.
— Bee, hoje foi um dia muito cansativo para nos dois – lembro, mas ela não responde. Talvez ela tenha dormido, mas volta a se mexer. – Você está machucada e eu estou com um pouco de dor de cabeça – joguei sujo. Ela tinha um coração mole para algumas situações. E essa era uma. Foi assim eu chamei sua atenção. Tenho certeza! Esperei alguns segundos até ela responder.
— Tudo bem! – responde virando o corpo para ficar de brusco – Mas amanhã você não vai fugir.
Ri.
— Quem disse que eu quero? – sussurro. Apago as luzes fecho a janela e deito ao seu lado. Abraço ela.
O sono deveria vim, mas as palavras da minha mãe é que vem. O fato de ela ter comentado sobre filhos e a minha irresponsabilidade de não cuidar para que os problemas de segurança não ocorra me incomoda bastante.
Bee se mexe. Desde que a conheci ela tinha um sono leve e agitado, mas de uns tempos para cá vem se tornando mais calmo. Mesmo com todos os problemas que estava acontecendo.
— Amor?
— Hum? – resmungo.
— Vin! – chama novamente – Você falou a madrugada quase toda!
Passo a mão no tosto tentando acordar, mas quando eu abro os olhos está tudo escuro ainda. Eu deveria está mesmo cansado para Bee deixar as cortinas fechadas.
— Por que você não me acordou?
— Eu acordei – responde rindo – Você até conversou comigo. Falou que estava com dor, lhe dei o remédio. Só aí eu percebi que você estava inconsciente ainda.
— Não tem graça, Bee – reclamo envergonhado – Já falei para ter certeza que estou acordado.
— Pelo menos eu sei que agora está – argumentou rindo.
— Conseguiu dormir com o meu falatório?
— Claro que sim! Eu cutuquei você nas partes que não me interessava – riu me cutucando – Você dava umas pausas. Falando nisso, vamos conversar sobre ontem, que foi o tema do seu monólogo a madrugada também.
— Pode abrir a cortina – me levando para sentar.
— Não – rebate rápido.
— Não? Por quê? – Pergunto – Já vi você nos piores momentos e acordando!
— Você sabe que eu não sou tão superficial assim.
— Então qual é o...? – para pensando o que se passou ontem. – Minha mãe te deixou envergonhada!
— Sim
— Foi sobre a gravidez ou a bronca?
— Acho que os dois.
— Okay! Mas eu preciso ver você, amor – digo – Temos que nos ver – seguro sua mão – A última coisa que eu quero é que você interprete mal as minhas palavras e fique envergonha comigo. Somos amigos antes de tudo.
Bee ri. E a vergonha fica para trás. Tenho absoluta certeza que este meu charme todo veio do meu pai.
— As vezes eu não acredito que você pode ser tão FoFo – comenta brincando. – Nem parece o Mané que conheci um tempo atrás.
— Cadê o respeito que você deveria ter por mim? – bufo, porque ela falara uma verdade. – Não quero mais ver você. Pode deixar tudo escuro.
— Você é tão dramático, amor!
A luz da manhã que entra no quarto machuca meus olhos. Quando eu me acostumo com ela, vejo Bee arregalar os olhos com sua expressão chocada e eu dou um sorriso de lado.
— Droga! Você me enganou! – se exalta com raiva.
— Pelo menos no lugar da vergonha tem a raiva e o vislumbramento por mim. – ironizo me ajeitando melhor na cama. Bee revira os olhos. – Deixa minha mãe ver esse comportamento e o palavreado.
— Estamos no nosso quarto – responde, balançando os ombros e senta na cama do meu lado. Pego a sua mão. Olhamos um pro outro.
— Eu percebi que nunca falamos sobre filhos – começo primeiro por um assunto mais delicado – A não ser por ontem que foi duas vezes por sinal. E é claro, que não nos casamos para ter filhos ou algo assim. – completo rapidamente. Ela balançou a cabeça concordando. – Mas eu sempre tive impressão de que você queria ser mãe, por causa do seu irmão e o seu jeito com as crianças da Casa de Pax – digo de forma cuidadosa. Ela aperta minha mão com força. – Mas nunca conversamos sobre isso. Por que nunca conversamos sobre isso?
Ela olha para minha mão na sua.
— Você lembra quando vim para Pax e o médico falou que eu teria que parar de tomar anticoncepcional?
— Sim – concordo fazendo uma expressão de desespero. – Foi por isso que eu descobrir as suas cólicas e seu lado faminto.
Bee ri pelo nariz e me empurra.
