Os Deuses da Mitologia
164 BASTET - Uma Luta Familiar
Notas iniciais

BASTET
Eu, tal como todas as outras noites, estava sozinha enquanto as crianças dormiam. Tínhamos que aproveitar cada minuto de sono. Era muito cedo, muito cedo, ainda assim, o sol precoce do verão já dava sinais de que estava pensando em nascer. Já estávamos no Mediterrâneo há algum tempo, logo estaríamos perto o suficiente do Egito para a confusão com certeza se intensificar, como se já não tivesse sido estressante passar pelo estreito de Gibraltar, que separava Espanha de Marrocos.
Até então, era uma noite tranquila, isso é, até eu ouvi conversas vindo do interior do nosso barco, interior esse que foi batizado de “quarto”. Como era muito importante que Carter, Zia e os demais dormissem, fui até lá pronta para dar uma bronca neles, mas encontrei eles com uma cara de sono pesado, no meio de uma mensagem de Íris.
— Então, é essa a situação… — explicou o cara grande e robusto que, àquela altura, entendi que se tratava de Mestiç — O pessoal da Indonésia mandou uma mensagem de Íris algumas horas atrás… conversamos entre nós… e aqui estamos nós.
Havia demorado um pouco para Carter e Zia me apresentarem todos os que estavam envolvidos com eles nessa confusão. Ainda bem que o trajeto até o Mediterrâneo era bem longo, então não estava tão desinformada. As descrições parcas que recebi foram suficientes para que eu conseguisse identificar Mestiço. Afinal, as outras opções eram todas um bando de adolescente com real cara de adolescente… mesmo que um desses tivesse 5000 anos… e eu esperava muito que esse em específico estivesse cuidando bem de Sadie ou então…
Mas isso era problema para outra hora. O pessoal da mensagem de Íris estava com cara de quem tinha acabado de sair de um velório. E eu não sabia porque. Drew não parecia também ter uma ideia, Paulo eu tinha lá minhas dúvidas se tinha entendido a conversa inteira, mas Carter e Zia já estavam gradualmente com mais olhar de preocupação do que de sono.
— O que isso tem de tão importante para nos acordar a essa hora? — perguntou Drew, soltando um grande bocejo, antes colega de classe de Sadie, e agora no barco com a gente indo salvar o mundo, bem que dizem que o mundo é pequeno — Não é como se conseguíssemos ir até a Ásia para resolver algo. E já não é tarde demais?
— Estão preocupados com Paris. — concluiu Carter.
— Sim. — afirmou quem, por eliminação, deduzir ser Blitzen — Somos só quatro aqui. Não podemos contra um exército.
— Ali é o Louvre. — disse a garota… Mallory? Rachel? Acho que Mallory, apontando para a sombra atrás dele, logo nos fundos da mensagem.
Não posso dizer que sou muito conhecedora do Louvre. Mas sabia o suficiente pra saber que era o maior museu do mundo e era entupido de turistas e blabla. E claro, tal como quase todo museu grande, cheio de artefatos egípcios que nunca deveriam ter saído do Egito, muito menos da forma roubada que muitos foram. Sinceramente, com o Louvre e o British Museum não sei como não temos que adicionar à lista de problemas do dia uma perseguição com a polícia. Se os artefatos roubados já me irritam, nem imagino como Anúbis se segurou para não “roubar de volta” umas múmias. Eu bem tenho vontade de pegar as múmias de gato já.. quem sabe fique de aventura para depois que o mundo parar de tentar se auto destruir.
De toda forma, o Louvre estava escuro e desprovido de turistas atrás do pessoal. Só a luz da lua e de algum poste conseguia trazer iluminação suficiente para distinguir os contornos gigantescos dele da escuridão da noite.
— Estamos aqui com o barco que Sadie emprestou pra gente, — continuou Mallory — Atracado no Sena, do ladinho do Louvre. Se algo acontecer, estamos aqui. Mas não sabemos quando isso vai ser.
