Os Deuses da Mitologia
167 CARTER - As cores da Núbia
Notas iniciais

CARTER
Ainda bem que Sadie conseguiu uma carruagem porque olha… não foi fácil cruzar do Mar Vermelho até o Nilo pelo deserto que separava os dois no Sudão. Estava muito quente e ali era apenas uma imensidão de areia, sem mais ninguém. Éramos apenas um pontinho solitário ali. Não havia estradas, nem pessoas, tudo isso havia ficado para trás. Mas talvez nos receberia mais pra frente, quando chegássemos perto do Nilo. Afinal, as pessoas costumam morar onde tem água.
O barco diminuído estava no meu bolso e todos nós estávamos na carruagem, com exceção de Ereshkigal, que ia de pé no teto dela, de olho em tudo. Subíamos e descíamos dunas de areia de tamanhos diferentes. Era um bom descanso para todos.
Mensagens recentes que chegaram dos demais, nos atualizaram da situação. O pessoal que antes estava na França já havia deixado ela para trás e entrava no Mar Mediterrâneo, torcendo para não terem muitos problemas. Os mexicanos estavam quase chegando em Atenas e seguiram mais para o sul, para encontrar com o pessoal da França, que os daria carona, e se juntariam com as Caçadoras de Ártemis, que acabavam com as dezenas de obeliscos em solo italiano, em Roma. Isso criaria um mini-exército naval em caso de problemas para cruzar o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. Enquanto isso, Apolo nos mandou mensagem enquanto já pousava na Nigéria e, na Ásia, o pessoal recém recuperado e com um meio de transporte melhorado, já estava no começo da longa travessia pelo Oceano Índico.
Eu já estava me acostumando com a calmaria quando o rosto de Ereshkigal apareceu na janela da porta da carruagem de cabeça pra baixo.
— Estamos chegando. — avisou ela.
Pulei da minha cadeira como se ela estivesse pegando fogo e grudei na janela da frente. O cocheiro tampava boa parte da visão, mas ainda assim, não parecia que havia muito para ver ali. No meio do infinito deserto, água o cortava de norte a sul, refletindo os raios do sol. O Nilo. Em janelas diferentes, Bastet, Zia, Sadie, Anúbis, Nico, Will, Sam, Paulo e Drew brigavam por um pedaço. Não havia janelas suficientes para tanta gente assim. Mas quando notaram que não havia nada além do Nilo no meio do deserto, eles foram perdendo o interesse.
— Certeza que é aqui? — perguntou Sadie — Ainda parece estar no meio do nada.
— Está certo. — respondeu Bastet, no meu lugar.
— Mas… é ali… tipo… ali no rio? — perguntou Sadie — Ou temos que andar mais? Não estou vendo nada.
— Acho que tem alguma coisa ali sim… — disse Zia, forçando a visão.
— Parece que tem uma casinha… — disse Will, forçando os olhos tal como Zia.
Conforme mais perto chegamos, mais eu via que vim, havia ali uma casinha. Solitária e pequena. Tão pequena que não fazia nem sentido. Era um mero quadrado que parecia ter só espaço para abrir a porta de madeira e fim. Mais nada. Nós paramos do lado da casinha, saímos todos da carruagem e quanto mais eu olhava para ela, mais estranha ela parecia.
— Temos certeza que estamos no lugar certo? — perguntou Drew, protegendo os olhos do sol que queimava sem dó.
— Uma construção estranha no meio do nada? — perguntou Nico — Parece exatamente o nosso tipo de estranho.
Tenso, segurei a maçaneta e abri a porta velha. Pela aparência velha da porta, achei que ela iria ranger e todo o Saara iria nos ouvir. Mas não. Ela abriu perfeita e silenciosamente. Dentro lá dentro, ocupando cada milímetro quadrado disponível na pequena construção, havia uma escada em espiral que descia pela escuridão bem mais do que meus olhos conseguiam enxergar.
— Realmente parece muito seguro e convincente. — comentou Sadie, sarcasticamente, logo atrás de mim.
— O que vamos fazer com a carruagem? — perguntou Sam, olhando para o cocheiro feito de pura sombra.
