O prazo para o contrato expirava em dois dias. Neste meio tempo, eu quase não tinha saído de casa. Passava o dia inteiro com essa questão na minha cabeça, e quanto mais ficava perto de expirar, mais tenso eu ficava.

No começo, eu consegui me distrair treinando no estande de tiro no quintal de casa, porém nem isso estava funcionando mais. Minhas noites eram turbulentas, a maioria com flashbacks da minha infância, do rosto da minha mãe.

Porém, ao mesmo tempo, eu também lembrava toda hora do meu tempo de aprendiz. Teve momentos em que eu estava pronto para fazer isso, porém mais lembranças da minha mãe invadiam minha mente e eu desistia da ideia.

— Eu preciso tomar uma decisão. – eu continuava repetindo para mim mesmo várias vezes ao dia.

Eu não tinha ideia de como iria funcionar caso eu saísse da organização. Eu não sei se teria alguma espécie de cerimônia de saída, ou eles simplesmente iriam cortar todas as formas de comunicação comigo e eu nunca mais iria os ver.

Eu duvidava que fosse a primeira opção. Eu nunca tinha ouvido histórias de nenhum assassino que deixou a organização, e isto me preocupa bastante. No fundo, eu sabia que tinha uma remota possibilidade de eles tratarem os que deixam a organização de outra maneira.

No tempo em que penso isso, lembro novamente do sorriso da minha mãe quando eu elogiava sua comida. Eu me sentava na mesa com ela, dava uma boa garfada, e gemia de satisfação por aquela comida que eu achava uma delícia.

E novamente sou tomado pela indecisão. A confusão que estava na minha cabeça chegava a me dar dor de cabeça.

No momento, eu estava deitado no sofá. Pensei em ligar a televisão, porém eu não iria conseguir assistir nada de qualquer maneira. Tinha acabado de tomar um banho, em uma tentativa de relaxar, porém eu não conseguia.

Mais cedo, eu tinha limpado minha sniper. Era uma tarefa que eu fazia diariamente, mesmo que não seja necessário tanto cuidado assim. Porém era uma tarefa que, mesmo que só por alguns minutos, me distraia.

Sem perceber, eu estava caindo no sono. Como minhas noites tinham sido turbulentas, eu não tinha conseguido dormir direito. E sem perceber, estava ficando cada vez mais cansado.

E pela primeira vez em muito tempo, tive um sono tranquilo. Sem pesadelos, sem lembranças, nem nada do tipo.

Acordei com o barulho do meu celular tocando. Tinha deixado ele no balcão da cozinha quando tinha feito um lanche mais cedo, e me repreendi mentalmente pelo erro. Eu tinha que manter ele sempre perto.

Levantei aos pulos do sofá e corri até a cozinha para pegar o telefone. Desta vez, olhei o número. Era minha mãe. Fiquei assustado alguns segundos, ela não era de ligar do nada desta maneira.

— Oi mãe. – falei logo após ter atendido.

— Oi Ron, tudo bem? – ela pergunta. Eu conseguia ouvir umas músicas de fundo, porém ignorei.

— Sim, mãe. Por que me ligou?

— Eu não posso ter notícias do meu querido filho?

— Não é isso, só achei estranho. – eu falo tentando esconder a emoção. Só pelo fato de eu ter cogitado a ideia de matar ela, me dá vontade de chorar.

— Eu sou uma mãe tão péssima assim, querido? – ela diz, e solta uma risada. Neste momento eu consegui perceber que sua voz estava alterada, provavelmente estava bêbada.

— Você por acaso bebeu, mãe? – estranhei isso. Ela não era uma pessoa de beber muito, e pelo oque eu sei dela durante todos esses anos, ela só bebia quando algo muito ruim acontecia.

— Lembra do nosso gato? – ela pergunta.

Fico alguns segundos em silêncio. Eu tinha um gato chamado Whiskas, e tinha colocado esse nome nele por que tinha visto uma comida para gato com esse nome. Ele foi o meu melhor amigo na minha infância, e adolescência. Quando eu saí de casa, ele já estava bem velhinho.

— Ele morreu, mãe? – pergunto. Eu estava triste com a notícia. Durante estes cinco anos, eu via ele ocasionalmente quando ia visitar minha mãe no natal.

— Sim, querido. Eu gostava muito dele, mas agora ele se foi. Morreu ontem. Pensei em te ligar antes, mas eu estava muito ocupada chorando.

Minha mãe me repreendeu quando eu cheguei com ele na minha mochila, após ter encontrado ele enquanto voltada a pé da escola. Mas se passaram alguns dias, e ela já estava toda apegada a este gato. A tristeza dela tinha razão.

— Sinto muito mãe, também estou muito triste. – e isto era verdade. Saber que o bicho de estimação que me acompanhou boa parte da minha vida morreu, não era algo muito animador.

— Depois nos falamos. Vou desligar agora. – ela fala de repente. Estranho isso, porém antes de poder responder ela desliga.

Quase que instantaneamente eu tomei minha decisão. Não iria matar a minha mãe. Parece que finalmente o lado dominante do meu cérebro apareceu, e todos os pensamentos da minha vida de aprendiz simplesmente desapareceram.

Eu gostava muito desta vida, porém ela não compensava a minha infância. Se não fosse por minha mãe, eu nem ao menos estaria aqui, neste momento, com esta indecisão.

— Eu não irei me transformar em um monstro. – repeti para mim mesmo.

E no fundo, eu já sabia que tinha me tornado um a muitos anos atrás.

Subi as escadas e fui até o meu quarto. Peguei meu telefone e guardei no bolso, e fiquei pensando se deveria ou não ligar para o professor e falar que irei desistir. Porém eu rejeitei a ideia, não quero presenciar sua decepção ao saber disto.

E, além disso, ele iria saber daqui a dois dias. Não precisava contar isto para ele. Agora meu único problema é saber oque acontece com pessoas que deixam a organização, e por algum motivo eu sabia que não era nada de bom.

Ainda tinha aquela dúvida se esta era a escolha certa, porém novamente eu retorno para as lembranças da minha mãe, juntamente com a do meu gato, e eu sabia que tinha tomado a escolha certa.

Ela acreditava que eu tinha saído de casa para me tornar um empresário, e eu consegui manter esta mentira até hoje. Ela sempre foi muito apegada a mim, e me ver apenas uma vez por ano fez ela sofrer muito no início.

Tive que usar uma desculpa falando que viajo quase todos os dias para partes diferentes do país, por isso só tinha como ver ela no natal. E até hoje, ela acredita.

Talvez quando eu sair da organização, eu possa realmente tentar isto. Porém eu duvidada que qualquer outro emprego que tivesse iria me proporcionar a adrenalina e satisfação desse. Eu poderia muito bem tentar continuar sendo um assassino, porém sem os contatos seria quase impossível.

Soltei um suspiro e balancei a cabeça para afastar meus pensamentos. Deitei na cama, sem ao menos me dar ao trabalho de tirar as roupas. Eu tinha cochilado por cerca de uma hora, portanto ainda estava cansado.

— Espero que eu não me arrependa desta decisão. – disse com a voz já fraca por causa do sono.

Minhas pálpebras foram ficando cada vez mais pesadas, e então eu adormeci. E novamente, tive um sonho tranquilo, sem nenhum tipo de memória ou lembranças.

Agora eu só precisava descobrir o que iria acontecer comigo quando o prazo do contrato expirasse.

Notas finais
Deixem reviews se gostaram! :D