Os Deuses da Mitologia

165 SADIE - Na Força do Ódio


Notas iniciais
ai como a vida adulta é foda.. desculpa a demora. tá complicado. to fazendo de 2 a 4 horas de hora extra quase todos os dias desde do carnaval. pra compensar, esse cap ta mais gordinho. no momento, estão em locomoção os grupinhos: - Indo pra o Sudão: Carter, Zia, Paulo, Drew - saindo do Brasil: Leo, Calipso,Magnus, Jacques, Alex, Festus, André (Brasileiro que tava na Nigéria e não sabe jogar futebol), Meg e Apolo no momento, estão na ÁSIA, os grupinhos: - Indonésia: Lavínia, Hazel, Annabeth, Kayla, Grover, Percy, Piper, no momento, estão na ÁFRICA, os grupinhos: - Nigéria : Olujime no momento, os grupos que estão na EUROPA são: - Indo para a Itália: Caçadoras de Ártemis (Thalia, Ártemis, etc), Clarisse, Reyna, Ciara - Saindo da França: Blitzen, Hearthstone, Mestiço, Mallory - Israhell : Sam, Anúbis, Sadie, Will, Nico - Saindo da Europa: Maias-Astecas: Victoria, Micaela (a menina q parece Annabeth) e Eduardo (guri chato que o Mestiço deve estar querendo esganar)

SADIE

Nos outros obeliscos, o maior problema foi tentar chegar nele antes do sol se pôr. Não que o obelisco de Israel tenha nos dado tempo muito confortável, mas claramente estavam nos esperando em peso também. Sabiam que ghouls são de origem árabe? Eu também não sabia. Descobri depois de ter que lidar com 15 deles que impediam que a gente se aproximasse do obelisco.

Vou poupar os detalhes do começo de tudo, até porque a luta em si ficou mais à cargo dos demais, que distraíram o grupo de ghouls enquanto eu começava a magia para voltar o obelisco à normalidade. Os ghouls são tão feios quanto pode imaginar, parecendo horrendos cadáveres com garras e dentes afiados e olhos vermelhos como sangue. Lembrava um pouco uma versão mais monstruosa de zumbis, só que ao contrário da maioria dos zumbis da televisão, eles eram rápidos e ágeis. Sem falar de não tão idiotas.

Enquanto eu terminava o feitiço, eu estava no meio de um pequeno caos. já ofegantes, Anúbis, Will, Nico e Sam afastaram os ghouls de mim de toda forma possível. Os gritos meio-zumbi dos monstros no meio de sons de espadas, golpes, flechas e magias me preocupava, mas eu não podia perder a calma. Um dos ghouls até chegou a entrar em meu campo de visão, mas vi também o exato momento em que Anúbis bateu com seu cetro envolto em névoa negra na cara dele. Praticamente vi em câmera lenta a cara do ghoul amassando, um dente longo e afiado voando, e sangue esguichando antes dele cair no chão como o rosto começando a putrefazer. Os ghouls podiam lembrar corpos, mas estavam claramente vivos.

O grunhido de vários ghouls podia ter suas preocupações, ainda mais estando em maior quantidade que a gente, mas meus amigos (e namorado) também eram preocupações muito válidas para os ghouls. Mas o rugido de leão que chegou em meus ouvidos era certamente preocupante. Tentei desviar o olhar para entender melhor a situação, mas Anúbis percebeu e prontamente falou:

— Foque no feitiço, está tudo bem aqui.

Conseguia ver onde ele estava? Não. Acreditei 100% que estava tudo bem? Também não. Os rugidos de leão não me deixavam acreditar nisso. Óbvio que não era um leão normal, se fosse, estava tudo bem. Mas confiei nele e foquei no feitiço, ansiosa pra ver logo a luz emanando do obelisco quando terminasse.

— SÃO OS PÁSSAROS DA OUTRA VEZ! — gritou Sam repentinamente.

— QUE PÁSSAROS DA OUTRA VEZ? — gritou Will, tão perdido quanto eu.

— Quando… o TJ… Alex disse que parecia um Pokémon — ouvi Sam resmungar perto de mim ao mesmo tempo que senti o ventinho de algum golpe que foi dado perto de mim por alguém, mas saí ilesa e, para a minha alegria, o obelisco jogou sua luz para o céu, o feitiço estava terminado.

— O problema maior é o Anzu… — me virei para o combate a tempo de ver e ouvir Anúbis falar.

— Qual? — perguntou Nico.

— O leão. — explicou Anúbis.

