Os Deuses da Mitologia
173 HADES - Imortais em Território Mortal
Notas iniciais
HADES
Tudo estava me lembrando de, não tanto tempo atrás, quando me juntei na batalha contra os gigantes em Atenas. Naquela ocasião, o nariz de Percy Jackson quase colocou tudo à perder, ao invocar aquela mulher… não sei se era um boa ou má mudança de que agora não dependíamos de pequenos acidentes dessa forma. Mas ainda tínhamos que contar que a última pirâmide não seria atacada então… é… acho que qualquer ajuda era bem vinda considerando os nomes ilustres que se aglomeravam do lado inimigo.
Preocupações à parte, era reconfortante ver o caos de blemmyae fugindo para todo lado mesmo depois que eu tirei o elmo. Quase era possível sentir o cheiro do medo permanecia no ar e se recusava a desaparecer. Ele se misturava com a chuva… uma coisa tão estranha e inédita naquelas partes que o solo nem parecia saber como lidar com tanta água.
Só o buraco que eu abri não era suficiente para lidar com aquelas dezenas de blemmyae, exatamente por isso que a terra endurecida de Templo de Karnak cedeu. A areia lamacenta virou algo vivo, ondulando, respirando, puxando. Engolindo pernas, armas, gritos. Um predador surpresa que agarrava suas vítimas e jogava no buraco que abri. Os Blemmyae afundavam enquanto tentavam correr, suas mãos grotescas agarrando o nada. Com certeza um trabalho em equipe de Deméter e Perséfone, e da própria gravidade no final.
Um dos blemmyae tentou se erguer, a boca no peito se abrindo em um grito que mais parecia um soluço. E então desapareceu até os ombros, como se o próprio deserto tivesse decidido que já havia visto o suficiente. Pouco depois, um foi cuspido pela areia em direção ao buraco. Se era o mesmo de antes ou não, eu não saberia dizer. Outro conseguiu se agarrar à borda do buraco que abri, dedos longos cravando na pedra antiga… por um segundo inteiro achei que ele escaparia. Então a areia viva pareceu lhe dar um soco na cara, fazendo-o cair no buraco, na imensidão negra em direção ao submundo.
Os semideuses perceberam rápido. Para o crédito deles, pararam de avançar. Ficaram onde estavam. Exaustos, feridos… mas vivos, longe das garras da areia viva que não sabiam se conseguia diferenciar amigos de inimigos.
Com a areia mágica em meu caminho, dei um grande salto. O mundo abaixo de mim virou um borrão de corpos em pânico, areia viva e ruínas milenares. Passei por cima de um blemmyae que gritava alto demais para alguém que ainda estava inteiro.
Pousei logo diante dos semideuses. Um blemmyae gritou com a minha chegada, um som agudo, desesperado, e sau correndo, eu talvez tenha deixado um sorriso escapar, mas ignorei o blemmyae em questão e ataquei com um grande e profundo corte nas costas o que ia para cima de Will. O blemmyae se desfez antes mesmo de entender o que havia acontecido.
Uma flecha passou zunindo pelo meu ombro, precisa e limpa, atravessando dois inimigos alinhados. Apolo. Logo depois, uma explosão de fogo iluminou as colunas se misturando ao sol, Valdez, claramente se divertindo mais do que devia.
— PAI! — gritou Nico, logo ao lado, tal como os demais, parecendo extremamente cansado.
— Por que essa cara de surpresa? — respondi, ajustando o peso da espada na mão. — Eu disse pra você e Anúbis que viria.
— Porquê demorou tanto?! — perguntou Nico, continuando o combate contra os blemmyae.
Filhos adolescentes. Sempre ingratos.
— Porque… — respondi, com a paciência de quem claramente não estava paciente e os blemmyae foram as vítimas principais da falta de paciência — Eu estava ocupado impedindo que a situação de vocês ficasse ainda mais patética visto que aparentemente ainda nem resolveram o último obelisco daqui!
Outro golpe. Outro inimigo caindo. Não só por consequência da minha espada, como também dos ataques dos semideuses. E do dragão mecânico, que usava o rabo como chicote e cuspia fogo que se juntava ao fogo da maga egípcia.
— Ou você preferia que eu viesse sozinho?- continuei — Especialmente quando envolve convencer a minha sogra. Que nem queria vir salvar você pra começo de conversa. Ela queria ir ajudar a filha, mas a situação de vocês é bem pior, sem nenhum deus aqui… lá eles tem Ereshkigal…
— EI! — exclamou Apolo enquanto deixava uma flecha cortar o ar — Eu tô aqui! Colé aqui tinha três obeliscos e é o maior templo do mundo! O que a Meg foi só tem UM!
