Os Deuses da Mitologia
162 PIPER - Vivendo Um Filme de Terror Japonês
Notas iniciais

PIPER
Assim… a essa altura do campeonato não dá pra dizer que era uma surpresa muito grande assim nosso caminho até o templo ter sido interrompido. O que era novidade mesmo era estarmos dentro de um filme de terror japonês. Não é uma coisa que recomendo para os fracos… nem o filme, nem estar dentro dele.
Quando o garoto sombrio de pele fantasmagoricamente branca apareceu em nossa frente, acho que meu coração até perdeu um compasso. Mas quando ele se aproximou numa velocidade absurda, mas sem realmente mexer um músculo sequer, o meu coração chegou a conclusão que tinha levado um susto cedo demais, pois claramente tinha como piorar.
Nem tive tempo para reagir. Foi em questão de poucos segundos que em um momento ele estava alguns metros à frente, e no seguinte estava segurando o meu rosto bem de perto, e gritando um berro que parecia vir das profundezas do inferno com a boca escancarada de um jeito nem um pouco fisicamente possível. Uma gosma preta nojenta escorria de seus olhos também, deixando a cena ainda mais grotesca.
Meu ouvido doeu muito com aquele grito terrivelmente agudo, e minha alma queria sair correndo para o mais longe possível dali. Até queria correr junto com a minha alma, mas, no final das contas, eu apenas desmaiei.
Pouco a pouco eu fui voltando a sentir o meu corpo. Primeiro senti os joelhos doendo pela batida no chão depois que desmaiei, depois senti o chão duro e empoeirado embaixo de mim e a mecha de cabelo que havia conseguido chegar até minha boca. Abri os olhos devagar, com um certo desejo de continuar lá deitada, longe de qualquer problema. Mas sabia que não era uma escolha inteligente e nem possível.
Logo vi que estava no mesmo lugar de antes e que os outros estavam desmaiados também… ou foi assim que pensei. Quando me aproximei de Lavínia, a pessoa que estava mais perto de mim, eu imediatamente dei um grito. Pessoas desmaiadas não ficam de olhos abertos sem nem piscar, né?
— LAVÍNIA! LAVÍNIA! — gritei, a sacudindo.
Em desespero, pensei em Kayla, nossa curandeira. Com uma busca rápida com o olhar, achei-a largada no chão mas, para meu horror, em estado igualmente desprovido de vida que Lavínia. Minha respiração ficou ofegante mesmo sem eu ter feito esforço físico algum. Sentia o desespero me apertando com uma força invisível enquanto via todos mortos. Eu gritei, gritei tanto que minha garganta doía. Fui em cada um deles tentando encontrar algum sinal de vida, alguma ferida que, se eu conseguisse cuidar de algum jeito, fizesse eles acordarem de novo, mas não havia nada.
Tão tomada pelo desespero, nem me toquei que estávamos em um grupo maior. Não havia sinal dos chineses nem de Calon ali. Apenas continuei perdida naquele pesadelo que parecia me engolir por completo. Parecia o dia que Jason morreu, tudo de novo e muito pior.
Não sei quanto tempo eu fiquei lá, chorando e gritando desamparada, gritando para aquele monstro japonês idiota aparecer para acertar as contas comigo. Só sei que eventualmente notei uma voz vinda de algum lugar. Tentei me acalmar, não foi fácil. Mas um pedaço de mim dizia que eu queria prestar atenção naquela voz.
Depois de alguns minutos, reconheci como sendo a voz de Calon, mas demorei um pouco mais para entender as palavras que ela dizia. Estava tudo embaralhado, como um disco arranhado sendo tocado de trás pra frente. Lentamente, as palavras começaram a fazer sentido.
— Edroca.. Edroca.. Acorde… — ouvi, apesar de com dificuldade de palavras estranhas e cortadas — Oãsuli.. Oãsuli… Ilu… Oãs… Acorde… Edroca.. Oãsuli… Oãsuli… Ilusão… Ilusão…
A palavra começou a latejar no meu ouvido infinitas vezes. Ilusão. Ilusão. Ilusão. Meu cérebro não queria aceitar, apesar de ter entendido cada sílaba. Meu coração pedia desesperado para ele aceitar. Eu chorava olhando para os meus amigos, tremendo sem parar, silenciosamente implorando para que tudo realmente fosse uma ilusão e meu cérebro acreditasse nisso.