Os ghouls claramente não eram problema. Dos 15 que estavam só esperando a gente chegar no obelisco, apenas 6 ainda estavam vivos e nenhum deles estavam ilesos. Mas novos problemas se aproximavam. No céu, cinco pássaros lindos, de longas penas vermelhas e azuis se aproximavam e entre eles havia mais outro pássaro, mais robusto, forte e com cabeça de leão.

O leão voador rugiu e começou a bater as asas poderosamente. Quando ele fez isso, redemoinhos de areia começaram a se formar, um na frente de cada asa. E porque não estava dramático o suficiente ainda, nuvens de tempestade se formaram mas nenhuma gota caiu, apenas relâmpagos que iluminaram um pouco aquela semi-escuridão repentina. Os mortais por perto certamente estavam achando que o clima ficou doido.

— Ele está preparando uma tempestade de areia! — avisou Anúbis apressadamente — Isso vai ser mais problemático do que os trovões!

Anúbis mal tinha terminado a frase e Will começou a lançar flechas contra o leão, ou Anzu, na tentativa de impedir à distância o ataque que ele preparava. Eu não ia ficar para trás, e fiz o mesmo lançando um misto de explosões e tentativas de prender qualquer um dos pássaros em cordas mágicas. Enquanto isso, os ghouls restantes avançavam, deixando Anúbis, Nico e Sam bem ocupados em servir de barreira para que eu e Will tentássemos lidar com os monstros alados.

A distância ainda era muito grande para eu ou Will acertarmos muita coisa, mas algumas flechas dele atingiram o alvo, assim como alguns dos meus feitiços conseguiram deixar o Anzu irritado. Mas ele continuava batendo as asas e lançando trovões contra nós, enquanto seus amigos, os tais pássaros pokémon, lançavam bolas de fogo contra nós agora, acabando por desmontar nossa formação. Mas ao menos também estávamos longe demais para eles, mas o fogo e os trovões batendo no chão e começando a queimar a vegetação ao nosso redor foi suficiente para começar o caos. Pelo menos os trovões eram completamente aleatórios ao invés de direcionados para nós. Era como se todo o foco do Anzu estivesse em preparar a tempestade de areia.

O obelisco ficava sozinho no meio de um descampado cercado por árvores, que agora começavam a pegar fogo em meio àquele clima meio seco da região mesmo apesar da proximidade com o mar. Minha vitória foi derrubar um dos pássaros pokémon presos com amarras mágicas enquanto Will acertava outro na cabeça. Eles estavam perto o suficiente para fazermos algum estrago agora, mas a recíproca também era verdadeira e os pássaros pokémons estavam impedindo que a gente acertasse o verdadeiro problemático, que seguia carregando sua tempestade de areia.

Quando Nico decapitou com sua espada o último dos ghouls, o Anzu liberou sua tempestade de areia, que foi vindo em nossa direção como uma explosão acompanhada de uma dose extra de trovões. Eu e Will tentamos dar golpes desesperados contra o Anzu e desviar dos trovões que tinham mira melhor, alguns de nossos golpes até pareceu atingir o monstro, pois ouvi o seu grito de dor pouco antes da areia cobrir minha visão.

Olhei rapidamente com o canto do olho para nossa carruagem, a alguns metros de nós, e me perguntei se valia a pena buscar abrigo nela. Valeria, se fosse uma tempestade normal, mas a nossa tinha um monstro no meio. Tínhamos que derrotar ele de algum jeito. Nem tive tempo para mais nada além daqueles poucos segundos, a tempestade logo nos engoliu como uma bomba que explodia. Mal tive tempo de tampar meu rosto com a camiseta.

Respirar era muito difícil. Enxergar alguma coisa mais ainda. Eu tentei ficar com os olhos quase fechados, torcendo para os cílios impedirem a areia de entrar, mas isso era obviamente o pior jeito de se lutar. Minha camisa tampando meu nariz e boca só ia ficar ali enquanto eu a segurasse ali, claramente algo nada prático.

Eu ouvi o rugido do Anzu no meio da tempestade, perto demais, e sem pensar duas vezes invoquei um escudo para nos proteger, nos protegendo da areia ao menos por um tempo. E ainda bem que o fiz, pois logo vimos a pata pesada do Anzu bater contra o escudo de luz com raiva, querendo o quebrar na força bruta e com trovões cuja eletricidade se espalhava por toda a superfície do escudo. E eu senti cada parte pelo escudo enquanto ele sumia de novo.