— Pode ser amanhã de manhã, semana que vem, mês que vem…- disse Mestiço, soltando um pesado suspiro — O pessoal na Ásia estava parecendo um fantasma. Estava escrito nos olhos deles que não foi muito bom o que aconteceu por lá… por mais que tenham feito amizade com uns chineses.
— E querem saber se conseguimos ir até Paris? — perguntei, repentinamente — Sadie e os outros estão na Turquia. Nós estamos no Mediterrâneo. Somos os mais perto de vocês.
— Falamos com os Mexicanos também… estavam na Alemanha, lembra? — perguntou Mestiço — Mas não estão mais e também são poucos, e aparentemente se machucaram bastante nas aventuras pela Alemanha… Mas deu tudo certo. Estão na Eslováquia agora. Não entendi muito o porquê, mas parece que vão descer até a Grécia… já estão sabendo que é pra se reunir no Sudão ou no Egito. Por isso estão descendo.
— Ártemis também está na Itália. — explicou Blitzen — Mas a verdade era que queríamos mais alguém também, e que também estivesse por perto, para confirmar que a nossa ideia horrenda é a que mais faz sentido.
— Que ideia? — perguntou Zia.
— Sadie e os outros estão em Istambul… — começou a listar Mestiço.
— E combinamos ontem a noite de eles resolver o último obelisco na Ásia, em Israel, e pegamos eles no caminho, se possível. — comentou Zia.
— Ártemis tem muito obelisco para lidar na Itália…- listou Mestiço, listando outros roubos do Egito.
— Mais obelisco até do que o próprio Egito… — resmunguei.
— E vocês tem que chegar logo no Sudão… — continuou Mestço — Estão todos ocupados, e somos só quatro, contra um exército, o que seria suicídio.
— Está sugerindo então sacrificar Paris? — perguntou Drew, horrorizada — A CAPITAL DA MODA!
— Eu sei, a ideia é horrível… mas vamos focar nas pessoas que vão morrer por isso… — respondeu Blitzen, claramente pesaroso — Vamos nos sacrificar por nada quando poderíamos estar indo para o Sudão também?
— E pra sair daqui e ir pro Sudão ou Egito depois, ainda teríamos que voltar todo o caminho do Sena, dar a volta pelo norte da França, toda a Península Ibérica até o Mediterrâneo… — descrevia Mestiço enquanto mexia na barba e encarava o chão, como se pudesse ver o Mapa Mundi na sua frente.
— Pra aí fazer o mesmo caminho que estamos fazendo e chegar até o Canal de Suez… ou o Nilo, que está bem perigoso pelo o que nos falaram… — falei.
— Um caminho longo… e não temos provas de que vão precisar de tempo para o golpe final no Egito depois de atacarem Paris… — continuou Mestiço — E nem temos todas as informações para desfazer o feitiço nas pirâmides para aceitar que as coisas podem dar errado no Cairo que teremos uma segunda chance. Sei que tivemos uns avanços na Turquia com o gênio e na Indonésia com o Finn MacCool, mas é fato que não temos.
— Podemos não ser os mais úteis do grupo, mas Hearthstone está pegando bastante o jeito com magia. — disse Blitzen e o elfo de cabelos brancos, Hearthstone, logo ao seu lado, começou a sinalizar algo.
— Deixa de modéstia, Hearth. — respondeu Mallory e, isso pareceu deixar todo mundo com o ânimo um pouco melhor..
— Ela…? — começou Zia, deixando o resto da pergunta no ar.
— Se estou com minha memória de volta? — perguntou Mallory, trocando um olhar com Mestiço que, pelo o sorriso discretíssimo dos dois, tive certeza que tinha história por trás — Não tudo… mas bastante. E o suficiente pra dar uma na cara desse bando de idiota egocentrico querendo trazer problemas para nós de novo.
— Você falou da Itália ter mais obeliscos que o Egito… — disse Blitzen, repentinamente, apontando para mim — Mas o Egito também tem muito né?
— Óbvio. — concordei.
