Os Deuses da Mitologia
172 PAULO - Chuva de água e fogo em Karnak
Notas iniciais

PAULO
Os dois obeliscos estavam ali, bem perto de nós. O primeiro bem visível, o segundo meio escondido pelas ruínas e uma árvore que me fez me perguntar a quanto tempo ela estava ali. Não parecia um coqueiro, mas era sem dúvida um de seus primos. Eu não era um bom entendedor de fauna egípcia. De toda forma, o terceiro obelisco não dava nem para ser visto. Seria fácil se não fossem os oito blemmyae fazendo guarda e os vários rabisu voando pelo céu. Mas não tínhamos muito tempo para decidir o que fazer, o sol já estava nascendo e logo perderíamos o elemento surpresa
— É perigoso demais nos dividirmos. — sussurrou Zia.
— Mas só temos o elemento surpresa uma única vez. — retrucou Drew aos sussurros.
— O segundo obelisco está mais longe. — disse Calipso — Vamos com foco em um seguindo o plano que discutimos à caminho daqui. Se eu conseguir espaço para ir para o segundo obelisco sem ninguém notar eu vou.
— Eu vou com você. — garantiu Apolo, Calipso afirmou com a cabeça seriamente.
— Ao seu sinal, Leo. — disse Calipso enquanto o resto de nós usávamos as ruínas milenares de Karnak e as últimas sombras para nos escondermos dos inimigos.
Escondido meio agachado atrás de um meio muro, vi Nico e Will escondidos juntos atrás de uma única pilastra gorda. Na pilastra ao lado, Zia estava pronta para sair correndo para o obelisco. Em outra pilastra, Calipso e Apolo tentavam ver melhor por sobre as ruínas o segundo obelisco.
Fora do meu campo de visão, em um lugar que com certeza dava para esconder o nada discreto Festus, Leo se preparava. eu segurava minha adaga, tenso, à espera do sinal dele. Os demais também pareciam tensos e, à nossa frente, os blemmyae continuavam andando de um lado para o outro, em guarda, enquanto os rabisu voavam no céu.
— HORA DO CHURRASCO! — gritou Leo repentinamente entrando em cena montado em Festus com um grande pulo.
Festus rugiu, os dois lançaram fogo para todo lado e logo decolaram em direção ao céu. Os blemmyae, coitados, tentando acompanhar Leo com o olhar apesar de seus rostos no peito, começaram a se contorcer. E foi exatamente nesse momento que Apolo e Will começaram a atirar nos blemmyae. Leo levou o confronto contra os rabisu para os céus, e nós corremos em direção aos blemmyae, menos Calipso, que ficou escondida avaliando a situação e Zia, que foi correndo para o obelisco mais próximo. Com os blemmyae confusos, as flechas de Will e Apolo atingiram facilmente o alvo. Rapidamente, eu, Nico e Drew ìamos para cima dele, formando o perímetro maior de proteção ao redor do primeiro obelisco e aumentando a confusão atacando os blemmyae, enquanto Will ficava ao lado de Zia e Apolo se escondia novamente atrás de uma pilastra antes que os blemmyae entendessem que tínhamos dois arqueiros e não só um.
Um blemmyae, cheio de flechas na cara, caiu pela espada de Nico. Acima de nossas cabeças, Festus rugia brigando com vários rabisu. Atrás de nós, Zia murmurava o feitiço e Will continuava atirando as flechas.
— Isso não é muito educado! — exclamou um blemmyae que lutava com Nico — Não se entra sem ser anunciado ou convidado.
— Se chama ataque surpresa! — respondeu Nico.
Finquei minha adaga onde estaria o pescoço de um blemmyae, e ele logo caiu aos meus pés antes de virar pó. Se Apolo e Calipso conseguiram ir para o segundo o obelisco, eu não sabia mais dizer em meio ao caos. Eu, Drew, Will e Nico tínhamos que lutar com 8 blemmyae, por mais que o número tivesse caído para 6, ainda era um número maior do que o nosso. E eles eram fortes. Um me deu um soco extremamente dolorido na costela, certeza que senti a costela se quebrando. Segurei a dor enquanto Drew tentava o afastar de mim.
