Os Dezessete

12 Capítulo XII - Linna Ericksenn


Notas iniciais
Capítulo escrito por Julia Hafermann, revisado por Simone Hoffmann

É sempre o mesmo som que faz a noite. Não importa o quão árido esteja o ar, meu cabelo permanece úmido, branco leitoso com a sua única mecha inexplicavelmente colorida na tonalidade de um carvalho. Meus lábios já foram mais ressecados do que agora, porém basta um sopro do vento para que eu sorria com a ternura do ar gelado e sinta o ardume da carne se dilacerando e o sabor do sangue quente em minha língua. Vivemos em um lugar onde só se é feliz na morte. Até lá você vive a vida buscando riqueza, glória e poder. São durante noites como essa, que eu sinto meus pés descalços nas folhas apodrecidas e congeladas pela geada, que me afloram na mente aquela dúvida de porque eu nasci na tribo. Desde o meu nascimento, até hoje. Todos os meus dezessete anos de existência, tive meu pai como chefe da tribo me cobrando comportamento de uma guerreira. Nunca me perguntou se eu gostaria de ser admirada por todos os homens da tribo, ou se eu desejava viver o resto da minha vida em casa cuidando das crianças. Absolutamente ninguém estava interessado na minha felicidade. Apenas eu.

O sol desabrocha lentamente entre as montanhas, propagando sua luz por entre as copas das árvores. Em alguns momentos devo voltar ao acampamento e a minha vida cotidiana. Acordo, entregando-me ao solo álgido, sentindo o desnível do chão em minhas costas cobertas de pele de cervo macia e leve, caçada no solstício de inverno quando saímos da aldeia antiga e migramos para o novo vilarejo. Levam alguns minutos até o sol conseguir perfurar o teto de araucárias acima de mim e acalentar meu rosto lentamente, fazendo minha pele cor de neve dourar. Abro meus olhos, observando o ambiente ao meu redor. Alguns pássaros anunciam a primavera que se aproxima, com seus raios mornos derretendo a neve no chão e brotando novas flores silvestres. O solstício é em 32 horas, e eu ainda estou no deitada no meio do nada observando as pequenas coisas que sempre me surpreendem. Levanto-me esfregando os olhos e alisando a capa azul-oceano que cobre meu corpo até a base das botas macias de antílope. A saudade do solo úmido é imediata, como se algo me atraísse a ele, ou como se algo me conectasse à natureza de maneira inexplicável. É impossível chegar nessa aldeia sem ser notada, evidentemente, porque sou a única jovem com menos de 18 anos, ainda não prometida em casamento para um dos guerreiros. Como sou da linhagem Ericksenn, devo casar com um homem da mesma tribo que a minha. O que eles ainda não entenderam é que eu não pretendo me casar com um primo. Pretendo ser livre, entrar em contato com a natureza, conhecer o mundo, viver plenamente... E isso tudo não é possível quando se é casada, com dois filhos e uma cabana para cuidar enquanto seu marido saqueia um vilarejo. Nunca aceitei a filosofia Vicking muito bem, mas quanto mais o solstício de primavera e meu aniversário de dezoito anos se aproxima mais essa revolta interior aflora em meu peito, e mais eu anseio por liberdade. Meu pai me espera na entrada da nossa cabana, com a mesma expressão fria de sempre.

– Onde você esteve?

– Em um lugar menos violento e cruel.

Uma brisa suave e rasteira corre varrendo as folhas acomodadas na base da cabana e o cheiro da floresta invade minhas narinas.

– Conseguiu alguma caça? — Ele pergunta, olhando para minhas mãos vazias.

– Não levei minha adaga, não vejo o porquê.

Meu pai suspira com aquele ar de reprovação e aponta para a cabana sem olhar para mim.

– Vá arrumar os preparativos. A cerimônia é amanhã e você nem começou a se preparar.

Meu peito arde, e meus olhos ficam ainda mais negros. Acho que isso diz tudo para o meu pai. Não quero me preparar. Não quero que esta maldita cerimônia chegue. E principalmente, não quero me casar.

O dia passa rápido, com seus devidos fragmentos esquecidos por causa do nervosismo. As mulheres da aldeia pensam que é um nervosismo bom, que estou ansiosa para saber quem será meu novo marido, mas não. É um nervosismo terrível, que faz minha boca aguar e meus olhos ficarem secos e avermelhados, aquele tipo de nervosismo que te força a tomar uma decisão logo.

Após o pôr-do-sol, todos os homens se preparam para a ultima caçada do inverno, aplicando pinturas em suas peles douradas e vestindo os capacetes chifrados, dignos de guerreiros. Observo todos saírem em direção á floresta, sob a luz laranjada, seguindo direto para as trevas da noite. Nenhum deles se lembraria durante toda a caçada obscura e assombrosa os momentos adoráveis que poderiam ser desfrutados na companhia do sol entre as árvores.