— E até onde sabemos, Naunet está concentrada no Egito. O que deixa os obeliscos de lá bem complicados de lidar. — explicou Blitzen, sempre com olhar de enterro, com olheiras nas olheiras — Mais gente então indo pra lá ou pro Sudão é, de novo, infelizmente mais útil. “Infelizmente” por Paris, claro…
— Mais coisa ainda para colocar na lista… — disse Mallory, entre dentes — Ficar esperando por um ataque suicida que pode vir em qualquer momento enquanto poderíamos estar nos preparando em outro lugar…
— E talvez até lá Apolo já está mais perto com o carro dele e podemos ir em maior número saindo do Egito quando o ataque chegar em Paris. — lembrei — Anúbis não tem um amigo aí que ele pediu ajuda recentemente? Ele pode nos avisar.
— De Paris para Hurghada, uma cidade linda no Egito com uns corais e hoteis 5 estrelas MA-RA-VI-LHO-SOS, um paraíso mesmo, leva quase 5 horas de avião. Mas, claro, Paris é um paraíso também, um luxo só… com exceção dos ratos. — disse Drew, jogando o cabelo para trás.
— Você sabe … você não … indo de férias né? — disse Paulo, arriscando seu inglês.
— Claro que sei. — respondeu Drew, dando de ombros.
— Sabem onde Apolo está? — perguntou Mestiço.
— Disse que deve chegar amanhã, ou melhor.. hoje mais tarde… perto do por do sol, na Nigéria, a primeira parada. — explicou Zia.
— No fuso da Nigéria ou dessa parte da Europa? — perguntou Drew.
— É o mesmo fuso. — respondeu Zia.
— O que deixa ele ainda muito longe. — disse Blitzen, que teve sua atenção chamada por Hearthstone, que sinalizou algo — Bem, Hearth disse que ao menos é metade do caminho.
— Não é uma aposta certeira, mas se estivermos no Cairo, tem o barco solar de Rá. — falei — Ele voa.
— Rá não levou ele? — perguntou Carter.
— Sim. — respondi — Por isso disse que não era muito certo. Talvez possamos apelar para o lado sentimental, principalmente com Osíris e seu pai sendo um só agora.
— Certo… então não é o ideal, mas ao menos temos mais de uma opção além de Apolo. — disse Mestiço, pensativo — Achei que iria chegar pelo Sena até Paris para salvá-la ao invés de quando foi conquistada pelo Sena séculos atrás por vikings também… Não gosto nem um pouco de deixá-la à própria sorte… torcendo para esse amigo de Anúbis conseguir evitar os danos e nos avisar enquanto estivermos fora. Mas infelizmente não faz tanto sentido agora ficarmos aqui.
— Não podemos perder no Egito também. — disse Mallory — É nossa última chance.
— Certeza que ninguém tem uma ideia milagrosa melhor para salvarmos Paris? — perguntou Blitzen, tão desapontado quanto qualquer um ali estava — Pela primeira vez sabíamos com antecipação qual era o alvo…
— Poderíamos tentar avisar os mortais por meios normais que entendam para que não lotem o Louvre… — disse Zia — Se eles acreditassem em nós pra começo de conversa. Mas como não sabemos quando é o ataque, eles logo cansariam se o ataque demorar. E se Naunet e seus amiguinhos idiotas suspeitarem que a gente sabia… pode ser até que troquem o Egito e estamos todos nos concentrando para o Egito. Podemos não ter tempo de nos preparar de novo se trocarem o Egito.
Sem ter mais muito o que falar, o silêncio que se seguiu foi pesado. Todos ali sabiam que estavam tomando a decisão correta, a única que fazia sentido. Mas isso não tornava mais fácil aceitar que estavam condenando Paris a um destino incerto. Cruzamos o braço, olhamos pro chão, tentamos ter alguma ideia milagrosa que tornasse plausível esperar em Paris com um grupo maior, mas tínhamos que ir pro Sudão e pro Egito montar um verdadeiro exército.
