Os Deuses da Mitologia

166 ZIA - Mares Históricos


Notas iniciais
desculpa demora, ta foda. to ficando doente com uma frequencia bem ruim ultimamente. no momento, estão em locomoção os grupinhos: - Indo pra o Sudão: Carter, Zia, Paulo, Drew - saindo do Brasil: Leo, Calipso,Magnus, Jacques, Alex, Festus, André (Brasileiro que tava na Nigéria e não sabe jogar futebol), Meg e Apolo no momento, estão na ÁSIA, os grupinhos: - Indonésia: Lavínia, Hazel, Annabeth, Kayla, Grover, Percy, Piper, no momento, estão na ÁFRICA, os grupinhos: - Nigéria : Olujime no momento, os grupos que estão na EUROPA são: - Indo para a Itália: Caçadoras de Ártemis (Thalia, Ártemis, etc), Clarisse, Reyna, Ciara - Saindo da França: Blitzen, Hearthstone, Mestiço, Mallory - Israhell : Sam, Anúbis, Sadie, Will, Nico - Saindo da Europa: Maias-Astecas: Victoria, Micaela (a menina q parece Annabeth) e Eduardo (guri chato que o Mestiço deve estar querendo esganar)

ZIA

Já estava escuro quando nos aproximamos de onde havíamos deixado Bastet e isso me preocupava, lutas no escuro estavam longe de serem as coisas mais fáceis do mundo. Mas havia algo mais que me incomodava enquanto eu olhava para Sadie e os demais. Algo especificamente em Anúbis. Carter conversava normalmente com Sadie, mas me encarava às vezes, notando que eu estava encarando demais o deus. Eu conseguia ver no olhar de Carter para mim que ele estava se perguntando o motivo disso, mesmo que eu não fosse exatamente muito fã de Anúbis.

Estávamos todos em diferentes níveis de cansaço, Will havia acabado de acordar e relaxava um pouco com uma garrafa d'água na mão. Não podíamos abusar sem limites dos poderes de cura de Will, então os demais estavam com um ou outro pequeno arranhão ou hematoma. Nada muito grande ou preocupante. Foi aí então que eu me toquei do que havia de diferente e apontei imediatamente pra cara de Anubis, mais especificamente para a bochecha onde havia um pequeno corte, tão irrelevante quanto um corte feito com papel.

— VOCÊ ESTÁ CORTADO! — exclamei.

— Decidimos que seria perda de tempo usar os poderes do Will para coisas tão simples quando ainda temos que salvar Bastet. — disse Sadie, me pergunto se tentando me fazer não notar o detalhe que tinha notado.

— Ok, mas não era pra ele estar precisando disso e para um corte tão besta assim estar ainda na cara dele! — exclamei — Ele já se curou de coisa muito pior muito mais rápido.

— Por acaso… ? — perguntou Carter, deixando o resto da pergunta no ar.

— Muito aconteceu em Istambul. — falou Anúbis.

— Quando você mencionou uma vez, semanas atrás, que ele estava pensando em virar mortal… — disse Carter, olhando para Sadie — Não achei que fossem realmente ir até o final com essa ideia.

— É, é… — disse Sadie agarrando-se ao braço de Anúbis enquanto eu via, logo atrás, Drew levemente interessada na conversa — Ele tá mortal agora e ninguém pode mais encher o saco de que ele não pode ficar com uma mortal e que mesmo que ficasse, ia claramente dar ruim alguma hora porque eu ia envelhecer e morrer e ele não. Pronto. Foi isso que aconteceu em Istambul. Alguma pergunta?

— Fizeram Crepúsculo reverso então? — perguntou Drew, do nada.

— Ãh? — perguntou Sadie, mas todos olhamos confusos para Drew.

— Bela virou vampira pra ficar com o Edward. — explicou Drew, dando de ombros — Vocês fizeram o contrário.

— Vou ignorar essas últimos segundos de conversa… — disse Sadie, voltando à ignorar Drew mais uma vez — Alguma pergunta… preferencialmente não idiota, maninho?