O cocheiro resmungou alguma coisa em francês, o que foi 90% sem sentido para mim (certeza que o “rivière” que ouvi era “rio”). Todos os outros, com exceção de Anúbis e Drew, pareceram não ter entendido nada. Drew, provando que entendeu, afirmou com a cabeça fazendo uma expressão de entendimento no rosto, e Anúbis apenas disse:
— D’accord. — que eu sabia significar “de acordo”.
Eu olhei para Anúbis e Drew, esperando alguma explicação, até que finalmente ganhei.
— Ele vai se esconder na mata perto do Nilo depois que descermos. — explicou Anúbis — Se precisarmos dele de novo é só chamar.
— Se não for uma armadilha a gente pode ver com Tio Amós se tem como a carruagem descer. — sugeriu Sadie.
— Preciso perguntar de novo se temos certeza que é aqui? — perguntou Drew, novamente, encarando a escadaria escura.
— Bem… se for uma armadilha, acho que a gente vai notar rapidinho no meio do caminho dessa escada super simpática. — disse Will.
— Enquanto um faz o outro de panqueca. — completou Nico.
— Muitos pensamentos positivos por aqui, eim? — perguntei, respirando fundo e começando a descer os primeiros degraus da apertada e assustadora escada.
Os outros foram me seguindo, um de cada vez, numa fila. Não havia espaço para mais de uma pessoa descer de cada vez, e ainda havia a escuridão. Quando eu já estava inseguro se meu pé estava acertando o degrau direito naquela escuridão, uma luz muito forte brilhou atrás de mim. Me virei, e vi que Will basicamente tinha se transformado numa lanterna brilhante.
— Isso é… bem útil… — falei.
— De nada… — respondeu ele enquanto, no final da fila, Bastet fechava a porta.
O silêncio enquanto a gente descia era muito incômodo. Me fazia até sentir falta das tagarelices de Sadie. Mas havia mais outra sensação incômoda ali que me deixava arrepiado. Uma sensação de estar sendo observado.
Com Will iluminando nosso caminho, cheguei no final da escada. Um após o outro, os demais também. Agora, na nossa frente, havia um corredor, levemente inclinado para ir mais fundo ainda, e que era tão arrepiante quanto a escada de antes, mas que dessa vez três pessoas conseguiam andar lado a lado.
— Vocês… também estão com a sensação de que a qualquer hora alguém vai pular pra dar um susto na gente? — perguntou Sam, aos sussurros.
— Sim. — respondemos todos, falando tão baixo quanto ela.
— Estamos de fato sendo observados. — disse Ereshkigal, tão calada até então que mal lembrei que estava ali, tal como Anúbis. Esse silêncio deles deve ser de tipo de deus.
Agora que tínhamos mais espaço para realmente empunhar nossas armas, foi com elas prontas que seguimos pelo caminho, sem saber onde íamos parar. Nossos passos ecoavam no corredor como batuques altos de tambor, já nem um pio mais se ouvia. Então, depois de andar sabe-se lá quanto tempo, vi uma curva no túnel. E mais do que isso, seja lá para onde essa curva levava, havia luz vindo de lá.
Nós viramos a curva e poucos passos mais me levaram para o fim do túnel e eu fiquei boquiaberto. Não sei se fazia sentido considerando o tanto que descemos, mas estávamos agora num lugar muito grande, de teto muito alto, completamente cercado de tijolos de granito e arenito. O teto era pintado para parecer o céu à noite, do mesmo jeito que o Salão do Julgamento e tantos templos egípcios também eram.
Mas a parte mais legal, foi que diante de nós, estava toda uma vila núbia completa, com até um lago cuja água veio de sabe se lá onde. Se é que talvez não fosse um rio, pois o lago parecia facilmente se perder no além. O que era estranho, considerando que estávamos rodeados de pedras por todos os lados. Mas ao menos havia um bom bocado do lago que eu não conseguia ver enquanto ele se escondia atrás da vila e de grandes arbustos de papiro.