— Não vou conseguir segurar o escudo eternamente. — avisei enquanto os gritos finos dos demais pássaros ecoavam de alguma parte da tempestade de areia que chicoteava o escudo.

— Acho que comi um quilo de areia… — resmungou Sam, cuspindo areia ao meu lado — Temos que nos livrar do leão primeiro para conseguirmos focar nos outros pássaros. Desse jeito nessa tempestade vai ser impossível enxergar alguma coisa e lutar.

— Lutar sem enxergar nada é impossível! — exclamou Will ao mesmo tempo que os pássaros bonitos começavam a bicar o meu escudo e do Anzu, nenhum sinal.

— Não tenho certeza mas, ouvi falar que o Anzu precisa continuar batendo as asas pra continuar a tempestade. — disse Anúbis, olhando ao redor do escudo, como se em busca de algo — Ele não vai conseguir manter ela e nos atacar ao mesmo tempo. Tanto que ele não parece estar nos atacando agora.

— Faz sentido… — comentou Sam — Quantos pássaros sobraram nos atacando?

— Eu e Will derrubamos dois… eram cinco… — falei — Mas não temos certeza se chegaram a morrer de fato. Até porque eu só consegui prender o meu.

— Então cinco na pior das hipóteses. — disse Sam, claramente pensando num plano.

— No que está pensando? — perguntou Nico.

— Sadie, consegue deixar esse escudo maior ou moldar o formato dele pra outra coisa que não esfera? — perguntou Sam.

— Maior eu consigo, mas vai gastar mais energia. Então eu aguentaria segurar por menos tempo. — avisei — Formato eu já não tenho certeza. Mas, se ajudar, acho que dá pra atacar de dentro pra fora…

— Então… se… — disse Will, lentamente preparando o arco e flecha dele e no momento que um bico do pássaro pokémon bicou o escudo, a flecha escapou de seus dedos e atingiu o monstro sem dificuldade mas sem deixar a gente ver o suficiente para ver o tanto de estrago que fez no monstro.

— Só não sei se com espadadas e tal funciona… — continuei — Porque a flecha só sai né? A espada teria que entrar aqui de nov… Eu tenho uma ideia!

— Qual? — perguntou Sam.

— Bem rápido, eu vou desativar e ativar o escudo. — falei — Na pior das hipóteses, algum pássaro entra e aí ao menos tentamos acabar com ele sem a tempestade nos atrapalhando. Na melhor das hipóteses ele não consegue terminar de entrar, fica preso no meio do escudo, e vocês terminam com ele.

— Mas ele deve conseguir sair né? — perguntou Will — E tem os trovões.

— Só a gente não dar tempo pra ele. E os trovões estão mais errando que acertando. — disse Nico, claramente pronto para cumprir a parte de não deixar o pássaro escapar quando fosse a hora.

— Se um entrar… — falei, olhando para Anúbis — eu vou ficar ocupada demais cuidando da barreira para me defender…

— Você ainda achava que precisava pedir? — perguntou Anúbis, já entendendo que eu queria que ele não deixasse nenhum chegar perto de mim.

— Só confirmando mesmo. — respondi.

Nos organizamos brevemente. Eu fiquei no centro da esfera. Anúbis ficou logo ao meu lado e tenho certeza que ele me guardaria num potinho se tivesse como pelo jeito que ele tentava se posicionar de um jeito que facilitasse interceptar qualquer perigo de qualquer direção. Will, Nico e Sam se espalharam pelo resto da pequena esfera, prontos para agir em posições diferentes.

— Ok…. — falei lentamente, respirando fundo e prestando atenção no pouco que eu conseguia ver do outro lado, na espera de um ataque — AGORA!

Estava com medo de não conseguir, mas foi como se o escudo tivesse piscado por um segundo de tempo. Areia entrou acompanhada com rajadas de ventos, segurei minha respiração em tensão, o grito estridente de mais de um dos pássaros chegou até meus ouvidos. Queria fechar os olhos, mas não ousei. Vi o pássaro que eu havia focado no movimento do ataque entrar antes de eu fechar o escudo novamente. Apenas algumas longas penas de sua bela cauda (ou caudas) ficaram para trás, do lado de fora. Mas de outros pássaros, patas ficaram presas, mas logo eles puxaram para fora.

Segurei o feitiço, me concentrando única e exclusivamente nele, ia dar uns passos para trás, para desviar do pássaro quando ele caiu na minha direção, mas Anúbis foi mais rápido. Ele me tirou do caminho tão rápido e com tanta facilidade que se não fosse o fato que ele me segurava, eu teria caído no chão. Mas depois ele me ajeitou de pé e se botou entre mim e o pássaro, que se debatia, nervoso e confuso, depois de cair no chão com a cauda presa em meio ao seu ataque.