Tão repentinamente quanto desmaiei da primeira vez, subitamente me vi deitada no chão de novo, de olhos subitamente arregalados como se tivesse acabado de acordar assustada, com lágrimas nos olhos. Me ergui rapidamente, o que não foi muito bom para a cabeça, mas logo fiquei agradecida de ter o feito, pois vi dessa vez uma realidade completamente diferente. Os outros estavam largados ao meu redor novamente, mas dessa vez estavam claramente dormindo ou desmaiados. Calon estava tentando acordar todo mundo e os chineses também estavam lá, desmaiados. Não havia sinal do garoto arrepiante.
Me dei um segundo para ficar aliviada, mas ainda não entendia bem o que estava acontecendo. Além de mim, ninguém mais tinha acordado até então.
— Ah! Finalmente consegui acordar um! — exclamou Calon.
— O que aconteceu? — perguntei.
— Amatsu-Mikaboshi prendeu vocês numa ilusão… — explicou Calon — Ou melhor, num pesadelo.
— O outro cara que temos que nos preocupar… — resmunguei.
— O deus do vazio e da escuridão. — disse Calon, tentando sacudir Percy.
— Ele não conseguiu te prender? — perguntei.
— Por uns segundos, sim. — disse ela, e notei o olhar meio emocionalmente abalado, me perguntei o que ela viu — Mas entendo muito bem de ilusões. Consegui me tirar dela facilmente.
O arrepio que correu pela minha espinha não era só de medo, mas de puro pavor. Tudo tinha sido tão real e ainda assim, as coisas ali ainda não pareciam normais. Eu ainda sentia o toque frio do garoto fantasma, o som do grito dele latejava em meus ouvidos. Mas não era tempo para isso, tratei imediatamente de ajudar Calon a acordar os demais. Minha primeira tentativa foi Hazel, imaginei que seria potencialmente a mais fácil ali de acordar.
— Hazel, é só uma ilusão. Acorda! Acorda! — exclamei, sacudindo ela nada educadamente.
E tal como eu, ela logo acordou assustada num pulo. Ainda bem que foi uma primeira tentativa fácil.
— O Q-Q… PIPER? — gritou Hazel olhando para mim com os olhos cheios marejados e surpresos — Achei que tinha morrido.
— Foi uma ilusão. Estamos todos bem. — falei, enquanto ouvi Calon conseguindo Mayu, a única japonesa, depois de ter desistido de Percy provavelmente por ele ter dado muito trabalho.
— Acho que eu preciso de um minuto… mas não temos tempo né? — perguntou Hazel.
— Não. — respondi, sentindo um frio me atingir a espinha.
— Esse frio não é normal. — disse Mayu.
— Vamos acordar os outros. — falou Hazel apressadamente.
Eu e Hazel nos levantamos, prontas para tentar acordar alguém, mas nesse momento uma daquelas mulheres de gelo de kimono branco surgiu das matas ao redor. O olhar dela estava frio enquanto corria na nossa direção com uma nuvem de vapor gelado na nossa direção.
— Yuki-Onna.. — resmungou Mayu.
Me ergui para nos defender, mas Mayu foi mais rápida que eu. Ela girou com os braços, transformou a névoa gelada em água e chicoteou contra o rosto da tal Yuki-Onna, abrindo um corte feio. Eu me preparei para fazer o mesmo, mas a Yuki-Onna era rápida. Ela lançou um jato de gelo que prendeu minha perna no lugar dentro de um bloco de gelo.
— Me solte! — ordenei, tentando usar o charme, mas a Yuki-Onna respondeu algo em japonês que não entendi.
— Ela não fala inglês. — explicou Mayu, reaproveitando seu jato de água anterior para atacar a Yuki-Onna de novo.
— Isso explica muita coisa. — resmunguei, pensando em como tiraria meu pé daquele bloco de gelo, enquanto a Yuki-Onna pulava para longe, entretida na luta contra Mayu.