Uma vila núbia provavelmente ranquearia fácil numa lista de arquiteturas de vilas mais coloridas do mundo. As casinhas que se erguiam logo na beira do lago, tão em cima do lago que continham até um pequeno porto particular, eram extremamente coloridas em tons pastéis com detalhes mais vibrantes. Algumas grandes janelas de topo arredondado eram pintadas com bordas amarelas repletas de triângulos brancos, azuis e vermelhos que se destacavam nas paredes das mais diversas cores, mas principalmente azul. Outras janelas eram rodeadas por círculos azuis na parede amarela enquanto a porta, de bordas azuis, estava na parede rosa.
O telhado arredondado das casas tinha pequenas entradas para o ar entrar, mas era um misto de cores pasteis. E nem falei dos desenhos de tamareiras, crocodilos e pássaros que enfeitavam algumas paredes delicadamente.
— Que lindo! — exclamou Will.
— Muito… — disse Paulo.
— É uma vila Núbia… — explicou Zia, mais rápido que eu.
— Muita magia foi usada aqui… — concluiu Ereshkigal, olhando para o teto.
— Não sabia que o nomo do Sudão era tão bonito assim… — disse Sadie.
— Já tinha ouvido uns rumores que achei que era mentira… — disse Anúbis — De que tinham feito algo pra se esconder melhor do Egito.
— Pera… — falou Drew — Como assim se esconder do Egito? O pai do Carter não tá aqui?
— Tio. — corrigi.
— Foi o que eu disse. — respondeu Drew prontamente.
— As relações entre egípcios e núbios… nunca foi das melhores. — expliquei — Egípcios e núbios lutam entre si, e conquistam um ao outro, desde dos tempos dos faraós. Hoje em dia, com essas divisões malucas que fizeram da África, o povo núbio ficou dividido entre o Egito e o Sudão e o Egito não mudou muito desde da época que subjulgava os núbios antigos quanto à isso. Os núbios do Egito não recebem muita atenção, ou recursos, muitos são analfabetos, extremamente pobres, e tem sua cultura cada vez mais engolida pela egípcia, tal como aconteceu antigamente, até chegar o ponto dos núbios seguirem a antiga religião egípcia e até adorarem espec-
— Tá… aula de história pode ficar pra depois. Interessante e tudo mais mas, olha ali. — cortou Sadie, apontando para uma das casas mais altas.
Saindo de uma das casas mais altas, logo vi meu tio, acompanhado de uma mulher. Ambos olhando para nós e claramente aliviados de termos chegado bem… apesar da grande companhia que veio junto. Fazia muito tempo que não via meu tio, e Sadie também, e tivemos até vários momentos de dúvida de se ele estava bem, ou até vivo. Logo, ambos guardamos as armas e saímos correndo em direção à ele.
Nós dois fomos correndo, Zia veio logo atrás, começando andando, mas logo correndo também. Tio Amós também vinha na nossa direção, mas só andando rápido, não correndo como nós. No meio do caminho, depois de levantar toda a areia enquanto corria, simplesmente nos abraçamos. Forte. Tentando fazer toda a saudade e preocupação sumirem naquele mesmo instante. Zia não pulou de cara no abraço, ficou mais olhando, esperando a sua vez
— Pode entrar também no abraço em grupo. — disse meu tio e Zia logo fez isso.
Ficamos ali tempo suficiente para tanto o resto do nosso grupo nos alcançar como também a mulher desconhecida que acompanhava tio Amós.
— Vocês cresceram muito. — disse tio Amós ao nos soltar.
— Não faz nem um ano que nos vimos pela última vez. — disse Sadie.
— Mas faz quase isso. — respondeu tio Amós, com um sorriso e… achei ter visto o orgulho nos olhos dele também — Tentar salvar o mundo deve fazer isso com as pessoas.
— Ele poderia parar de se colocar em perigo. — comentei.
— Ficar longe de perigo está longe de ser a especialidade dele. — disse Tio Amós — Mas, de toda forma, bem vindos ao Nomo do Sudão. E vejo que trouxeram muitos amigos.
— Se Naunet juntou o exército dela, demos nosso melhor para montar o nosso também. — justifiquei enquanto tio Amós percorria o olhar pelo pessoal todo, que era um grupo bem diverso, enquanto eu apresentava rapidamente — Anúbis e Bastet você já conhece. Tem também a… senhora? senhorita? Não quero te irritar…
— Só Ereshkigal está bem. — respondeu Ereshkigal embora parecesse ter ficado feliz com como eu pisava em ovos tentando não a irritar.