— Várias. — respondeu Carter, tão incrédulo quanto eu — Você tem certeza disso? Tanta gente que fica tentando ter a imortalidade.

— Eu já cansei dessa pergunta… — resmungou Anúbis, revirando o olhar — Sim, eu tenho certeza. Não sei mais de quantas formas diferentes eu posso dizer que 5 mil anos é coisa demais.

— Bastet sabe? — perguntei.

— Não. — respondeu Sadie.

— Mas não deve demorar pra perceber. — completou Anubis.

— Se não tem mais perguntas, vamos descansar enquanto ainda podemos. — disse Sadie, puxando Anúbis para um cantinho do barco onde poderiam sentar e ficar de olho em tudo que acontecia.

Com certeza ela não demoraria muito para perceber, pois poucos minutos mais de viagem depois que eu e Carter decidimos parar de perturbar Sadie e Anúbis, ouvimos o rugido do Labbu no meio da escuridão. Ouvimos também barulhos que confirmavam que a batalha ainda acontecia, o que significava que Bastet ainda estava viva.

Nos preparamos do jeito que era possível, a luz da lua pouco ajudava. Conseguia, com esforço e forçando os olhos, ver um pouco da forma gigante do Labbu, mas não tinha ideia de onde, no meio do combate que se desenrolava ali, estava Bastet.

— Alguma ideia como conseguir enxergar melhor? — perguntou Drew.

— Alguém tem fogo? — perguntou Will, preparando uma flecha com algo na ponta.

— Eu. — respondi.

— Acende aqui a ponta da flecha. — pediu ele e prontamente o fiz.

— Não consegue brilhar o suficiente pra gente conseguir ver melhor? — perguntou Nico.

— Ainda tá muito longe. — respondeu Will, soltando a flecha no ar em direção ao combate.

A flecha cortou a distância que nos separava do Labbu, iluminando o seu caminho. do Labbu, iluminando o caminho com o fogo em sua ponta. E foi assim, graças ao fogo, que vimos Bastet grudada no Labbu, com suas adagas enfiadas no corpo do monstro, que se sacudia tentando se livrar dela. A flecha, no entanto, devido à distância, caiu inofensiva no mar. Mas como uma flecha com uma pequena tocha flamejante na ponta não ia passar despercebida naquela escuridão, o Labbu olhou em nossa direção e rugiu ruidosamente e com muita raiva.

Mas claro que encarar a gente e rugir não era a única coisa que o Labbu ia fazer, apesar da pouca visibilidade, ficou bem claro que ele começou a nadar como um torpedo em nossa direção.

— Cadê o nosso especialista em briga marinha quando precisamos dele? — perguntou Nico em voz baixa.

Will começou a brilhar como um farol cegante ou um sol particular que tentava nos ajudar a ver algo em meio à falta de sol. Eu e Sadie começamos a atirar bolas de fogo e explosões contra o monstro que se aproximava enquanto Bastet, como se estivesse guardando energia até então, invocou seu avatar brilhante gigante e começou a dar uma chave de braço no Labbu.

A chave de braço de Bastet até tinha diminuído a velocidade do Labbu e o deixado um pouco agitado e desgovernado, mas ele estava determinado. Flechas de Will começaram a cair na direção do monstro e Sam se transformou num pássaro enorme, gigantesco mesmo, o maior que já tinha visto, e agarrou Anúbis para o levar para o centro do caos todo, junto com Bastet.

— TOMA CUIDADO! — gritou Sadie.

— VOCÊ TAMBÉM! — gritou ele de volta.

Com o Labbu praticamente em cima de nós, Carter preparou um escudo em volta do barco, o que claramente pedia demais da força dele devido ao tamanho do barco. O escudo piscava, o Labbu se aproximava, Carter suava, Sam soltou Anúbis sobre o Labbu, e logo um segundo avatar tentava impedir o monstrengo de se aproximar. Mas ele era muito grande e muito forte. Eu já conseguia ver o golpe vindo, conseguia imaginar o barco virando e o frágil escudo de Carter que mal conseguia se manter por um segundo, se desintegrando por completo. Contudo, no último segundo, Sadie parou de atacar o Labbu e se juntou à Carter na construção do escudo e, com todo o fôlego que tinha, Drew gritou:

— PARE!