Claramente essas tentativas de nós salvarmos as pirâmides até então só serviram de apenas tentativas mesmo. Não tivemos nenhum resultado melhor pelo o que Carter e Zia me explicaram. O melhor tinha sido a aparente vitória de Sadie e os demais em acabar com o exército, ainda em construção, que se reunia no Reino Unido. E isso era mais um fator que provavelmente atrasará um ataque em Paris. Se tudo der certo, atraso suficiente para que nós consigamos reunir mais gente para salvar a cidade mais tarde.
— Vamos atrás do tal deus que ajudou Anúbis e os outros antes… — disse Mestiço, com voz de velório — E quem sabe ele conheça mais gente que possamos avisar para ficar de olho em Paris…
Com aquele clima extremamente pesado, a mensagem de Íris se desfez. Ainda ficamos um tempo mais ali, parados, pensando, sentido, digerindo… aceitando aquilo que já parecia o anúncio de uma derrota. Guerras são complicadas, e aquilo era uma guerra.
— Façam valer a pena. — eu disse, antes de deixar o quarto para trás.
Na solidão da noite com a brisa do Mediterrâneo, respirei fundo. Sacrifícios como aqueles eram comuns em guerras, infelizmente. Pois guerras em mais do que questão de força, a estratégia também era importante e às vezes ela custava vida, e às vezes são uma jogada que não temos certeza do resultado.
Não sei se as crianças voltaram a dormir, só sei que logo o sol parou de timidez e foi começando a brilhar enquanto continuávamos cruzando o Mediterrâneo tranquilamente. Algumas horas depois, Carter foi o primeiro a acordar. Estava com o cabelo bagunçado para todo lado, como se o cabelo estivesse tentando fazer, por si próprio, uma escultura. A expressão de Carter, por outro lado, estava muito menos cômica do que seu cabelo. Era claro que ainda estava pensando nas conversas noturnas e que talvez não tivesse dormido nem um pouco.
— Preocupado com Paris? — perguntei.
— E tem como não ficar? — perguntou ele — Acha que foi a decisão certa?
— Só saberemos mais pra frente. — respondi — Mas achei-a cheia de razão. Olhando analiticamente, os quatro serão mais úteis no Egito. Já estamos bem perto do Canal de Suez. Nesse ritmo, até amanhã ou depois de amanhã estaremos aportando no Sudão. E com os demais acabando os seus assuntos em outras partes do mundo, ficando livre, e se reunindo com a gente, as coisas ficarão mais fáceis.
— Nós demoramos demais para aumentar nossos números. — concluiu Carter, sabiamente — Naunet, Quetzacoalt, Nyx, Susanoo, Amatsu-Mikaboshi… eles estavam organizados a muito tempo. Provavelmente desde bem antes de Walt morrer.
Carter se debruçou sobre a amurada do barco, e olhou para o horizonte. Lá longe, um pedacinho da África aparecia, enquanto a percorríamos até o mais profundo ponto do Mediterrâneo, direto para o movimentado canal de Suez, que separava o Egito em África e Ásia, deixando a península do Sinai para a Ásia, assim como muitos problemas o outro lado da fronteira.
— Já combinou com Sadie onde vamos pegar ela? — perguntei.
— O obelisco em Israel fica perto da praia, vamos pegar ela lá. — explicou ele, mas pegando o celular no bolso mesmo assim — Seria loucura pedir para ela atravessar a fronteira com o Egito até o canal… não só porque o canal deve estar cheio de monstros. Será que está muito cedo para ligar para ela?
— Aposto que, tal como aqui, sempre tem alguém acordado. — respondi — E ela deve estar ao menos uma hora a frente também. Mas de toda forma, está um pouco cedo mesmo. Vá comer, um pouco mais tarde pode ligar para ela.
— Não sei se vou conseguir comer. — respondeu ele.
— Então converse com sua barriga! — ralhei — Não está numa situação que está tudo bem recusar a energia que um bom café da manhã dá.
