Os Deuses da Mitologia
170 ERESHKIGAL - Um Frio Coração Mole
Notas iniciais

ERESHKIGAL
Eu havia voado o mais rápido que conseguia depois de tentar juntar algumas ajudas extras que torcia para que mantivessem a promessa. Se tudo desse certo, Ninazu chegaria à tempo de ajudar em Assuã. Quanto à mim, segui o caminho para os barcos dos magos que desciam o Nilo, segundo Anúbis havia me informado por mensagem de Íris momentos antes.
Os barcos dos magos mortais não eram de todo fracos, considerando que eram mortais, afinal de contas. Ainda assim, pedir para eles lidarem com a nuvem de rabisu que os atacou de todos os lados era pedir demais. Mas o trabalho deles era ser isca, então era bom que a maioria dos rabisu estavam focando neles, e não na carruagem de Apolo. Ajudar mortais não era do meu feitio, nem algo que eu deveria perder meu tempo com, mas a situação estava ruim o suficiente para isso e eles obviamente estavam já enfrentando outros deuses.
Assim, em prol também de meus interesses, lá estava eu, fatiando rabisu atrás de rabisu. Voando de um lado para o outro, rasgando o céu e os rabisu ao meio com minhas asas e lança, manchando o Nilo de corpos que logo se desfaziam em areia e sangue vermelho extremamente escuro que jorrava antes dos monstros sumirem.
Não havia nem tempo para pensar, eram muitos monstros e tudo que eu ouvia era um misto de gritos, dos rabisu e dos magos no barco. Os rabisu vinham em ondas, garras afiadas brilhando sob o sol já escaldante da manhã dos últimos dias antes da chegada do verão egípcio, que brilhava sem dó mesmo sob aquela chuva anormal. Eu os cortava sem piedade. Um, dois, dez de uma vez, suas sombras se despedaçando como vidro quebrado quando a lâmina de bronze mágico curvado da ponta da lança passava por eles ou quando minhas asas os atingiam, afiadas como se cada pena fosse uma navalha.
No meio de minha dança mortal, tentei ajudar os magos do barco, voando como uma flecha, e derrubando com minhas grandes asas negras os rabisu que se aproximavam pelas costas deles. Deixei um sorriso escapar pelos meus lábios. Eu ainda estava em forma.
Ainda assim, no meio de todo aquele caos e sangue, continuavamos à avançar pelo Nilo. A correnteza não era forte o suficiente para ajudar o barco, mas todos faziam o possível para abrir o caminho para os barcos no meio de tantos inimigos. Em certo ponto, lá longe mais além, vi o dragão de metal descendo em direção ao chão onde provavelmente estava o obelisco inacabado de Hatshepsut. Bom. Agora estamos nós e a carruagem de Apolo tentando enrolar o suficiente e ser atrativo o suficiente para que o pessoal em terra conseguisse fazer o feitiço.
Então, eu continuei. Fazendo meu melhor, me deleitando com a morte e a liberdade de me soltar. Cada vez que eu avançava, mais vinham. Três tentaram me emboscar, pular em mim de surpresa nas minhas costas, como se pudessem fazer algo do tipo. Apenas me virei e estendi a minha mão na direção deles, fazendo surgir e então lançando minha rede feita de sombras. A rede negra como a noite os cobriu, os prendeu, e começou a se fechar sobre si mesma. Amarrando os três rabisu dentro dela, deixando-os sem qualquer saída.
Continuei lutando, mas continuei checando com o olhar enquanto a rede lentamente se apertava cada vez mais. Os rabisu gritavam, seus corpos eram apertados um contra o outro, e então espremidos. Dolorosamente, muito dolorosamente segundo o grito agudo deles indicava. Até que, eventualmente, eles estavam mortos e a rede continuava se encolhendo até ficar do tamanho de uma bola de futebol, e então de tênis, e assim diminuindo até eventualmente sumir.
Por mais alguns minutos, a situação continuou assim. Eu via os feitiços dos magos atingindo os rabisu, mas muitos também caíam machucados nos barcos, ou no rio, e até mortos. A horda de rabisu era grande demais. No começo, era tão grande que eu tinha até dificuldade de conseguir ver os barcos. Mas depois de tanto tempo e tantos metros desde da fronteira com o Sudão, a quantidade tinha diminuído drasticamente.