Não sei quanto tempo demoraria até o pássaro notar que era só ele tentar sair da bolha que teria sucesso, mas ninguém queria descobrir isso também. Logo foram dando cabo do pássaro enquanto os demais ficaram agitados, nervosos, batendo contra o escudo querendo seu amigo de volta. O nosso refém também não estava muito calmo. Soltava bolas de fogo para todo lado, completamente descontrolado, me fazendo pensar que seria bom ter um escudo secundário dentro do principal.

Anúbis tentou me proteger das bolas de fogo, e o plano dele envolveu amarrar o bico do pássaro com as faixas de linho. O que fez o pássaro começar a engasgar com o próprio fogo, que logo teve que engolir e não parecia gostar nada disso. Sentindo que estava começando a ficar com dó do pássaro, e como eu estava ocupada em manter o escudo, aproveitei a chance para tentar descobrir quantos pássaros ainda estavam de pé.

— Quatro. Temos quatro pássaros para lidar. — falei — Contando com o que está aqui dentro.

— O que eu derrubei então talvez não esteja mais entre nós… — disse Will, acompanhando meu olhar já que o pássaro gradualmente pouco se debatia, e menos necessitava de alguém com a flecha apontada para ele, ainda mais em tão pouca distância.

— Com certeza… e o meu se soltou. Malandro. — resmunguei.

Um formigamento nos meus dedos me avisou que em breve precisamos de um plano B. Minha magia não era infinita. Mas ao menos o pássaro entre nós se desfez em areia. Um problema a menos. Mas naquele momento, o Anzu repentinamente surgiu do meio da tempestade de areia e bateu com força com a cabeça contra o escudo. Eu senti a energia tremer, minha força ser puxada mais fortemente para segurar o tamanho do impacto, mas logo ele sumiu na areia de novo, batendo as asas poderosas que criavam mais areia contra a gente.

— Ele claramente consegue se afastar ao menos um pouco sem parar a tempestade. — disse Sam — Mas não está ousando dar mais que um golpe.

— E vamos ousar repetir o plano de Sadie com ele também ousando atacar a gente de vez em quando? — perguntou Nico.

— Mais uma vez pelo menos. — falei — Antes que o Anzu resolva fazer uma nova tentativa.

Torcendo de novo pela estupidez dos belos pássaros, repetimos novamente a ideia. Tudo da mesma maneira, com exceção de o formigamento de minhas mãos começando a chegar no cotovelo. Mas repetimos mesmo assim.

Quando o escudo sumiu e voltou a nos rodear, dessa vez Anúbis não precisou me tirar do meio do caminho. Nenhum pássaro entrou tão profundamente na nossa esfera, mas dessa vez dois ficaram presos e um trovão passou por perto de Nico. Um pássaro ficou preso pelo pescoço. Ele logo iria fugir, mas com um grito, Sam atacou de cima com seu machado e acabou com ele no exato segundo. Quanto ao segundo, ele ficou preso com metade do corpo pra dentro do lado oposto de onde Sam havia lidado com o primeiro.

Will deu um pulo para longe, criando uma distância do pássaro, que estava perto o suficiente para bicar sua cabeça, mas o pássaro soltou uma bola de fogo que atingiu Sam nas costas. Ela gritou de dor e caiu no chão com dor e roupa pegando fogo.

— Sam! — gritou Will indo salvar ela enquanto Nico lidava com o pássaro causador de tudo.

Eu continuava ocupada com o feitiço, Will e Anúbis apagavam o fogo nas costas de Sam e logo Will começava a cura-la, e pelas minhas contas só faltava um pássaro e o Anzu agora. Mas também fiquei tensa pois a chance do Anzu atacar de novo era provavelmente alta. Foi talvez pensando nisso que, quando Sam já estava bem e nenhum pássaro ainda era um problema para nós, nos entreolhamos com olhares de preocupação.

— Mais uma vez seria contar com a sorte demais? — perguntou Will.

— Com certeza seria apostar demais na sorte, mas temos alguma outra ideia? — perguntou Nico, olhando para Sam, que parecia ter começado a ter uma ideia mais cedo.

— Não.. não olhe pra mim.. — disse Sam — Minha ideia não era tão diferente e envolvia talvez tentar chegar na carruagem para fugir caso fosse necessário.

— A tempestade nos seguiria facilmente. — falou Anúbis.

