Os Deveres De Um Assassino
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Não tive um sono tranquilo naquela noite. Pequenas lembranças do menino correndo desesperadamente para longe do carro quando vê a cabeça de seu pai explodir em sangue e cair de cabeça no volante tomam conta da minha mente.
Eu queria poder falar que todos do meu ramo são pessoas com sangue frio, que não tem dó de nada. Porém não é assim que funciona.
Fazia anos que eu não tinha uma noite tranquila. Sempre assombrado pelos fantasmas das pessoas que matei. A maioria talvez nem merecia, porém o meu treinamento rigoroso não me permitia fazer quaisquer pergunta.
— Se vocês estão aqui para conseguirem informações. – o meu professor dizia. – Deveriam escolher outra profissão. Vocês estão aqui para cumprir a tarefa que lhe foi dada sem questionar, e receber o pagamento caso bem sucedida.
Lembro do meu tempo de aprendiz como se fosse ontem. O meu professor sempre frio e calmo, como se nada abalasse seus sentimentos. Tinham rumores que andavam pelo quartel general que ele matou sua própria família para se provar digno de ser um mestre.
Acordei com um pulo. Olhei para os lados como se estivesse alguém no quarto apontando uma arma para mim. Demorei alguns segundos para desistir da ideia, e então relaxei. Meu corpo estava todo coberto de suor, com algumas gotas passando pelos meus olhos ocasionalmente.
Eu tinha um sono muito leve, e isto era por conta do treinamento. Eu era treinado para acordar com o menor sinal de barulho, não importa qual fosse. Olhei no relógio que ficava no criado-mudo ao lado da minha cama, e marcavam 4:35 da madrugada.
Eu poderia voltar a dormir, porém não seria uma boa ideia. Não queria voltar a ter as lembranças terríveis novamente.
Lentamente, me levanto da cama. Com um grunhido de esforço caminho até o banheiro. Me olho no espelho por alguns segundos, avaliando a minha imagem.
Os anos não tinham sido bons para a minha aparência. Minha barba, que antes era um preto sólido, estava desgrenhada e com vários fios brancos. Meus olhos, antes cor esmeralda, estavam apagados e sem vida.
Fiz minha higiene matinal, e então tomei um demorado banho. Não tinha o porque de acordar tão cedo desta maneira, porém por culpa dos meus pesadelos, eu não conseguia voltar a dormir uma vez que tivesse acordado.
Senti a água morna batendo em meus ombros, e relaxei meu corpo. Ele estava tenso, como se estivesse em alerta. Adrenalina corria dentro de mim, mesmo não tendo nenhuma ameaça eminente.
Era sempre assim. Um dia antes de realizar o contrato, uma onda de ansiedade tomava conta de mim. Quando eu finalmente realizava a missão, meu corpo ainda ficava tenso e cheio de adrenalina por um bom tempo.
A criança no parque veio a minha mente novamente, e eu me obriguei a sair do banho para não começar a pensar naquilo de novo. Eu queria poder falar que sou uma pessoa fria e com o coração de pedra, porém era longe disso.
Meu quarto não era nada demais. Apenas um pequeno espaço feito de paredes brancas, com uma cama de casal localizada no centro. O guarda-roupa ficava em frente a ela, com um pequeno espaço entre para permitir minha passagem pelo quarto. Também tinha uma porta no canto direito que dava acesso ao meu banheiro.
Do lado da cama tinha meu criado-mudo. Ele era composto por três gavetas, e na última eu sempre deixava uma pistola carregada para casos de emergência.
— A essência de um assassino é nunca ser visto. Porém é melhor prevenir do que remediar, então sempre tenha certeza de que tenha alguma maneira de se proteger caso o pior aconteça. – outra lição do meu professor veio a minha mente.
Olhei no relógio mais uma vez, e já eram 5:00 horas. Vesti uma camisa branca com um short preto simples, e me dirigi até a cozinha.
Minha casa tem dois andares, e eu tenho que descer um longo lance de escadas para chegar até a cozinha. Procuro algo na geladeira para comer, e me contento com um pedaço de pizza congelado que tinha pedido quando cheguei em casa de tarde.
A cozinha ficava ao lado da sala, sendo separada apenas por um balcão. Ligo a televisão e fico assistindo de longe enquanto esquentava a pizza no micro-ondas.
Sempre tinha um canal noticiário a esta hora da madrugada, e eles estavam falando do alvo que eu tinha matado no parque. Ele era de uma cidade vizinha da onde eu moro, cerca de duas horas de viagem.
Cogitei a ideia de assisti-lo para saber o que os policiais tinham descoberto, porém eu desliguei na hora em que apareceu fotos da criança chorando ao lado do cadáver de seu pai.
— Já basta meus pesadelos para me relembrar disso. – resmungo.
Decido ir até o meu quintal. Minha casa ficava na saída da cidade aonde moro. A casa mais perto era a um quilômetro dali.
E isso era proposital. No meu quintal, eu tinha montado uma espécie de estande de tiro. Um balcão de madeira extenso por todo o comprimento do local, com vários alvos em distâncias diferentes.