Calon e Hazel tentavam acordar mais gente. Tentei quebrar o gelo como dava, mas não era um trabalho fácil. Contudo, repentinamente minhas tentativas foram interrompidas quando uma longa mecha de cabelo surgiu por trás, me agarrou pelo pescoço e me puxou para trás. Foi um contorcionismo doloroso, visto que minha perna, a direita no caso, ainda estava firmemente presa ao chão.
Reclamei de dor ao ser puxada para trás mais do que minhas costas gostariam de tentar dobrar, mas assim consegui ver quem me atacava, era uma mulher de kimono roxo e longos cabelos. Mas claramente a tentativa dela de quebrar minha coluna não era suficiente, a mecha de cabelo dela que me apertava o pescoço começou a ficar mais apertada, e respirar começava a ficar mais difícil.
Eu tentei pedir por ajuda enquanto também tentava cortar o cabelo que me apertava com minha adaga. Mas não era muito fácil. Primeiro porque a posição era muito ruim, segundo, porque Mulan é mentiroso. Não é tão fácil assim cortar cabelo sem ser com tesoura. E para certificar que eu não conseguiria cortar o cabelo, a mulher cabeluda aumentava o tanto de cabelo que me prendia.
Não sabia o que estava mais dolorido, o enforcamento ou a coluna sendo puxada para trás numa tentativa de dobrar num sentido que colunas não dobram. Felizmente, cortando o ar me salvando de meu suplício, uma flecha atingiu a testa da mulher cabeluda. Ela caiu no chão, os cabelos se soltaram de mim e tropegamente tentei me arrumar com pé ainda preso no chão, para então olhar para minha salvadora, Kayla, agora recém acordada.
— Obrigada… — falei, aliviada, massageando a garganta dolorida.
Mayu voltou correndo na nossa direção depois de ter acabado com a Yuki-Onna. Machucada, sim, mas inteira. Ao mesmo tempo, lentamente, vindo de trás de Kayla, Yǔ xī se aproximou com lágrimas nos olhos. Claramente o pesadelo que Amatsu-Mikaboshi colocou-a não foi tão simpático também. Sem falar nada, ela se agachou silenciosamente ao meu lado e com uma pequena chama mágica em cada mão, ela começou a derreter o gelo que me prendia.
Livre, respirei aliviada e me dei um momento para ficar de joelhos no chão. Minhas costas e meu pescoço doíam. Enquanto isso, os demais eram acordados um a um e Kayla checava principalmente a minha coluna, que quase foi partida ao meio. Todos acordavam meio assustados, aparentemente vendo pesadelos bem parecidos. O que gerava lágrimas e abraços de alívio.
Não consegui evitar pensar em Jason. Claro que tínhamos terminado e tudo mais, mas ele ainda era especial para mim. Queria que a morte dele não tivesse passado de um pesadelo, ou que algo o trouxesse de volta, como aconteceu com Leo. Infelizmente, essa parte do meu pesadelo era bem real. Mas não é como se eu fosse deixar isso me derrubar. Jason também não ia gostar disso. Eu tinha que seguir em frente. Eu segui em frente.
— Temos que sair logo daqui. — disse Annabeth após ser acordada e ser atualizada da situação, estava com lágrimas nos olhos, tal como todos nós ficamos após acordar — Antes que apareçam mais monstros para nos atacar.
— Temos que estar preparados para continuar seguindo em direção ao templo. — disse Mayu — Não vimos o poder completo de Amatsu-Mikaboshi.
— E eu já odeio esse cara. — acrescentou Grover, cujo olhar denunciava que realmente não tinha lidado muito bem com o pesadelo no qual ficou preso.
— Pode ter sido só um aviso. — opinou Hazel — Ou um teste.
— Seja lá o que for, temos que ter cuidado. — disse Chéng.
Com todos acordados, seguimos nosso caminho em direção ao templo. Alguns monstros apareceram, mas nada que não conseguíssemos resolver bem rápido. Éramos um grupo grande e forte.