Com tantos magos caídos, eu tentava, de perto, evitar que os machucados, largados e fracos, não se juntassem à lista de mortos que eu sentia crescendo dentro de mim. Alguns até se escondiam dentro da carruagem emprestada de Ankou na França, que ficava parada, esperando o momento de as aventuras em terra firme continuarem. Contudo, também foi nesse momento que eu senti que alguém ficava perigosamente perto da morte mais à frente, onde as crianças lidavam com o obelisco de Hatshepsut.
— O que foi? — perguntou Amós, provavelmente ao ver a cara com que olhei para a direção da cidade de Assuã.
— Um deles acabou de ficar muito perto da morte. — respondi.
— Vá lá ajudá-los, por favor! — exclamou Amós enquanto derrubava um rabisu com uma boa explosão mágica — Nós cuidamos daqui.
— Ninazu deve estar lá. — respondi, o encarando com o canto do olho brevemente pela ousadia em me pedir algo de forma tão direta, mas perdoarei devido a situação.
— Ainda assim, vá, por favor. — pediu Amós.
Abri as asas e zarpei no céu, balançando levemente o barco com o impacto e a força. Via no horizonte as pequenas casas de Assuã molhadas pela chuva que caía constantemente devido às magias que Nuanet, Quetzalcoatl, Nyx e companhia fizeram para todo lado. Mas a cidade não me interessava, só o ponto onde sentia a alma de um jovem tentar escapar da vida, pelo o que eu sentia que não era a primeira vez.
Conforme me aproximei, vi Ninazu debruçado sobre o garoto, claramente o curando, enquanto Calipso, o dragão, e Alex. Não me preocupei em aprender o nome dos mortais, mas Calipso já conhecia de longas datas e Alex estava já muito bem morta, mas fazia parte dos domínios de Odin.
— Ajoguns. — explicou Ninazu, embora eu não tivesse feito pergunta alguma.
— O preto, imagino. — afirmei enquanto sentia o cabo de guerra de Ninazu tentando puxar o garoto da morte.
— Ele vai ficar bem? — perguntou Calipso, me olhando com os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Está nas mãos de Ninazu. — respondi, olhando para o obelisco, de onde eu não sentia nenhuma magia preocupante — Vejo que conseguiram recuperar o obelisco.
— Sim. — respondeu a garota de cabelo verde e rosa — Vários ajoguns ficaram atacando, preto, verde, branco, cor de bosta… mas acabamos com eles enquanto Calipso fazia o feitiço do obelisco.
— Hmm. — resmunguei voltando meu olhar para o céu enquanto Ninazu continuava a cura.
Não havia nada que eu pudesse fazer além de sentir quão bem a tentativa de cura ía. Não seria fácil acabar com a maldição que tomava conta do garoto. Pensei em levá-lo para a carruagem de Apolo, para que pudéssemos continuar a viagem, mas até onde eu sabia, ela ainda estava rodeada de rabisu, tal como os barcos. Ali nada nos atacava, ainda. E era por causa desse “ainda” que eu olhava preocupada para o céu.
— Estamos muito expostos aqui. — falei — Podem mandar reforços para nos atacarem à qualquer momento agora que já usamos o elemento surpresa. Temos que sair daqui o quanto antes e seguir para Luxor.
— Não vou deixar Leo aqui! — gritou Calipso.
— Não é isso que estou sugerindo. — respondi — Vou ver como está a carruagem de Apolo para podermos colocar o garoto para dentro e continuar sua cura lá dentro.
— Sim! Boa ideia! — exclamou Alex mas logo começando a tropeçar nas palavras enquanto me encarava, notei com um sorriso interno que minha reputação já tinha se espalhado — Voc… a senhora… senhorita… erm… eu vou com Festus checar.
— Eu vou mais rápido. — respondi.
E assim parti mais uma vez, me perguntando quando eu tinha ficado tão mole com aqueles mortais. Era porque Anúbis tinha virado mortal para ficar com um deles? Ele é um dos poucos que restou daqueles que valiam minimamente a pena no começo da Era do Bronze. Hades não passa de um bebê grande, não era nem nascido naquela época.