Ele soltou uma pequena risada meio triste e continuou olhando para a água por alguns segundos. Tive a impressão que ia dizer alguma coisa, mas simplesmente desistiu e foi ver o que ainda tínhamos no barco e que poderia servir de café da manhã.
No tempo que levou para Carter convencer a barriga a comer alguma coisa, os demais foram acordando. O ânimo e o apetite deles também não estava lá essas coisas. E como estaria? Ainda bem que eu não precisava comer. Não só a preocupação com Paris estava presente, a culpa também nos corroía.
Com a barriga já cheia e sol quase a pino, Carter se sentou com Zia na mesma amurada do navio de antes, e eu fui até eles assim que ele tirou o celular do bolso novamente. Queria saber como estava Sadie também. Fiquei olhando o telefone começar a chamar por Sadie sem deixar de pensar por um segundo na facilidade que era se comunicar com as pessoas hoje em dia. Lá estava Carter, navegando entre Tunísia e Itália, enquanto Sadie estava lá longe, em algum lugar entre a Turquia e Israel, e tudo que bastava para ele falar ao vivo com ela, sem mágica nenhuma, eram alguns toques na tela de um pequeno aparelho.
Fiquei olhando quando a imagem de Sadie se formou na tela. Havia um pequeno caos ao redor dela, ela parecia estar em algum restaurante, lanchonete ou mercado. Ao contrário das formas de comunicação, aquele tipo de caos ao redor de onde se vendem coisas, especialmente comida, não havia mudado tanto assim com o passar dos anos. Atrás dela, eu vi o tal filho de Apolo, Will, cujo foco estava em alguma coisa na frente dele, não na ligação. Ao redor deles, dava para ouvir outras vozes, de outras pessoas falando longe ou perto. Árabe, reconheci e entendi. Dentre essas várias vozes em árabe, eventualmente reconheci que uma delas era de Anúbis, que fora da imagem da câmera, parecia pedir comida junto com outra pessoa, uma garota, que o ajudava a decidir o que comer também em árabe. Deve ser a tal Samirah.
— Hey, e aí maninho? — perguntou Sadie — Paramos aqui em Beirute para comprar um pouco de comida e almoçar. Hoje mais tarde chegaremos ao obelisco em Israel.
— Ah.. oi… — disse Will ao notar que havia uma ligação acontecendo ao seu lado.
— Mais umas quatro ou cinco horas estamos lá. — continuava Sadie a falar — É difícil dizer porque não vamos seguir o caminho do Google Maps que eu estava olhando só pra saber mesmo. Ele fala pra dar a volta, indo pra Damasco, na Síria, pra aí ir pra Jordânia…
— Provavelmente dando a volta na Cisjordânia… — murmurou Carter.
— E só então pra Israel… — completou Sadie, provando que a língua dela estava muito bem, como sempre — Quando daria muito bem pra ir em linha reta… Não que Israel deixe as pessoas normais irem numa linha reta aparentemente… mas vamos dar nosso jeito.
— Tomem cuidado… — pediu Carter.
— Tudo bem por aí? — perguntou Will e vi rapidamente Nico se esticando de fora da câmera pra ver quem era, mas não falando nada — Alguma novidade?
— Quão atualizados estão da situação na Indonésia? — perguntou Zia.
— Sei que conseguiram várias informações com o Finn MacCool… — respondeu Sadie desviando o olhar entre nós e seu pedido de almoço sendo feito em árabe — Mas que precisamos que Apolo chegue já que… a coisa lá… tá bom ele.
— Bem… — disse Carter soltando um pesado suspiro — Vamos te atualizar então.
Nós esperamos eles voltarem para a carruagem mágica encontrada em Paris para comer com mais calma e privacidade antes de começarmos a contar sobre tudo da Indonésia e de Paris. Também deixamos o celular de lado e trocamos por uma Mensagem de Íris, por segurança devido aos semideuses. Não acho que a carruagem estava andando, pois não havia qualquer outro barulho sem ser o de conversa e comida sendo comida. Comida esta, bem variada e libanesa, que por um segundo estranhei que era comida até por Anúbis. Mas logo descartei o estranhamento, poderia ser coisa de Sadie.
