Os Deuses da Mitologia
169 CALIPSO - Sobre as Nuvens e Asas
Notas iniciais

CALIPSO
O sono ainda pesava meus olhos e era claro que dos demais também. Não dava para ver o sol ali, no subterrâneo, mas eu tinha certeza que ele não tinha nascido ainda. Mesmo assim, todos que iriam para o Egito se reuniram no grande espaço aberto perto do lago que banhava aquela vila colorida no Nomo sudanês.
O tempo para resolver a longa lista de coisas que Carter nos passou ou que nossa mente havia pensado por conta própria, havia terminado. Assim como o tempo para descansar um pouco. Tínhamos que partir. E, exatamente por isso, na água, já estavam preparados três barcos cheios de magos do Nomo. Aqueles que ficariam para trás, em maioria idosos e crianças, estavam na orla, se despedindo, dando conselhos, torcendo pelo melhor. No barco do meio, a carruagem que Will e os demais haviam conseguido na França estava muito bem estacionada com seu cocheiro fantasmagórico. Era um mero empréstimo para a Casa da Vida, pois o nosso já-nada-pequeno grupo, iria na carruagem de Apolo e em Festus.
Eu acariciava Festus, que estava animado para voar, enquanto Leo checava se estava tudo bem. Afinal, agora era pra valer. Não um mero passeio. Esperávamos muita segurança na fronteira egípcia. Atrás de mim, os outros se arrumavam na carruagem de Apolo, agora com o exterior completamente negro.
— Acha que vai dar certo? — ouvi Zia perguntando, encarando a carruagem.
— É o melhor que dá pra fazer. — respondeu Apolo, dando de ombros — Conforme as horas passando eu posso ir mudando a cor dela de acordo com o sol mas… vai ser complicado se esconder num céu que dificilmente vai ter nuvens.
— Cheguei. Cheguei. Cheguei. — disse Sadie apressadamente, correndo até o ônibus de Apolo, com o Livro de Thoth na mão e acompanhada por Bastet e Anúbis.
— Conseguiram achar o feitiço no Livro? — perguntou Carter.
— Não… — suspirou Sadie — Mas eu sinto que estamos perto…
— Vamos continuar olhando no ônibus enquanto a coisa não complicar. — prometeu Bastet.
— Carter… Sadie… — disse Amós, se aproximando juntamente com Noor e olhando seriamente para todos nós, enquanto fazíamos nossas últimas preparações — Estamos prontos.
— Tem certeza que quer seguir com essa ideia? — perguntou Carter — Não gosto de praticamente usar vocês como isca…
— Não se preocupe. — pediu Amós — Estaremos bem.
— A situação agora é diferente do que quando Amós chegou até aqui. — garantiu Noor — Estamos em maior número e, se tudo der certo, temos o elemento surpresa.
— Só se preocupem em chegar até o obelisco de Hatshepsut. — pediu Amós,sem tirar a seriedade do olhar.
— Lembrando, seja lá quem for o primeiro a conseguir chegar lá, — disse Anúbis olhando rapidamente para os que prestavam atenção, como eu — esse obelisco nunca foi terminado. Ele não vai estar tão óbvio quanto os demais.
— O que acha que podemos esperar na fronteira, Amós? — perguntou Sam, se aproximando da conversa — Digo, de inimigo. Acha que podem ser os mesmos que te seguiram antes?
— Não tenho certeza. Mas, se forem, se preocupem com o Rabisu e o Ajogun. — disse Amós.
— Quem são Rabisu e o Ajogun? — perguntou Sadie, fazendo a pergunta que todo mundo queria saber enquanto todos nós, seja do lado de fora do ônibus ou da janela, prestavam atenção na conversa.
— Rabisu é um tipo de monstro sumério feio…com asas e chifres… espíritos que não são por si só malignos, mas sim neutros. O fato de eles estarem atacando claramente indica ordens de algum deus. — explicou Amós — Gostam de atacar de surpresa e de espreitar a vítima.
— Enlil não estava na reunião do Olimpo? — perguntou Bastet — Eles costumam obedecer à Enlil.
— Esse Enlil… é gente boa? — perguntou Leo.
— É um deus respeitável! — enfatizou Bastet.
— Você se lembra que o dragão com quem lutamos mais cedo no Mediterrâneo é uma criação dele para acabar com os humanos que perturbavam seu sono fazendo barulho demais, né? — questionou Anúbis, encarando Bastet.