— Bobo – reclama e uma sombra passa pelo seu rosto. – Eu só os tomava porque passava muito mal e vivia com anemia. Então, Han, meu pai, para me esconder e ficar de olho em mim ao mesmo tempo, me colocou na Academia Militar, que ele trabalhava. E você sobe que no nosso primeiro ano não é uma maravilha, né?! – comenta com um tom saudoso terminando com uma careta, que se replica no meu rosto. – Meu pai teve que me levar ao médico e ele aplicou um anticoncepcional para não me prejudicar nas tarefas, até porque os oficiais achavam que era frescura mesmo eu desmaiando na frente deles uma vez. – Bee treme. Ela sempre foi forte. Tenho certeza que para ela ter falado algo era porque já estava no seu limite. Eles não davam mole com ninguém, principalmente, se você fosse realeza. Mesmo só alguns dos oficiais sabendo. É claro, que o meu comportamento não ajudava muito também. – Quando eu fugi ao descobrir que meu irmão estava vivo, a última coisa que estava passando pela minha cabeça era ir ao médico novamente e as cólicas não iriam ajudar em nada. Então, eu passei a tomar a segunda opção que só era em caso de urgência. – Assenti, mas sem entender aonde ela queria chegar. – Quando eu parei de tomar você nem reparou que eu ficava super mal, né? – Discordei – Você achou que eram as crises que estavam fazendo aquilo mais as cólicas, mas, por incrível que pareça às dores me ajudaram a não pensar tanto em... – Bee levanta da cama e faz um sinal com as mãos que eu entendo. Entendo tanto que quero abraçá-la, mas sei que ela quer terminar antes que a coragem suma – E-eu sei que você vai pensar, mas o fato de você não ter visto naquela época era por causa do Projeto. Eu podia está em depressão, mas sabia que aquilo era importante para você – Meus olhos pinicam, quando minha esposa levanta o rosto. – Você naquele momento estava sendo mais do que eu merecia. E sua mãe me fez enxergar isso. – funga e se senta na cama – Foi um processo bem doloroso. Detesto admitir, mas eu amo as broncas da minha sogra – Ri limpando a lágrima que escapa do rosto. – Quando a gente se casou por causa daquela lei ridícula.
— Eu sabia que você já estava de olho em mim, senhora Pax – impliquei cutucando sua barriga. Bee revira os olhos se afastando com um sorriso no rosto.
— Se você não me deixar terminar... – começa em tom de ameaça e o rosto fechado –... Partirei para as cócegas.
Levanto os dois braços.
— Okay! Okay! – respondo frustrado. Ela sabe que eu não suporto cócegas, Triste o dia em que ela descobriu isso. Pego sua mão. Deixando-a entender que eu levei sua ameaça a sério.
— Sua mãe acreditava que um dia, em um futuro próximo, ficaríamos juntos de verdade, até hoje não sei o motivo. – passo a mão no meu cabelo – Quer dizer, eu sei que sua mãe não queria se casar e, pelo que eu sei, nem seu pai – disse me surpreendendo – Mas enfim. Então, ela me levou para o médico. – Ela para e me olha por alguns segundos. – Me perguntei se sua mãe contava a você o que a gente conversava.
Nego com a cabeça.
— Minha mãe não é de soltar informações assim dos outros. Nem mesmo dela direito. Só fui saber de algumas coisas através do meu pai. – apontei uma característica dela de ser um túmulo fechado.
— Hoje eu sei disso. – concorda – O médico disse que os resultados dos exames do preventivo tinham dado que algumas coisas não estavam certas. Então, pediu mais exames. – Bee morde um lado da bochecha. – Quando voltamos lá novamente, ele disse que eu tinha um problema no útero e que teria dificuldade de engravidar e problemas para segurar o bebê – sua voz tremeu e apertei sua mão tentando compreender essa nova informação. – E se eu conseguisse ter um bebê, dependendo de como seria o parto, teria que tirar o útero.
Sempre me orgulhei de ter um pensamento rápido para situações ruins, mas agora, parece que minha mente está em modo lesma. Parei de tentar pensar muito.
— Posso te abraçar agora? – pergunto.
— Pode. – responde rindo. Abraço o mais forte que eu posso, enquanto ela chorava. Não consigo imaginar o que ela sentiu na hora que recebeu esta notícia. Eu lembro que comecei a querer ser pai. A minha cunhada descobriu que estava grávida, então meu irmão só falava de filhos. Então, pensei porque não? Mas quando os dois se foram, eu foquei tanto na dor da perda, que bloqueava qualquer pensamento ou conversa sobre filhos. Aqui e agora com Bee. Permito-me chorar com ela, porque a sua dor agora e a minha também.
— Sabe o que sua mãe me disse? – pergunta. Não nos desgrudamos ainda do abraço.
— O que?
— Enquanto, eu estava em choque, por ter tomado mais este golpe. – Bee funga – Ela falou que não teria problemas, pois eu poderia ser a mãe de qualquer criança na Casa de Pax.
Eu a afastei assustado. Minha mãe disse o que?
— Ela disse isso?
— Sim – afirma. Mesmo com seu rosto inchado pelo choro, percebo um sorriso querendo sair. – Disse que muitas crianças ficaram para trás e que esperam por pais e mãe para buscá-los todos os dias. Que o seu futuro neto ou neta estava lá. E que isso não impediria o nosso casamento.
Olhei impressionado. Minha mãe era muito sábia. Enxuguei suas lágrimas. Entendendo muitas coisas.
— Foi uma das crises, né?
— Sim.
— Sempre pensei que fosse pelo casamento – comento sincero. Lembrando na época. Foi uma loucura.
— Não seja tão metido – brinca. – Eu não amava você, romanticamente, na época.
Fingi que fui atingido por algo.
— Que interesseira você é. Sempre pensei que só tinha aceitado se casar comigo porque me amava.
Bee revira os olhos. Ela tem que ter muito cuidado em não fazer isso na frente da minha mãe, porque tem feito muito isso.
— Agora que ficou claro, que eu não te amo. – diz com ironia – Qual é a sua opinião sobre isso? Eu não estava pronta para falar antes e você parecia não se interessar.
Abaixo a cabeça. Reviro minha mente e minhas emoções.
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