— Parem de brigar como crianças e me ajudem a abrir o caminho até o último obelisco! — gritou Calipso correndo para o dragão — Festus! Me leve até lá!
O dragão metálico rugiu queimando todos os inimigos ao redor, abrindo as asas em meio ao caos. O filho de Hefesto parecia empolgado, pronto para o combate no obelisco, quando Calipso se agarrou à sua cintura.
— Temos que alcançar o obelisco para proteger ela! — lembrou a maga egípcia, Zia Rashid.
— Não vai ser mais tão difícil. — falei enquanto olhava para os quatro blemmyae que se aglomeravam no obelisco final e outros mais no caminho até lá — A maioria dos blemmyae morreram ou estão fugindo.
— O que resta ainda dá trabalho. — respondeu Apolo — Eles são bem fortes e ao contrário da gente, mortais cansam muito mais rápido.
— Então vamos dar nossa energia final. — disse a filha de Afrodite.
Suspirei enquanto os semi deuses usaram de fato o resto de suas forças para correr em direção ao obelisco. Ergui a mão. As sombras das colunas do templo milenar se soltaram do chão como se fossem arrancadas de suas raízes. Linhas escuras deslizaram pelas superfícies de pedra, subindo, contorcendo-se, como se estivessem se espreguiçando depois de dormir por séculos, milênios. Mas logo elas acordaram e prontamente perfuraram os blemmyae que alcançaram como espetos.
Os semideuses levaram um susto, os blemmyae gritaram e muitos deles faleceram ali mesmo. Mas os semideuses, honrando seus anos de treinamento, logo trataram de acabar com os que sobraram enquanto Apolo e Will iam mais além, atirando nos que agora Festus lutava para abrir espaço no obelisco.
E a despeito do solo desértico, plantas começaram a se prender aos pés dos blemmyae sob comando de Deméter e Perséfone, que não precisavam mais se preocupar com seu escorregador de areia para a escuridão do nada. A situação estava mais do que ao nosso favor, estava impossível para os blemmyae e, os que notavam, tentavam escapar, mas no geral era tarde demais.
Outras sombras se desprenderam das ruínas gastas pelo tempo, escorrendo pelas paredes como tinta viva antes de despencarem sobre os inimigos. Uma delas se enrolou no braço de um blemmyae que tentava erguer a lança, e puxou brusca e violentamente.
E então… silêncio. Não um silêncio completo, ainda havia o crepitar distante do fogo, o eco de pedras se acomodando, a chuva caindo, respirações pesadas demais para serem ignoradas, mas o caos tinha parado. Logo estávamos a sós diante do último obelisco de Karnak enquanto Calipso fazia a magia.
Ninguém falou. Nem mesmo Apolo. Esperamos. Os garotos estavam cansados, e notei Apolo silenciosamente indo de um a um, com meros olhares, checando como estavam e curando os que precisavam, certamente com medo de algum inimigo surpresa.
Esperamos em silêncio e, mais alguns minutos, a magia dela cortou pelos céus. Estávamos terminados ali. Por alguns segundos… ninguém reagiu, mas logo vieram os suspiros, e o peso do cansaço dos semideuses… e logo os blocos largados no chão viraram bancos. Alguns demoraram até mesmo para entender que podiam parar. A filha de Afrodite ainda mantinha a espada erguida… até perceber que não havia mais ninguém para atacar. Sua guarda caiu e ela simplesmente se largou no chão exatamente onde estava.
Will foi o próximo a sentar, então outro semideus, o filho de Hebe, sentou do lado. Segurei a pequena risada ao ver o mero ciúme de Nico ao apressadamente sentar do lado, o mais perto possível de Will, muito embora Will não tivesse sequer notado a presença do filho de Hebe naquele momento. Cansado demais para qualquer coisa mais complicada do que sentir a chuva, com certeza. Mas não cansado demais para abrir um sorriso para Nico. Uma cena boa de se ver.
— Não contem pra Carter que estão se sentando aí. — disse Zia Rashid, que preferiu sentar-se no chão arenoso mesmo.
— Se você não contar, a gente que não vai. — resmungou o filho de Hefesto, deitado em cima de Festus.
Troquei um olhar com Perséfone e Deméter. Perséfone sorriu para mim, mas Deméter apenas me encarou.