Enfeitiçado pela voz de Drew, o Labbu não parou imediatamente como um carro em alta velocidade apertando o freio, mas ficou confuso e diminuiu sua velocidade. Uma mudança que foi o suficiente para o escudo de Carter e Sadie aguentar o ataque. O barco até sacudiu um pouco, mas nada que um pouco de equilíbrio e experiência adquirida nos metrôs de Nova York não pudesse resolver.

Voltei a atacar o monstro imediatamente, e vi que, apesar da confusão que anuviava sua mente, ele ainda se debatia e resmungava de dor. E como não? Agora de perto, podia ver que enquanto apertava o Labbu em sua chave de braço, Bastet fincava as poderosas e longas garras de seu avatar na pele do monstro e, logo abaixo em outra parte do corpo longo e aparentemente sem fim do estranho dragão aquático, Anúbis dava seu próprio tempero espalhando putrefação pelo corpo do nosso adversário.

Não fui a única que começou a atacar, Sam também se destransformou de pássaro e caiu com velocidade e precisão sobre a cabeça do Labbu, fincando seu machado entre os olhos dele. Sangue jorrava, o monstro gritava, mas ele ainda parecia mais com raiva do que perdendo. Exatamente por isso que, apesar do barco tentando criar uma distância segura entre si e o Labbu, quando as palavras de Drew já pouco significavam na cabeça dele, ele começou a girar o corpo numa velocidade assustadora. Mal consegui ver Sam se transformando num pequeno passarinho e saindo dali quando tudo começou a lentamente virar um liquidificador gigante.

Ela pousou ao meu lado e vomitou no mar, tonta e cambaleante. Já o nosso barco, ele tentava fugir do redemoinho criado pelo monstro, que nos girava e sugava para dentro.

— ALGUÉM, POR FAVOR, FAÇA ELE PARAR DE GIRAR! — gritou Sadie, se agarrando onde dava no barco.

Todos nós nos agarramos em alguma parte do barco. Já não era questão de ser especialista no metrô de Nova York, já estava impossível continuar de pé. Mas nem imaginava o quão ruim deveria estar para Bastet e Anúbis, com o Labbu girando tão rápido que eu nem conseguia distinguir mais os dois.

Carter, Sadie e eu tentamos soltar algumas magias, mas o movimento e a tontura afetaram muito a nossa mira. Will começou a errar boa parte das flechas também e as que ele acertava a força giratória do monstro simplesmente repelia a flecha e a mandava para longe.

— PARA DE GIRAR! — gritou Drew — PARA DE GIRAR AGORA!

O movimento do Labbu diminuiu quando o charme da voz de Drew tomou conta de sua mente mais uma vez. Aproveitando a chance, Carter foi rápido e invocou um grande punho mágico, que socou o Labbu, deixando ele ainda mais atordoado. Mas eu sabia que mesmo levando um soco na cara, esse estado não iria durar muito tempo, então preparei um grande disco de fogo, que lancei na direção dos olhos dele. Infelizmente, mesmo trôpego, ele conseguiu desviar de minhas chamas e das flechas de Will, que teve a mesma ideia que eu. Mas Sadie também entrou em ação e, gritando por mais um feitiço, fez aparecer vários hieróglifos por parte do corpo do Labbu, fumaça e raios começaram a sair desses hieróglifos, causando dor ao nosso adversário, que logo começou a gritar.

Obviamente, o Labbu não gostou nem um pouco disso. Ele lutou contra os nossos ataques e o feitiço de Sadie e a voz de Drew, que mais do que simplesmente o irritava, e mergulhou rapidamente. Com tanta raiva e determinação, ele estava ainda bem rápido apesar de tudo que havíamos jogado contra ele e, assim, ele atacou o barco de baixo pra cima.

Não houve tempo para Carter e Sadie criarem um escudo forte e grande o suficiente em tão pouco tempo. Quando dei por mim, já estava na água e o Mediterrâneo me engolia. Isso não era bom. Isso não era nada bom.