— Tá tudo bem? — perguntou.
— Ok. — respondi, torcendo para curar logo pois cada movimento que fazia com a adaga me fazia sentir uma pontada dolorosa na costela.
Mas a situação logo foi saindo do controle. Os 6 blemmyae logo viraram 10 conforme outros em outros pontos de Karnak foram seguindo os gritos dos amigos. E não vieram nada discretamente. Primeiro ouvimos passos pesados ecoando entre as colunas quebradas. Depois grunhidos. Depois mais vozes indignadas.
— Isso é uma invasão! — reclamou outro blemmyae recém-chegado, como se estivesse ofendido com a falta de etiqueta.
— Vocês podiam pelo menos ter mandado uma mensagem antes! — disse outro.
— Fica pra próxima! — gritei em português mesmo, enquanto desviava de um golpe que teria me quebrado mais uma costela.
— Não é educado falar num idioma que excluirá os demais. — respondeu um blemmyae, para meu terror, aparecendo de cima de um dos muros semi-derrubados de Karnak.
Antes que eu tivesse tempo de processar o que via, ele saltou em minha direção como uma bala de canhão. Tentei desviar, mas ele ainda caiu dolorosamente em meu ombro e eu gritei de dor, caindo ao chão.
— PAULO! — gritou Will atirando rapidamente no blemmyae que tinha me acertado enquanto, mais além, ouvimos outro grito, de Calipso.
— Eu tô bem… eu tô bem… — resmunguei de forma questionável enquanto Drew me ajudava a me levantar e Nico tentava afastar os blemmyae de nós.
Dez blemmyae.
E então onze…
Doze…
Meu ombro doía, meu braço daquele lado não se mexia, finalmente de pé, eu tentava continuar a lutar com o outro braço enquanto sentia os ossos se remendarem no ombro graças aos poderes dados por minha mãe. Nos sentindo encurralados, nós fomos fechando o cerco ao redor de Zia. Nos céus, Festus e Leo gritavam, não parecendo também em uma situação muito melhor do que a nossa.
Um blemmyae enorme avançou contra mim, brandindo uma espada curva. Bloqueei o golpe com a adaga. Erro meu. O impacto percorreu meu braço inteiro como se eu tivesse tentado parar um caminhão. A costela anteriormente ferida ainda não tinha se curado o suficiente. E com a adição agora de um ombro com certeza quebrado, eu soltei um grito de dor e fiquei com a minha guarda perigosamente aberta, mas Nico veio ao meu resgate.
— Você disse que estava bem! — gritou ele em meio aos golpes.
— Eu menti. — respondi em português confiando que o italiano dele ia conseguir traduzir.
Acima de nós, o céu explodiu em faíscas quando Leo Valdez passou voando em Festus, perseguido por quatro rabisu. Mais para o lado, Apolo e Calipso voltavam correndo em nossa direção sendo perseguidos por seis monstros com corpo de leopardo mas longos pescoços que lembravam girafas mas se mexiam como serpentes.
— NÃO DÁ PRA CHEGAR LÁ! — gritou Calipso enquanto Apolo tentava lidar com os blemmyae e os novos monstros ao mesmo tempo com seu arco e flecha.
— Aí trás mais monstros pra cá?! — reclamou Will.
— São Serpopardos! — respondeu Apolo como se o nome fosse ajudar em algo — Acabamos com mais três antes de voltar pra cá!
— ÓTIMO! EU ADORO QUANDO AS COISAS FICAM PIORES! — gritou Will sarcasticamente.
— Zia! Se conseguir agilizar aí as coisas! — pediu Nico em meio ao combate — Mas sem pressão.