— Imaginei isso também. — respondeu Sam.

— Posso ficar tentando atirar no que sobrou enquanto esperamos se o Anzu vai querer atacar de novo ou não… — sugeriu Will, olhando para mim — Quanto mais você aguenta segurar o escudo?

— Espero que seja o suficiente. — falei.

Eu realmente esperava que fosse suficiente. Eu já estava segurando aquela barreira por mais tempo do que eu havia segurado uma em toda a minha vida. E ficar desativando e ativando ela não era exatamente a coisa mais fácil do mundo também. Mas tentamos esperar um pouco com Will pronto para soltar outra flecha, mas o último pássaro restante havia sumido. Talvez eles não fossem tão burros assim e estavam tentando me cansar. Cada minuto que passava sem nada acontecer era torturante, e eu praticamente ouvia a cabeça dos outros tentando montar um plano enquanto eu começava a sentir cansaço também.

— Precisamos de um plano B. — disse Sam.

— Tem… como invocar uns fantasmas aqui… — disse Anúbis lentamente — Aqui era um hipódromo afinal de contas. Não é como se eles fossem receber algum dano.

— Está pensando em usar uns de isca? — perguntou Nico, claramente já entendendo o plano.

— Se eles claramente pararam de atacar, talvez esperando a gente fazer algo, podemos fingir que estamos fazendo algo. — disse Anúbis dando de ombros — A visibilidade não deve estar das melhores para eles também.

— Quatro fantasmas então? — perguntou Will.

— No máximo dois… — falou Anúbis — O escudo continua aqui, então tem que ter sentido alguém continuar aqui. Quando forem atacados, mas passarem direto por eles, nós tentamos atacar. Podemos pedir para os fantasmas ficarem bem perto do escudo.

— Eu invoco um e você o outro? — perguntou Nico — Consegue esconder nós dois também só por via das dúvidas de talvez a visão deles não está tão ruim assim? Até porque aqui nessa bola não tem uma tempestade de areia rolando.

— Pode ser. Sei que não é perfeito mas… — concordou Anúbis e todos os demais afirmaram com a cabeça.

Era um plano com problemas? Sim. Mas era melhor do que nós mesmos sermos iscas, ou esperar infinitamente até minha energia acabar ou lutar no meio de uma tempestade de areia que não te deixava respirar nem abrir os olhos direito.

Apesar de qualquer problema que o plano pudesse ter, nem tivemos oportunidade de executá-lo, pois o Anzu deu um mergulho poderoso, veloz, com toda sua forma, impulsionado pela areia e acompanhado de relâmpagos explodindo para todo lado e envolvendo seu corpo. Foi um ataque tão forte que quebrou o escudo. O monstro bateu em todos nós de formas diferentes, dolorosamente na lateral esquerda ou direita dos demais, de raspão ou pegando a metade do corpo, mas eu fui a mais azarada.

O Anzu bateu em cheio na minha barriga, me deixando sem ar e me carregando para longe. Eventualmente, sentindo meus órgãos esmagados e o choque estalar no meu corpo, eu caí no chão com uma dor intensa na minha barriga e minha tentativa desesperada de puxar ar só vem um quilo de areia entrar na minha boca. Eu mal tinha noção do que acontecia ao meu redor, nem processava o monstro rugindo sobre mim, só sentia dor, desespero pelo ar que não vinha e se misturava com a areia e vômito entalados na garganta. Tinha certeza que iria morrer ali.

Não vi, pois minha visão ficava turva e só via a cara e a juba do monstro, mas aparentemente Anúbis tinha conseguido se agarrar à juba do Anzu quando ele avançou sobre nós e foi puxado junto, combatendo eletricidade com putrefação. Eu estava atordoada demais para entender o que acontecia. Só tive uma mera noção do monstro sendo puxado à força de cima de mim por alguém, com certeza Anúbis, e então Will, com o nariz sangrando, descabelado e mancando, vindo cuidar de mim. E mesmo identificar que era Will eu só consegui porque, em minha visão embaçada, a cabeleira loira que vi só podia pertencer à ele.

Ouvia barulhos de conflito, logo notei que a areia da tempestade tinha diminuído drasticamente, e Will me ajudou a levantar um pouco, me virar e tossir e vomitar toda a nojeira que se acumulava na minha garganta. E com certeza muita cura já havia sido feita, pois apesar da dor, minha visão ficava melhor e eu começava a entender mais o que acontecia.