Enquanto a madrugada se aproxima e eu me mantenho aquecida ao redor da fogueira com as outras mulheres, noto uma luz atrás da minha cabana. Sigo com passos silenciosos em direção a escuridão iluminada por alguns feixes mornos de chamas crepitando junto aos grilos. Recostado ao lado de uma árvore encontro meu meio-irmão, Jordån¹, com uma garrafa de vinho barato em mãos. Ele sorri meio bêbado e me olha de relance, com os cabelos loiro-acobreados refletindo a luz do fogo.

– Oi irmã... Eu sabia que viria.

– Jordån, o que faz aqui?

– Essa é a noite especial…

– E a caçada?

Ele faz um esforço sobrenatural para levantar sem usar a mão que segura a garrafa e lentamente aproxima o rosto do meu.

– Bom Linna... Amanhã você se torna oficialmente uma mulher, vai noivar... Ter as próprias responsabilidades, se tornar alguém de verdade não é mesmo?

Meu rosto arde como se estivesse em contato com as chamas.

– É. Isso mesmo.

Jordån sorri com malícia e olha profundamente em meus olhos.

– Então vamos aproveitar sua ultima noite como criança.

Meus pés firmam no chão e minha pressão cai. O que ele quis dizer com isso? As pontas dos meus dedos esfriam rapidamente devido a falta de circulação e minhas bochechas passam de branco perolado para um rosa crisântemo, como se todo o meu sangue estivesse subindo e flutuando nas extremidades da minha pele facial.

– Eu... Eu vou voltar para a fogueira..

No momento em que eu giro meus pés para retornar à clareira, sinto uma forte pressão em meu braço direito, retorcendo a pele e me fazendo cair no chão.

– Irmãzinha, eu acho que você não entendeu... Hoje é uma noite para nós dois nos divertirmos um pouco.

Olho com desesperança para meu irmão, pensando no que ele seria capaz de fazer. Estava ele sob o efeito do álcool ou havia planejado aquilo antes do sol se pôr?

– Jordån... Por favor, você está cansado... Vamos dormir...

– EU? CANSADO? Por favor Linna, olhe para mim! — Ele rodopia ao meu redor torcendo meu braço me fazendo gemer de dor — Nunca estive tão acordado!!

Ele me arrasta para dentro da tenda, e nos dois minutos que se passam eu decido se luto contra o jovem que possui no mínimo duas vezes o meu tamanho, ou se tento fugir. Ele arranca minhas roupas com indecência, explorando cada parte do meu corpo e dominando-me com postura esnobe e inferior. Cobre minha boca com um pano áspero, enquanto invade minhas profundidades íntimas, pela primeira vez em minha vida. Enquanto eu olho para cima vertendo lágrimas dos olhos tento me esquecer que aquele homem é meu irmão.

As horas doloridas são as que mais demoram a passar. As que nos cobram uma decisão. Foram estas as que eu tive que sobreviver, após o pesadelo que sobrevivi na madrugada gélida do solstício. Meu corpo cheio de hematomas era a única prova de que aquilo havia mesmo acontecido, e a dor se espalhara rapidamente por todas as partes. Observo a minha volta. Meu irmão dorme na cabana, após me violentar e deixar suas marcas imundas em minha pele. Caminho até a entrada da tenda, e observo o rosto torneado de Jordån. Ele abre os olhos sonolentos e sorri com a mesma malícia da noite passada.

– Veio repetir a dose?

A frase me causa repulsa. Corro para perto de uma árvore sentindo a amargura vertendo a caminho de minha boca com o vômito, e enfim chocando-se contra a neve suja de terra, se esparramando perto de meus pés, encharcando minhas botas. Não vou conseguir conviver com isso. O sol se aproxima, e de longe ouço o som dos guerreiros chegando da caçada. Olho pro lado e alcanço minha adaga de prata ao lado da árvore, intocada pelo material aguado que eu havia expelido. É este o momento. Todos dormindo e Jordån bem a minha frente. Se eu quero mesmo me vingar, é agora.

Ouço de longe a frequência aguda do chifre de carneiro, anunciando o início do solstício. Hoje vou noivar, ou como meu irmão disse... Me tornar alguém de verdade. Não quero esta vida. Não quero ter que viver na tribo pra sempre. Tenho 30 segundos para fazer a minha decisão. É agora, ou na hora da minha morte. Ou serei livre, ou viverei presa à vingança. Olho para meu meio irmão e para as marcas rochas latejando em minha pele. Seguro firme minha adaga. Já tomei a minha decisão.

Notas finais
¹Jordån - "å" é uma letra do alfabeto nórdico.