Calipso e Apolo se juntaram ao nosso cerco ao redor de Zia. Pela cara teria que ser um obelisco de cada vez mesmo. Um dos Serpopardos avançou como um chicote vivo. O pescoço serpentino disparou entre duas colunas milenares e quase arrancou Nico di Angelo do chão. Sorte que ele rolou para o lado. Mas Calipso logo veio ao resgate lançando uma rajada de vento que empurrou o Serpopardo mais para trás, fazendo-o bater na coluna, que felizmente já havia sido restaurante com o bom e velho cimento moderno. Caso contrário, ela teria caído.
O vento de Calipso não empurrou nenhum blemmyae, sendo fortes do jeito que são. Mesmo machucado como estava, no meio daquele caos, consegui desviar por centímetros de uma tentativa de um serpopardo de me dar o bote… ou morder… Fiquei confuso se sua boca funcionava como leopardos ou como serpentes.
Ainda assim, íamos perdendo cada vez mais espaço e, em certo ponto, notei assustado que minhas costas haviam encostado rapidamente em algo, que logo notei ser o cotovelo de Zia. Estava tão absorto no meu combate dolorido que nem tinha notado o quão perto a voz dela havia ficado.
— ESTAMOS FICANDO SEM ESPAÇO! — gritou Calipso — ZIA VAI FICAR EM PERIGO DESSE JEITO!
— ACHO QUE CONSIGO DAR UM PRESENTE! — gritou Leo em meio ao seu próprio combate que enchia de fogo o céu de Karnak.
Em um súbito mergulho, Festus pareceu que ia bater de cara no chão. Contudo, no último segundo, seu mergulho mudou de direção até que ele e Leo sobrevoaram a bagunça de blemmyae e serpopardos e lançaram fogo neles. Atrás de Festus, os rabisu continuavam os seguindo. Então não só tivemos que nos encolher do fogo, como também dos rabisu que passaram em uma velocidade altíssima atropelando tudo o que havia em sua frente. Felizmente, algumas dessas coisas na frente eram blemmyae, que caíam ao chão confusos, mas ainda inteiros, ao serem atingidos pelos rabisus.
Também foi nesse momento que um pilar de luz iluminou o céu e, com um ofego, ouvi Zia dizer:
— Menos um…
— VAMOS ABRIR CAMINHO PARA O OUTRO OBELISCO! — gritou Calipso assim que também ouviu Zia — O MAIS PERTO!
Eu já não tinha a menor ideia de quantos inimigos tínhamos mas, com uma organização exemplar, tanto em solo quanto em terra, fomos abrindo caminho para o segundo obelisco. Mas isso foi mais difícil de fazer do que pode parecer.
Assim que demos os primeiros passos para longe do primeiro obelisco, três blemmyae se moveram quase ao mesmo tempo e fecharam o corredor entre duas colunas quebradas, como se soubessem exatamente por onde precisaríamos passar. E provavelmente sabiam mesmo.
Apolo atirou uma flecha e ela atravessou o olho de um blemmyae de um jeito profundo o suficiente para fazer ele cair no chão morto, mas outro imediatamente ocupou o lugar dele enquanto reclamava de nossa falta de educação. Cada centímetro ganho em direção ao obelisco era uma suada vitória. Ainda maior do que a minha costela, que já parecia bem melhor. Embora eu não pudesse dizer o mesmo sobre o meu ombro.
Então um novo serpopardo apareceu. Ou talvez um antigo? Já não sabia mais. Ele deslizou entre duas colunas do templo, o pescoço serpentino se esticando e se jogando por cima das nossas cabeças como um guindaste vivo.
— DOWN! — gritei, no pouco inglês que arrisquei.