— O-Ok.. bem… — continuei — E… Sam, Nico, Will, Drew e Paulo.
— Um pouquinho de cada capítulo de um livro de mitologia. — concluiu Sadie, com um sorriso, orgulhosa da combinação de deuses, semi-deuses e magos que tínhamos arranjado.
— Estou vendo… — disse tio Amós, claramente surpreso — Até tem 3 deuses.
— Dois e meio. — corrigiu Zia e Anúbis simplesmente deu de ombros.
— Como dois e “meio”? — perguntou Tio Amós, completamente perdido.
— Longa história. — respondeu Sadie rapidamente antes de qualquer um tentar explicar.
— Tem também meu pai… — disse Will, mudando de assunto rapidamente — Apolo. Ele está vindo também e com mais gente e… com… o livro… segredinho nosso.
— É primordial que Apolo chegue o mais breve e em mais segurança possível. — falei, seriamente.
— Toda ajuda é necessária. — disse a mulher cujo nome eu ainda desconhecia — Pra terem chegado assim inteiros, deduzo que não vieram subindo o Nilo.
— Não seria descendo? — perguntou Drew.
— O Nilo corre de sul a norte. — disse Bastet — Entrar pelo Mediterrâneo seria, sim, “subir” o Nilo.
— Não subimos o Nilo. — explicou Zia — Fomos pelo Canal de Suez para o Mar Vermelho até alcançarmos o Sudão e então cruzamos o deserto numa carruagem emprestada.
— Carruagem emprestada? — perguntou Tio Amós, claramente se interessando pelas aventuras que nos levaram até ali.
— Do Ankou, — explicou Anúbis — Um deus da morte da Bretanha… o cocheiro e a carruagem estão escondidos lá fora com a carruagem, se conseguirem um jeito de esconderem ela melhor…
— Ele só fala francês. — acrescentou Sadie.
— Podemos dar um jeito nisso sim. — prometeu a mulher, que ainda não havia se apresentado, mas pegou o celular e mandou mensagem para alguém. Espero que para cuidar da nossa solitária carruagem.
— Aliás, essa é Noor. — disse tio Amós, respondendo minha pergunta silenciosa — Ela cuida desse Nomo e nos recebeu depois do caos que foi fugir do Egito.
Noor era uma mulher alta e de pele negra tão brilhante que o nome cabia muito bem nela, significava “Luz” em árabe. Ela tinha um rosto sério, mas parecia ser simpática apesar de tudo… Ela usava o cabelo raspado e um vestido branco e bem longo com alguns detalhes daquela cor estranha que não é nem azul e nem verde. Também usava um par de brincos incrivelmente grandes de argolas douradas.
— Foi muito ruim a fuga do Egito? — perguntou Zia.
— Não sei o tanto de problema que vocês tiveram no Mediterrâneo… — disse tio Amós.
— Suficiente. — respondeu Sadie.
— Eu faria de tudo para ter tido só “suficiente”. — respondeu tio Amós, com pesar no olhar — Não foi nada fácil. Perdemos alguns. Mas a maioria de nós está bem. Temos vários quartos aqui, podemos arrumar alguns para vocês se for necessário, mas gostaria que nos atualizasse das coisas.
— Vai ser uma longa conversa. — falei.
— Não tem problema. — falou Noor — Temos comida. E se precisarem, temos quartos para dormirem e poderão descansar e também treinar para o que está por vir.
Noor deu as costas para nós e nos guiou para dentro da vila. Agora mais perto, eu finalmente notava que havia pessoas vivendo lá. Subindo e descendo as escadas, lendo, cozinhando, e brincando com crocodilos filhotes.
— Eles estão brincando com crocodilos?! — perguntou Will surpreso.
— Como eu ia dizendo antes de ser interrompido por minha querida irmã… — falei, fazendo um drama, para o qual Sadie respondeu fazendo seu próprio drama, fazendo um biquinho de fingida tristeza.
