Notas iniciais
Desculpe por ter ficado esses dias sem postar, é que tive uns problemas pessoas e não pude escrever.

O quartel general não era grande coisa. Ele ficava entre duas cidades vizinhas, exatamente no meio do caminho. A casa onde as reuniões aconteciam ficavam no subsolo, e em cima mantínhamos a fachada de uma fazenda.

A entrada era uma estrada de terra que se estendia por cerca de dez quilômetros, passando por plantações de milho e soja. Nossa organização mantinha um pequeno rebanho de gados para que não levantasse nenhuma suspeita.

Depois de cerca de vinte minutos, cheguei até a porteira onde dava acesso para a casa. Um senhor de idade veio abri-la, e eu dei agradeci ele enquanto passava. O professor também achou uma boa ideia ceder o lugar para uma família morar, deste modo ficava ainda mais convincente.

É claro que eles não tinham ideia do que fazíamos, porém eles sabiam da entrada que levava para o subsolo. Eu fiquei um pouco receoso no começo, mas o professor me garantiu que eles não iriam incomodar em nada.

A casa tinha dois andares. As paredes são de um vermelho vivo, com uma pequena varanda na frente, onde tinham vários bancos. Em um deles, estava sentado um homem que era da minha idade.

Quando estacionei o carro na frente, ele já se apressou em vir me cumprimentar. Reconheci que era Khalif, e demos um aperto de mãos.

— Chegou bem na hora. – ele disse. – O professor está lhe esperando.

Por um momento, pensei em perguntar oque era, porém me segurei. Enquanto caminhávamos para a entrada do subsolo, uma onda de tensão tomou conta do meu corpo. A entrada era um pequeno alçapão de madeira que ficava na parte de trás da casa, com uma escada que levava cerca de quatro metros para baixo.

A casa não era grande coisa, mas a parte de baixo era imensa. Um salão com cerca de trinta metros de extensão. Do lado direito, tinha um estande de tiro, mais ou menos do tamanho do que tinha lá em casa. Do lado esquerdo, tinha um corredor com várias portas, era uma espécie de hotel em que ficávamos.

No centro, tinha uma grande mesa. Ela tinha cerca de 30 cadeiras, porém não tínhamos esse tanto de membro na organização. Em pé ao lado dela, estava o professor. Ele andava de um lado para o outro, inquieto.

Quando ele me viu, veio a passos largos na minha direção. Ele era um senhor de aproximadamente cinquenta anos, com uma barba longa e branca. Ele tinha os olhos escuros, sendo impossível distinguir a íris da pupila. Seu cabelo era preto e desgrenhado.

— Que bom que você veio, Ron. – ele me deu um aperto de mão, e eu pude perceber seu nervosismo.

Ele fez um gesto para eu me sentar, e eu peguei uma das várias cadeiras que tinha ao redor da mesa. Ele se sentou do meu lado, e Khalif optou por ficar em pé ao lado de nós.

— Você já está a vários anos nesta organização, e está na hora de você provar seu potencial. – o professor disse. Sua voz estava firme, mas eu conseguia distinguir um pequeno tom de nervosismo.

— Esses cinco anos foram um teste, então? – pergunto, confuso.

Ele deu uma pequena tossida, e após limpar sua garganta, continuou:

— Recebemos um contrato de última hora, e eu pude perceber que o alvo tinha ligação com você.

Aquilo me pegou de surpresa. Fiquei em silêncio por alguns segundos, digerindo a informação. Eu não sabia quem era, fazia tempo que não os via. Eu visitava eles uma vez por ano, no natal.

Meu pai morreu em um acidente de carro, portanto só restou a minha mãe e dois irmãos, um de dez e outro de quinze. Meus avôs por parte paterna também se foram, restando apenas os de parte materna.

Minha mente começou a trabalhar para tentar descobrir quem era. Poderia muito bem ser um primo distante que eu nunca tinha visto na vida, e eu estava torcendo para que seja.

Percebi que fiquei tempo demais em silêncio, porém o professor não falou nada. Parece que ele sabia que esta reação seria esperada.

— Posso saber quem? – perguntei. Ia contra a minha conduta, porém eu não ligava. Eu tinha de saber quem era.