— Eu disse “respeitável”, não “bom”... — defendeu-se Bastet sem muita firmeza.
— Não chamaria assassinato por falta de sono de “respeitável”… — comentou Magnus.
— De toda forma, tudo isso que está acontecendo é fora do feitio dele na minha opinião. — explicou Bastet.
— Podemos conversar sobre isso no ônibus. — disse Zia — Nada impede de ser outro deus também. Ou até mesmo Naunet.
— Espera. E o Ajogun? — perguntou Apolo.
— Espíritos malignos iorubás. — disse Noor — Normalmente são responsáveis por trazer equilíbrio, e o comportamento agressivo atual deles indica que devem estar seguindo ordens também. Causam doenças, acidentes e discórdias. Cada um causa algo. Seus ataques podem causar os mais diversos estados mentais e corporais. Muito cuidado. Principalmente com o ajogun preto.
— Outro seguindo ordens de alguém que não sabemos… — resmungou Sadie, suspirando — Acho que temos que nos preocupar mesmo com isso depois. Se não, ficaremos aqui até amanhã discutindo.
— Tem razão. — disse Carter — E é melhor irmos indo também.
— Tomem cuidado. — pediu Amós.
— Seja lá o que acontecer com a gente, avancem para os próximos obeliscos em Luxor. — pediu Noor.
— Não fale assim… — pediu Sadie — Por favor.
— Pensamento positivo de que o plano vai dá certo, galera! — exclamou Apolo — Vamos lá? Temos que aproveitar que ainda não amanheceu.
Tensos e torcendo pelo melhor, cada um de nós foi para sua posição. Amós e Noor foram para os barcos, repletos de magos egípcios, sudaneses e, pelo o que ouvi, alguns da Líbia, Arábia Saudita e Eritreia também. Realmente Amós tinha se empenhado em juntar um exército para quando a gente precisasse, e essa era a hora. Entramos todos no ônibus de Apolo, Festus pousou em cima do ônibus e começamos a afundar na areia, tal como quando chegamos até ali.
Os barcos dos magos sumiram de vista quando areia nos engoliu e poucos minutos depois estávamos do lado de fora, ao lado do Nilo. Chovia, nada forte, mas ainda era chuva. Só de ver a chuva já desanimei um pouco, não seria nada interessante voar com Festus naquela tempestade. Mesmo que talvez a gente pudesse tentar subir o suficiente para passar das nuvens… se o oxigênio gostar da ideia, o que acho difícil…
— Tá… chovendo?! — exclamou Bastet, com muito estranhamento no rosto.
— E há algum tempo! Olha como está praticamente um novo lago no chão! — exclamou Anúbis, como se aquilo fosse a coisa mais estranha do mundo.
— É só… chuva… acontece… — disse Magnus.
— Estava chovendo boa parte do caminho de Paris para cá. — lembrou Will.
— Não… Aqui não é Europa... — disse Bastet, trocando um olhar demorado com Anúbis — Estamos no meio Saara! E nem é uma parte perto do mar! O Nilo ainda está ali mas… Quais as chances?
— É praticamente verão… — comentou Anúbis enquanto os barcos dos magos surgiam no Nilo — Chuva já é raro… e ainda por cima no verão? Não… Acho que isso é um sinal de que precisamos continuar logo.
— Uma chuva mágica? — perguntou Nico.
— A ideia é basicamente afogar uma boa parte do mundo né? — perguntou Zia — Faz sentido… afinal só falta uma pirâmide.
— Vamos nos apressar mesmo então. — disse Leo, segurando a minha mão e me puxando em direção à porta — Vamos tentar voar em cima das nuvens! A gente precisava de um esconderijo melhor né? Vamos usar isso em nosso favor.
Me deixei ser puxada por Leo para o lado de fora do ônibus-carruagem de Apolo, em direção à chuva. A chuva rapidamente me molhou e, apesar de não ser muito forte, não era uma sensação gostosa ficar encharcada, mas era muito bem vinda considerando a temperatura que fazia lá fora. Não muito quente, mas também não dava para chamar de frio e de dia com certeza seria muito pior.
Festus rugiu nos apressando se sacudindo, pronto para que subissemos nele. A chuva nos lembrava da pressa, então, com passos rápidos, subimos em Festus.
— Pronta? — perguntou Leo enquanto eu me apertava na cintura dele.
— É agora ou nunca. — respondi.