Atordoada, toda cheia de baba, e com Will ao meu lado me impedindo de cair sobre meu próprio vômito, eu olhei adiante e vi Nico, Sam e Anúbis lutando contra o Anzu e o último dos pássaros. Algo que só era possível porque o Anzu estava já com as asas e parte do corpo enrolados em faixas de linho. Me sentia tonta, exausta, meus olhos lacrimejavam e o ar queimava quando entrava na minha garganta. Mas também foi legal ver, no meio do embaçado das lágrimas, ver Nico e Anúbis acabando com o Anzu. Leão idiota.

Eu nem prestei atenção ao pássaro, que lutava sozinho contra Sam, e nem em Will falando comigo, só encarei aquele leão alado idiota. Ele estava cada vez mais enrolado nas faixas de linho que putrefaziam seu corpo. Tanto que a área da juba, onde tudo havia começado com Anúbis se agarrando nele quando ele me empurrou, estava horripilantemente feia. Com pedaços caindo no chão de um jeito nojento. E… eca… enfim, Anúbis realmente caprichou na putrefação.

Mas Anzu era forte, se remexia e conseguia arrebentar algumas, mas Nico e Anúbis logo atacavam quando isso acontecia. O sangue do Anzu se misturava com as faixas de linho arrebentadas, inteiras ou cortadas.

O Anzu não estava nas melhores condições. Anúbis e Nico logo faziam questão de deixar o monstro pior do que ele me deixou. Ele começava a se mexer mais fracamente, colecionando os mais grotescos machucados. As faixas de linho se apertavam e acumulavam tanta névoa negra ao seu redor, que era difícil ver alguma forma do Anzu. As faixas de linho se apertavam especialmente no pescoço dele, tentando enforcá-lo ou talvez até decapitá-lo na pura força bruta. Prova que Anúbis estava com muita raiva, o que sinceramente não era novidade pra mim.

Ah mas como eu também tava com raiva daquele bicho. Meu peito e barriga ainda doendo só me lembravam ainda mais disso. Então com o pouco de força que ainda tinha, estiquei minha mão e peguei minha varinha, esquecida ali do lado, e apontando para o Anzu, gritei:

— HA-DI!

O feitiço abriu caminho entre Anúbis e Nico, atingindo o Anzu em cheio. E isso pela cara era o golpe final que ele precisava, pois ele logo se desfez no lugar. No segundo seguinte, Anúbis já corria na minha direção e Nico ia ver se Sam precisava de ajuda.

— Hey… — falei fracamente quando ele nos alcançou.

— Desculpe… não consegui te tirar da frente a tempo. — disse ele com muito pesar no coração, mas tudo o que eu notava era como ele também estava machucado e sangrando, uma visão que ainda era novidade.

— Ela vai ficar bem. — disse Will, soltando um suspiro em seguida.

— Precisa de mais pra me derrubar. — falei enquanto Anúbis colocava a mão direita na minha bochecha.

Notei nessa hora que ele havia aparentemente quebrado o outro braço, ou algo do tipo, em algum ponto de todo o caos. O braço esquerdo dele pingava de sangue e pendia sem mexer. Mesmo a camisa preta estava obviamente molhada de sangue. O cabelo estava chamuscado e bem mais arrepiado que o normal também e acho que Will notou também, pois logo esticou o braço para curar Anúbis ao menos um pouco.

— Não tô acostumada a te ver machucado assim. — falei, olhando todo o estrago.

— Também não estou acostumado a estar machucado assim, sem curar rápido e ainda com sangue vermelho. — respondeu ele, não parecendo se incomodar tanto quanto eu me incomodava.

— Sam acabou com o outro pássaro. Vamos sair daqui e esperar Carter onde ninguém pode nos achar antes que apareçam mais monstros. — sugeriu Will — Já tenho braços demais para curar, inclusive o meu. E Sadie ainda merece umas curas mais.

Me levantei com dificuldade, Anúbis me ajudou e eu deixei, apesar de ele também não aparentar estar tão bem. Todos nós estávamos acabados e eu sentia o olhar atento de Will sob cada um de nós, provavelmente listando mentalmente todos os tratamentos médicos que teria que fazer em cada um de nós. Apesar dos mais diversos ferimentos, e com um apoiando o outro, nos arrastamos o mais rápido que conseguimos para a nossa carruagem. O que sinceramente não era tão rápido assim.