— Não por enquanto. Primeiro, você precisa se preparar. Você irá saber quem em breve. – ele disse. E então, se levantou da cadeira, e saiu andando até a escada.

Khalif, que ficou este tempo todo parado, olhou o professor ir embora por alguns segundos, e então sentou ao meu lado. Ele estava com uma expressão que não reconheci o que era, provavelmente nervosismo ou pena.

— Eu sei que é difícil. Porém todos já passamos por isso. Todos os assassinos de respeito nesta organização já teve que provar a si mesmo com contratos desse tipo. – seus olhos, que geralmente são de um azul claro, estavam escuros agora.

— Eu ouvia histórias sobre o professor ter matado sua própria família durante meu tempo de aprendiz, porém eu não sabia que isso era um procedimento padrão. – disse um pouco desanimado.

Apesar de eu tentar parecer neutro sobre qualquer pessoa, eu não era. Principalmente com um familiar. No momento, eu encontrava conforto na possibilidade de ser um parente distante.

Me levantei da cadeira, e fui até o estande de tiro. Nesses momentos de tensão, sempre me relaxava dar alguns tiros para praticar. Peguei uma m16 que estava apoiada ao lado do balcão, coloquei os abafadores, e peguei um pente que estava em uma caixa ao lado.

Descarreguei todos os trinta tiros, com várias rajadas. Os alvos daqui eram feitos de papel, desta maneira você conseguia ver melhor aonde tinha acertado. Meu ombro doía levemente pelo coice da arma, porém eu já estava acostumado.

Quando eu acabei, Khalif já tinha ido embora. Eu fui me dirigindo até a escada para começar os preparativos para a missão, quando no meio do caminho um aprendiz me para. Era um jovem de aproximadamente vinte anos.

— Olá, Ron. – ele diz quando chega mais perto.

Paro os passos por alguns segundos e aceno para ele, e então continuo. Não estava muito a fim de conversar agora, minha mente estava toda focada neste contrato.

Quando finalmente termino de subir as escadas, ouço a voz de Khalif e a do professor conversando, e tento chegar mais perto para ouvir.

— É interessante como toda a conduta de um assassino vai para o ralo quando se trata de um familiar. – o professor fala alto o bastante para eu ouvir, e sabia que era comigo.

— Me desculpe, eu apenas estou confuso e nervoso. Nunca tinha feito um contrato para matar um familiar antes.

Fui para o meu carro, e dei uma checada no porta-malas, aonde estava minha sniper. Tinha uma pequena caixa ao lado com quatro pentes dela, e eu resolvi abri-la para limpa-la novamente.

O professor chegou do meu lado, e ele segurava em mãos uma pasta. Eu sabia que ali iria conter o nome do meu alvo, e eu fiquei receoso em pegá-la. Comecei a abrir a sniper, porém logo desisti. Ela já estava limpa, não precisava de tanto cuidado desta maneira, então guardei ela de volta.

Me virei para ele, e olhei para o que ele tinha em mãos. A pasta era cinza, com um aviso escrito em vermelho que era confidencial. Ele estendeu a mão para me entregar, e após alguns segundos de hesitação, finalmente a peguei.

Ele estava com uma expressão neutra agora, e isso me incomodou ainda mais. Quando ele está desta maneira, é porque está reprimindo as suas emoções.

Lentamente abri a pasta, e tinha cinco folhas contando detalhes do alvo e dos possíveis locais que ele estaria na próxima semana.

Então olhei para a primeira página. Uma onda de terror tomou conta do meu corpo assim que vi a foto junto com o nome. Olhei para o professor, lutando para não deixar as lágrimas escorrerem.

Olhei para Khalif, que ainda estava no banco da varanda, me olhando com uma expressão de pena. Minhas mãos começaram a tremer, e as lágrimas após muito esforço desceram pela minha bochecha.

O nome que estava ali era Ana Júlia. Minha mãe.

— Eu terei de matar minha própria mãe. – disse com a voz rouca e fraca.

E as lágrimas ficavam cada vez mais abundantes.

Notas finais
Deixem reviews se gostaram ;)