Todos nos jogamos para baixo e para os lados quando a cabeça faminta do monstro passou rasgando o ar exatamente onde estávamos. Calipso respondeu imediatamente com outra rajada de vento, desviando a criatura o suficiente para Nico atravessar o flanco dela com a espada. O serpopardo rugiu uma vez, mostrando que precisaria de mais para derrotar ele apesar do sangue jorrando da ferida, mas logo fogo veio do céu. Festus ou Leo, não sei, transformaram o serpopardo num bloco de carvão que logo caiu ao chão.
Conseguimos avançar mais. O tanto de blemmyae nos atacando apesar de todos que derrotamos me fazia ter certeza que mais deles haviam surgido. O segundo obelisco já estava visível entre as ruínas. Parecia tão perto e tão longe ao mesmo tempo que era irritante.
Então o chão tremeu e mesmo diante do choque, ninguém parou de lutar.
— O que está acontecendo? — perguntou Zia.
— Não sei se eu quero descobrir. — respondeu Apolo.
— Gente! — exclamou Leo, do alto, tendo acabado de se livrar de aparentemente todos os rabisu — Não queria falar isso mas… tem um exército nada pequeno de blemmyae vindo pra cá.
— Ah não… — resmunguei.
— E se o Leo levar a Calipso até o obelisco voando? — perguntou Drew depois de convencer um par de blemmyae à lutarem pelo nosso lado.
— Como iríamos proteger ela de tudo isso de adversário? — perguntou Will.
— Leo! Sobe comigo e com a Calipso! — gritou Apolo — Eu tenho uma ideia meio bosta que pode dar meio certo!
— E a gente aguenta esse “meio” certo? — perguntou Nico enquanto cortava o meio da cara de um blemmyae.
— Vamos tentar acertar eles por cima. Fogo e flecha. — explicou Apolo apressadamente enquanto Festus abaixava o suficiente para ele dar um pulo e agarrar a pata do dragão.
Com os blemmyae atacando, era perigoso descer mais ainda, então Apolo teve que se virar para subir em Festus assim mesmo.
— Deixa eu ir então. — disse Zia segurando a mão de Calipso antes que ela subisse — Abrimos espaço para vocês até o obelisco.
Calipso afirmou apressadamente com a cabeça e voltou para o combate, enquanto Zia se juntou à Apolo na perigosa escalada por Festus. Leo os ajudou, os puxando um a um para cima do dragão, e logo nós tínhamos uma máquina de fogo e flechas tentando abrir mais espaço para gente. Eles foram de uma eficiência linda que conseguiu abrir espaço para a gente até o obelisco. Assim, imediatamente Calipso começou o feitiço enquanto nos preocupamos em protegê-la por mais sufocante que fosse lidar com todos aqueles blemmyae.
O obelisco era cercado por colunas, o que nos ajudou um pouco à criar gargalos no meio do ataque de um exército de blemmyae contra a gente. Nosso círculo de proteção ao redor de Calipso era mais um amontoado de semideuses cansados tentando não morrer.
Um blemmyae avançou contra mim com um machado tão grande que parecia capaz de cortar uma coluna no meio. Levantei a adaga por reflexo e desviei o golpe por centímetros. Gritei de dor sentindo que meu braço tinha caído no chão, mas ele ainda estava ali mesmo. A costela, felizmente, estava mais quietinha na dela.
— Você está sangrando — disse Will Solace, enquanto disparava outra flecha por cima do meu ombro e só nesse momento notei que minha manga estava suja de sangue que escorria até a ponta de meus dedos.
Do outro lado, Drew já estava claramente exausta. Ela tinha convencido dois blemmyae a lutarem entre si, mas agora parecia estar tentando manter o controle enquanto outros três avançavam sobre ela ao mesmo tempo. Ela sussurrava nos ouvidos deles comandos, mas nem sempre eles estavam funcionando mais. Acima de nós, Leo, Zia e Apolo continuavam bombardeando o campo.
Calipso continuava o feitiço no obelisco, o que era bom, mas estávamos nos sentindo caminhando para a derrota. Um grito de dor escapou de Nico quando um o último serpopardo escondido na multidão o arranhou com suas garras afiadas. Will gritou de volta em plena raiva, lançando uma flecha contra o monstro que caiu para o lado e foi pisoteado pelos blemmyae.