Nadei desesperadamente para a superfície sem entender muito bem o que acontecia, mas torcendo para todos estarem suficientemente bem. Chegando na superfície, o mar estava agitado, raivoso, principalmente pelo Labbu se debatendo e tentando nos fazer de comida. Era difícil ficar parada sem engolir água. Ondas maiores que eu eram criadas pela revolta do Labbu, e se jogavam contra mim e os outros.

— ZIA! — ouvi Carter e achei ter o visto por um segundo, antes de uma onda o engolir também.

— CARTER! — gritei e nadei na direção dele, para então apenas ver Will e Nico, juntos, mais além, logo à frente do barco virado.

— CARTER!? — ouvi o grito de Sadie, mas não a vi.

— TEMOS QUE IR PRA TERRA! — gritou Will — ONDE ESTÁ A TERRA?

Não respondi, apenas mergulhei para onde havia visto Carter pela última vez. Se a onda tinha o puxado para o fundo, era para o fundo que eu iria. Tal como esperado, eu encontrei Carter lá no fundo. Estava segurando ar, e nossos olhares se cruzaram segundos antes do corpo poderoso do Labbu bater contra nós. Água entrou nos meus pulmões e tive a certeza que ia morrer. Meu corpo doía onde havia sido atingido, e eu não via mais Carter. Minha visão estava turva, eu ia afundando mais e mais naquela cova aquática.

Pouco do que eu via fazia sentido, a água abria caminho na minha garganta de forma dolorosa, parecendo rasgar tudo. Mas talvez não fosse ainda minha hora, pois uma mão agarrou na minha. Dor se espalhou pelo meu corpo. Meu braço sendo puxado não parecia estar muito bem. O ataque do Labbu fez algo com ele. Mas o importante era que o braço misterioso me puxou para a superfície.

Tossi desesperadamente assim que o ar tentou entrar em meus pulmões, mas sabia que isso não era o suficiente para ficar bem. Contudo, ao menos foi o suficiente para eu entender um pouco mais do que acontecia. Paulo havia me salvado e agora Will e Nico tentavam me puxar para cima do barco virado, o que foi muito doloroso com meu não um, mas dois braços machucados.

-Carter… — resmunguei.

— Sadie… ali… com ele. — respondeu Paulo, não ofegante, mas arriscando o inglês.

Enquanto os demais faziam boa parte do esforço em me colocar em cima do barco e Will logo se preocupava em me ajudar em meus acessos de tosse, eu vi Sadie se aproximando com Carter. Carter estava com uma cara que provavelmente era igual a que eu estava, a cara de quem tinha quase afogado e havia sido resgatado. A diferença era que o ato heroico parecia ter sido mais difícil para Sadie do que para Paulo. Não era nada surpreendente, salvar outra pessoa de um afogamento é na verdade mais difícil que parece. A outra pessoa pode facilmente te afogar também em meio ao desespero. Força era algo que podia ajudar muito… e o braço de Paulo era muito maior.

Tentando respirar e voltar para a realidade enquanto cuidavam de mim e traziam Carter para cima também, vi qual era a situação na qual estávamos.

Bastet e Anúbis tentavam controlar o monstro, faixas de linho tentavam ganhar a briga de força e deixar o Labbu de boca fechada, para que não nos devorasse, mas ele se debatia demais, mergulhava fundo e voltava para a superfície numa velocidade grande demais, e no meio de tudo isso, com pulmões mortais, Anúbis tossia, meio engasgado, meio sem ar. O que não ajudava na força das faixas de linho. Sam voava em círculos tentando, nos poucos segundos de abertura que havia, furar os olhos do Labbu com garras afiadas de águia.

— Precisamos de um plano. — disse Nico — Até estamos conseguindo machucar esse bicho, mas ele não parece se afetar muito com nada que tentamos.

— Eu tenho… uma …. ideia. — disse Carter, tossindo sem parar — Mas… não é… muito… boa.

— Compartilhe e tentamos melhorar… — disse Drew, também ainda pegando fôlego.

— Então… cobras geralmente… se mata… cortando da boca… até o rabo. — disse Carter.

