Notas iniciais
Esse capítulo ficou um pouco maior, e eu gostei muito de fazer ele. Não sou acostumado em colocar tanta ação assim em um capítulo só, então se tiver ficado ruim me desculpem :P

O prazo do contrato tinha finalmente expirado. Desde então, fiquei em alerta. Tinha ido mais cedo até o supermercado para comprar algumas coisas, e comecei a olhar para todos os lados como se tivesse alguém escondido nas prateleiras com uma arma na mão pronto para me matar.

A noite, não consegui dormir. Não confiei meu treinamento de acordar com o menor barulho possível, até porque a essência de um assassino é não fazer barulho nenhum. E por isso, estava extremamente cansado.

Hoje era o primeiro dia após a semana do prazo. Meus olhos ficavam cada vez mais pesados, minhas pálpebras pareciam que pesavam cinquenta quilos. Não me permiti sentar em momento algum do dia, pois eu sabia que no momento que meu corpo entrasse em repouso eu iria inevitavelmente dormir.

Tinha chegado a conclusão que provavelmente iriam enviar alguém para me matar. Não tinha ouvido histórias de assassinos que deixaram a organização, e bastou ligar os pontos para saber. Porém eu não iria matar minha mãe, prefiro correr o risco de ser morto.

Não tinha a mínima ideia de como seria feito, mas a ideia mais lógica seria me matar enquanto eu estava dormindo. Por um momento, pensei que a minha ação de me segurar e não dormir era burrice. Talvez pelo fato do sono atrasado, eu não iria acordar com o menor barulho.

E até cheguei a deitar na cama. Porém a imagem de uma pessoa abrindo a porta do meu quarto com uma faca na mão indo em minha direção enquanto eu estava em sono profundo, tomava conta da minha mente, e eu não conseguia dormir.

No momento, estava dando uma checada na minha garagem. De tempos em tempos eu dava uma lavada no meu Prisma, e decidi que essa seria a hora. Peguei um balde de água que ficava ali perto, e fui até a pia da cozinha enchê-lo de água.

Aproveitei e também peguei uma bucha, e coloquei detergente na bacia cheia de água. Voltei com isto tudo para a garagem, e comecei o árduo trabalho de lavar meu carro.

Quando eu finalmente terminei, haviam se passado cerca de meia hora. Minha camiseta branca que estava usando estava toda molhada, e eu não sabia se era suor ou água que tinha respingado ali.

Não tinha aberto a porta do meu carro, e fui olhar para saber se precisava passar um pano no painel. Peguei minhas chaves que ficavam pendurado em uma espécie de cabide ao lado da porta de entrada, e me dirigi até o carro para abri-lo.

No momento em que abri, fui atingido por um soco no rosto. Cambaleei para trás, colocando a mão na minha bochecha. Minha visão estava embaçada, e pude perceber que tinha uma pessoa sentada no banco do motorista.

Me amaldiçoei mentalmente por ter colocado insufilme nas janelas. Se não fosse por eles, teria visto meu agressor. Como a garagem estava levemente escura, não consegui ver o rosto. Mas isso não importava.

Consegui ver um objeto pontiagudo e brilhante saindo de seu bolso, e vi que ele estava portando uma faca. Sem perder tempo, ele saiu do carro e parou em minha frente. Fiquei sem ação por alguns segundos. Era o professor.

—Professor? Você? – perguntei. Porém ele não respondeu.

Com uma velocidade incrível, ele mirou sua faca bem na minha barriga e desferiu um golpe. Consegui parar sua mão por pouco, porém ainda assim ele rasgou minha camisa e eu senti o sangue quente descendo pela minha barriga.

Dei um empurrão nele, o fazendo cair de costas para dentro do carro novamente. Ele se recuperou com uma velocidade incrível, porém foi tempo o suficiente para eu conseguir correr ir até a cozinha.

Eu guardava em um dos armários de cima uma pistola. Ela não estava carregada no momento, e eu soltei um grito de frustação. O professor então apareceu correndo no meio da sala, mirando com uma pistola silenciada bem na minha cabeça.

Ele hesitou por alguns segundos. Conseguia ver a dor em seu olhar em ter que me matar, e essa hesitação foi tempo o suficiente para eu me agachar atrás do balcão da cozinha.

Ouvi a bala assoviando por cima da minha cabeça. Ouvi também um barulho de metal se chocando contra madeira, e a porta de um dos armários que ficava em cima da pia se explodiu quase que completamente em vários pedaços de madeira.

Sem ter tempo de olhar o estrago, ainda agachado comecei a procurar desesperadamente por alguma arma que eu possa usar. Encontrei minha gaveta que ficavam as facas, e peguei uma delas.

Eram simples facas de cozinha, e eu senti seu equilíbrio por alguns segundos. Outro tiro atingiu em cima de minha cabeça, e eu decidi que era hora de agir. Guardei a pistola que eu estava na mão no meu bolso, era seria inútil agora.

Com uma velocidade incrível, peguei as facas na gaveta e levantei para atirá-las no professor. Elas eram horríveis para arremesso, e nenhuma delas conseguiram acertá-lo. Uma conseguiu passar bem perto, porém o reflexo do professor o fez desviar bem na hora.

Sem ao menos me dar o luxo de olhar se tinha acertado ou não, já tinha me agachado novamente usando a proteção do balcão. Eu não sabia se este balcão poderia parar um tiro de pistola a poucos metros de distância, porém era minha única esperança no momento.

