Os Dois Anjinhos
1 Prólogo
Notas iniciais
Boa Leitura.
A chuva que caia molhava a pequena figura que se movia rápido, tentando chegar logo ao seu destino e fugir da chuva. A segunda opção estava fora de cogitação, já que estava completamente encharcada. A água caindo com força no chão era o único som ouvido pela mulher, além de seus próprios passos. Era normal quando isso ocorria: em plena tempestade, ninguém com sã consciência andariam por aí com pouca quantidade de roupa.
Virou a esquina e teria suspirado se não tivesse em uma situação tão precária ou talvez tão tensa. Era a hora, chegara aquele momento em que não queria ao menos pensar. Pegou a chave e abriu o portão, entrando e trancando novamente o mesmo. Quando saiu ficou sob o pequeno teto diante a casa, notou o quanto tremia só não sabia se era ou de frio ou de medo ou de nervosismo ou de todos juntos. Estava quase tendo um ataque do coração.
Respirando com dificuldade e com os dentes batendo, bateu na porta, porém, bem fracamente. Será que tinha feito certo? Será que foi certo ter fugido e sem deixar um recado? Uma tontura quase a fez cair e então piscou, batendo na porta novamente, mais forte. Sim, fora certo. Ela sabia que ele não se importaria. Falaria como sempre era falado naquelas novelas: o problema é seu.
E não poderia evitar que seu mundo caísse tudo de uma única vez.
A visão ficou embasada e, quando pensou que iria desmaiar, sentiu as lágrimas quentes se juntarem com a água fria de seu rosto. Levantou as mãos e secou-as ligeiramente. Por que estava novamente chorando? Aconteceu e a idiota aqui pagou o paco por ter sido uma irresponsável e ingenuamente influenciável. Fungou e mais lágrimas desceram. Secou-as novamente e nesse segundo a porta foi aberta.
Um garoto apareceu na mesma com uma expressão sonolenta e um pouco mal humorada. Seus cabelos eram lisos e castanhos. Seus olhos eram incomuns: um lilás tão claro que chegava a ser prata. Sua pele era branca e parecia sensível, mas apenas parecia, pois sabia que não era.
— O que deseja? — perguntou sem um sorriso.
— N-não me reconhece m-mais, Neji-nissan? — respondeu, tentando sorrir ainda que seus dentes batiam violentamente.
O garoto ficou encarando-a até que notou, foi como se tivesse ouvido um estalo na sua cabeça e seus olhos se arregalaram. Olhou para aquela minúscula figura e ela estava diferente, exatamente por isso não havia reconhecido.
— Hina-chan? É você?
A Hyuuga sorriu e isso foi à última coisa que fez antes de tudo ficar preto. Seu corpo caiu para frente e, nesse exato momento, Neji estendeu os braços, aparando a queda.
— Quem é Neji-kun? — ouviu uma voz doce e virou a cabeça, vendo Tenten com uma cara confusa.
Voltou o olhar para sua prima. Fazia quase dois anos que não se viam, desde quando ela havia se mudado para a capital, para cursar uma faculdade melhor e, quem sabe, ter melhores condições. Mas, naquele instante, vendo como estava sua querida prima, pensou que talvez a capital não fosse uma coisa muito boa.
— É Hina-chan, Tenten. Ela não parece nada bem. — cada palavra saia tão preocupada como se sentia. E o pior? Ele não sabia o que fazer.
— Hina? — sussurrou Tenten e se aproximou, sentindo seus olhos se arregalarem — Oh, meu Kami-sama! O que a deixou a ponto de desmaiar, Neji-kun?
— Não sei, mas acho melhor tirar ela daqui. Nesse frio, provavelmente deve piorar a situação.
Neji pegou a morena no colo e sentiu quão levinha estava. Parece que ainda é uma criança, pensou sem conter um sorriso. Saindo da porta, Tenten colocou a cabeça para fora, para ver se alguém havia acompanhado a amiga. Quando viu que esse alguém não existia, fechou a porta e foi ajudar Neji.
(...)
Sentiu uma respiração calma e suave em seu rosto. Forçou seus olhos se fecharem e colocou na sua mente, é apenas imaginação, apenas um sonho. Não é ele. E, assim que abriu os olhos, suas esperanças morreram enquanto sua certeza foi confirmada. Não, não era quem queria que fosse.
Era uma garota, uma adolescente de mais ou menos quinze anos. Cabelo escuro, olhos claros e Hinata pensou que estava se olhando no espelho, apenas mais jovem e mais séria. Queria voltar no tempo e viver como aquela garota que não tinha nenhum medo nos olhos, apenas uma preocupação desconhecida.
— Nee-chan, está tudo bem?
Hinata sorriu. Sua irmã mais nova estava ali, do seu lado, e nem mesmo a reconhecera. Estava tão diferente...
— Tudo sim, Hanabi-chan.
— Então, por que voltou para casa? — perguntou sem entender nada e viu a irmã mais velha suspirar.
— Eu tenho que falar uma coisa para todos, incluindo o papai.
E se sentou na cama lentamente, pois assim conteria uma onda de tontura que a invadiria. Estava com medo. Seu pai, Hyuuga Hiashi, nunca pareceu gostar dela. Imaginava como seria sua reação, mas ela não duvidava que seria um dedo apontando para a porta de casa e falando “não viverá mais sob meu teto”... Isso fez com que as lágrimas viessem.
Droga! Estava chorando novamente.
— Nee-chan? Nee-chan! Por que está chorando? O que aconteceu? — Hanabi parecia a ponto de ficar desesperada.
Droga de novo! Sua estúpida, para de chorar! Pensou e olhou para o teto, contendo as lágrimas.
— Nada Hanabi. Vamos, quero acabar logo com isso. — murmurou e saiu da cama.
A Hyuuga mais nova hesitou, mas ficou em pé ao lado da cama e abraçou o braço da irmã, dando um pouco de apoio a mesma. Andaram em silêncio até ficarem em frente à porta da cozinha. Ambas sabiam que todos estariam ali e o cheiro de comida que vinha dali fazia a barriga de ambas roncarem.
— Parece que estamos com fome — Hanabi riu baixo e Hinata apenas sorriu. E entraram na cozinha.
O lugar era amplo e claro. As janelas do fundo da casa mostravam o nascer do Sol, mesmo ainda tampado por algumas nuvens que logo se dissipariam. Eletrodomésticos novos e digitalizados, todos inox e conservados. As bancadas eram madeira pintada de vermelha com detalhes brancos. O piso combinava com as bancadas... Nada mudara, pensou a Hyuuga com um sorriso.
Ao entrar, todos que estavam lá olharam para ela. Neji, Tenten – sua melhor amiga de infância – e seu pai. Tenten não mudara: olhos castanhos e cabelos também castanhos presos em dois coques, contudo, notava que tinha um brilho mais experiente no olhar. Seu pai ainda tinha rugas de expressões mais nítidas do que há dois anos e ainda era sério. Nada, realmente, mudara.
— Hinata — o tom de voz era tão gélido que a menina estremeceu —, o que está fazendo aqui?
Era a chegada hora. Hinata tremia por dentro. O olhar de seu pai continuava sobre si e ela não desviou uma única vez. Tinha medo do que a esperava, tinha medo do seu futuro... Mas, se pudesse voltar no passado, não mudaria nada. Se vacilar, faria novamente, mesmo que fosse expulsa de casa e seu futuro na faculdade estivesse perdido. Pelo menos, ele me amou por uma única vez... E, decidida, soltou tudo de uma vez:
— Otou-san, eu estou grávida.
Então o silêncio parou no ar. Aqui é o começo...
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