— Vou atrás de Meg. — disse Deméter antes de partir sem cerimônia, pisando no chão e virando raízes que usaria para viajar até o outro templo que estava a filha.
O silêncio que ficou depois foi… quase confortável. Eu queria ir para a base que sei que eles montaram no Templo de Hatshepsut. Perséfone imagino que também. Apolo tentava se mesclar entre os semideuses mas era fato que a comparação de cansaço ali era injusta. Éramos deuses, prontos para a próxima. Eles eram mortais, precisavam de um momento.
Então uma mensagem de Íris chegou. Ninguém se importou muito no primeiro momento. Cansaço demais para curiosidade. Mas quando a imagem do irmão de Sadie apareceu, aqueles que se sentavam nas ruínas tentaram desesperadamente sair de cima delas. E com as pernas fracas que estavam, isso foi um pequeno grande desastre que terminou com eles se largando e rolando na areia molhada.
— … — Carter Kane piscou algumas vezes. — Tudo bem aí?
— Sim… sim… — gaguejou Will.
— Acabamos de terminar por aqui. — respondeu Zia Rashid.
— Só estamos recuperando o ar e logo iremos. — respondeu a filha de Afrodite.
— Largados desse jeito no chão embaixo da chuva? — perguntou Carter Kane.
— É o que tem pra hoje. — respondeu Valdez.
— Hm… Já estávamos na metade da Avenida das Esfinges à caminho daí, mas Deméter apareceu e disse que terminaram. — disse Carter Kane.
— Sim, só juntando forças para voltar. — disse Will, se levantando devagar — Falando nisso, melhor voltarmos antes que tenhamos problemas novos.
— Sim. Não demorem, por favor. — pediu Carter Kane — Vou pedir para o barco ir nos pegar no Museu de Luxor. Nos encontrem no porto do Templo de Karnak. Pode demorar um pouco porque eles devem estar escondidos.
— Pera… pra ser mais rápido… Acha que conseguimos nos dividir todos entre a carruagem e Festus? — perguntou Nico, olhando para mim.
— Festus leva três no máximo. — disse Valdez ainda sem levantar do dragão que usava como o travesseiro mais desconfortável do mundo.
— Vá indo com Festus e mais dois. — eu disse olhando para Valdez — Pode ir até o Templo de Hatshepsut. Perséfone pode levar metade dos que sobrarem até o barco, espera-se que esteja pronto até lá, imagino. Eu fico aqui com os demais e quando Perséfone voltar, vamos até o Templo de Hatshepsut.
— Pode ser. — disse Carter Kane — Vou chamar logo o barco.
E, foi assim, que me vi a sós em Karnak com Nico e Will. Um pouco desconfortável, mas imagino que bem mais para Will, julgando pela expressão dele. Comecei um experimento social, observando Will (dessa vez de pé, para a alegria das ruínas) tentando decidir o que fazer com as mãos.
Praticamente podia imaginar o que sua mente estava pensando sobre algo tão simples como “o que fazer com as mãos”. “Cruzá-las? Não. Muito defensivo. Deixá-las soltas? Estranho. Colocá-las nos bolsos? Não tinha bolsos. Segurar na mão de Nico para puxar forças enquanto o pai dele deus dos mortos nos encara? Com certeza não! Preferiria morrer! Ou talvez não morrer, porque aí eu vou estar sozinho encarando o meu sogro no submundo!”
— Para com isso. — ralhou Nico, me encarando.
— O quê? — perguntei.
— Encarar o Will e ficar com essa cara assustadora de quem tá pensando em um milhão de coisas e julgando tudo. — reclamou Nico.
— Eu sou o deus dos mortos. Ser assustador está na descrição do emprego de qualquer cargo no submundo. — respondi — Mas tão pouco estou com intenção de assustá-los… ao menos não no momento.
— Muito tranquilizador. — respondeu Nico, com sarcasmo, reconheci.
— Pelo o que entendi, conheceram Arawn, Ankou, Ereshkigal e Anúbis, deveriam ter se acostumado… — falei, mas logo mudei de ideia — Se bem que… com Sadie junto… Anúbis provavelmente está mais no modo Golden Retriever.
— A gente viu o modo Rottweiler um pouco também… — resmungou Will, não sabendo se podia ou devia me encarar ou não.
— Mas.. obrigado… por vir… — resmungou Nico finalmente, encarando o chão.
— De nada. — respondi.