Festus rugiu novamente antes de sair correndo, batendo as asas, e então voando. Ele subiu o mais rápido que conseguia, o mais inclinado que conseguia, numa pressa de sair da chuva, que batia contra a gente e dificultava ver qualquer coisa. Por causa da chuva, decidi ficar de olhos fechados e confiar em Festus, tinha uma mera noção do ônibus de Apolo decolando também e dos barcos começando o caminho rio abaixo.
Me agarrei à Leo com força, desesperada pra sair daquele aguaceiro. Voando assim mais rápido, a chuva parecia até mais forte. Me perguntei dezenas de vezes quanto tempo demoraria para passarmos pelas nuvens, e morri de inveja do pessoal do ônibus. Mas não poderíamos colocar todas nossas chances num veículo só. Com o vento e a água batendo em mim, eu já me encolhia de frio. Pareceu que levou uma eternidade, mas eventualmente, a chuva parou e, quando abri os olhos, estávamos sobre as nuvens.
Mesmo com as nuvens carregadas de chuva, e eu e Leo completamente encharcados, era uma visão incrível. Sobrevoar aquele infinito tapete de nuvens iluminado pela luz do luar, parecia até que eu estava voando.
— Isso é… lindo… — falei.
— Sim… — respondeu Leo, apertando uma de minhas mãos que se segurava nele.
Ali como estávamos, sentados em Festus com vários metros de queda livre embaixo de nós, não havia muito que podíamos fazer para olhar diretamente um para o outro. Mas ainda com ele de costas para mim, eu senti que aquele momento ali era nosso, nosso pequeno momento de paz, mesmo no meio de todo o caos. Do jeito que dava, me estiquei um pouco e beijei onde alcancei na bochecha dele e o abracei mais apertado, enquanto admirava a vista.
A partir daí, a viagem seguiu mais tranquila, mas meu coração batia mais forte conforme mais perto chegávamos na fronteira com o Egito. Gradualmente a água que me encharcava foi secando, e a noite levemente quente ajudou a esse processo não ser tão desagradável. Ao lado, eu conseguia ver o pessoal no ônibus conversando, fazendo mensagens de Íris para várias pessoas e se preparando para o que viria. Também estavam claramente num misto de aproveitar os últimos momentos de tranquilidade.
Até que, eventualmente, Alex abriu a janela do ônibus. Uma rajada forte de vento lhe bagunçou os cabelos quando ela botou o rosto um pouco para fora.
— Acabamos de passar por Abu Simbel! — gritou ela para nós — Estamos oficialmente dentro das fronteiras egípcias antigas!
— Ok! — gritou Leo de volta.
Abu Simbel… o templo que o faraó Ramsés II fez para, dentre vários motivos, intimidar invasores que vinham do sul. Eu me sentia decididamente intimidada enquanto imaginava o templo milenar escondido embaixo das nuvens magicamente carregadas de chuva e os perigos que nos esperavam mais à frente.
Pouco depois que terminei meu pensamento, Alex surgiu na janela mais uma vez.
— E os barcos começaram a ver os inimigos indo em direção à eles! — gritou ela.
— Entendido! — gritou Leo de volta.
— Vamos nos apressar então. — falei, embora Leo já soubesse que esse era o combinado.
Tanto Festus quanto o ônibus começaram à ir mais rápido. No horizonte, o sol começava a nascer, e Assuã, com o primeiro obelisco, ainda estava longe. Ainda assim, seguimos, ansiosos para alcançar o ponto que iríamos descer das nuvens, mas, faltando ainda alguns vários metros para Assuã mas, considerando o aviso de atacantes sorrateiros, nos preparamos cada um em seu lugar.
Eu e Leo só precisávamos respirar fundo e prestar atenção nos arredores, mas o pessoal no ônibus tinha seus lugares definidos. Carter e Apolo haviam ficado um bom tempo pensando em como personalizar a carruagem de Apolo do melhor jeito possível, e foi por isso que conseguimos aquele resultado. Uma das espaçosas janelas laterais era a escolhida de Will para preparar seu arco e flecha. Do lado oposto, Iara estava igualmente preparada.