— Esse bicho é gigante! Como vamos fazer isso? — perguntou Sadie, sem nem tirar os olhos do caos que continuava com Anúbis, Bastet e Sam, e agora com flechas de Will voando para o Labbu, fazendo ele gritar de dor com as flechas atingindo seus olhos.

Mas claro que o Labbu não ia deixar a gente conversar. Mesmo com os ataques que recebia, e com os olhos jorrando sangue e provavelmente só vendo qualquer coisa entre “nada” e “quase nada”, ele avançou na nossa direção com a bocarra escancarada e uma ideia apareceu na minha cabeça.

— Sadie, Carter! — exclamei — Na boca dele! COM TUDO!

Sadie olhou pra mim com o canto do olho por um seguro, o suficiente pra eu ver que ela tinha entendido. Certeza que Carter entenderia também, mas não pude olhar pra ele e nem sabia se ele teria forças depois do quase afogamento. Não tivemos muito tempo para nos preparamos, atrás de nós, o resto do pessoal gritava, na frente de nós, Anúbis, Bastet e Sam também. No tempo certo, eu, com Sadie ao meu lado, lançamos nossas magias. Com um segundo de atraso, Carter, logo atrás de mim, fez o mesmo.

O Ha-di de explosão dos dois acompanhou minha coluna de fogo em direção à goela do monstro. Usei toda a minha força naquele fogo, até senti meu corpo pesando e minha cabeça ficando tonta. Mas o Labbu também sentiu. Ele gritou de dor, cheiro de frango frito subiu o ar, ele ergueu a cabeça para o céu, a fumaça saía de sua boca sem parar e então, ele caiu de costas, levantando uma onda que ameaçou virar o barco mais uma vez.

Nós três caímos exaustos no que restava do barco enquanto Sam pousava ao nosso lado e voltava ao normal e Bastet e Anúbis, também voltando ao normal, vinham se juntar à nós. Parecia até milagre, mas o Mediterrâneo logo engolia o morto ou desacordado Labbu. Não me importava qual contanto que a gente conseguisse continuar nossa viagem e ficasse bem longe dali. Mas como, a carruagem que Sadie e os demais trouxeram com certeza tinha afundado e o barco estava virado. Não passava de um casco. Estávamos exaustos no meio da noite sem a menor ideia de pra que lado estava o Canal de Suez.

— O QUE ACONTECEU COM VOCÊ? — exclamou Bastet, assim que subiu no barco, me tirando de meus devaneios.

— Bastet… — disse Sadie, levantando-se com pressa e ficando entre Bastet e Anúbis, falando em voz suplicante e exausta.

Bastet encarava Anúbis num misto de incredulidade, preocupação e raiva. Claramente ela tinha notado que ele agora era mortal, e não estava processando aquilo muito bem. E tem algum jeito de processar aquilo bem quando conhece a pessoa à tantos séculos e milênios?

— O QUE ACONTECEU? QUEM FEZ ISSO? — gritava Bastet enquanto o barco, provando que apesar de tudo ainda funcionava, começou lentamente a andar.

— A gente pediu pra um gênio em Istambul… — disse Sadie apressadamente claramente tentando impedir que Anúbis respondesse, já que havia alta chances de Anúbis e Bastet começarem a brigar como cão e gato, literalmente e figurativamente.

— VOCÊS O QUÊ?! — gritou Bastet ainda mais alto.

— Será que dá pra ao menos parar de gritar?! — reclamou Anúbis — Já foi um dia longo demais pra todo mundo para ainda terem que aguentar você gritando!

— Eu não fui a que tomei uma decisão burra aqui! — exclamou ela, ainda falando alto, mas ao menos meus ouvidos não doíam mais.

— Não foi uma decisão burra! — rebateram Sadie e Anúbis ao mesmo tempo.

— Você concordou com isso? — perguntou Bastet, olhando para Carter.

— Me deixa fora dessa. — respondeu Carter.

O resto de nós só acompanhava a discussão, exaustos. Nesse ponto, Bastet aparentemente se lembrou de que tinha plateia e percorreu os olhos por nós e, quando voltou a brigar com Anúbis, foi num idioma completamente diferente, claramente para nenhum de nós entender. Até Sadie ficou confusa, mas Anúbis respondeu, entendendo cada palavra.

