Notas iniciais
Esse é o primeiro capítulo, portanto me deixem sabendo se gostaram ou não! xD

Me remexo inquieto pela quarta vez naquela manhã. Meus dedos ficam brancos pela força que faço enquanto monto o tripé que servirá de apoio para o rifle. Flocos de neve caem lentamente sobre meu casaco, porém eu os ignoro.

Estava em um telhado de um prédio abandonado. Era para o alvo ter chegado a dez minutos atrás, porém ainda não tinha nenhum sinal dele. Meus informantes disseram que ele estaria na praça exatamente 7:30 da manhã.

Olhei para o meu relógio mais uma vez, e agora marcavam 7:42. Comecei a ficar apreensivo, e dei mais uma checada na praça. Tinha um casal de velhos sentados em um banco ao lado da árvore principal que ficava no centro do parque. Mais adiante, tinha um grupo de cinco crianças próximas a um chafariz conversando entre si.

— Odeio quando tem crianças no local. – comento para mim mesmo, minha voz falhando por conta do frio.

Olhei para a foto do alvo que tinha apoiado na beirada do telhado mais uma vez. Era um sujeito de barba espessa e cabelos grisalhos, que media aproximadamente 1.72 de altura. Usei a mira da sniper para checar com mais detalhes, porém não encontrei nada.

Considerei ligar para meus informantes, porém isso iria me distrair. E o pior de tudo, iria mostrar fraqueza. Estava a cinco anos neste ramo, e isto já tinha acontecido várias vezes. Eu só preciso me acalmar e esperar pacientemente.

Um Prisma branco estacionou na parte oposta do parque, e eu observei. O homem que desceu batia exatamente com a da foto, e eu soltei um suspiro de alívio. A pior parte já foi.

Ele lentamente desliga o carro e saí do veículo. Ele checa alguma coisa no seu celular por alguns segundos, e então vai para as portas traseiras. Estranhei este gesto, pois era para ele estar sozinho.

Uma criança de aproximadamente oito anos desce do carro. Dou um longo suspiro de frustação. Isso não era para acontecer, porém tinha vezes que nem tudo saia como planejado. Como se não bastasse matar um cara a sangue frio, sem ao menos saber o motivo, agora terei de fazê-lo na frente do menino.

O menino tinha cabelos lisos, e usava agasalhos de frio feitas com pele de animal. Ao menos pobre eu sei que eles não são.

Ele senta no mesmo banco todos os dias e fica mexendo no seu celular durante vários minutos. Fiquei tentado a perguntar o que ele fazia, mas isso não seria profissionalismo. Somos pagos para fazer serviços sujos, e não perguntas.

Porém dessa vez ele muda o seu curso. Ao invés de ir no banco que fica próximo ao estacionamento, ele dá meia volta e vai na direção do casal de velhinhos. No começo, eu achei que ele apenas iria mudar de posição desta vez por estar com a criança, mas algo me intriga.

Ele tira do seu casaco uma espécie de envelope, e discretamente entrega para o casal de velhinhos que estavam jogando milhos para os poucos pombos que estavam ali. Eles olham para os lados antes de pegá-lo, e eu sou obrigado a me abaixar para não correr o risco de ser visto.

— O ser humano raramente olha para cima. – meu professor dizia. – Porém é bom não correr o risco.

Vejo que ele está indo na direção do carro, e nervosismo toma conta do meu corpo. Terá de ser agora, pois ele provavelmente está planejando ir embora. Ajeito a minha mira para o banco do motorista, para pegá-lo na hora que ele estiver ligando o carro.

Sincronizo minha respiração e a prendo por alguns segundos. O alvo vagarosamente entra no carro e senta no banco do motorista. Ele se abaixa por alguns segundos para colocar alguma coisa no painel, e então começa a girar a chave para ligar o carro.

Dou um último suspiro, e então prendo a minha respiração. Miro um pouco acima da cabeça dele, compensando o fato da gravidade. Sinto o vento por alguns instantes, e decido que é melhor mirar um pouco para a direita também.

Quando as luzes do carro finalmente se acenderam, eu aperto o gatilho.

No momento em que eu apertei, eu sabia que tinha sido um bom tiro. A sniper era silenciada, portanto não tinha como saber de onde veio o tiro. O vidro frontal do carro se quebra quase que instantaneamente, e uma explosão de vermelho tinge o vidro.

