Os Dezessete
11 Capítulo XI - Linle Devereux Lotlich
Notas iniciais
Os ínfimos flocos de neve, para mim perceptíveis apenas por uma fresta da janela de meu quarto, demarcavam o solstício de inverno. Levantei-me de imediato e andei cautelosamente até a saída para os jardins, tendo em mãos um pano que envolvia minhas mais distintas armas. Enquanto atravessava a passagem que eu havia construído para poder ir até a floresta sem precisar cruzar o castelo inteiro, depositava minha atenção nos ruídos possivelmente emitidos pelos guardas dos portões — e que infortúnio era tê-los por perto, devo dizer —, para que eu não fosse, mais uma vez, forçada a permanecer em meu dormitório até segunda ordem. Não que fosse um grande problema, sempre havia uma segunda ordem. Doranor, meu pai, era continuamente responsável por convencer minha mãe a mudar de ideia. Não era fácil, mas papai sempre dava um jeito.
Já havia percorrido quase todo o perímetro da fenda, que era suficientemente estreita para me fazer rastejar com certa dificuldade e só me restava pular em direção às árvores, quando pude ouvir os grunhidos de dois guardas com vestes similares e pitoresca linguagem, na tentativa evidente de assemelhá-la a dos pertencentes à nobreza. Bobalhões.
— Ouviste tal pretuberação? — indagou o maior deles, que possuía cabelos louros, barba ruiva e feição ameaçadora. E a coroa de melhor inventor de palavras aparentemente formais vai para... Deixe-me ver... Sim, este homem!
— Que deveria eu ouvir? — replicou-lhe o segundo, de estatura um tanto menor, cabelos negros e mais espessos e olhar altivo.
— Ruídos, Franz. — encarou-o com arrogância. — Ruídos.
— De que origem?
— Aparentam vir do aposento da garota. — disse-lhe, rumando seu olhar para o alto. — Que acha? Deveríamos ir até lá?
— Penso que não seja um esforço obliquamente necessário por inconspicuação, Wallis. — proferiu com um tom despreocupado, mirando o topo do castelo e pensando saber formar uma frase com junção de palavras sofisticadas demais para sua ignorância. — Ela não me parece alheia às regras em demasia ferrástica. — Ah, parece que a disputa está acirrada este ano, talvez a posse da coroa possa mudar, afinal.
— Ill ne faut pas juger de l’arbre par l’écorce¹, tu sabes.
— Não me venha com provérbios tolos! — zangou-se o de cabelos negros. — Se quiseres, tu mesmo subas e vigies a menina. Ficarei aqui, sem pestanejar em meu cargo.
— Que não esqueças de que teu cargo também é, doravante, cuidar para que não haja mais fugas matinais. E que madame Lotlich não titubeará em punir-te caso seja contrariada.
E, após instantes de hesitação, o segundo por fim cedeu:
— Subamos soptosamente. — Mas é claro! Nos dias de hoje, quem é que não sobe soptosamente, não é mesmo?!
Acompanhei-os minuciosamente com o olhar e, quando o máximo que podia avistar eram figuras desfocadas sob a mais distante relva, saltei em direção às árvores. Caminhei rapidamente pelos jardins, sem tempo para contemplar tamanha beleza oriunda destes, direcionando, vez ou outra, o olhar para o castelo, que se tornava gradativamente menor conforme velocidade de meus passos elevava. Ora era necessário que eu me escondesse por entre os troncos pelos quais passava.
Adentrei a floresta e continuei a percorrê-la, até chegar ao local em que costumava parar. Soltei o pano e pus-me a tirar, uma a uma, as armas. Peguei meu arco preferido e juntei-o às minhas melhores flechas. Então mirei no tronco que me pareceu mais resistente e atirei, perfurando-o com uma brutalidade peculiar. Desembainhei minha espada e iniciei meu treinamento solo, sem deixar de pensar que tiraria maior proveito das técnicas se tivesse com quem lutar. Prossegui, incessantemente, por tempo que me pareceu uma hora.
O alvorecer ainda não havia se revelado, quando pude ouvir um tilintar diferente dos que estava acostumada. Um tilintar estranhamente familiar. Segui o som, com certa cautela e, ao chegar à origem deste, pude contemplar uma das mais magníficas visões de minha vida. Raios de luz dos mais variados tons de azul sobrevoavam as árvores. Havia, entre eles, um belo e translúcido raio de cor dourada. Era tão belo que me fez querer segui-lo. Caminhei vagarosamente, seguindo sua resplandecência, até chegar ao ponto central onde se localizava.