De toda forma, o voo até a carruagem de Apolo foi muito mais rápido. E mais rápido ainda vi que eles já tinham se livrado de praticamente todos os rabisu que os atacavam. Vi três flechas voando, uma de Apolo, outra de seu filho, outra de Iara, cada uma acabando com um rabisu mesmo com o ônibus ainda em movimento. Em cima do telhado do ônibus que havia um dia sido a carruagem de Apolo, uma nuvem negra com Anúbis no centro putrefazia os rabisu burros demais para entrar na névoa enquanto ele enforcava um com uma faixa de linho.
— QUER TER UM POUCO MAIS DE MEDO DA MORTE E DESCER DAÍ POR FAVOR? — gritava a garota, Sadie, que fiz questão de aprender o nome, de dentro do ônibus.
— Sua mulher está certa. — falei.
— N-Namorada… — comentou Sadie pela janela, vermelha como o interior de uma romã, enquanto explodia um rabisu.
— Ah sim… esqueci que hoje em dia os mortais tem mais etapas… — resmunguei — Mas mais importante que isso….
— Leo? — perguntou Anúbis enquanto uma ave de rapina enorme, uma harpia, acabava com um dos últimos rabisu — Senti também.
— Estávamos tentando acabar com os rabisu o mais rápido possível para ir lá! — gritou o irmão de Sadie pela janela do ônibus enquanto eu agarrava pela cabeça um rabisu que cometeu o erro de voar pelo de mim, e esmaguei-o — Não queríamos levar mais problemas pra lá. Sam tentou ver de longe, mas vários rabisu seguiram, mas deu pra ver que aqui tá bem pior que lá, e que alguém parecia tentar curá-lo.
— Acho que já tem pouco o suficiente para lidarmos no caminho da descida! — gritou Anúbis, tal como eu, encharcado pela chuva, tentando ser ouvido em meio ao vento enquanto descia pela escada de volta ao ônibus.
— Tem certeza? — perguntou uma garota lá dentro — Ainda tem vários!
— Não vão durar mais muito. — respondeu Anúbis.
— Então vamos descer. — concordou o irmão de Sadie.
— Eu não sei descer esse treco! — gritou a garota que estava ao volante.
— Deixa comigo, Meg! — exclamou Apolo indo para o volante enquanto a garota fugia desesperadamente da responsabilidade.
Apolo começou a dirigir sua carruagem para baixo, visando aterrissar no ponto mais perto do garoto que precisava de resgate. Conforme o ônibus descia, eu e qualquer outro que conseguia atacar naquelas condições, acabávamos com os rabisu restantes. O último rabisu que matamos foi só quando o ônibus tinha acabado de pousar. Ele havia tentado fugir de nós, mas Nico praticamente pulou pra fora do ônibus e acabou com ele com sua espada.
Ele nem mesmo parou, continuou correndo até o garoto, Leo, seguido rapidamente do filho de Apolo, Apolo, e da garota ex-motorista, e então posteriormente dos demais.
— O que aconteceu!? — perguntou Apolo rapidamente.
— Uma maldição de um ajogun. — explicou meu filho.
Sem nem pensar duas vezes, Apolo, seu filho e o outro morto que sabia ser Magnus, se jogaram de joelhos ao lado de Leo e começaram a ajudar na cura também.
— Não temos tempo para isso! — falei, séria — Coloque-o para dentro do ônibus e curem-no lá dentro.
— MAS NÃO PODEMOS PERDER TEMPO CURANDO ELE! — gritou Calipso, raivosa, e acho que minha cara de raiva deve ter transparecido, pois logo Ninazu interveio.
— Tudo bem. Tudo bem. Eu consigo carregá-lo e tentar curá-lo ao mesmo tempo. — disse Ninazu prontamente pegando o garoto nos braços.
Ninazu foi indo para o ônibus e os demais foram indo atrás, uma fila de pessoas preocupadas com o garoto. Os únicos que ficaram para trás foram Anúbis, Sadie, o irmão dela e mais uma garota.