Continuamos em frente indo cada vez mais rápido conforme o templo ia se erguendo no horizonte. A trilha de turistas mortos no caminho servia como um combustível grotesco. Não podíamos deixar que isso se repetisse e, ainda assim, havíamos deixado muitos monstros para trás, atacando as cidades. Mas parar o ataque aos templos iria nos dar chances melhores de impedir que isso se repetisse numa escala mais global.
O céu já estava anormalmente escuro, então começou a chover bruscamente. A chuva era forte, carregada e com vento tão intenso que correr se tornou complicado. Os trovões fortes que caíam eram a única fonte de luz que tínhamos guiando nosso caminho. Quando chegamos aos pés da escada final que nos levaria ao templo, foi um desses trovões que subitamente iluminou um homem grande e parrudo que estava na metade da escada, onde os degraus se interrompiam para formar uma espécie de pequena praça.
O homem usava um kimono branco e vermelho que parecia um tanto pequeno para sua forma gigante. Não gigante nível Titã, mas o cara tinha fácil pelo menos dois metros e meio.
— Chichiue… — resmungou Mayu ao meu lado, mas minhas habilidades de japonês eram totalmente nulas.
— O nome do cara é Chichiue? — perguntou Percy.
— Não… é Susanoo. — corrigiu Mayu — Esse é meu pai.
— Tiveram seu aviso antes. — disse Susanoo, o inglês soando como música aos meus ouvidos analfabetos em japonês — Não vamos ser tão simpáticos se começarem a subir essas escadas.
— Isso até agora foi ser simpático!? — exclamou Grover, com a voz dando uma leve afinada.
— Cara… Sua mãe te educou muito mal. — comentou Percy.
— E não acha que tá se achando demais pra alguém que está sozinho? — perguntei.
— Eu sou um deus! Eu não preciso de companhia! — disse Susanoo.
— Ihh… — disse Percy — Claramente nosso histórico não chega até a Ásia.
— O mundo é grande, afinal de contas. — comentou Annabeth.
Susanoo nos olhou com um ar ameaçador, e eu pude jurar que vi trovões pequeninos explodindo em seus olhos enquanto ele tirava sua katana da bainha. Todos nós nos preparamos da mesma forma até que repentinamente, ele deu um enorme pulo, vencendo toda a escadaria que nos separava, e fincando a sua espada no chão. Da espada, trovões se espalharam por todo o solo molhado pela água da chuva. Um choque doloroso me atingiu, eu gritei, todos gritamos. Senti o pior formigamento da minha vida se espalhando por todo o meu corpo enquanto meus pés pareciam grudados no chão por uma super cola.
Tão repentinamente quanto chegou, o choque foi embora. Eu caí no chão, muitos dos outros também caíram no chão. Um dos que não caiu no chão foi Percy, que segurando contra-corrente, avançou na direção de Susanoo. Eu corri logo em seguida na direção da luta, com trovões voando para todos os lados e Calon usando sei lá que magia para tentar os levar para longe de nós.
Contudo, parei antes de realmente me juntar à batalha. Éramos muitos para só um adversário, e Percy era feroz. Senti que se eu me juntasse eu só iria atrapalhar as coisas ou me machucar. Kayla já atirava flechas de longe, quando via uma brecha, e da mesma forma, Yǔ xī lançava labaredas de fogo quando tinha certeza que não iria queimar Percy. Basicamente, tinha muita coisa acontecendo. Então Hazel gritou:
— Vamos nos separar!
— Se separar geralmente é uma ideia idiota e que dá errado! — respondeu Grover.
— Já estamos abusando da sorte com o tempo e somos demais para lutarmos todos com Susanoo. — disse Annabeth — Vão vocês. Eu, Percy, Calon, Yǔ xī e Kayla ficaremos aqui.
— Eu também vou ficar. — disse Grover, enquanto eu e os demais afirmamos com a cabeça diante das ordens recebidas.
— AH NÃO VÃO NÃO! — gritou Susanoo.