Não era egípcio, nem copta, eu teria entendido ao menos uma palavra ou outra se fosse. Não parecia grego, nem latim, e também não era árabe. Seja lá qual era o idioma, incrivelmente, não demorou muito para a discussão acabar. Bastet suspirou profundamente e deu as costas para os dois antes de se sentar em um canto no nosso resto de barco.

Sadie e Anúbis logo foram para outro canto do barco e Sadie estava claramente curiosa pelo conteúdo da conversa. Eu também estava, e podia ver no olhar de Carter que ele também. Mas nos seguramos. Aquilo era entre os dois. E, diante de mim, para meu assombro, vi que Sadie estava crescendo.

Brigas à parte, para alívio de todos, o barco poucos minutos depois parou ao lado de uma praia. Como estava de ponta cabeça, não havia como ele chegar perto demais da areia. Não sabíamos bem quais eram os planos do barco, que parecia ter mente própria, mas terra firme era muito bem vinda. Pulamos do barco para a água e, exaustos, nos arrastamos para a praia, onde nos largamos e sentamos no chão.

— Como vamos continuar até o Sudão desse jeito? — perguntou Nico — Com um barco ao contrário.

— Acho que isso não vai ser um problema. — disse Bastet, apontando para o barco.

Segui o olhar dela e vi que o barco estava ele mesmo tentando se desvirar. Virava de um lado para o outro, tentando fazer a parte que estava embaixo da água ficar pra cima, tal como deveria ficar, ao invés de com o fundo virado para a luz da lua. Ficamos esperando o barco conseguir ter força de se arrumar e esse foi o tempo necessário para, cavalgando direto do solo marinho, a carruagem de Sadie e os demais surgir.

Vários litros de água escaparam do interior da carruagem. Peixes se debatiam e um caranguejo estava agarrado ao banco do cocheiro, mas o cocheiro de fumaça negra e seu igualmente arrepiante cavalo, estavam lá, como se nada tivesse acontecido apesar da carruagem agora sustentar alguns arranhões e estar ensopada.

— Da próxima vez que o mundo resolver acabar de novo, — disse Will — vamos usar o mesmo serviço de locadora de veículos, por favor.

Nico, que parecia ser o mais inteiro de nós, abriu a porta da carruagem e mais outra quantidade absurda de água e bichinhos marinhos saíram de lá. Logo em seguida, o barco conseguiu se virar também. Estava tudo molhado, seja barco ou carruagem, mas tudo parecia estar funcionando.

Com mais energia do que nós, a carruagem pulou para dentro do barco e, nos arrastando como lesmas e torcendo para não ter mais monstros no caminho, entramos novamente no barco, dessa vez encharcado sem muitos lugares secos para descansarmos. Foi um resto de noite bem longo. Tentamos secar algumas camas da carruagem com magia para que pudéssemos descansar. Deu meio certo. Mas quando o sol raiou no Mar Vermelho, eu particularmente ainda estava mais cansada do que gostaria.

— Bom dia. — disse Carter quando eu acordei.

— Bom dia. — respondi, olhando para onde estávamos.

Fui a última a acordar e ver o Mar Vermelho nos rodeando com o Deserto do Saara do lado egípcio e o Deserto Arábico da Arábia Saudita do outro lado. Quase dava para sentir o cheiro da história. Muita coisa havia acontecido no Mediterrâneo também no decorrer dos séculos, mas ali me parecia mais antigo, mais enigmático. Sei lá.

— Estávamos esperando muito problema no Canal de Suez, né? — perguntou Carter repentinamente, também olhando o horizonte junto comigo.

— Sim. — concordei.

— Mas só tivemos o Labbu… — comentou ele — Não estou reclamando, mas…

— Sim. Estranho, né? — perguntei — Se queriam tanto deixar a gente longe, porque deixaram a maior parte da segurança só com o Labbu.

— Tivemos problemas em Israel… se isso contar… — disse Sam, que estava ali perto com uma maçã na mão e claramente tinha ouvido a nossa conversa.