A quinta direita frontal do ônibus se abriu numa janela diferenciada, pensada especificamente para Sadie soltar suas magias nos inimigos. A mesma quinta à esquerda não poderia ser usada, já que era onde estava o volante, mas na janela logo atrás dela, Zia garantia que aquele lado não estaria desprotegido também. No meio do ônibus, havia uma escada que levava uma escotilha para seu topo, lá seria o lugar de Apolo, mas no momento ele continuava dirigindo, aproveitando os segundos que conseguimos ter com nosso melhor motorista, mas logo ele passaria o volante para Meg e Carter.
Para evitar que nossos atiradores não caíssem janela abaixo, e em caso precisassem de alguma ajuda ou suporte, Nico, Anúbis, Paulo, Drew e Sam estavam atrás de cada um deles. Quanto à André, Magnus e Alex, eles ficavam à postos no meio do ônibus em caso de precisarmos de mais alguma ajuda, com Alex ficando mais perto das janelas de das portas, em caso de precisar de transformar em algum animal e voar por aí.
Nós fazemos nosso próprio avião de guerra.
Estávamos tensos e prontos, mas ao nosso redor tudo parecia calmo enquanto seguíamos rodeados de nuvens fofinhas e, agora, com o sol começando a mais do que esquentar, ele já ficava desconfortável. E então, de repente, um monstro alado feioso surgiu com rapidez das nuvens e voou como uma flecha na minha direção e na de Leo. Mal tive tempo de identificar as asas grandes de penas cinzentas, com pele azul-acinzentada e garras, dentes e chifres afiados. Não fui capaz de identificar mais detalhes além disso, mas consegui me proteger bem o suficiente, criando uma coluna de vento que cortou entre eu e Leo, nos protegendo parcialmente do monstro, mas empurrando ele para frente e eu para trás enquanto o monstro me cortava nos braços com alguma parte do corpo.
— AI! — gritou ele ao bater de cara no pescoço metálico de Festus.
Ao mesmo tempo, eu tentava me reerguer de novo, com medo de cair nas nuvens de algodão, que agora pareciam extremamente perigosas. Ao nosso lado, o ônibus também era atacado por aparentemente os mesmos bichos feios, mas também contra atacava.
Eu tentava me reerguer, mas logo outro passava rápido como o vento, mal me dando tempo de ver o brilho amarelado de seus olhos. O que era um, logo virou vários. Leo jogava fogo, Festus cuspia fogo, eu implorava ao vento para me ajudar, e ele ajudava como podia. Eles surgiam e sumiam como se o próprio ar estivesse contra nós.
Com sufoco e já com sangue pingando de minha bochecha de um corte profundo, consegui me sentar direito novamente a tempo de finalmente ver direito um dos monstros, um rabisu, se esgueirando no teto no ônibus. De nariz pequeno como um botão e cabelos negros gorduroso, o rabisu gritou estridentemente mas Apolo, que já havia deixado o volante de lado e ido para a escotilha, atirou bem no meio da cara do rabisu, que imediatamente se desfez. Podia ser um a menos, mas isso não era o suficiente para aquilo deixar de ser um caos, e fui lembrada disso quando um se agarrou ao meu cabelo.
— AAAAH! SOLTA SEU MALDITO! — gritei e me agarrei à Leo em meio ao desespero de sentir minha cabeça puxada para trás e a gravidade ajudando.
— SOLTA ELA! — gritou Leo à minha frente, girando o corpo antes de lançar uma labareda contra o rabisu, até que ele soltou meu cabelo e caiu pelas nuvens.
— APOLO! VOLTA LOGO! — eu ouvi Meg gritar ao volante.
— EU TO OCUPADO! — gritou Apolo de volta em meio aos gritos estridentes dos rabisu que nos atacavam — VOCÊ CONSEGUE! O CARTER TE AJUDA! NÃO TEM PRÉDIO PRA VOCÊ BATER O CARRO DESSA VEZ!
— Valeu… — falei, ofegante, para Leo, colocando a mão no pescoço dolorido.
— Que nad.. — começou ele a dizer, mas não havia tempo para respirar ou conversar.
Um rabisu surgiu nos atacando em diagonal bem na frente e, no último segundo, para fugir dele, Festus mergulhou. Me agarrei desesperadamente, e Leo também, quando começamos à descer mais rápido do que eu gostaria, mergulhando nas nuvens. Isso logo de mostrou uma péssima ideia, pois descobrimos que as nuvens estavam mais cheias de rabisu do que esperávemos. Um verdadeiro enxame deles foi para cima de nós, nos arranhando com suas garras e berrando em nossos ouvidos. Sentindo ser cortada por todos os lados e com Festus sacudindo para todo lado e direção, me encolhi protegendo principalmente o rosto.