O alvo cai de cabeças no volante, fazendo com que o carro fique dando buzinas. O garoto, que já estava acomodado no banco traseiro, abre a porta do veículo com desespero e saí correndo para longe do carro. As cinco crianças que estavam no chafariz, instintivamente correram para longe. O casal de velhinhos fez a mesma coisa, e um deles estava com o telefone na mão.

Essa cena me deu incômodo, e isso era algo intolerável em minha profissão. Não tinha o porque de continuar olhando, o trabalho está feito. E a polícia irá chegar em breve. Rapidamente desmonto meu tripé, e coloco a minha sniper em uma caixa preta que tem o formato de um violão para disfarçar.

Resisto ao impulso de me levantar, pois isso seria um erro. Me arrasto lentamente até a porta que leva as escadas. Meus ombros doem com o esforço, e eu tremo levemente por conta do frio. Minhas roupas ficam encharcadas por estarem se arrastando em neve, porém eu ignoro.

Quando eu finalmente consigo trazer minhas coisas para a porta, eu me esforço para conseguir alcançar a maçaneta ainda deitado. Quando eu a abro, rapidamente entro.

Já nas escadas, eu levanto e dou um grunhido de satisfação. Eu teria que sair logo daqui, pois em casos como esse, o primeiro local que a polícia procura é um edifício abandonado.

Por sorte, já tinha meu carro me esperando do outro lado da rua aonde fica o prédio. Eu estava com roupas casuais, não tinha o porque de querer ter um uniforme ou algo do tipo, apenas levantaria suspeitas.

— Se vocês acham que nessa profissão irão usar ternos, luvas de látex, podem esquecer. – o meu professor dizia. – Isso só chama a atenção e não ajuda em nada. Um assassino profissional não quer atrair atenção para si mesmo, portanto tenta usar as roupas mais casuais possíveis.

Quando termino de descer as escadas, estou em algo que já foi o hall de entrada de um hotel. O balcão estava todo quebrado e sujo de poeira, e as cadeiras que estavam no local de espera estavam todas reviradas e desajeitadas. As portas duplas eram feitas de vidro, e eu dou uma espiada no perímetro antes de sair.

Uma pessoa saindo de um hotel abandonado bem quando uma pessoa na praça a frente morre por um tiro de sniper seria no mínimo suspeito. Felizmente todo o povo que estava ali correu em direção ao homem morto no carro. Isso sempre acontecia.

— A curiosidade do ser humano as vezes é uma bênção. – comento enquanto rapidamente cruzo a rua e entro em meu carro.

Coloco a minha caixa que continha a sniper no banco traseiro, e meu telefone no outro. Peguei a foto do alvo que tinha colocado no telhado para colocar fogo depois. Não tinha o por que de deixar a foto do cara que morreu ali, seria óbvio que este foi aonde o atirador tinha ficado.

Giro a chave do meu carro com pressa, porém tentando parecer casual. Já conseguia ouvir o barulho das sirenes, e não seria legal continuar aqui por muito tempo. Quando o carro finalmente liga, acelero e dou uma volta na praça.

— Uma pessoa que estivesse no local e soubesse que o tiro veio de uma sniper, nunca iria suspeitar de alguém que estivesse perto do cadáver. – outra lição do meu professor vem a minha mente.

Dou uma olhada casual ao carro. Dava para ver que um pouco do sangue tinha espirrado, e havia várias pessoas no local. Contei de relance e vi no mínimo vinte. Várias delas estavam falando no telefone, provavelmente ligando para a polícia ou para o bombeiro.

Algumas estavam olhando para o cadáver e fazendo uma cara de nojo, e outras estavam ao lado do garoto o reconfortando. Ele estava tremendo, e colocaram uma coberta sobre ele.

Parei de olhar, não gostava quando tinha crianças perto. Ainda mais quando a criança é ligada ao alvo.

Dou mais um suspiro, e isso faz com que saia fumaça da minha boca. Fecho meu vidro e acelero para longe do parque. Quando eu já estava distante, ouço meu telefone tocar.

— Bom trabalho. – a voz do outro lado diz quando eu atendo. – Suspeitaram de alguma coisa?

— Não senhor. – digo. Tomei as devidas precauções e não tinha como alguém saber. – Ninguém suspeitou de onde o tiro veio, muito menos de quem disparou.

— Muito bem feito. Você nunca decepciona, Ron.

— Obrigado professor.