Ele avançou na nossa direção, tentando empurrar Percy para o lado. Não que Percy tenha deixado tanto assim. Percy logo o atacou controlando, criativamente, as águas da chuva. Mas Susanoo também tinha o controle sobre a água, então ele simplesmente parou o ataque de Percy com uma mão. A poça d’água flutuante que um dia foi o ataque de Percy ficou suspensa no ar mas logo foi perfurada por uma flecha de Kayla, que atingiu em cheio a mão de Susanoo. Ele fechou a cara de dor e eu aproveitei essa deixa, e o fato de que ele claramente sabia inglês, pra me aproximar o máximo que ousava dele e, usando todo o charme que conseguia, dizer:
— Você VAI deixar a gente passar! E vai parar de lutar contra a gente!
Estava sendo ousada demais pedindo duas coisas de uma vez? Estava. Mas eu não tinha tempo a perder hesitando. O lado bom foi que Susanoo de fato pareceu dar uma travada, e isso foi o suficiente para nós seguirmos em frente.
— Se juntem a nós se ele de fato parar de atacar! — gritei, enquanto subia as escadas junto com o resto do pessoal.
Eu, Hazel, Lavínia, Hua, Chéng, Mayu e Hàoyǔ corremos escadaria acima até ficarmos diante do Templo de Borobudur. Ele era todo de pedra e até lembrava um pouco uma pirâmide, mas uma bem baixa apesar de até que bem larga considerando sua altura. Lembrava um pouco as pirâmides mexicanas, feita de vários quadrados com outros quadrados menores por cima dando uma ideia de escada de degraus grandes demais para subir apesar de ter sim bem no meio dele um conjunto de escadas normais para alcançar seu topo.
As semelhanças com as pirâmides mexicanas terminaram por aí. A arquitetura era muito diferente e tenho certeza que Annabeth poderia explicar em termos mais técnicos do que eu, mas realmente tinha um ar meio asiático, com pequenas esculturas de pessoas enfeitando a lateral de seus vários andares e no topo o que bem podiam ser várias pequenas capelas com portais circulares e tetos ovais que pareciam ter uma semelhança distante com os tetos das mesquitas muçulmanas.
No topo do templo, claramente entoando algum feitiço e movendo as mãos, estava um homem magro e de pele tão preta como a noite. Mas um preto estranho, arrepiante e completamente desprovido de luz. Tão desprovido de luz que ele parecia engolir a pouca luz que ainda havia ao nosso redor. Ele parou de entoar seja lá o que fosse, e olhou para nós. O seus olhos eram completamente brancos e, de certa forma, me lembraram o menino que nos atacou antes.
— Você é Amatsu-Mikaboshi. — disse.
— E vocês são tolos. — disse ele com uma voz irritantemente calma — Dei o alerta antes e ainda seguiram em frente. Vão acabar como os outros que vieram antes de vocês.
— Que outros? — perguntou Chéng.
Amatsu-Mikaboshi fez um simples gesto com a mão e uma bola negra apareceu e sumiu rapidamente e, quando ela fez isso, de dentro dela caíram três corpos. Dois homens e uma mulher, todos claramente asiáticos. Hua, Chéng, Mayu e Hàoyǔ gritaram coisas cujos significados eu desconhecia completamente mas que chutava que ao menos parte delas eram os nomes daquelas três pessoas. Então, sem demorar mais um segundo sequer e controlados por puro ódio, eles avançaram na direção de Amatsu-Mikaboshi.
— CALMA! ASSIM NÃO! — gritou Hazel.
— Ai não.. — resmunguei.
— Isso não vai dar certo. — resmungou Lavínia ao meu lado no mesmo momento.
Enquanto isso, uma risada baixa e cortante ecoou pelo ar, como se o próprio vazio zombasse de nós. As gotas de chuva pareciam desacelerar ao nosso redor, pingando em câmera lenta, enquanto a atmosfera se tornava ainda mais sufocante.
Não tínhamos muito o que fazer, a batalha começou assim. Chéng se transformou num dragão chinês um pouco maior que um crocodilo e com corpo de uma cobra. Rugindo de ódio, ele voou na direção de Amatsu-Mikaboshi com as garras e a bocarra prontas para o abate. Hua e Mayu recolheram as águas da chuva, que ainda caía com extrema forma, e transformaram-nas em dardos, que lançaram contra Amatsu-Mikaboshi. Eu, Hazel e Hàoyǔ avançamos, cada um com nossa lança, nos juntando ao caos.