Foi uma pena trazer para eles as atualizações importantes e tristes de Paris e da Indonésia, já que eles praticamente estavam com o humor de quem viaja ao redor do mundo numa viagem com amigos… que por acaso às vezes inclui um monstro aqui e ali. Claramente as coisas estavam melhores para eles. Então foi bem triste deixar eles também com cara de velório diante da notícia do sacrifício de Paris.
— Será que vamos conseguir voltar lá? — perguntou Will.
— Esperamos que sim… — respondeu Zia, mas com uma voz que não deu muita esperança de que ela acreditava nessa possibilidade.
— Temos que nos reunir e arrumar as coisas no Sudão o mais rápido possível então. — disse Sadie — Vão alcançar a gente em Israel ainda hoje?
— Acho que sim. Mas vocês devem chegar no obelisco bem antes da gente. — falei.
— Podemos tentar achar um lugar lá para nos esconder enquanto esperamos vocês e enrolar um pouco a mais aqui em Beirute. — disse Sadie.
— Estão escondidos agora também? — perguntou Zia — Tiveram muitos problemas com monstros aí?
— O maior foi quando chegamos em Istambul. — respondeu Samirah, com um pesar no olhar que eu vi que nem tudo era só clima de férias — Tiveram alguns outros na fronteira da Turquia com a Síria, mas nada demais.
— Perderam nosso rastro por um tempo na Turquia também. — lembrou Will — Acho que perderam de novo agora.
— Mas ouvimos falar que Israel está cheio de monstros… — continuou Samirah, soltando um suspiro bem pesado — Não que seja grande novidade assim… Mas também não achava que ia voltar assim tão cedo para onde TJ morreu…
Sadie, que estava logo ao lado dela, apertou sua mão e as duas trocaram um sorriso triste mas que, por trás, parecia dizer “vai ficar tudo bem”.
— Tomem cuidado. — falou Carter antes de desligar a ligação — Melhor seguirmos logo, ou eles vão ficar muito tempo esperando por nós.
— Mais algumas horas e estamos lá. — lembrei ele, afinal não era como se o barco pudesse ir mais rápido do que já estava indo.
As notícias tristes de Paris fizeram com que o resto do trajeto Carter, Zia, Drew e Paulo gastassem algum tempo treinando. Não muito pesado, afinal não sabíamos quando precisaríamos repentinamente de nossa energia para algum monstro no meio do caminho. Até eu fui convidada (ou intimada) a participar dos treinamentos.
Os treinamentos duraram até ficarmos próximos demais do Egito para ousar. Todos ficaram tensos, e nem o calor do sol pós-meio-dia era suficiente para tirar todos do convés, mas sem dúvida tornava a experiência uma tortura. Ainda bem que o sol começou a se pôr e a queda na temperatura foi muito bem vinda.
Cada onda que batia no barco, cada movimento que ele fazia de um lado ou para o outro, parecia os ponteiros de um relógio marcando outro segundo mais perto de algum inimigo, ou menos um metro até esse inimigo. Ainda bem que todos estavam assim, prontos para uma batalha, pois, quando já tínhamos deixado o delta do Nilo para trás e nos aproximamos do Canal de Suez e de Israel, das profundezas do Mediterraneo explodiu um monstro, surgindo na superfície rosnando e jogando água e ondas para todos os lados.
O monstro, para todos os efeitos um dragão com o corpo gordo azul-piscina longo como o de uma cobra, dentes afiados que se fechavam do lado de fora de seu focinho achatado, orelhas de abano grandes bem típicas de criaturas mitológicas marinhas, que quase tornavam a aparência dele inofensiva, se não fosse os olhos ameaçadores, o tamanho colossal e as asas prometendo perigos não só no mar, como também no ar.