Eu praticava todas as manhãs, principalmente com a sniper. Os alvos eram pertos demais para se ter um treino decente, porém eu podia testar meu reflexo e meu controle de respiração.
Abri um galpão localizado no canto direito do quintal. Era uma pequena porta de madeira com espaço suficiente para um homem. Era uma pequena sala feita de madeira. Nas paredes continham as mais variadas armas do meu arsenal.
De pistolas, até mesmo lança-granadas. Porém a principal arma usada por mim estava no centro, montada em um tripé.
Uma Sniper M200 com camuflagem urbana. Ela estava desmontada no momento, pois esta noite antes de dormir eu estava limpando ela. Olhei para suas partes com um olhar crítico, e decidi que era melhor limpar novamente a mira.
— Uma pedra é mais eficiente do que uma sniper que não funciona. – repeti as palavras usadas no treinamento. – Portanto cuide dela como se fosse um filho.
Quando finalmente terminei, dei um suspiro de cansaço. Meu corpo estava novamente suado. Limpar uma arma não era algo fácil, precisava de cuidado e concentração. O vidro aonde se situava a mira estava quase brilhando, e eu decidi que estava bom.
Montei ela novamente. Demorei apenas alguns segundos, anos de prática faziam com que essa ação fosse quase automática. Senti o peso reconfortante dela e a levei para fora até o estande de tiro.
Acoplei meu silenciador, e montei o tripé no balcão. Antes de sair tinha pegado um cartucho para poder usar na minha sessão de treinamento hoje.
O cartucho tinha dez balas, e eu não poderia descansar até ter acertado todas as dez em alvos distintos. O dia ainda estava parcialmente escuro, portanto ficava ainda mais difícil enxergar os alvos, e era exatamente por isso que eu escolhia essa hora para praticar.
Sincronizei minha respiração com o movimento dos meus braços, e quando eu senti que estava em perfeita sincronia, comecei a sessão de tiros.
Descarreguei a sniper em menos de um minuto. Escolhendo cada alvo com cuidado, ajustando a mira por cerca de dois segundos, e então atirando. Fiz isso com todos os dez alvos de metal. Alguns estavam atrás de uma espécie de barricada improvisada que tinha feito, portanto eu perdi alguns segundos preciosos neles.
A minha respiração continuava em perfeita sincronia com o movimento dos meus braços, mesmo quando eu comecei a ficar ofegante pela tensão e pelo esforço. Ocasionalmente, eu instintivamente fazia ajustes de última hora antes de atirar. Algumas vezes mirando um pouco a esquerda, outras um pouco acima.
Se alguém me perguntasse como eu sabia que essas correções tinham que ser feitas, eu não saberia responder. Ao ter atirado a última bala do cartucho, fiquei ainda alguns segundos olhando através da mira.
Lentamente fui me afastando da arma para ver o resultado. Todos os alvos de metal foram atingidos bem no tórax. Precisei do auxílio de um binóculo para ver os que ficavam mais atrás, portanto peguei um que eu deixava no galpão.
— Um atirador de elite quase nunca mira na cabeça. – comentei para mim mesmo enquanto checava os alvos mais distantes com o binóculo. – Não tem o porque dele fazer isso.
Quando eu finalmente tinha guardado minha sniper no galpão novamente, e substituído os alvos de metais por outros, me dei uma pausa e sentei no sofá da sala. Liguei a televisão novamente, porém agora estava passando um desenho que eu não consegui reconhecer, e a desliguei.
Sempre andava com meu celular no bolso, pois toda ligação tinha que ser atendida com urgência. Sinto uma vibração no bolso meu short, e instintivamente pego meu celular na mão e atendo, sem ao menos ver o número.
— Tenho um serviço para você. – uma voz grossa diz no telefone.
— Serviço? Desculpa senhor, mas eu já tenho um emprego. – respondo.
Esse era o padrão na nossa organização. Para evitar possíveis imitações com o objetivo de descobrir nossa real identidade, usávamos esse método.
— Pois bem, Ron. Preciso de você aqui no quartel agora.
— Você sabe que eu não gosto de fazer um contrato logo após de ter terminado outro. – falo.
— O cliente está pagando muito dinheiro por isso, diz ele ser algo urgente. – Khalif, um dos chefes da organização, tenta me convencer.
— Como se eu me importasse com isso. – insisto.
— O próprio professor pediu para você vir.
Ele poderia muito bem estar mentindo. Mas eu não iria correr o risco.
— Estou indo.
Desligo o telefone e vou para o meu quarto, apressado para trocar de roupa. Para o próprio professor estar chamando, devia ser algo urgente.
Vou até meu carro, e carrego o porta malas com a maleta de violão onde fica localizado minha sniper. No painel frontal do carro, coloco minha pistola silenciada. Dou partida no carro, e dirijo a toda velocidade para o quartel general.
Enquanto estava dirigindo, mais imagens da criança apareceram na minha mente. Porém dessa vez eu não lutei contra elas. Escolhi ter essa profissão, e essa é uma das partes ruins dela. Não adianta tentar fugir.
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