Então, tão repentinamente quanto ele mergulhou, Festus subiu novamente. Uma verdadeira montanha russa como das várias que Leo havia tanto falado. Voltamos para cima das nuvens novamente, livre dos rabisu mas, conforme logo confirmei, não tão livre assim. Eles nos seguiam aos montes, tal como atacavam aos montes o ônibus.
Continuamos a atacar como podíamos, fogo, ar, o que fosse. Cada vez que eu girava para procurar um, outro já vinha pelo lado oposto, tão rápido que o som do bater das asas se misturava ao vento e às batidas do meu coração. Felizmente, eu estava muito bem sincronizada com Leo, que logo cuidava da minha retaguarda e eu a dele.
Festus rugia e cuspia fogo, mas mesmo assim alguns chegavam perto demais, as garras raspando no bronze como se quisessem arrancar pedaços. O ônibus mergulhava e subia bruscamente, tentando despistar (ou talvez era só Meg brigando com o volante), mas isso só fazia as nuvens se moverem como um mar agitado com dezenas de monstros mesopotâmicos à espreita.
Um deles passou tão rente ao meu rosto que senti o cheiro: uma mistura sufocante de metal enferrujado e carne apodrecida, que grudou na minha garganta e me fez tossir. Antes que pudesse recuperar o fôlego, mais dois vieram de cima, asas abertas como lâminas, me derrubando de Festus.
Tive uma mera consciência de Leo gritando meu nome, mas continuei a cair ainda assim. Não sei se talvez os incontáveis rabisu tenham ido em peso para cima dele, só sei que cai enquanto dois deles tentavam me destroçar, mas eu não iria deixar barato apesar de eu não saber se eu iria conseguir sobreviver ou se iria me quebrar toda no chão. Mas caí, caí e caí. Até passar pelas nuvens e ser engolida pela chuva de novo.
No meio da troca de socos e chutes que eu esperava que estivessem atingindo alguma genitália, juntei os espíritos do vento que conseguia e disparei uma rajada que fez um deles girar no ar e sumir para cima das nuvens novamente, mas o outro não recuou e eu via o chão se aproximando. De ponta cabeça, vi um grande lago no meio de uma imensidão de areia enquanto engolia a água da chuva. E nenhum sinal dos barcos dos magos. O rabisu que sobrou enfiou as garras no meu ombro de forma extremamente dolorosa. Gritei. Sentia que meu braço ia se desprender do meu corpo ali mesmo ao sentir as unhas afiadas entrando em meu ombro.
Mesmo com o sangue jorrando pelo meu ombro, lutei contra o rabisu com socos, chutes e vento. Ele gritava, me arranhava os braços tentando chegar perto e, eventualmente, ouvi Festus gritando e então meu pé foi agarrado pelas patas dele.
— TÁ TUDO BEM?! — Leo gritou, de novo encharcado como eu.
— NA MEDIDA DO POSSÍVEL! — gritei de volta, suspirando aliviada por finalmente parar de cair.
Mas meu alívio não duraria muito, pois o rabisu contra quem eu estava lutando estava muito bem vivo e foi novamente para cima de mim. Mas, dessa vez, uma enorme ave de rapina surgiu rapidamente e começou a atacar o rabisu nos olhos com suas garras. Não sei se era Alex ou Sam, apostaria que Alex, mas estava muito agradecida.
— OBRIGADA! — gritei e, ao gritar, notei, mais além, onde o grande lago embaixo de nós se afinava para voltar a ser o Nilo, uma pequena cidade.
— Acho que é Assuã… — disse Leo, notando meu olhar.
— Não tá muito longe. — falei e olhei ao redor, atrás dos rabisu.
Estávamos embaixo das nuvens, e não havia sinal dos rabisu e nem do ônibus, mas ouvia a luta acontecendo acima das nuvens. Leo se esticava, estendendo o braço para mim numa tentativa de me colocar numa posição melhor e que não fosse de ponta cabeça. Usei toda a força do meu abdômen para tentar me curvar a agarrar a mão dele. Meu pé direito ainda estava bem preso nas garras de Festus, que com um resmungo, pareceu dizer que não iria me deixar cair.
Foi nesse ponto que Alex voltou voando, o rabisu com quem lutava já não era problema. Ela voou até Festus, pousou onde antes eu estava sentada, e se transformou.