— Os núbios adoram Sobek, o deus crocodilo. — disse Anúbis, me interrompendo no lugar de Sadie, o que claramente deixou ela muito feliz, pois ela sorriu, me deu língua, e trocou um tímido e escondido “bate aqui” com Anúbis.
Ele claramente sabia deixar a namorada feliz. Tenho que treinar Zia pra pegar no pé deles também… mas de um jeito saudável e brincalhão, como agora. Não com o olhar de “eu não gosto de você” que ela geralmente encara Anúbis. Correção da lista, fazer os dois se darem bem primeiro.
Noor nos levou até a laje de uma das casas, onde havia vários sofás sem pés, do jeito que eu imaginaria um sofá japonês, feito para sentar no chão, mas com tecido tão colorido que rivalizava às cores das casas. Eles estavam encostados em todos os pequenos muros que rodeavam a laje e, no meio, algumas mesas azuis esperavam por alguma coisa para ser posta em cima. Nos sentamos nos sofás, com exceção de Ereshkigal, que preferiu ficar num teclado próximo que cobria parcialmente a laje. Meio nos ouvindo, meio nos ignorando como se esperasse sua hora de começar uma luta.
Começaram a explicar tudo o que tinha acontecido, e tio Amós também explicou como a situação estava lá. Gastamos muito tempo trocando informações. Pessoas que eu não conhecia deixaram chá de hibisco, biscoitos, falafel, e tâmaras sobre a mesa. Sam ficou um tempo mais que o normal encarando o falafel, mas não foquei muito nisso. Saber toda a situação em que estávamos era muito importante. Depois de várias horas, ambos os lados se sentiram satisfeitos com todas as atualizações possíveis imagináveis.
— Bom saber que seus amigos já estão vindo para cá. — disse Noor — Mas creio que precisamos de mais gente. Nada contra, mas vocês não passam de adolescentes, semideuses e magos. Muitos dos que vamos enfrentar são deuses. Quetzalcoatl tem seu exército pelo o que falaram. Nyx está solta e provavelmente rancorosa. A Cuca é uma feiticeira que até eu já ouvi falar. E não conseguiram derrotar Supay. O tempo que eles tiveram livre vai ser suficiente para arranjarem mais monstros. Muita coisa se esconde na floresta Amazônica. Vai ser fácil para eles.
— Oxum e Nanã não devem ser subestimadas também. — avisou tio Amós — E pelo o que contaram, ainda tem Nidar, que nem sequer conheceram cuidando do Leste da África.
— O vi de longe… — disse Ereshkigal, do telhado — Ele estava tentando organizar algo para impedir que o caminho pelo Mar Vermelho fosse viável. Mas lidei com ele. Ele deve ter fugido ao menos temporariamente para as bandas da Somália. Saiu correndo assim que me viu. Consegui acabar com parte do exército dele que não foi rápida o suficiente.
— O que confirma ao menos que a informação é válida. — disse Bastet.
— E esse tal Whiro da Oceania que também não conhecemos. — disse Nico.
— Eu tô mais preocupado com o cara que Percy e os outros encontraram na Indonésia. — disse Will — Ele também tinha um exército e saiu ileso do grupo que tinha o Percy na lista! E eles ainda se juntaram com uns chineses lá. Qual era o nome do cara mesmo?
— Amatsu-Mikaboshi. — respondeu Anúbis.
— Esse ai. — respondeu Will — Já conheceu ele?
— Não. — respondeu Anúbis — Só decorei o nome mesmo.
— Mas acho que Percy não chegou a lutar com ele né? — perguntou Nico — Não entendi direito a explicação deles dessa parte. Estavam bem cansados.
— Então os que têm o próprio exército com toda certeza são Naunet, Quetzalcoatl, Amatsu-Mikaboshi e Nidar? — perguntou Tio Amós.
— Só o exército do Quetzalcoatl, que foi o único que vi, tinha monstros suficientes para cada um de nós. — falei — Com Supay e a Cuca sendo muito difíceis e podendo juntar o próprio exército… Sei que números não são tudo numa guerra mas…
— Temos as Caçadoras de Ártemis também. — lembrou Will — E a própria Ártemis.