Mais além, um blemmyae conseguiu passar pela nossa linha e avançou direto em direção a Calipso. Não sabia se tinha mais força em mim, mas saí correndo mesmo assim, dolorosamente empurrando tudo para fora do meu caminho como um jogador de futebol americano. Gritei tentando achar forças e fingir que não sentia dor e me lancei contra o blemmyae. Caímos no chão de qualquer jeito, com pedras antigas deixando a queda ainda mais desconfortável. Embaixo de mim, o blemmyae gritava de dor sentindo o impacto tanto quanto eu e então, quando minha cabeça ficou zonza, eu senti o blemmyae diminuir de tamanho. Confuso, me ergui com dificuldade e no lugar do blemmyae adulto que eu tinha atacado, vi um blemmyae criança.
Ele olhou para si do jeito que podia, os outros blemmyae ao redor olharam para ele tão surpresos quanto eu. Até que o blemmyae criança começou a chorar e saiu correndo para longe com outros três blemmyae correndo atrás dele.
— Kevin! Espere! — gritou um dos blemmyae que corria atrás do blemmyae aparentemente recém transformado em criança.
— Isso é novo… — resmunguei, olhando para as minhas mãos diante do pensamento mais óbvio que aquilo devia ter vindo de minha mãe.
Mas me distraí por mais tempo do que deveria, logo um blemmyae se jogou contra mim, decidido à me transformar numa panqueca. Levantei o braço por puro instinto, aparentemente o ombro tinha se curado o suficiente para isso. Mas não o suficiente para me arrepender da decisão. O impacto me derrubou de costas gritando de dor e por um segundo tudo que vi foi o céu magicamente chuvoso de Karnak girando acima de mim enquanto misturava meu sangue com lama arenosa. O blemmyae levantou o machado. Acho que alguém gritou meu nome. Eu estava tonto, tudo que pude fazer foi ter certeza de que daquele ferimento que ele preparava eu não iria escapar. Então uma flecha atravessou o olho dele. O monstro congelou, deu um passo estranho para trás e virou pó. Tanto pó mágico, quanto ardente, pois logo uma bola de fogo o acertou para ter certeza de que ele estaria morto enquanto as flechas de Apolo continuavam caindo para todo lado numa velocidade sobre-humana.
— Tá tudo bem? Bateu a cabeça? Levanta! — gritou Will, se aproximando enquanto Nico impedia que algum blemmyae se aproximasse.
— Tô bem. Tô bem. — menti ao me erguer levemente.
— Tá quase… — disse ele me ajudando a me levantar, embora fosse difícil acreditar nas palavras dele.
Blemmyae pegavam fogo, Nico ofegava lutando ao lado de um esqueleto que com certeza foi invocado em completo desespero diante do número absurdo de inimigos. Se esse era o primeiro esqueleto que ele tinha invocado naquele dia ou não, eu já não sabia.
— Eles estavam mais preparados do que imaginávamos. — disse Drew, ofegante, descabelada e com sangue escorrendo pela testa — Como vamos chegar até o último e mais distante obelisco? Nem sei se vamos terminar esse vivos.
No meio da conversa, um blemmyae tentou passar pelo nosso lado esquerdo. Drew o derrubou. Outro apareceu imediatamente atrás dele. Nico cortou aquele. Mais dois tomaram o lugar. Era uma luta sem fim. A única coisa que tinha conseguido impedir o total desastre eram as pilastras no meio do caminho e o Leo, Zia, Festus e Apolo com seus ataques aéreos.