— Calipso, você acha que consegue fazer o feitiço do obelisco? — perguntou Alex — Sadie te passou direitinho né?
— Sim. Naquele dia em que eles conseguiram o feitiço e compartilharam com o resto. — respondi, segurando firmemente a mão de Leo, que me ajudava a não ficar de cabeça pra baixo.
— Eles falaram que eles vão se preocupar com os rabisu. Vão servir de isca. — disse Alex — Vamos nós três cuidar do obelisco de Assuã e seguir logo para Luxor. E quem sabe procurar os barcos dos magos já que parece que os rabisu esqueceram da gente.
— Ok! — exclamei.
Então, apesar daquela posição desconfortável em que eu estava, seguimos voando. Eu torcia para não ter nenhum monstro a mais, já que não estava na melhor posição para nos defender, mas Leo fez o favor de pedir para Festus pousar num monte de areia à poucos metros antes da cidade de Assuã, e lá voltei para meu lugar no torso de Festus, com Alex sentada logo atrás de mim.
Seguimos nossa viagem voando às pressas, com a chuva continuando a cair e eu tentando curar meu ombro e os ferimentos que Alex e Leo também tinham. Meu ombro doía, e até queria dar mais atenção para ele, mas eu tinha que dividir o que eu tinha de magia de cura com os demais. O ataque do rabisu não tinha enchido só à mim de cortes cujo sangue se misturava com a água da chuva. Entre eu e Alex, não sei quem estava pior.
Antes que eu conseguisse curar completamente qualquer um de nós três, entramos na cidade de casas e prédios simples que combinavam tanto com o cenário desértico em que estavam, e logo encontramos, perto de seu centro, uma área repleta de ruínas egípcias.
— É aqui. — disse Leo.
— Não estou vendo nenhum obelisco. — comentou Alex.
— Esse obelisco nunca foi terminado… — falei — Está vendo ali? No chão. Parece que algo grande estava sendo escavado. Deve ser ali. Tem o exato formato de um obelisco.
— Parece que o buraco dele está cheio de água da chuva. — comentou Alex.
— Quanto antes a gente chegar no Cairo para resolver tudo, antes o Egito volta à sua longa e normal seca. — disse Leo.
Abrindo espaço em meio aos turistas que se aventuravam em ainda visitar o lugar apesar da chuva completamente não natural, pousamos em meio às ruínas milenares. Nada que um pouco de molde à névoa para os turistas verem que, ao invés de um dragão, o que pousava ali era um helicóptero com equipamentos arqueológicos.
Descemos do dragão com turistas e guardas nos encarando, não acho que a névoa era convincente o suficiente para parecermos um monte de pesquisadores, mas eu tinha que tentar fazer que sim. talvez minha manipulação da névoa não estava convincente o suficiente, pois uma dupla de guardas e dois turistas se aproximavam e estava escrito na cara deles que iriam questionar algo.
— Calma.. — sussurrou Leo — Vai indo pro obelisco...
— Tá… — respondi num sussurro.
— Vocês não podem pousar assim aqui! — exclamou um dos guardas.
— É uma ruína antiga! Importante para o estudo! — exclamou um dos turistas enquanto os quatro continuavam se aproximando e, nós também, mas pendendo em direção ao obelisco.
— Respondemos algo? — sussurrou Alex.
Antes que qualquer um de nós pudesse pensar em alguma coisa para responder, os quatro avançaram em nossa direção se transformando em um outro ser completamente diferente. Ainda tinham braços e pernas como humanos, com pulseiras diferentes adornando sua pele negra, mas o resto de seus corpos estava completamente escondido atrás de uma máscara gigante acompanhada de um grande enfeite de feno que escondia completamente o corpo deles como se fosse a maior juba de leão do mundo.
Era uma máscara de madeira grotesca, cada uma das quatro com detalhes e cores diferentes. Todas com várias bocas de dentes afiados esculpidos e dois círculos gigantes no meio de onde brilhavam dois pontos amarelos que com certeza eram os olhos. Uma das máscaras tinha padrões verde-oliva, outra branca, outra marrom e a última, preta. E foi ao ver a última que lembrei das palavras de Noor, cuidado com o ajogun preto.
— SÃO AJOGUNS! CUIDADO COM O PRETO! — gritei no mesmo segundo que usamos para desviar.
— É melhor terem cuidado mesmo. — ameaçou o ajogun preto.