Eu conhecia esse feioso. Era Labbu, um grande monstro da mitologia mesopotâmica que, sinceramente, só tinha visto de relance a muitos e muitos séculos atrás. Mas ele não deu tempo de eu gritar para os outros o seu nome, foi logo investindo contra o barco, pronto para nos dar uma cabeçada. Ele avançou na nossa direção, rápido como uma flecha, e nós mal nos equilibravamos no barco devido ao tanto que as ondas se rebelaram com a aparição do Labbu.
Mas Zia também era rápida. Ela lançou uma bola de fogo que bateu no Labbu como um tapa na cara. Ele pendeu para o lado, e seu ataque foi completamente atrapalhado.
— Ele vai ser difícil! Vá buscar Sadie! — gritei rapidamente, quase enrolando minha língua nas palavras.
— Como assim? — perguntou Carter, meio perdido.
Sem querer perder um segundo a mais, foi nessa hora que eu corri e pulei do barco do barco em direção ao Labbu e enfiei minhas adagas nele. Ele gritou, mas eu gritei para os outros também:
— VÃO E DEPOIS VOLTEM! — gritei.
Lutar com serpentes gigantes sem tempo para acabar era meu forte. E Labbu, apesar de não tão famoso, era tão poderoso quanto seu tamanho colossal prometia. Tanto que foi ele também o causador da forte tempestade de nuvens negras que começou a se formar anormalmente rápido ao nosso redor. A ajuda do grupo de Sadie seria muito importante. Labbu era tão perigoso que os deuses mesopotâmicos só conseguiram o jogar para as profundezas de novo quando ele, quando 4 mil anos atrás, decidiu destruir uma vila que começava a virar uma cidade, algo que ainda era novidade na época.
Ele rugiu, os trovões rugiam junto com ele, e eu comecei a escalar seu corpo, correndo, mostrando que as leis da física nem chegavam aos meus pés, com o objetivo de enfiar as minhas adagas em seus olhos. Afinal, um inimigo formidável era ao menos um pouco formidável se cego. Mas ele não parecia me achar a coisa mais interessante ali, queria ir atrás do barco, que começava a seguir o pouco caminho que faltava para conseguirmos buscar Sadie.
— Ah não vai não. — falei enquanto entrava na minha forma de avatar gigante e, embora fosse difícil abraçar o corpo enorme dele, assim o fiz.
Meus indicadores se seguravam com força mas fragilidade por serem o único ponto de encontro entre meu braço esquerdo e o direito naquele abraço estranho. Meu corpo impedia ele de continuar batendo suas asas e voar, e assim caímos juntos nas águas do Mediterrâneo, criando uma onda majestosa que espero que tenha funcionado de impulso para o barco de Carter ao invés de mais um problema.
Água entrou na minha boca e o Labbu começou a se enrolar ao redor do meu corpo, me puxando cada vez mais para o fundo do mar. Mas o importante era que ele agora queria me dar atenção, não ao barco. Eu afundei, mas não me importei, apenas finquei minhas garras em seu corpo, comemorando silenciosamente quando ele se contorceu de dor. A luz do sol ficava cada vez mais longe, seu corpo se enrolava com grande poder ao redor do meu avatar. Mesmo sem precisar necessariamente respirar, com ele me apertando, eu senti como deveria ser ficar sem ar.
Eu senti minhas costelas rangerem sob a pressão da serpente colossal, mas eu não ia perder para um dragão de água com orelhas de abano. Apertando os dentes, finquei as garras mais fundo, sentindo o sangue quente de Labbu se espalhar na água escura. Ele rugiu, e o som reverberou como um trovão debaixo d’água, criando mais ondas e correntes que me puxavam ainda mais para o fundo. E ora, se eu estava apertando os dentes, nada como me aproveitar disso. Mordi o monstro com toda a força que eu conseguia, por mais dura que fosse sua pele.
A escuridão do mar começou a nos envolver, minha cabeça ficava tonta com ele me sacudindo com muita força e bastante rápido mesmo com toda a água fazendo resistência, mas nem isso era novidade para mim, a novidade era apenas a água. Não duvidaria se terremotos e tsunamis estivessem acontecendo na superfície.
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