Não havia tempo para eu esperar minha cabeça parar de girar, eu continuei lutando. Ou melhor, desengonçadamente me defendendo. Minha cabeça estava frenética, olhando para todo lado tentando achar uma solução milagrosa, uma ajuda secreta. Qualquer coisa. Olhava de um blemmyae pra outro; para Leo nos céus; para o corte de Nico; para o sol nascendo no horizonte; uma coluna cheia de hieróglifos que havia aguentado tantos séculos; outro blemmyae atacando; Drew desesperada; quantas flechas Will ainda tinha; a pedrinha, do tamanho de uma moeda, que se soltou da coluna egípcia; Drew limpando com o braço o sangue que escorria de sua testa até seus olhos; um blemmyae gritando enquanto pegava fogo…
Parei.
Olhei de novo para a coluna antiquíssima cuja pedrinha que se soltou. Outra pedrinha se soltava dela e ela já estava manchada de preto por causa do fogo que era lançado. Foi aí que a ideia conectou-se. Pedindo desculpas à todos os egípcios e egiptólogos, abri caminho até a coluna, que felizmente não estava muito longe.
— Me ajude. — gritei, puxando o braço de Drew.
Começamos a empurrar a coluna e, tal como eu havia suspeitado, ela não era mais tão firme quanto um dia foi.
— O QUE ESTÃO FAZENDO? — gritou Nico, impedindo que um blemmyae nos atacasse enquanto arriscamos aquele momento.
Totalmente desprotegidos, empurramos a coluna com toda a nossa força. Eu sentia minhas veias querendo explodir enquanto usava toda a minha força para empurrar a coluna o mais rapidamente possível, antes que os blemmyae saíssem do caminho. Não havia muito por onde eles escaparem, e felizmente os séculos de idade da coluna logo me ajudaram pois ela logo começou a inclinar e então, caiu ruidosamente, esmagando pouco mais de meia dúzia de blemmyae no caminho e se partindo ao meio.
— Não conta pro Anúbis e pra Bastet que a gente fez isso. — disse Nico.
— O que acontece em Karnak, fica em Karnak. — respondeu Will.
Por uns três segundos gloriosos, funcionou. A queda da coluna abriu espaço, e esmagou vários blemmyae. Outros tropeçaram nos blocos de pedra antigos quando tentaram sair de perto. A linha deles finalmente quebrou por um momento. Então tentamos aproveitar, se não fosse a chuva que caía insistentemente, com certeza teria subido uma nuvem de poeira que nos ajudaria, mas teríamos que continuar sem ela.
Lutamos bravamente como podíamos e eu implorava para meu ombro parar de doer e ele parecia gritar de volta para mim “para de me usar exageradamente então!”. Continuamos, insistimos, era tanto fogo queimando que a chuva já não conseguia apagar. Mas a brecha que abrimos começou a se fechar. De onde vinham tantos blemmyae?
Acima de nós, Festus mergulhou novamente cuspindo fogo. Por um segundo alguns dos blemmyae recuaram enquanto outros pegavam fogo. Mas então uma lança atingiu a lateral metálica do dragão. Festus rugiu e Leo, Zia e Apolo quase caíram.
— EI! — gritou Leo — ISSO FOI RUDE!
— Mil perdões. — respondeu um blemmyae — Mas vocês foram muito rudes também.
Festus voltou ao céu, receoso de descer novamente. Mas Zia conseguiu puxar a lança que havia ficado presa nele e lançou novamente ao chão, atingindo um blemmyae bem no meio da cara.
Eu estava ofegante, todos estavam ofegantes. Eu só podia torcer para Calipso estar quase acabando e fingir que não tinha um terceiro obelisco, que eu nem conseguia ver onde estava, para resolver ainda.
— Eu não acho que vamos conseguir segurar eles — disse Drew, sem fôlego.
— Ao menos quando a gente morrer, vão saber pela luz no céu o quão longe conseguimos chegar. — respondeu Nico.
— Queria te pedir pra não pensar tão negativamente assim… mas também estou no mesmo humor. — respondeu Will — Quando morrermos, acha que seu pai estende o tratamento-família pra mim também?