Saímos da frente deles e Leo atirou uma labareda contra o ajogun preto. Alex, por um segundo, pareceu que queria atacar o preto também, mas não valia a pena se isso significasse que os outros nos atacaram. Então, enquanto eu mandava o verde-oliva para longe com uma forte rajada de vento, ela usou seu garrote contra o branco. Mas isso significou que o marrom ficou sem ninguém para lutar contra ele, e ele achou que seria uma boa ideia usar essa sorte para me dar um soco na cara.
Perdi o equilíbrio por um segundo, e teria voltado à lutar se não fosse a extrema sensação de falta de ar e desespero que aquele soco me fez sentir. Eu sentia meu coração batendo, desesperado, ansioso, rápido demais. Minha visão se estreitou. O ajogun marrom estava pronto para me dar outro soco, mas Festus correu em nossa direção e cuspiu fogo nele. O ajogun desviou, enquanto eu ouvi Leo gritando:
— CAL! VAI PRO OBELISCO QUE A GENTE SEGURA ELES AQUI!
— Ela não vai conseguir. — riu-se o ajogun marrom.
— O que você fez com ela?! — perguntou Alex raivosamente.
Mal processei as palavras deles. Respirar já estava difícil demais. O que havia acontecido comigo? Eu olhei para a direção do obelisco, os turistas corriam para longe, o desespero me encheu por completo. Tentei respirar, mas parecia impossível. Minha mente repetia para mim mesma que eu tinha que fazer a magia do obelisco. Eles dependiam de mim. Só eu ali dentre nós três entendia de magia. Mas lembrar da importância daquele momento só me deixava em mais completo desespero. E se eu falhasse? E se eu chegasse até lá e os ajogun matassem eles? E se eu errasse o feitiço? E se o sol que brilhava atrás das nuvens de chuva não fosse suficiente? E se. E se. E se.
Minha mente corria pelos mais diversos cenários catastróficos. Eu estava paralisada enquanto, diante de mim, meus amigos lutavam contra os ajoguns. Meu peito doía. Senti as lágrimas vindo aos meus olhos, mas não querendo sair.
— CAL! TÁ TUDO BEM? — gritou Leo, no meio do combate, perdendo a atenção o suficiente para o ajogun preto ameaçar dar um soco nele.
Mas Alex, rápida com o garrote como era, o enrolou no braço do ajogun, o puxando e derrubando no chão. Mas isso a deixou livre para receber um soco do ajogun verde, uma vez que Festus estava ocupado com o branco. Assim que levou o soco, Alex cambaleou. Uma rabada de Festus mandou o ajogun verde-olive para longe mais uma vez e, no instante seguinte, Alex vomitou e foi ali que uma chave pareceu girar na minha mente ao lembrar das palavras de Noor. Cada ajogun causava algo. Deveria ser óbvio, mas minha mente, completamente desesperada e sem controle como ficou, demorou para notar. O soco do ajogun marrom havia feito aquilo comigo.
Eu não iria deixar ele fazer aquilo comigo. Ah não.
Seja porque eu tentei me controlar o que eu só podia identificar como ansiedade, seja porque o efeito do ajogun começava a passar, o fato era que o caminho até o obelisco começou a se tornar mais possível.
— CAL! — gritou Leo mais uma vez.
— TO BEM! — gritei de volta, embora ainda sentisse meu pulmão apertando e a falta de ar enquanto arriscava o primeiro passo — CUIDE DOS AJOGUNS! NÃO DEIXE ELES TE ATACAREM!
Com essas palavras, corri. Corri como se nunca tivesse corrido na vida. A ansiedade que ardia e explodia no meu peito parecia gostar de correr tanto quanto gostava de ficar parada em desespero. Mas ambos eram desconfortáveis e enlouquecedores. Mas corri ainda assim, repassando cada passo a passo do feitiço e olhando para o céu, torcendo para o sol estar ali torcendo por mim e me ajudando. Mesmo parcialmente coberto pelas nuvens de chuva, ele estava.
Provando que minhas técnicas de tentar me acalmar ou que o efeito dos ajoguns era temporário, senti o aperto em meu peito passando quando comecei a fazer o feitiço do obelisco. Eu tinha que me concentrar no feitiço, mas não conseguia evitar a tentação de, vez ou outra, deixar o olhar escapar para Leo e Alex, que lutavam em desvantagem numérica. Ainda concentrada em cada etapa do feitiço, quase comemorei junto com eles quando o ajogun marrom caiu no chão, aparentemente morto, logo se transformando numa fogueira acesa por Leo. Meu coração, tomado pela magia desse mesmo ajogun, deu o mais profundo suspiro de alívio. Mas, no segundo seguinte, o ajogun preto deu um soco de baixo a cima no estômago de Leo.