No entanto, a presença de Amatsu-Mikaboshi parecia distorcer a própria realidade. Os ataques de Hua e Mayu hesitavam no ar, dardos de água congelando antes de alcançar o alvo. Os movimentos de Chéng eram como se ele estivesse nadando em mel, cada ataque desacelerado pela força do vazio que emanava do inimigo.
Impedindo que a gente chegasse perto demais dele, cinco meninos arrepiantes, exatamente iguais como os de antes surgiram. Era estranho lutar contra o que no final das contas parecia ser uma criança, mas foi onde eu acabei me encontrando. Tentava de tudo para acertar onde quer que fosse, às vezes acertava, mas as garras negras estranhas que apareciam nos pequenos dedos também me acertavam às vezes. Não podíamos deixar eles agarrarem nosso rosto como antes e nos deixarem presos em pesadelos. E pra piorar, o jeito que os meninos se movimentavam era rápido e parecia desobedecer as leis da física. Como se fosse os frames de um filme e por algum motivo eu tinha parte dos frames faltando.
Os outros também lutavam, mais um a um íamos conseguindo derrubando ao menos parte dos meninos. Foi nesse momento então que o deus estendeu uma mão e o som de milhares de vozes sussurrantes encheu nossos ouvidos, perturbando nossa concentração.
— Seu pai nunca quis você de verdade. Ele preferia sua carreira a você. — sussurrava a voz em meu ouvido. — sussrou a voz de Amatsu-Mikaboshi repentinamente em meu ouvido, afetando minha concentração no ataque ao pirralho medonho, me fazendo então errar.
— Mentira. — falei, com a voz menos brava e destemida do que esperava, mas conseguindo desviar do contra-ataque do menino medonho.
— Você só é lembrada porque é filha de Afrodite. Sem isso, ninguém se importaria. — continuava Amatsu-Mikaboshi.
— Mentira. — repeti, não só para ele, mas para mim mesma também.
— Você é fraca. Acha mesmo que palavras podem vencer monstros?
— ACHO SIM! — gritei, acertando o menino arrepiante contra o qual lutava de forma tão certeira, que ele se transformou em sombra e sumiu.
— Jason morreu porque você não conseguiu protegê-lo. Ele confiou em você, e você falhou. Você afastou Leo e os outros porque ninguém aguenta estar perto de você. Um dia, você estará sozinha. Ninguém pode suportar alguém tão problemática. — disse Amatsu-Mikaboshi, se apressando entre as palavras como se quisesse me dar um tiroteio de emoções ruins.
— Mentira… — sussurrei, sem muita certeza se acreditava nas minhas próprias palavras.
As palavras de Amatsu-Mikaboshi pareciam tão convincentes como as minhas palavras do charme pareciam ser para os outros. Eu fraquejei, estranhamente não tinha mais vontade de lutar. Os outros não pareciam estar tão diferentes assim mas, apesar de tudo, conseguimos acabar com todos os pirralhos assustadores. O problema, era que apesar dos esforços daqueles que conseguiram chegar mais longe, Amatsu-Mikaboshi continuava firme e praticamente inatingível.
Contudo, era claro para ele que estar em vantagem apesar da desvantagem numérica não era o suficiente. Até porque, teimosamente, continuamos a avançar contra ele, mesmo que talvez com o coração cheio de palavras que nos magoaram e desmotivaram.
— Seja lá o que escutaram, ignorem! — dizia Hazel firmemente — Cada um de nós temos nossas questões para lidar, mas não é ficando para baixo e desistindo que vamos fazer isso!
— Isso aí! — esbravejou Lavínia — Sem falar que ele falou um bando de mentira!
— Não digo mentiras. — disse Amatsu-Mikaboshi — Digo verdades que vocês têm guardados no ponto mais escuro de seus corações.
— Só que às vezes os nossos corações são uns malandros mentirosos também! — exclamou Lavínia — É por isso que precisamos de amigos para nos lembrar das verdades.
— É! — disse torpemente, tentando guardar as palavras de Lavínia em meu coração.