As árvores que rodeavam a grande área que guardava o obelisco estavam queimadas, algumas ainda pegando fogo, mas nossa carruagem, comprovando que era realmente bem feita, estava muito bem. Tinha sim umas partes quebradas e queimadas, mas estava magicamente se auto-reparando. Nosso cocheiro, que não passava de uma sombra fantasmagórica, continuava sentado em seu lugar como sempre, como se nada pudesse atingi-lo (provavelmente nada podia mesmo). Nos arrastamos de muitíssimo bom grado para dentro da carruagem e logo ela partiu para a praia, em busca de um lugar discreto onde poderíamos esperar por Carter e os demais.

Foi o tempo precioso que precisávamos para nos curar, comer algo e pegar novidades do pessoal. Deixamos o pessoal da Ásia ter o descanso merecido e não mandamos nenhuma mensagem para eles, mas até com Nova Roma falamos e se a batalha final estava mesmo chegando, era bom eles darem um jeito de fazer a nada curta viagem até o Egito. Mas, nada foi mais importante do que falar com Carter, já que estava ficando escuro e entre o barulho das ondas do mar, ouvíamos o de monstros bem distantes que não tinham nos visto ainda, embaixo de uma pequena área coberta de uma arquibancada romana em ruínas tal como as várias antigas construções ao seu redor.

— Por favor, diz que você já está chegando… — falei ao celular, não ligando a câmera pois não confiava que nossas caras estavam tão melhores assim.

— Tivemos uns problemas… Encontramos um monstro grande no caminho, deixamos Bastet lutando. Temos que voltar para ajudá-la. — respondeu Carter, com a voz apressada — Mas sim, estamos chegando nessa localização que você mandou. É uma praia né?

— Pera! Volta! Como assim você deixou Bastet lutando sozinha? — perguntei — Você está bem?

— Ela que pediu… insistiu… para que viéssemos pegar vocês. — falou Carter.

— Bastet ficou lutando sozinha? — perguntou Anúbis, ao meu lado, ouvindo a conversa — Com quem ela está lutando?

— Com quem ela está lutando? — repeti a pergunta para Carter.

— Labbu. — respondeu Carter e olhei para Anúbis, silenciosamente perguntando se ele tinha ouvido, a cara de poucos amigos dele me fez crer que sim.

— Então apresse o máximo possível! A localização dá pra umas ruínas de um hipódromo. Bem na praia. — falei — Estamos numa parte debaixo das arquibancadas. Tipo uma sacada que as arquibancadas têm. Conseguimos ver a praia daqui.

— Daqui a uns minutos devem nos ver então. — prometeu Carter — Acho que já estou vendo o começo do que parece ser uma terra firme.

Desligamos então. A bateria do celular era tão preciosa quanto nossa própria bateria. No caso, a nossa bateria estava lentamente carregando. E era importante que ela carregasse logo, pois já tínhamos outra luta pela frente. Eu suspirei, torcendo para que depois disso uma cama bem quentinha e tranquila estivesse me esperando para encerrar o dia.

Enquanto isso, Nico estava grudado na janela, tentando ver o pouco que a escuridão deixava a gente ver do mar. Carter com certeza nos veria primeiro. Aquela área de ruínas romanas não era tão longe assim da cidade, que com certeza já estava ligando as luzes. Eu estava cansada, sentada em minha cadeira de sempre de nossa viagem e agarrada à uma garrafa d’água que compramos aos montes em Beirute.

Olhei para Anúbis largado na cadeira ao meu lado. Parecia tão cansado quanto eu e essa visão era tanto uma novidade quanto me enchia de preocupação. Talvez por isso que, inconscientemente, eu agarrei a mão dele largada no braço da cadeira. Ele olhou pra mim, com aqueles olhos de chocolate de sempre e abriu um pequeno sorriso.

— Tudo bem? — perguntou.

— Na medida do possível. — respondi — Minha barriga ainda me incomoda um pouco, mas não quero incomodar Will. Só está um pouco dolorida mesmo.

Will, cujos roncos vindos do fundo da carruagem eu conseguia ouvir muito bem. Em breve teríamos que acordá-lo para a parte 2. Mas, por enquanto, era melhor ter nosso médico nas melhores condições possíveis.

— Quem é Labbu? — perguntei.

— É um monstro que alguns povos da Mesopotâmia acreditavam. — explicou ele, notando a preocupação no meu olhar — Bem velho… mais que o Anzu. Mas não tão conhecido. É basicamente um dragão aquático criado por Enlil para acabar com os humanos que perturbavam seu sono fazendo barulho demais.

— Que motivo mesquinho para se criar um monstro e começar um assassinato em massa. — falei e notei um pequeno sorriso chegando em seus lábios.

— Sabe que motivo mesquinho pra fazer algo é nossa especialidade. — respondeu ele.