— Acho que conta, mas ainda é estranho… — disse Carter.

— Qual o assunto da conversa? — perguntou Bastet, se aproximando junto com Sadie e Anúbis, numa estranha paz embora parecesse haver uma leve tensão entre Anúbis e Bastet, e vergonha no olhar de Bastet.

— A falta de monstros por aqui. — respondeu Sam.

— Será que subestimaram que a gente poderia tentar chegar mais perto pelo Canal de Suez? — perguntou Sadie — Ou o que sobrou do exército deles está tudo no Nilo?

— Provavelmente aquela área que o Labbu estava era bem mais ao norte do Delta do Nilo. — disse Bastet — Tive essa impressão ao menos.

— O Nilo seria o caminho mais direto para chegar até o Sudão… Sem falar das pirâmides de Gizé e dos outros obeliscos. Pode ser que realmente não imaginavam que a gente fosse ir pelo Canal de Suez… — disse Anúbis, dando de ombros — Não me parece muito provável, mas é possível.

— O quanto eles sabem de o resto da Casa da Vida estar no Sudão? — perguntei e Carter e Bastet só deram de ombros.

— Não sei. — disse Carter — De toda forma, ainda temos que cruzar terra de qualquer jeito. O que deixa nosso caminho ainda menos óbvio. Mas ainda assim, tudo isso me parece explicações muito rasas quando o fato é que era para ter mais monstros aqui além do Labbu.

— Então vamos aproveitar a sorte e questioná-la mais silenciosamente… — sugeriu Sadie — Para ela não mudar de ideia…

Todos concordamos naquilo e seguimos viagem. Passando por barcos cheios de encomendas em containers cruzando o mundo entre Ásia e Europa, mas tudo continuava tranquilo. Mesmo quando as terras à nossa direita deixaram de ser egípcias e se tornaram territórios de disputa entre Egito e Sudão. Quando essas mesmas terras começaram a ser indiscutivelmente o Sudão, vindo do lado da Árabia Saudita, vi um grande ser alado se aproximando.

— Algo está vindo! — exclamou Carter.

Todos nós ficamos à postos, tentando distinguir o que era a estranha e grande coisa alada se aproximava. Não parecia um mero pássaro, por isso todos haviam ficado alerta. Quanto mais se aproximava, mais estava claro que o dono ou a dona daquelas asas tinha um corpo bem humanoide.

— Pera! Não façam nada! — exclamou Anúbis — Eu sei quem é!

— Quem? — perguntei, mas pouco depois eu logo identifiquei também — Ah… aquela deusa que estava na reunião no Olimpo.

— Ereshkigal. — disse Carter.

Sem ninguém atacar, Ereshkigal pousou em nosso barco e, com seu olhar frio e distante, olhou um a um de nós, mas notei como o olhar dela demorou mais em Sadie e Anúbis. Pelo jeito que ela olhou para eles, tive certeza que ela entendeu tudo o que havia para entender ali. Tanto que, ela depois deu alguns passos, até ficar de frente para os dois. Ninguém falava nada, ninguém tinha coragem de falar. Por algum motivo, a presença dela arrepiava até o último pêlo da nuca.

Ainda sem dizer uma palavra, o que era extremamente incômodo, Ereshkigal olhou Sadie de cima a baixo e de baixo a cima várias vezes. Depois de uma análise minuciosa e silenciosa, Ereshkigal abriu um pequeno sorriso.

— Eu aprovo ela. — disse Ereshkigal.

— Não me lembro de pedir aprovação. — respondeu Anúbis, claramente o menos intimidado por Ereshkigal ali, mesmo com seu recém adquirido status de mortal.

— Com todo respeito… senhora Ereshkigal… — disse Carter, tentando não parecer intimidado e convencendo só parcialmente — Qual o motivo de sua visita?

— Falei naquele dia que iríamos ajudar, então aqui estou, ajudando. — respondeu Ereshkigal — Me livrei de boa parte dos monstros do Mar Vermelho para vocês. E como também quero ir para onde estão se reunindo, para participar da luta, vim aproveitar a carona.