O silêncio que se seguiu não durou muito mais, logo vi a carruagem voltando com apenas Perséfone nela. Nós três entramos e foi só questão de tempo até chegarmos no Templo de Hatshepsut onde uma grande quantidade de semideuses, deuses e magos se reuniam. Não sabia como estava a base antes de uma grande parte do grupo ir em busca dos obeliscos, mas era claro que haviam se acomodado como dava no templo apesar da chuva eterna que caía.
Monstros irrelevantes ficavam de olho no templo, de longe, incapazes de atacar graças à um escudo mágico. O templo podia parecer que não tinha muitas salas ou até muito teto, mas tinha várias salas escondidas e eles claramente estavam usando todas. Seja como área de descanso, cozinha ou enfermaria.
Em uma das salas laterais, vi um grupo tentando improvisar uma cozinha, panelas desiguais, fogo instável e alguém claramente discutindo sobre quanto arroz era “demais”.
Nos reunimos na maior das salas, que infelizmente não incluía um teto, mas nada que um exemplo da teimosia humana aparentemente não resolvesse. Alguns dos vários magos que haviam sido carregados até ali havia feito uma espécie de toldo mágico invisível que protegia toda aquela vasta área da chuva. O toldo mágico invisível ainda era inclinado de um jeito que toda aquela água era acumulada em jarros enormes de barro que algumas pessoas pareciam usar ou para beber ou para tentar se limpar. E no centro, uma chama ardia esquentando e secando os presentes sendo controlada claramente por magia.
O chão havia sido secado com certeza mas, ainda assim, a quantidade de cadeiras era limitadíssima, e os panos que tiraram de sei lá onde e colocaram nas entradas não eram suficientes para lidar com o fluxo constante de pessoas chegando com os pés sujos de lama. Era melhor do que nada. Mas ainda não era ideal. Guerra. Sempre a mesma coisa, só muda a decoração e os utensílios de matar.
Ainda não estava acontecendo nenhuma reunião, já que nem todos estavam ali e os que estavam pareciam claramente necessitando de um descanso, uma soneca, uma comida. Mas era palpável a curiosidade e necessidade dos presentes pelo começo das discussões assim que possível.
Passamos por Valdez, Calipso e Festus, sentados juntos no chão, cansados e numa conversa que parecia particular. Eles e Apolo foram os que vieram voando, sem usar os barcos. Mas Apolo não estava ali e o pessoal do barco não havia chegado ainda.
Não conhecia ou não me importava com nenhum dos que vi. Acompanhado de Perséfone, e com Will e Nico em meu encalço, fui indo para o único ali que não caia na categoria de “não conheço e/ou não me importo”. Até porque notei que havia algo diferente nele, e esse algo me deixou desconfortável.
— Demorou bastante até. — resmungou Anúbis ao me ver.
— Adolescentes… — resmunguei de volta — Só sabem reclamar. Vim, não vim?
— A quanto tempo Anúbis. — disse Perséfone, sorrindo, sempre simpática — bom te ver bem.
— Bom te ver também Perséfone. — respondeu ele.
— Que milagre é esse? — perguntei — Sadie foi para os obeliscos e você ficou aqui? Nenhum medo de perder sua namorada mortal? Ou com medo da própria nova mortalidade?
— Cala a boca. — retrucou Anúbis, claramente com nenhum medo da própria mortalidade ao me mandar calar a boca — Eu tinha que ficar aqui para segurar o escudo. Tem muitos magos feridos e inimigos a todo lado. Só desistiram de atacar a pouco tempo. E eu pedi pra Ereshkigal cuidar dela. Já estão voltando.
— E essa ideia de bosta de virar mortal? — perguntei — Tudo isso pra finalmente fazer crescer uma barba?
— Vai a merda. O que raios há com você? — perguntou ele — Até pra seus parâmetros você tá mais irritante que o normal.
— Querido… — disse Perséfone, pousando delicadamente a mão no meu ombro.
Bufei e desviei o olhar, passando por um segundo por Nico e Will, que olhavam de um para outro parecendo que só precisavam de um pacote de pipoca para se sentirem completos diante da cena. Droga. Ódio.
Voltei a encarar Anúbis. Não havia muito de diferente… à primeira vista. A cara era a mesma a milênios, mesma postura, mesma presença, mesma sensação de morte, a magia parecia a mesma, mas sentia que não era. Parecia mais limitada mesmo pulsando com a proximidade da própria capela que se escondia no Templo de Hatshepsut. Na verdade, justamente pela proximidade da capela, a magia parecia se apertar nele como uma garrafa d’água na qual você tentava colocar todo um galão.