— E se os mexicanos vierem em maior número… — disse Sadie — Os que ficaram lá no México na base deles.
— Eles não estão muito longe? — perguntou Sam — Se arrumassemos um jeito de trazer eles e o pessoal de Valhalla..
— E os de Nova Roma e do Acampamento Meio-Sangue… — ponderou Nico — Mas é arriscado. Esses lugares ficariam desprotegidos.
— Temos vários guerreiros aqui no Nomo. — disse Noor — Como são os números desses lugares que falam? Acampamento, Roma, Caçadoras...?
— Se Quetzalcoatl, Amatsu-Mikaboshi e Nidar juntos tiverem um exército do tamanho de três Quetzalcoatl… — falei, pensando — Talvez com um bom planejamento…
— O de Hafgan lá no Reino Unido não foi lá essas coisas. Tá, deu trabalho mas… — disse Sadie, pensando — O que eu quero dizer, é que não parece que todos estão igualmente bem na arte de montar um exército. E parte da nossa galera está longe, mas a deles também. Ao menos até a última vez que os vimos.
— Conseguimos convencer mais algum outro deus a ajudar? — perguntou Drew.
— Acho que… — disse Nico, trocando um olhar com Anúbis, que parecia pensativo — Será?
— Talvez… — respondeu Anúbis — Ereshkigal seria a mais difícil e ela está ali em cima.
— Quem? — perguntou Noor.
— Talvez Hades. — respondeu Nico — Meu pai.
— Com as palavras certas até Perséfone viria junto. — completou Anúbis.
— Fale que é que nem nos velhos tempos. — disse Ereshkigal.
— Tem muita gente faltando pra ser que nem os velhos tempos. — respondeu Anúbis.
— Então que seja pela memória deles. — sugeriu Ereshkigal — Posso arrastar meus filhos para lutarem.
— E mais dos egípcios? — perguntou Sam, olhando para Bastet.
— Ocupados tentando impedir que outros venham ajudar Naunet. — respondeu Bastet.
— Temos contatos bons aqui. Sugiro que zerem o livro de contatos divinos que tiverem. — disse Tio Amós — E enquanto fazem isso, verifiquem a possibilidade de um transporte rápido que saia de algum lugar das Américas para trazer quem quiser vir. E falem para nos encontrarem em Abu Simbel e que evitem vir subindo o Nilo. Menos Apolo. Fale para Apolo vir diretamente para cá. Mas só fale quando estiver mais perto.
Sabe aquele caos que fica quando tem um trabalho em grupo para fazer no meio da aula? Potencialmente um trabalho já mais artístico? Esse foi o mesmo caos que ficou quando tentamos nos virar com quem chamar para ajudar e como. Ereshkigal foi a única que simplesmente saiu voando para sabe-se lá onde. Nico, Sadie e Anúbis discutiam entre si sobre como chamar Hades; Will, Drew e Paulo saíram correndo para algum lugar com água para fazer uma mensagem de Íris para Nova Roma e para o Acampamento Meio-Sangue. Noor desceu com eles para ajudar eles a encontrarem água.
Sam teclava sem parar no celular e ligava para o Hotel Valhalla. Eu tentava juntar com Amós e Noor os números, mensagem de Íris, mensagem de fumaça, qualquer coisa, pra contar outros Nomos pelo mundo. Fazíamos isso, mandando mensagem atrás de mensagem para Nomos que, geralmente, já estavam esperando pela mensagem de Noor e de Tio Amós avisando que sim, a guerra viria e já sabíamos para onde. Eventualmente, logo Nico, Sadie, Anúbis e Bastet saíram correndo dali também, falando alguma coisa sobre queimar um pedaço de carne na fogueira.
Falando assim parece organizado. Mas falar com uma pessoa, ou deus, às vezes envolvia falar com outra também. E checamos também os nossos vários grupos de amigos espalhados pelo mundo. Era bastante gente para falar. As horas passaram, meus olhos pesavam, a comida acabava. Sam estava deitada em um dos sofás, meio pensando, meio caindo no sono, quando Zia exclamou bem alto e à acordou:
— OS OBELISCOS! — gritou Zia, assustando Sam, que logo se sentou no sofá.