— Esse… esse deus… — disse Sadie — É o deus que ajudou quando… quando Walt…
— Sim… quando ele foi atacado pelo Shenu. — respondeu Anúbis.
— É meu filho. Ninazu. — expliquei delicadamente para a garota ao notar em seu olhar um sentimento que já me era bem familiar, o pesar — Chamei para que tivessem mais deuses do seu lado.
— Obrigada. — respondeu ela, com um sorriso fraco, e prontamente Anúbis segurou na mão dela.
— Sadie, temos que ir. — disse o irmão dela — Temos que chegar em Luxor o quanto antes.
— Sim… vamos… — respondeu ela, logo parecendo como a guerreira que vi inicialmente.
Garota forte. Sabia que tinha gostado dela.
Seguimos então os demais em direção ao ônibus. Eu não entrei, mas vi de fora Ninazu, Magnus e o filho de Apolo debruçados sobre o garoto, curando-o enquanto Apolo se empenhava em nos levar ao ar novamente. E, mais atrás, o barco dos magos se aproximava. Danificado, mas suficientemente inteiro e livre de rabisu. Com todos, eu, ônibus e dragão, já no ar, notei Sadie e seu irmão acenarem para Amós no barco, confirmando entre si que estavam bem.
Com a carruagem já voando, Apolo passou o volante para a responsabilidade da garota de antes e também para o irmão de Sadie. Assim Apolo estaria livre para curar o garoto. Seguimos o voo em direção à Luxor e aparentemente a ideia de invadir o Egito assim do nada, o mais discretamente possível para nos utilizarmos da vantagem de um ataque surpresa, havia funcionado. Com as próximas etapas de Naunet tão concentradas no Cairo, tão mais ao norte, a segurança no sul, pela cara, havia se acabado por enquanto. Ou ao menos considerando qualquer exército ou imitação de exército que tinha a coragem de nos enfrentar. Afinal, nosso grupo era bem grande.
Nosso caminho até Luxor foi em boa parte bem tranquilo. Especialmente quando, letárgico, o garoto amaldiçoado pelo ajogun acordou. Vivo, cansado, pálido, mais parecendo um morto do que um vivo, mas devidamente respirando. Os problemas só começaram mesmo quando nos aproximamos mais de Luxor.
Dezenas de rabisu nos atacaram mais uma vez, provando que havia mais deles ainda capazes de nos estressar. Os barcos dos magos, com mais machucados e mortos do que pessoas em plena força, rapidamente ficaram numa situação muito mais complicada do que o pessoal que voava.
— O barco está em perigo! — avisei, ao ver os rabisu se aglomerando mais lá ao notar a mesma coisa que eu.
— Vamos abaixar para ajudar! — exclamou uma garota asiática cujo nome não me importei em decorar.
Eu já estava em movimento, me lançando em direção ao barco como um míssil. O ônibus e o dragão mergulharam também, e logo todo o caos estava concentrado em ao redor dos barcos. Algumas das crianças mortais que estavam no ônibus haviam ido para o navio, para ajudar mais de perto e não tentando achar espaço nas janelas de um ônibus que ameaçava os derrubar. Mas novamente, os rabisu eram muitos e cada vez mais. Até que formaram toda uma nuvem que bloqueava todo o caminho, e os barcos tinham dificuldade de prosseguir, e os que voavam de desviar.
Um dos rabisu atingiu em cheio na barriga a garota asiática usando a cabeça. Os olhos da garota saltaram do rosto, e ela quase vomitou em cima do rabisu enquanto ele a empurrava em direção ao Nilo. Voei na direção dela, rapidamente chutando o rabisu e pegando a garota pelo pulso, antes que ela caísse nas águas do rio. O rabisu ficou desnorteado pelo chute e outro se aproximava, mas para esse segundo, a garota gritou:
— ATAQUE ELE! — gritou ela apontando para aquele que havia lhe atacado com a mão livre.
Reconheci a magia na voz da garota imediatamente. Não precisei de ver os dois rabisu começarem a brigar entre si. Vendo que a garota era bem capaz de se defender, larguei-a em um dos barcos novamente, e continuei destroçando qualquer rabisu que aparecia em meio caminho. Especialmente aqueles que ficavam felizes em se manchar de sangue dos magos egípcios.