— Nossa… obrigada pela ajuda… — disse Will.

— Milagre um deus nos ajudar tanto assim… — comentei, e Carter me olhou com uma cara de “tente não irritar a deusa, por favor”.

— Já disse da outra vez… esses deuses novos com ideias idiotas me irritam. — disse Ereshkigal, revirando o olhar — E também, ao contrário de alguns, eu dou valor aos meus amigos.

— Sabia que quando você matou Inanna era melhor ficar do seu lado bom.- comentou Anúbis, e o sorriso arrepiante de Ereshkigal só aumentou.

— Nossa isso faz muito tempo… — comentou Ereshkigal — Imaginava que estaríamos numa situação assim? Tantos milênios depois, com tudo tão diferente como agora…

— Não mesmo. — respondeu Anúbis.

— Alguma novidade de Hades? Vejo que está com um dos filhos dele aqui. — perguntou Ereshkigal, olhando longamente para Nico — …. Apesar de que parece mais filho seu.

— Vou ignorar a última parte… — resmungou Anúbis — Não. Já tem umas semanas que falei com ele pela última vez. Estava com Apolo e agora Apolo está ajudando também.

— Vocês três são amigos? — perguntou Nico.

— Acho que dá pra dizer isso apesar de uma ou outra briga. — respondeu Ereshkigal.

— Nunca brigamos com você. — lembrou Anúbis.

— Não seriam tão estúpidos. — concluiu Ereshkigal — Mas sim, criança, nós quatro… interagiamos… com frequência nos velhos tempos.

— Quatro? — perguntou Will, logo ao lado de Nico.

— Sim… havia Lelwani… uma deusa hitita do submundo… — lembrou Ereshkigal — Não aguentou o fim da Era do Bronze… muitos não aguentaram. Cada troca de Era se tornou um risco. Lelwani e Hades eram os mais novos entre nós. Ainda me lembro dos tempos antes disso, da Era do Cobre… quando só tinha Anúbis, e um ou outro deus diminuto de pequenos e fracos povos nômades, com quem decidir o destino das almas. A troca da Era do Cobre para Era do Bronze não foi nem de longe tão impactante quanto a Era do Cobre para a do Ferro… mas o fato é, seria triste perder o amigo que restou de tempos tão longínquos… mesmo que pareça que ele decidiu diminuir sua expectativa de vida extremamente e virar mortal. Ou assim me parece… duvido ter sido acidental.

— Não foi. E tenho minhas razões. E não pergunte se tenho certeza da escolha. — respondeu Anúbis, encarando Bastet com o canto do olho, deixando mais óbvio que aquilo era uma indireta bem direta — Já não aguento mais essa pergunta… ou me chamarem de egoísta.

Com aquela brechinha, pegamos que parte da discussão entre eles pela cara envolveu Bastet chamar ele de egoísta. Bastet abaixou o olhar, claramente nada orgulhosa das palavras que havia saído de sua boca horas antes.

— Não vou fazer tal pergunta tola. — respondeu Ereshkigal, encarando a Bastet de forma julgadora — Imagino bem quais seriam alguns dos motivos… uma deusa igualmente egípcia e que lhe conhece deveria imaginar esses mesmos motivos.

— Passei muitos anos lutando contra Apófis! — rebateu Bastet, claramente tentando se justificar de algo cujos detalhes me escapavam.

— Passou séculos livre antes disso. E já anda pelo mundo à anos. — lembrou Ereshkigal — Tempo suficiente para se atualizar e juntar os pontos. De toda forma, eu, que ao contrário de sua conterrânea, lhe conheço bem, só posso dizer que sentirei sua falta quando o tempo acabar, mas que espero que esse tempo seja feliz.

— O-Obrigado… — disse Anúbis, claramente chocado com a gentileza.

— O-Obrigada! — repetiu Sadie, também chocada, mas mais leve ao mostrar a felicidade.

— Agora… — disse Ereshkigal, notando que o barco começava a se aproximar da margem oeste do Mar Vermelho — Quantos de vocês já cruzaram o deserto? Parece que a parte final da viagem está perto.