— E e daí se alguma coisas forem verdade? — disse Hazel, olhando firmemente para mim, notando a minha hesitação — Ninguém é perfeito. Não sei o que esse desgraçado disse… Mas temos que mostrar para o mundo que somos mais fortes do que nossos defeitos. E não vamos estar sozinhos nisso.
Não gostando da motivação que chegou até nós, Amatsu-Mikaboshi atacou mais uma vez . Tentáculos negros surgiram de todos os lados aparentemente saindo de dentro do longo kimono que Amatsu-Mikaboshi usava. Eles eram rápidos e extremamente ágeis. Com grande facilidade, esses tentáculos nos “tocaram”. Eles não eram necessariamente físicos, mas um fio subiu minha espinha e um gelo queimou meu corpo onde ele tocou e do nada eu não estava mais ali, estava diante do caixão aberto de meu pai.
Eu gritei. Muito.
— Sabe que é culpa sua… — disse a voz de Amatsu-Mikaboshi vinda de algum lugar.
— ISSO É UMA ILUSÃO! — gritei, mas meu cérebro não queria aceitar, parecia real demais.
— E se for? — perguntou ele — Um dia vai acontecer e será culpa sua. Sempre se colocando em perigo pelo mundo e deixando o pai preocupado para trás. Se um monstro não o matar, morrerá de preocupação no coração.
— Não! — respondi.
— Sabe bem como ele ficou quando soube de toda a verdade. — continuou Amatsu-Mikaboshi — O fez esquecer como se ele não estivesse nesse exato momento também preocupado, se perguntando onde está.
— NÃO! — gritei novamente, sentindo as lágrimas rolarem pelo o meu rosto.
Num piscar de olhos, a ilusão se desfez e eu caí de joelhos dolorosamente nas escadas. A dor explodiu pelo meu corpo com a queda e então olhei para onde Amatsu-Mikaboshi estava. Meus olhos estavam marejados e minha visão consequentemente turva, mas vi Hazel lutando contra Amatsu-Mikaboshi, que tranquilamente desviava de seus ataques.
— Minha vida antiga está toda morta. — dizia Hazel no meio dos ataques — Não pense que não sei me reerguer e continuar diante de um pesadelo.
Os outros lentamente voltavam a si também, mas Hazel não parava. E Amatsu-Mikaboshi claramente não gostava disso. Seu rosto mostrou irritação quando bateu as duas palmas da mão e uma escuridão completa nos engoliu repentinamente, como se tivéssemos ficado cegos.
Ouvi um grito de dor de Hazel e barulhos de queda, como se ela tivesse caído pelos grandes degraus do templo.
— HAZEL. — gritei junto com Lavínia.
A primeira luz que vi novamente foi Chéng, subitamente se transformando numa fênix que exalava um leve brilho. Foi só aí que tive certeza que não estava cega. A luz que Chéng exalava não era suficiente para iluminar muita coisa, a escuridão ali era muito pesada e densa. Ainda assim, tentei avançar, tentando usar o pouco de luz dele com o que lembrava dos meus arredores.
Minhas pernas estavam bambas, meus joelhos estavam muito doloridos. Chéng pareceu tentar brilhar mais enquanto tentava atacar Amatsu-Mikaboshi, seja lá onde ele estava. Num piscar de olhos, no entanto, Amatsu-Mikaboshi agarrou o pescoço de Chéng, enforcando-o. A forma do braço do deus do vazio ficou bem visível e então Hua e Mayu usaram isso para tentar acertá-lo. Eu avancei mais rápido, se minha voz conseguisse chegar perto o suficiente de Amatsu-Mikaboshi e causar algum efeito nele, já seria excelente.
Estava quase lá quando Chéng foi lançado ao chão e palavras em outro idioma começaram a ecoar.
— Você va..
Comecei a dizer, mas fui subitamente empurrada para trás por um chute no meu estômago, golpe de Amatsu-Mikaboshi. Caí dolorosamente de costas, descendo escada abaixo na pior queda de minha vida. Mal tive noção da voz de Lavínia gritando o meu nome. Quando terminei de cair, vi um pilar de luz roxa subindo no horizonte, e desmaiei.
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