Enquanto eu estava ocupada acabando com uns rabisu no céu, vi num piscar de olhos um, no arco, rasgando as costas do filho de Apolo e voando em minha direção coincidentemente. O filho de Apolo gritou dolorosamente, Nico gritou seu nome e vários xingamentos direcionados ao rabisu. Mas o rabisu, pobre rabisu, cometeu o erro de voar perto de mim. Agarrei-o pela asa, e se não fosse minha outra mão ocupada com a lança, teria o rasgado ao meio como um papel. Me contive em, com a mesma mão que o segurava, envolvê-lo em minha rede negra novamente, que o prendeu com grande facilidade. Tal como antes, a rede se fechou e encolheu de tamanho, espremendo o ser dentro da cada vez mais até que ele encontrasse seu doloroso fim.
No barco, o filho de Apolo sangrava muito. O corte havia sido profundo. Mas ele estava tendo várias pessoas para o defender. O problema, era que juntando com os magos feridos, havia mais fatalidades do que qualquer curandeiro seria capaz de lidar com naquela confusão. Foi aí então que Amós gritou.
— SADIE! LEVE OS FERIDOS EM FRENTE! NOS ENCONTRAMOS LÁ!
— E vocês?! — perguntou ela.
— Vamos em frente só com os feridos e mais alguns! — exclamou Apolo, que não havia conseguido deixar o volante para trás em meio a tantas manobras que eram necessárias de sua carruagem — Eu, Anúbis, os feridos e alguém para ajudar na segurança. Não deve precisar de mais gente para montar nossa base né?
— Eu vou então! — exclamou Sadie, já ajudando a levar o filho de Apolo para o ônibus.
— Não sabemos como está a segurança em Luxor! — gritou o irmão de Sadie ao decepar um rabisu com sua espada — Até onde sabemos, pode estar pior do que aqui.
— Eu vou também. — falei — Comigo a mais, com certeza é o suficiente.
O resto de nós, do jeito que era possível, tentávamos lidar com o resto dos rabisu e proteger aqueles que levavam os feridos para dentro da carruagem de Apolo. Contudo, foi um grito que veio de mais à frente que mostrou que a situação iria ficar ainda pior.
— Tem um barco estranho se aproximando! — gritou um dos magos.
Eu olhei para o barco e, chamar de barco era exagero. Era um mero bote. O problema era quem estava nele. Tudo o que víamos era uma figura encapuzada com a chuva deixando sua capa negra grudada ao corpo. Uma névoa estranha, avermelhada e incômoda a seguia e no capuz de sua capa, havia dois buracos, pelos quais saíam dois grandes chifres cinzentos. Por um provável outro buraco, um par de asas saía de suas costas.
— Droga… É UMA LAMASHTU! — gritei.
Ao ouvir seu nome, a figura encapuzada pulou em direção ao barco do meio, soltando um grito estridente, tão horrível e agudo que até meus ouvidos doíam. E lá embaixo, sangue saía do ouvido dos mortais. Ela era horrenda. Com uma cabeça de leoa de três olhos vermelhos como o sangue que mancharam suas mãos humanas acinzentadas de unhas longas e tortas. Seu cabelo era tão negro quanto sua capa, e sua capa era a única coisa que vestia. E seus dentes, grotescos, manchados de sangue e imprensados numa boca grande demais para aquele crânio.
Eu estava no ar, então vi ela caindo sobre a garota que eu deduzia ser a namorada do irmão de Sadie. Lamashtu provava sua preferência mais uma vez por arruinar a vida de garotas. Mas a garota não era uma donzela indefesa, pois uma bola de fogo explodiu de si, empurrando a Lamashtu para longe. Mas não longe o suficiente, pois ela esbarrou em um dos magos egípcios, que tentou se defender preparando algum feitiço, mas ela o arranhou e o empurrou ao chão.
Tentei avançar na direção deles, mas dezenas de rabisu voaram para cima de mim, me deixando ocupada e bloqueando minha visão. Tantos e tão perto que até me mover se tornou complicado.