Será que era isso que esperava a gente mesmo? Eu começava a achar que talvez sim. Estava cansado, exausto. Meu braço estava pesado, minha visão turva. Mal tive noção de quando o feitiço completo de Calipso cruzou os céus. Um obelisco a menos, mas o outro ainda estava inacessível atrás de um mar de blemmyae.
Depois os blemmyae gritaram, certamente com raiva. E então vieram. Não em grupos desorganizados como antes. Vieram todos ao mesmo tempo, como se alguém tivesse dado um comando invisível. Tentamos. Juro que tentamos. Mas era como tentar parar uma enchente com as mãos. Um blemmyae avançou contra mim com um martelo enorme. Eu bloqueei tarde demais e fraco demais. O impacto fez meu braço inteiro vibrar de dor e dobrar para um lado que braços não dobram. Eu gritei com toda a força da minha garganta.
Outro monstro veio pelo lado. Drew o empurrou. Nico derrubou dois. Um chegou por trás de Will, mas eu o empurrei com o ombro bom, derrubando-o no chão mas quase caindo junto. Acima de nós, Leo tentou mergulhar novamente com Festus, mas lanças começaram a subir do meio da multidão. Mas ao menos o fogo chegou até os blemmyae.
— Ok! — gritou ele lá de cima. — Novo plano! Não sei qual é, mas definitivamente precisamos de um!
Se alguém respondeu Leo, eu não percebi. Minha cabeça estava começando a girar de novo. E então, ficou mais frio, um frio que gelou a espinha. Com olhos arregalados, Nico olhou pro céu. Eu segui o olhar dele e vi uma Hades uma enorme carruagem dourada e preta puxada pelos cavalos mais assustadores que eu já vi em minha vida. Com direito à olhos e crina pegando fogo. Quem controlava a carruagem dispensava apresentações, era Hades com seu elmo ao lado de Perséfone e Deméter. Queria ficar feliz, mas quando olhei o elmo senti o mais puro e intenso medo como uma garra das profundezas do Tártaro tivesse acabado de agarrar meu coração. Meu peito travou. Meu coração queria se desmanchar. Minhas pernas queriam ceder. Eu travei. Sentia todo meu desejo de viver escapando, até que Nico gritou:
— Não olhem pro elmo!
Bem, era meio tarde demais. Até estava ofegante de medo, mas logo Nico forçou minha cabeça a virar para o outro lado. E pelo pouco que vi ao meu redor, ele fez o mesmo com os demais. Menos Leo, Zia, Apolo e Festus que, estando nos céus, estavam fora do alcance de Nico. Mas o importante era que os blemmyae também ficaram morrendo de medo. Um perto de mim até fez xixi nas calças.
Conforme Hades foi chegando mais perto, em nossa direção, os blemmyae foram abrindo espaço enquanto alguns poucos deles saíam correndo.
— O que estão esperando? — perguntou Hades — Querem que eles fujam e contem pros inimigos o que aconteceu aqui?
Parecia que era tudo o que os blemmyae precisavam. Vários começaram a sair correndo. Não era uma retirada organizada. Era pânico. Alguns tropeçavam uns nos outros. Outros largavam armas. Mas o chão tremeu e mais além, na direção que os blemmyae estavam correndo, o chão se abriu em uma cratera que começou a engolir os blemmyae que não foram rápidos o suficiente para fugir do buraco.
Mesmo exaustos, nós voltamos a atacar. Desde que não olhássemos para Hades, estava tudo bem. Quanto a Festus e os demais, provavelmente fugiram, porque não os vi mais. Não havia muito espaço ali que coubesse a carruagem, mas Hades encontrou ainda assim. Foi só aí, quando o caos já estava instaurado e os alvos estavam vulneráveis, que ele tirou o elmo e preparou a própria espada.
Ainda tínhamos a desvantagem numérica, mas não me sentia mais em desvantagem alguma.
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