Respirei fundo e tentei controlar a carranca. Sabia porque ele havia feito isso. Merda. Não era para eu ficar com ódio assim. Não era ódio na verdade. Mas eu me recusava a escolher a palavra certa.
— Ela vale tudo isso então? — perguntei, finalmente.
— Vale.- respondeu.
— Só não seja idiota — acrescentei.
— Não vai falar que essa decisão já foi idiota? — respondeu ele.
— Sim. Não. — respondi, enrolado — Como Ereshkigal reagiu?
— Melhor que você. — respondeu ele.
— Ela é uma velhota. — comentei.
— Não deixe ela te ouvir falando assim. Ela já deve estar por aí. — lembrou Perséfone aos sussurros.
— Já me acostumei com você me enchendo o saco eternamente. — respondi, era o melhor que conseguiria -..... Mas…Então trate de fazer isso valer a pena.
— É a intenção. — respondeu ele com um pequeno sorriso.
Não respondi, só desviei o olhar e cruzei os braços, provavelmente parecendo uma criança emburrada. Nem prestei muita atenção quando Nico e Will disseram, acanhados, que iriam se limpar e comer alguma coisa. Alguns minutos depois disso, o resto dos que voltaram de barco chegaram, e isso incluiu Sadie, Ereshkigal e Bastet, que logo se aproximaram de nós.
— Viu? Inteira. — disse Sadie ao dar um giro diante de Anúbis.
— Você se preocupa demais com ela. — disse Ereshkigal — Eu nem precisei fazer muito. A garota é forte.
— Eu sei disso. — admitiu Anúbis.
Notei que o olhar dele passou rapidamente por Bastet, que permanecia de braços cruzados, emburrada, evitando encará-lo. Claramente havia história ali.
— Então, é isso, podemos seguir para o Cairo? — perguntou Ereshkigal.
— Os mortais me parecem bem cansados. — disse Perséfone.
— Chegar até aqui foi bem complicado. — respondeu Sadie, soltando um suspiro pesado.
— Hey… — disse Apolo — Aqui é o cantinho dos deuses e agregados deles?
— Aparentemente. — resmunguei.
— NInazu está na enfermaria com Magnus e Alex está lá preocupada com ele e tal… — explicou Apolo — Mas vai ficar tudo bem. Não é nada grave.
— Ah, tenho que ir falar com Amós… — disse Anúbis ao ver o mago entrando no espaço e logo o seguindo o mago com o olhar enquanto ele andava pelo lugar checando a saúde de cada um — Quando vocês estavam fora, uma mensagem de Íris de Percy chegou.
— Ah sim, ele tentou falar com a gente antes mas estávamos ocupados com o obelisco e os inimigos na hora. — falou Sadie.
— Percy? — perguntou Apolo — Aconteceu algo?
— Eles chegaram no Canal de Suez. — explicou Anúbis rapidamente — E Ártemis acabou de aportar em Creta.
Anúbis rapidamente se afastou de nós, indo passar essa atualização para Amós em como esperado, Sadie foi atrás dele. Por alguns segundos, apenas o som da chuva batendo nas pedras antigas e no toldo mágico preenchia o espaço.
— É estranho. — comentou Apollo, girando uma flecha entre os dedos. — Tipo… muito estranho.
— O quê? — perguntou Perséfone enquanto seguia com o olhar Deméter, que estava longe, ouvindo uma história aparentemente empolgante da filha.
— Isso. — ele gesticulou em volta. — A gente… aqui. Esperando. Seguindo planos. Escutando pedidos e instruções de mortais… Não só participando de uma luta e indo embora.
— Também não é todo dia que tantos deuses e monstros de tantos povos diferentes se unem. — respondi.
— Eu não pretendo ficar aqui só escutando como mais um peão. — disse Ereshkigal, antes de sair batendo o pé para a conversa seria e de provável planejamento que parecia estar acontecendo agora entre Anúbis, Sadie, Amós Kane e Carter Kane.
— O que ela pretende com a simpatia exuberante dela? — perguntei.
— Acho que logo vamos ver. — disse Perséfone.
Depois, Deméter se juntou a nós, claramente não acostumada a passar tempo demais com a filha. E ficamos lá, quietos, sem qualquer conversa, com os mortais nos evitando com claro medo no olhar vindo de alguns. Mas então, claramente não gostando de só ouvir ordens, Ereshkigal foi até o centro da área e se dirigiu aos presentes.