Acabei com eles como podia, ouvindo gritos de dor, desespero e de pressa de organização dos feridos. Minhas asas e lança cortavam tudo ao alcance e então gritei, gritei não aos céus, mas às entranhas da terra e do submundo. No instante seguinte, os rabisu ao redor de mim se desfizeram em pura areia cinzenta. Era um truque útil, mas que não conseguiria repetir com tanta frequência. Com o espaço que abri ao redor de mim, imediatamente voei com o máximo de velocidade possível em direção à Lamashtu. Minhas asas cortaram os rabisu pelo caminho com o mesmo tanto de dó que Lamashtu demonstrava à suas vítimas no decorrer da história. Nenhuma.
Quando alcancei o centro da confusão, Anúbis havia aprendido praticamente como uma múmia e a garota que havia resgatado antes ficava repetindo coisas como “fique quieta! fique quieta!”. Mas é claro que não funcionava. A Lamashtu era um demônio muito antigo, forte e cruel. Por isso até mesmo as faixas de linho de Anúbis tinham dificuldade de putrefazer seu corpo. A Lamashtu também tentava desesperadamente se libertar, se debatendo por todo lado enquanto gritava terrivelmente com sua língua pingando sangue posta pra fora, e vi que o mago que havia sido atacado anteriormente agora tinha um corte profundo na barriga, provavelmente ocasionado pela aquela mesma boca sangrenta que agora me encarava.
A garota do fogo também tentou queimar a cabeça da Lamashtu com um fogo quente e brilhante cujo calor sentia de longe, mas ela só ria, muito embora pudesse ver queimaduras surgindo em sua pele. Ao redor, os demais tentavam desesperadamente colocar os feridos para dentro do ônibus enquanto o número deles só aumentava.
— Você sempre foi uma residente ingrata e irracional. — falei, parando de frente para a Lamashtu e preparando minha lança — Mas o que esperar de alguém cuja diversão é matar bebês?
Ataquei com a ponta da minha lança dentro daquela boca horrenda, mas ela rapidamente se transformou em sangue por completo. A lança passou inofensiva e a tensão das faixas de linho se desfez quando sua prisioneira se transformou numa poça de sangue. Deixei escapar um xingamento em sumério, especialmente para mim mesma por ter esquecido que ela podia fazer isso. Afinal, ela era mais dor de cabeça de Pazuzu, não minha.
— MAGNUS! — gritou Anúbis — PRECISAMOS DO MAGNUS.
— Hã? — perguntei.
— O que tem ele? — perguntou a aparente provável futura cunhada de Sadie.
— Ele tem poder de cura. — explicou Anúbis — Apolo está ocupado com Will.
— Isso! — exclamei e vi o tal Magnus se aproximando com Alex.
— Eu! Eu! — gritava Magnus enquanto a enorme poça de sangue aos nossos pés começava a tomar forma.
— Eu também! Eu também! — gritava sua espada.
— Ataque ela! — falei, apontando para a poça de sangue com vida — E imbuta seu poder de cura em sua espada.
— Qual a lógica disso? — perguntou Alex.
— É a fraqueza dela. — expliquei com as palavras se atropelando em minha língua.
Podia ser uma cena estranha e sem impacto, ver um garoto com o braço daquele tamanho (ou daquela falta de tamanho) atacar com sua espada falante uma poça de sangue que se movia, mas ele assim o fez enquanto sua espada emitia um brilho dourado. E tal como eu torcia para acontecer, a poça de sangue gosmenta se contorceu e gritou de dor.
— DE NOVO! — gritei, visto que Magnus estava parado admirando a cena.
— A-Ah… — gaguejou ele, mas foi tarde.
A poça de sangue pulou para longe, atingindo uma maga que estava ocupada lutando bem no ventre.
— NOOR! — gritou Amós de sei lá onde.
A tal maga caiu no chão com uma cara de dor intensa e soltou um grito enquanto a poça de sangue parecia sugar ou devorar algo em si. Magnus, que decidiu não ser lerdo uma segunda vez, correu na direção da maga, mas a poça de sangue pulou para longe mais vez, e dessa vez, para as profundezas do Nilo.
— Noor! Noor! — gritava Amós indo em direção à Noor, que tentava se erguer com muita dor.