Alex e Festus soltaram o grito que eu queria ter dado quando Leo caiu no chão. Festus agressivamente atacou os demais ajoguns enquanto Alex olhou, assustada, de Leo para mim e de volta para Leo. Eu pedia desesperadamente para aquele feitiço terminar logo ou para algum milagre salvar Leo de seja lá qual mal o ajogun preto causava.
Lágrimas corriam pelos meus olhos, Alex se ajoelhou ao lado de Leo, mas logo teve que se erguer e voltar ao combate com desespero estampado em seu rosto.
— CAL! TERMINA LOGO! — gritou Alex — E-ELE… ELE… ELE PARECE ESTAR MORRENDO!
Dali, eu conseguia ver, o corpo de Leo, largado numa poça formada pela chuva, estava ficando cinza. Atropelando as palavras do feitiço, assim que o obelisco brilhou indicando seu término com sucesso, eu comecei a correr em direção à Leo. O estranho foi que assim que comecei a correr, senti que alguém corria atrás de mim. Arrisquei olhar por um segundo e vi um homem, de bigode e sobrancelhas fartas, saia longa e chapéu colorido, correndo mais rápido do que seria possível. Ele não olhava para mim, eu não parecia ser o objetivo dele. Temi que o objetivo fosse Leo, especialmente quando ele passou direto por mim. Praticamente voando enquanto corria e espalhava areia molhada para todo lado.
O homem misterioso bateu as mãos e surgiram magicamente dezenas de cobras que rastejaram pelo chão, indo atacar não Leo, nem Alex, nem Festus, mas os ajoguns. O ajogun preto saiu correndo assim que viu o homem se aproximando. Já o branco, que foi o primeiro a ser alcançado pelas cobras, caiu no chão e começou à ser picado sem parar por várias delas enquanto gritava desesperadamente. O verde-oliva foi o próximo à cair para as cobras enquanto o preto seguia para longe. Felizmente, Festus voou atrás do ajogun preto e pousou em cima dele dolorosamente, rugindo e principalmente pisoteando-o com gosto e raiva em pura vingança.
Quanto à mim e o homem misterioso, ambos nos ajoelhamos do lado de Leo. Ele chegou antes de mim, e já murmurava alguma coisa enquanto tocava a pele, agora acinzentada de Leo.
— O que está fazendo? Quem é você? — perguntei, com o coração apertado.
— Não tenho muito tempo. Preciso curá-lo. — respondeu o homem — Sou Ninazu, filho de Ereshkigal. Minha mãe me chamou para ajudá-los.
— O-o que o ajogun preto faz? — perguntou Alex, olhando para Leo preocupadíssima enquanto eu me dei um segundo para olhar para Festus, que ainda pisoteava o ajogun preto, embora eu não soubesse se ele estava vivo ou não.
— Não entendo muito de ajoguns, mas por como seu amigo está, ele causa a morte. — explicou Ninazu, fazendo meu coração entrar em desespero como se tivesse sido atingido pelo ajogun novamente.
— E-Ele vai ficar bem né? Você consegue curar ele? — perguntei, extremamente ansiosa.
— Estou fazendo meu melhor. — garantiu Ninazu.
As mãos de Ninazu brilhavam e eu olhava tensa para a cena. As chances de virem nos atacar ou algo do tipo nem passava pela minha mente, eu só chorava e pensava em Leo quando me joguei de joelhos ao seu lado implorando para que ele não morresse. Ele estava de olhos fechados e bem cinza, poderia estar morto se não fosse o leve movimento de seus pulmões.
— Por favor Leo, fique bem. Por favor. Por favor. Por favor. — eu resmungava repetidas vezes, sem parar.
Os ajoguns devem ter realmente morrido, pois logo Festus se enrolou ao lado de Leo, parecendo tão desesperado quanto eu. E como se Ninazu precisasse de uma ajuda extra, suas cobras também fizeram o mesmo. De repente, estávamos todos velando por Leo, com exceção de Ninazu, que com uma gota de suor escorrendo por seu rosto, continuava a tentar salvar a vida de Leo.
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