— O que tem eles? — perguntei.
— Eles também são portais! — exclamou ela — Tem um nos Estados Unidos, lembra? Já arrumamos o da França, o de Israel, o da Polônia, o da Turquia, os do Unido Unido, o dos EUA e Ártemis está arrumando os da Itália agora. Tirando esses, ficam só os…
— Os do Egito. — completei — Vendo a deixa que ela me dava para terminar a frase.
— Quantos faltam para Ártemis? — perguntou Sam.
— Não sei. — respondi — Na Itália contamos 13. Mais da metade em Roma.
— Ela chegou pelo sul da Itália… — disse Sam — Então os ao sul de Roma ela já deve ter resolvido né? Quando falamos com ela mais cedo, elas estavam em Roma, não foi?
— Lembro que um dos obeliscos era na Sicília… — disse Zia — Que fica no sul da Itália.
— Esse já não deve mais ser problema. — completou Tio Amós — Creio que outro fique em Florença, que fica ao norte de Roma.
— Então Itália está bem encaminhada provavelmente… e os do Egito… — eu disse, parando para pensar nos obeliscos egípcios.
— Um em Faiyum, perto do Cairo. Quatro no Cairo. — respondeu Amós, puxando com facilidade uma lista mental que só demorava alguns segundos pra ele contar quantos cada cidade tinha — Cinco em Luxor e um Aswan.
— Aswan é perto daqui, não é? — perguntei.
— Não tão perto pra você considerar ir agora ou à pé, mas… — disse tio Amós — o de Aswan e o de Luxor são sem dúvida os mais perto. Com o Cairo como o destino final, querendo ou não, estão todos muito bem organizados perto o suficiente do Nilo a ponto de ser possível resolvê-los enquanto nos aproximamos do Cairo, onde ficam as Pirâmides de Gizé. Mas o Nilo está com certeza muito bem protegido.
— É a próxima coisa que precisamos planejar então… — falei — Como percorrer o Nilo todo para ir a cada um desses obeliscos.
— Temos o elemento surpresa do nosso lado? — perguntou Sam.
— Talvez. Não sei. — respondeu Tio Amós — Não sabem que estamos aqui, mas com todo mundo vindo pra cá, não dura muito.
— Tem algum lugar que possamos nos esconder no meio do caminho se precisarmos? — perguntou Zia.
— Seria bom ter algum lugar em Luxor para nos proteger. — disse Tio Amós.
— Ainda assim, os portais tem seus momentos específicos de serem ativados e se os últimos estão no Cairo, pode ser que fique em cima da hora demais. — falei.
— Carter! Senhor Amós! — disse Will , aparecendo ofegante da escada — Meu pai disse que está chegando! Ele precisa saber onde no Nilo parar.
— MAS JÁ!? — exclamei.
— Arrumaram uma espécie de carona… se é que dá pra chamar isso disso… — respondeu Will — Ele disse que está no começo do… Nilo Branco? Tem outro Nilo?
— É uma das nascentes do Nilo. Estão perto mesmo. — disse Tio Amós — Ele está lá na Mensagem de Íris?
— Sim. Está lá falando com Paulo. — respondeu Will — Quer ir lá explicar o caminho?
— Imediatamente. — respondeu Tio Amós, indo atrás de Will e me deixando à sós com Zia e Sam.
Esfreguei meus olhos, cansado, exausto. Minha cabeça não conseguia pensar mais em outra coisa a não ser em Nomos e pessoas. Nomo da Inglaterra? Abandonado. Nomo da França? Debandou depois do Desjardins e se espalharam por outros Nomos. Nomo da Rússia? Disseram que viriam. Cléo também nos ajudaria lá no Nomo de NY e tentaria chamar o pessoal do Nomo do Texas por mim, e disse que tinha uma amiga no Nomo de São Paulo que, sinceramente, se não fosse ela eu nunca lembraria que existia. Mas tínhamos ainda que encontrar um jeito de trazer esse povo todo que estava muito longe, ou arrumar os obeliscos o mais rápido possível.