Tive um sobressalto ao perceber que próximo ao mais luminoso fulgor havia pessoas. Não, não podiam ser pessoas. Eram figuras com estatura um pouco menor que a de um humano comum, vestes azuis e expressões singelas. Precisei piscar os olhos três ou quatro vezes para me dar conta de que aquilo não era uma ilusão de ótica, que não eram uma alucinação. Que estes curiosos seres estariam fazendo em Devredwin? Prossegui avançando, tentando não ser notada, até estar perto o suficiente para ouvi-los. Decidi me esconder atrás de um arbusto na tentativa de captar os sons emitidos por eles.
— Garwan, que faremos agora? — a criatura balançava freneticamente os pés, numa inquietude de nervosismo.
— Esperaremos aqui. — em contraste, o segundo parecia ter plena paciência e mansidão.
— Voltar para a vila não é uma opção? — observava o outro, piscando os olhinhos com certa esperança, numa tentativa pouco eficaz de convencê-lo.
— Laus, você não está agindo como um bom elfo.
— ELFO? — a palavra se soltou de minha mente e rumou diretamente para meus lábios tão depressa que não tive tempo de abafá-la.
— Isso mesmo. E-l-f-o. — articulou com presunção em sua voz, fixando o olhar em minha direção e arqueando uma sobrancelha. — E muito belo, eu diria.
Não pude conter o riso.
— Você não se acha petulante demais para o seu tamanho? — saí de trás da folhagem para encará-lo.
— Quem você pensa que é para insultar Laus, o rei supremo elfesco da alta supremacia reinesca dos elfos, moçoila? — retrucou.
— Penso que sou Linle. — não desviei o olhar, definindo neste uma expressão destemida e tentando fazer parecer que não estava achando aquilo uma grande piada. — Linle Lotlich. E penso que você está atrapalhando meu treinamento.
— Laus, você não é o rei dos elfos. — uma terceira figura se aproximava, desta vez com características femininas e vestes douradas.
Ao perceber que um sorriso havia surgido instantaneamente em minha face, acrescentou:
— E garota, ninguém aqui está lhe atrapalhando. Você está aqui porque quer. Você seguiu os leafins.
— Eu segui o quê?
— Leafins. Raios de luz. — esclareceu — São provenientes de meus encantamentos.
— Encantamentos?
— Você tem algum problema de audição? — indagou, parecendo não esperar uma resposta. E iniciou o que soou como uma explicação pausada para criancinhas: — Encantamentos. Vem do latim incantare, significa...
— Eu sei o que significa, — fitei-a, sem saber ao certo se deveria rir ou me sentir ofendida. — só não sei quem ou o que vocês são.
— Eu sou uma lucwefin, ninfa da luz. Meu nome é Effy. Estes são Garwan e Laus, mas penso que já deve ter notado, já que estava escondida escutando a conversa — e, parecendo perceber que havia sido um tanto rude anteriormente, acrescentou, com um sorriso sincero: — Prazer em conhecê-la.
— E nós somos glacwefins, elfos do gelo. — explicou o ser que atendia pelo nome de Laus. — Já disse que eu sou o rei supremo elfesco da alta suprem...
— Supremacia reinesca dos elfos? Já, já disse. — interrompi-o — E de onde vêm?
— Da vila oculta do gelo. — proferiu Garwan, com inconfundível brandura. — Nomeada como Duskglaciem.
— É um lugar legal — Effy pareceu notar a ruga que acabara de se formar em minha fronte — De qualquer forma, não partimos de um local tão distante sem motivos. Viemos para falar com seu pai, menina.
Não pronunciei mais um som se quer. Um silêncio desconfortável se estabeleceu em nosso meio.
Precisei de alguns prolongados instantes para digerir a torrente de informações e de outros ainda maiores para ser capaz de organizar palavras de forma coerente em uma frase.
— Certo... — comecei, fazendo esforço para que o resto de minha frase não soasse tão atônito. — O que meu pai teria para tratar com... — precisei tomar mais dois ou três segundos para medir as palavras e por fim pronunciá-las. — seres mágicos?
— Assuntos de extrema importância, devo dizer. — adiantou-se Laus. — Bem, não tão importantes quanto o fato de que eu não aguento mais usar essas roupas sujas e... — pareceu notar o olhar de censura que Effy lhe lançara, por acrescentar ligeiramente: — Estou brincando, é claro. Como eu ia explicando antes de ser brutalmente interrompido pelo olhar fulminante de uma despeitada, precisamos informá-lo dos acontecimentos mais recentes da vila.
Effy encarou-o de forma intimidadora, pondo as mãos na cintura. Laus manteve seu olhar desdenhoso. Eu achei graça. Então me lembrei de que toda aquela história me deixava aflita e pude sentir uma expressão preocupada se alojar em meu rosto.
— Pequena Lin, você deve estar se perguntando por que seu pai se preocuparia conosco, não? — indagou Garwan e, assim que assenti, prosseguiu. — Pois bem. Porque ele é um de nós.
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