— Atenção. — disse ela séria e firme, como qualquer grande general.
Não foi alto. Não precisou ser. O efeito foi imediato. Até pareceu que a temperatura ali havia diminuído. As conversas morreram e todos focaram nos dois. Mesmo diante do cansaço e da aparente dificuldade em percorrer tanto do Nilo, todos pareciam ansiosos para continuar a viagem já que o tempo não estava muito em nosso favor. Mas mais importante que isso, ninguém queria irritar Ereshkigal.
— Temos um bom grupo se reunindo ao redor do Cairo com Ártemis e seu exército esperando em Creta e o filho de Poseidon, Percy Jackson, e seu exército no Canal de Suez. — explicou ela — A informação que chega até nós é que a segurança para chegar até o Cairo está reforçada, mas eles estão prontos para furá-la ao nosso sinal.
— Não é um plano arriscado? — perguntou um mago.
— Não me interrompa, mortal. — ralhou Ereshkigal, nem se dignando a olhar para o mago.
— Sério… — sussurrou Apolo só para nós — Quão burro tem que ser alguém pra olhar pra cara de Ereshkigal e achar que é uma boa ideia interromper. Só a cara dela já dá medo.
— Pelo o que me contam, eles estão nesse momento coordenando um plano que não fará isso ser um plano arriscado. — disse Ereshkigal, olhando para Anúbis em busca de um olhar de confirmação da informação.
— Eles entraram em contato mais cedo e sabem da nossa localização. — respondeu Anúbis — Ainda estamos longe do Cairo e cansados.
— E ainda temos o obelisco de Faiyum no meio do caminho. — completou Carter.
— O time de Ártemis e Percy Jackson vão se encarregar dos vários obeliscos no Cairo e desviar a atenção para eles enquanto nós subimos o mais rápido possível para o Cairo. Estão em número grande o suficiente para ousar fazer isso. — continuou Ereshkigal — Um time descansado, que não participou das lutas em Luxor, vai se encarregar de Faiyum, o resto de nós vai seguir para o Cairo para aproveitar a distração e montar nossa nova base.
Como se estivesse numa sala de aula, vi Meg McCaffrey levantar a mão ao querer perguntar algo. Não só ela foi completamente ignorada por Ereshkigal, como também Deméter tentou disfarçadamente gesticular para que ela abaixasse a mão. Ao lado, Apolo escondia o rosto atrás da mão, claramente segurando o riso.
— É improvável que consigamos chegar até a Pirâmide de Gizé. — continuou Ereshkigal — Toda a maior defesa está com certeza lá. Mas já sabemos para onde vamos e onde vamos montar a base. Essa informação será, até o momento, confidencial para evitar vazamentos. Partiremos em uma hora.
Silêncio. Ninguém reclamou ou questionou. Mesmo exaustos… todos começaram a se mover. Mesmo que fosse se mover em direção a um prato de comida quente ou em busca de um canto para dormir.
Era sutil, mas eu notei. Não era a primeira guerra que eu olhava tão de perto, embora talvez fosse a primeira que eu ficava por tanto tempo sem ser um espectador invisível. Mortais obedecem, sim… mas primeiro eles sentem o peso da ordem. Avaliam. Hesitam. Como se cada decisão pudesse ser a última. Deuses não fazem isso. Talvez devêssemos.
Observei enquanto um dos magos ajudava outro a se levantar, o braço do homem tremendo não por ferimento, mas por puro esgotamento. Um Zia Rashid passou por eles carregando duas tigelas de comida como se fossem artefatos sagrados. Meg McCaffrey simplesmente encostou na parede e deslizou até o chão, parecendo desistir de existir por alguns segundos. E ainda assim, daqui a 1 hora seguiram caminho… Mesmo que o time encarregado de Faiyum fosse outro, não queria dizer que o caminho seria uma viagem tranquila com um tapete vermelho de boas vindas exposto.
Ao longe, vi Nico ajudando Will a se levantar. O u talvez fosse o contrário. Difícil dizer. Os dois pareciam igualmente exaustos. Ainda assim, trocaram algumas palavras baixas, e Will sorriu daquele jeito leve demais para aquele lugar. Nico fez algo extraordinário, sorriu de volta e logo os dois entrelaçaram as mãos. Era uma cena graciosa e era raro ver um filho meu assim… feliz. Mas eu só cruzei os braços pensando em como mortais eram frágeis e também em Hazel, que estava prestes a participar de um plano de furar a defesa que protegia o Cairo como a fortaleza que um dia foi.
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