Os Nomos passavam pela minha cabeça, enquanto tentava lembrar da lista que fiz quando aceitei que iria ser o Faraó da Casa da Vida e queria fazer isso direito. Chicago, Tóquio, Cidade do Cabo, Addis Ababa, Barcelona… Mais dois que só serviam como punição e eu preferia nem lembrar. Torcia para eles terem gente o suficiente apesar da lista consideravelmente grande. Mas não era como se seguir o caminho dos deuses no aprendizado de magia fosse uma ideia muito popular ainda na Casa da Vida. A lista completa era composta de trezentos e sessenta Nomos, em situações completamente diferentes e com pessoas bem diferentes. Mas se cada um mandasse uma pessoa, já ajudaria muito.
— Vai dar tudo certo. — disse Zia, colocando a mão na minha coxa e provavelmente vendo meu desespero.
— Só queria ajudar mais. — respondi — Não consigo trazer nenhum contato divino para nos ajudar.
— Quem foi que falou pra todo esse pessoal aqui hoje pra vir pro Sudão? — perguntou Zia, enquanto, com o canto do olho, eu notava Sam se esgueirando para fora dali.
— Tecnicamente foi meu tio. — respondi.
— Se dê um pouco de crédito. — falou Zia — Os Nomos estão avisados, todos estão fazendo sua parte. Vamos esfriar a cabeça um pouco agora. Já passamos sei lá quantas horas aqui. Pelo jeito, daqui a pouco Apolo deve estar chegando, e aí vai ser nos estressar tentando ler o Livro de Thoth. Então vamos descansar enquanto pudermos.
— Tem razão. — concordei, deixando ela puxar minha mão ao se levantar.
Ela puxou, me levantei, e descemos as escadas. Não conhecíamos nada por ali, mas felizmente logo demos de cara com um garoto segurando um molho de chaves com chaveiros feitos de tecido colorido (claramente as únicas coisas monocromáticas ali eram Anúbis, Ereshkigal e Nico). Ele estava distribuindo as chaves para Nico, Sadie e Anúbis.
— Meninos separados de meninas! — exclamava o garoto.
— Sem problema. — disse Nico pegando a chave na mão do garoto e saindo correndo.
— Não se esqueça! É esse corredor aqui! — disse o garoto, apontando com a mão cheia de chaves para um corredor cheio de portas ali ao lado, mas Nico já estava longe.
— Conseguiu chamar bastante gente? — perguntou Sadie, olhando para mim, enquanto Anúbis estendia a mão para garoto das chaves.
— Meninos separados de meninas! — exclamava o garoto novamente.
— Só dar duas chaves… — falou Anúbis, apesar de o garoto só entregar uma na mão de Anúbis e estender a segunda para Sadie, que logo pegou.
— Acho que sim… — falei, mas olhei para o garoto — Vou ter que dividir quarto ou dá pra cada um ter um?
— Dois por quarto. — respondeu o garoto.
— Já combinei com a Sam. — respondeu Sadie, apressadamente pegando a chave do seu quarto.
Eu não queria dividir o meu quarto com Anúbis, mas era ele ou Paulo, e eu não conhecia o Paulo direito (se é que eu posso dizer que conheço Anúbis direito. Dá pra dizer que se conhece uma pessoa de 5 mil anos direito?). Mas Sadie puxou Anúbis de lá antes que pudesse ter a chance de perguntar sobre a divisão de quartos ou qualquer outra coisa. Provavelmente a conversa com Hades acabou, pra já estarem indo atrás de onde descansar também. Com certeza devem ter pensado o mesmo que nós, o trabalho pesado recomeçaria assim que Apolo chegasse.
— Acho que me sobra ficar com a Drew. — falou Zia, pegando a chave que o garoto estendia para ela.
— Temos número ímpar de homens… — falei — Eu, Anúbis, Nico, Will, Paulo… ao menos enquanto Apolo não chega. Não sei mais quantas pessoas estão com ele.
— Paulo deve estar com Will esperando Apolo. — disse Zia enquanto o garoto me estendia a última das chaves em sua mão.
Podia ser em dupla mas, com certeza era bem melhor do que todos roncando no mesmo ambiente. Mal via a hora de tirar uma merecida soneca.
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