— Não “nossa”...- comentei, notando ao o que ele se referia, “nós”, os deuses — Está do lado mortal das coisas agora. E mesmo assim, você não faz coisas mesquinhas assim…

— Depende do ponto de vista. — respondeu ele.

— Tenho certeza que não. Eu li sua página da Wikipédia. — comentei, fazendo ele rir de leve — O que achou da sua primeira batalha pra valer como mortal?

— Só gostaria que não tivesse que ter sido com alguém do nível do Anzu. É um demônio sumério muito velho. — respondeu ele, soltando um suspiro — Não sei mais muito onde está o limite do tanto que posso fazer… estava com medo de pedir magia demais de mim mesmo e acabar não sendo uma quantidade que tenho mais ou que o corpo suporte.

— Mas vai pegar o jeito de novo né? — perguntei.

— Claro. Não se preocupe. — respondeu ele — O fato de ter sido o Anzu pode ter sido ruim, mas também foi bom. Testei bem a busca pelos novos limites. E deu tudo certo no final… apesar de tudo… Não gostei nem um pouco do que ele fez com você.

— Não finja que eu não vi o tanto que você atacou ele com raiva. — falei.

— Você que deu o raivoso golpe final. — lembrou ele.

— Estou vendo a sombra de alguma coisa na água. — disse Nico.

Sam, que até então estava silenciosamente largada em uma das cadeiras também, rapidamente se ergueu e foi correndo até a mesma janela de Nico. Pouco depois, meu celular apitou com uma mensagem de Carter falando que já estava vendo a praia. Eu estava cada vez mais ansiosa. A situação de Bastet me preocupava e o barulho de monstros nos procurando não me deixava nem um pouco calma.

O lado ruim, foi que quanto mais perto Carter chegava, mais os monstros deduziam onde a gente podia estar. Eles começavam a ir para a praia na qual o barco de Carter ia parar, a mesma praia que nós estávamos agora encarando. Por mais que não passasse de alguns ghouls, ainda era problemático. Eventualmente nos levantamos também e passamos a ver as bolas de fogo de Zia se livrando dos ghouls de longe. Sam se transformou numa águia e foi ajudar a se livrar de vários também. Eu queria ajudar, mas a situação não estava necessariamente ruim e eu claramente precisava descansar para a parte dois.

Quando a carruagem começou a se mover em direção ao barco, Nico e Anúbis abriram cada um uma das portas da carruagem e começaram a se livrar dos ghouls que conseguiram chegar perto o suficiente de nós. Mas chegou num ponto que a carruagem estava rápida demais e simplesmente passava por cima de parte dos ghouls e deixava o resto para trás. Não tive nenhuma dó dos ghouls, já estava cansada e isso foi muito útil.

Provando que nossa carruagem ainda tinha um ou outro segredo escondido, ela simplesmente venceu os últimos metros que nos separam do barco dando um grande salto. A carruagem pousou delicadamente no barco, como uma pluma, e no segundo seguinte, Sam pousou também e voltou à sua forma normal.

— Onde deixaram Bastet? — perguntei, apressada, pulando da carruagem e indo em direção ao meu irmão.

— Não está muito longe. — disse ele enquanto o barco começava a andar na direção do mar — Porquê você está com cara de quem acabou de sair de uma luta? Aqueles bichos na praia atacaram vocês?

— Eles e outros mais. — respondi — Tivemos uma festa de boas vindas. Mas acabamos com ela.

— Melhor descansar enquanto podem então… — disse Zia.

— Estamos fazendo isso… — respondeu Nico — Will vai ficar bem confuso por ter dormido na praia e acordar num barco…

Apesar de já ter tido minha dose de descanso antes, mesmo que pouca, eu tentei descansar no que restava de caminho até Bastet. Me apoiei na amurada do barco e logo Anúbis e Carter chegaram também. Notei que eles se entreolharam, mas nem comentei nada. Se Carter notou a falta de imortalidade de Anúbis, também não comentou nada. Vi também Drew ao longe, me encarando, ainda era esquisito pensar que ambas faziamos parte do mesmo mundo maluco mágico. Talvez ela estivesse pensando o mesmo enquanto Paulo ia falar com Nico.

— Bastet vai ficar bem. — comentou Anúbis ao meu lado — O Labbu pode ser preocupante, mas ela lutou por séculos contra Apófis. E Apófis é bem mais preocupante que o Labbu.

— E a gente se livrou de Apófis também. — emendou Carter.

— Eu sei. Só espero que a gente chegue logo. — falei.