— Eu tô bem. Eu tô bem. — repetia ela de um jeito nada convincente.
Amós pegou ela nos braços e correu em direção à carruagem de Apolo. Apressada, corri os olhos pelo barco, não parecia haver mais feridos graves. Os largados no chão agora eram só corpos.
— VAMOS! VAMOS! — gritei, empurrando Sadie, que saía para fazer a mesma checagem que eu tinha acabado de fazer, para dentro da carruagem de Apolo novamente — QUANTO ANTES FORMOS, ANTES EU VOLTO PRA CÁ.
— Cuidem bem deles! E de Noor! — disse Amós apressadamente antes de voltar para a luta.
— Nós cuidamos daqui! — gritou Bastet.
Com todos os feridos dentro da carruagem-ônibus de Apolo, o próprio Apolo, mais Sadie e Anúbis, a carruagem decolou. Eu ia do lado de fora, abrindo caminho dentre os rabisu, que felizmente diminuíam de quantidade. O avanço pelo céu foi lento, mas quanto mais longe íamos do barco, mais rápidos ficávamos. Eles não conseguiam ter um exército infinito de rabisu, Lamashtu estava ferida, e eles ainda tinham vários obeliscos para protegerem ali em Luxor.
Quanto mais perto ficávamos de Luxor, mais eu via nuvens de rabisu esperando a gente se aproximar. Provavelmente esperando que a gente fosse tentar reivindicar a base da Casa da Vida ali. Mas era justamente para tentar evitar que adivinhassem nossos planos, que o nosso plano era na verdade bem diferente.
No último instante, deixamos à margem leste do Nilo, onde a cidade de Luxor se apinhava, para trás e fomos para a margem oeste. Templos muito antigos e tumbas se aproximavam da margem oeste, a margem do Nilo tradicionalmente guardada pelos antigos egípcios para ser um lugar destinado à morte. O Vale dos Reis se aproximava, não sei se Naunet pensou na possibilidade de fazermos o Vale dos Reis de base, com suas tumbas grandes e sinuosas de entradas apertadas e fáceis de defender. Mas suas tumbas também eram becos sem saída, e muitas com perigo de desabamento. E ele ser de difícil acesso era um lado tanto bom quanto ruim.
Não, não era no Vale dos Reis que iriamos pousar, era um pouco antes dele. No grande templo que se erguia contra os penhascos que escondiam o Vale dos Reis como se fosse uma extensão da própria rocha. Três enormes esplanadas com grandes terraços, com uma longa e infindável escada que os conectava, pareciam que iriam chegar até os céus. E foi do terraço do meio, mais à direita, que nos aproximávamos. Num canto esquecido, onde havia uma entrada para um pequeno cômodo, uma pequena capela que, com enormes e grossas colunas, se escondia embaixo do último dos terraços. E era aquela pequena capela que era o motivo de nossa parada ali.
Anúbis saiu correndo do ônibus quando ele nem tinha pousado ainda, mas também não estava à uma distância que era muito difícil para joelhos jovens aguentarem o pulo. No horizonte, os rabisu que protegiam Luxor, na outra margem do Nilo, começavam à se aproximar ao entender para onde havíamos ido. Eu, Sadie e Apolo nos preparamos, e Anúbis corria para a pequena capela que tinha sua própria imagem pintada em todas as paredes.
Lugares de morte costumam nos deixar mais fortes, e o mesmo podia ser dito sobre templos feitos para nós. Imagine um lugar que era dos dois ao mesmo tempo e ainda ficava aos pés das maiores necrópoles do Egito Antigo?
Provando que havia muitos méritos em fazer amizades com faraós, dentro de sua própria capela feita pela falecida amiga, ouvi quando Anúbis bateu seu cetro no chão sujo de areia, e agora lama também, graças à chuva. Os rabisu gritavam e eu quase podia entender xingamentos em seus grunhidos sem significados. Felizmente, rapidamente todo o Templo de Milhões de Anos de Hatshepsut foi envolvido por uma cúpula negra levemente transparente, que começou daquela pequena capela dedicada à Anúbis, e se expandiu até envolver todo o templo e lentamente putrefazer qualquer rabisu que tocasse em seus limites.
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