Então tive uma ideia. Olhei para uma porta que ficava a cerca de cinco metros que levava até o quintal. Eu só teria que correr para lá e entrar no meu balcão. Infelizmente minha sniper seria inútil nesta situação, porém eu ainda tinha algumas armas que eu sabia usar muito bem.

Ouvi os passos do professor chegando cada vez mais perto, e decidi que era agora ou nunca. Peguei um impulso com os pés, e disparei em direção a porta. Sem entender nada, o professor desajeitadamente mirou para mim enquanto eu corria, porém ele não acertou.

Felizmente a porta já estava levemente aberta, e eu só precisei usar meu corpo para abri-la. Olhei para trás por milésimos de segundo e vi que o professor já estava quase bem atrás de mim.

Me apressei mais ainda. Passei por toda a extensão do quintal aonde ficava meu estande de tiro, colocando a mão na barriga onde tinha levado a facada. A adrenalina no meu corpo tinha ignorado essa dor, porém eu conseguia sentir uma leve queimação no local.

Finalmente cheguei até a porta do balcão. Ela estava trancada, e reuni todas as minhas forças em um potente chute para abri-la. A fechadura se rompeu, e eu tive acesso a minhas armas. Momentos antes de entrar no balcão, ouvi uma bala passando bem ao lado da minha orelha.

O professor já estava no local, com sua pistola apontada na minha direção.

— Não adianta tentar resistir! – desta vez foi ele quem dizia. – Se você conseguir se escapar de mim, irá vir outro antes mesmo que você possa pensar.

— Se eu conseguir escapar de você – gritei de dentro do balcão enquanto montava uma M416 CQB. – Ninguém mais irá conseguir me pegar!

— Isso é o que você pensa. – e então eu consegui ouvir seus passos apressados chegando cada vez mais perto da pequena porta que eu tinha arrombado.

Todos os meus anos de treinamento me ajudaram. Montei o meu fuzil em questão de segundos, e o recarreguei tão rápido quanto.

O professor não sabia que era ali que eu mantinha meu arsenal, e pude ver que ele desapressou seus passos quando viu que era ali que eu guardava minhas armas.

— Por que você tem que dificultar isso? – ele gritava do lado de fora. – Não adianta. Você fez sua escolha. Escolheu nos abandonar, e você não pode continuar vivo.

Quando finalmente tinha a minha arma carregada e em mãos, me senti mais confiante. Coloquei ela na altura dos ombros, e meus dedos ficavam brancos da força que estava fazendo para carrega-la.

Fiquei alguns segundos apenas mirando para a porta, esperando o professor decidir entrar. Porém ele não era burro, e sabia que eu o estaria esperando. Ficamos vários segundos assim, cada um mirando do outro lado da porta.

— Você irá ter que sair dai uma hora ou outra. – ele falou.

— Vamos ver quem é mais paciente, então.

E então, decidi que era hora de tomar uma decisão. O professor esperava que eu ficasse ali dentro apenas guardando a minha posição, e eu decidi fazer algo inesperado.

Me encostei ao lado da porta. Conseguia sentir a respiração do professor. Tentei fazer o menor barulho possível. Me permiti acalmar por alguns segundos, para ter certeza que iria acertá-lo.

Ele não iria esperar que eu fizesse isso. Em situações normais, seria burrice fazer oque eu estava prestes a fazer, por isso seria algo tão inesperado. Ainda mais de alguém como eu.

E então tudo aconteceu muito rápido. Eu apareci em questão de milésimos na porta, e mirei bem no peito do professor. Antes que ele tivesse chance de fazer qualquer coisa, já tinha disparado nele.

Ouvi o barulho da bala perfurando a carne, e o sangue jorrando de seu peito. Ele arregalou os olhos, porém ainda conseguiu desferir vários em minha direção. Um deles pegou bem no meu ombro, e eu voltei para dentro do galpão gritando de dor.

Eu sabia que não tinha como ele sobreviver ao tiro que eu tinha dado. Pegou bem na região do coração, e não tinha o por que de observá-lo enquanto ele lentamente ia perdendo as forças.

Foram questão de segundos, e eu ouvi um barulho alto e o chão ao meu pé estremeceu. Ele estava morto.

Fiquei vários minutos com a respiração ofegante, e gemendo de dor enquanto colocava minha mão sobre a região afetada. Minha camisa estava manchada de sangue, até mais do que aonde tinha levado uma facada.

Quando decidi que era seguro, lentamente sai do galpão enquanto mirava com minha arma para todos os lados possíveis. Não aguentei muito tempo, e joguei a arma no chão quando vi o corpo do professor deitado no chão ao lado da porta. Não era preciso ficar segurando a arma, e o esforço fazia meus ombros arderem em uma dor insuportável.

Seus olhos ainda estavam abertos, porém estavam apagados e sem vida. Sua boca estava levemente aberta. Seu peito estava todo manchado de sangue na região aonde tinha acertado o tiro.

Seus braços e pernas estavam desajeitados, provavelmente ele tinha morrido antes mesmo de ter caído no chão.

Por um momento, eu senti remorso. Estava ali no chão morto uma pessoa que tinha servido de inspiração para mim durante todo o meu processo de aprendizagem.

E ao mesmo tempo orgulhoso. Eu tinha matado o professor. Eu tinha derrotado o mestre, um homem que era quase uma lenda no quartel general, com várias histórias impressionantes sobre ele.

E sem perceber, minha visão começou a escurecer. Perdi o controle do meu corpo, e caí bem ao lado do corpo morto do professor.