Os Desafios da Distância
13 Choque de realidade
Notas iniciais
Depois do telefonema de Finn, Santana estava decidida a deixar Lousville por alguns dias e ir para Lima passar um tempo, esfriar a cabeça, renovar as energias, e principalmente, ver Brittany. Sim, estranhamente assistir “Um Amor para Recordar” despertou saudades na latina, de todos os momentos que viveu junto com sua Britt, mesmo antes delas começarem a namorar. Chorou feito criança na parte do filme que o protagonista disse que jamais iria deixar a mocinha. Tinha uma caixa de lenços de papel ao seu lado, enxugou suas lágrimas e caiu na real: mesmo não estando namorando mais sua loira precisava estar próxima a ela.
Santana precisava estar em Lima à noite, e por isso, logo tratou de mandar uma sms para Samara avisando sobre a mudança de planos. Quando já estivesse em casa ligaria para amiga para explicar tudo melhor. Como a tarde já avançava e o sol já atingia seu ápice vespertino, Santana precisava ser ágil: arrumar as malas e seguir para a estação de trem ou perderia as chances de algum programa com Brittany. Na realidade a loira mal fazia ideia do que a latina estava aprontando, e nem esta por sua vez, sabia se Brittany estaria disponível, mas de toda forma resolveu arriscar. Trocou de roupa, fechou o dormitório de Samara e seguiu para o seu quarto, aonde muito provavelmente iria se encontrar com Katherine.
Chegando lá, Santana encontrou a vadia deitada na cama com fones de ouvido tocando música no mais alto volume. A latina entrou no quarto sem dar muita importância e começou arrumar seus pertences em uma pequena mala. Estranhamente Katherine estava calada, não havia soltado nenhuma piada nem sequer cumprimentou Santana. Talvez a atitude dela fosse devido a bronca que levou da treinadora Cristina, ou menos provável tomou vergonha na cara e percebeu que o mundo não girava ao seu redor. Ledo engano.
Santana já estava quase finalizando de arrumar suas coisas quando Katherine finalmente abriu a boca para falar alguma coisa: — “Ta indo embora?” – disse calmamente, porém ainda de maneira prepotente. – “Mais ou menos. Estou indo visitar uns amigos em Lima” – respondeu Santana educadamente. Depois daquela conversa com o Coordenador Bishop, a latina decidiu que a melhor forma de conviver com sua colega de quarto seria não atacá-la, não provocar e tentar manter a calma. Sua bolsa na faculdade estava em jogo e a morena não queria decepcionar sua família e sua ex-namorada. Decidiu também que, se por um acaso Katherine viesse com brincadeiras pesadas, ela iria respirar fundo, contar até dez e reclamar diretamente com o Coordenador, onde muito provavelmente Katherine iria arcar com as consequências sozinha.
- “Visitar uns amigos? Hmmm sei! E seu namorado vai ter vez não?” – Katherine perguntou como que quisesse irritar a latina.
- “Não, só os amigos mesmo. Estou solteira agora, acabei com minha namorada!” – Santana afirmou. Contudo, no mesmo instante que saiu a última palavra de certa forma se arrependeu do surto de transparência que teve. Não sabia ao certo o que tinha acabado de dizer, pareceu tudo tão natural no momento. A palavra “namorada” escorregou de seus lábios como o jeito doce de Brittany. No momento não tinha pensado as consequências que aquela revelação poderia ter, de como Katherine poderia infernizar a vida dela, mas não poderia voltar atrás, estava dito. Santana corou.
- “N-namorada? Entendi certo?” – Katherine pareceu não acreditar no que tinha acabado de ouvir, era muito bom para ser verdade. A fofoca estaria espalhada pelo campus inteiro em menos de um dia e a vadia iria ter uma razão para encher o saco da morena pelo resto da vida.
- “É, namoradA” – Santana deu ênfase no último ‘A’. Por mais que o arrependimento estivesse presente, a morena não quis deixar transparecer a insegurança, precisava enfrentar aquele desafio, mesmo que pudesse trazer inúmeras feridas em seu ego. Se Santana era tão resolvida com sua homossexualidade como pensava, precisava começar a admitir para as pessoas. Infelizmente nem todos iriam entender, outros poderiam julgar, mas somente assim iria reconhecer quem era seus amigos de verdade, as pessoas que poderia confiar piamente sem qualquer questionamento.
- “Hmmm bem que eu desconfiei que você gostava de um sabão, Santana!” – Katherine dizia com um sorriso maléfico.
Santana não acreditava no que aquela idiota tinha acabado de dizer. Sabão? Que preconceito mais absurdo. Respirou fundo, contou até dez mentalmente e decidiu responder à altura:
- “Katherine é o seguinte: você não tem ideia do que esta dizendo! Se você fosse tão inteligente como pensa que é, não estaria me julgando pela minha sexualidade. Mal sabe você que em muitos países isso é crime, é ilegal e você poderia acabar muito mal por isso. Nós vivemos num país livre! Do mesmo jeito que você tem direito de escolher qualquer otário para sair dando, eu também tenho o direito de ser gay. E isso não significa que eu fique pegando qualquer uma por aí. Eu apenas me apaixonei pela minha melhor amiga e vi que não sou tão feliz quando estou com homens, somente. Então, eu acho que acima de tudo você teve ter ao menos um mínimo de dignidade e me respeitar, mesmo não aceitando quem eu sou. Se eu estou aqui nessa faculdade é porque tenho potencial, sou bolsista aqui, só os melhores recebem esse benefício. Você não passa de uma patricinha mimada, que o pai fica pagando tudo para a filhinha pensando que ela esta estudando numa grande instituição. Mas, o que a filhinha do papai fica fazendo é praticar bulliying no campus. Se toca, garota! Acorda para vida! O mundo não gira em torno de você, nem de suas amigas, nem de suas piadas sem graça. A vida é muito maior que esse alojamento, muito maior que essa faculdade. Se eu fosse você começaria a repensar meus conceitos e aproveitaria a oportunidade de se tornar uma pessoa melhor. Enfim, não quero me meter na sua vida nem quero que você dê opinião na minha, mas chega dessas insinuações ok? Quero apenas respeito, não quero confusão para o meu lado” – Santana enfim respirou depois do grande monólogo.
Katherine ouviu tudo aquilo que Santana falou atenciosamente, calada, sem nenhuma expressão no rosto. Parecia mais que tinha tomado um grande banho de realidade. A garota realmente sempre tinha sido mimada pelos pais, estudava nos melhores colégios, tinha os melhores celulares e roupas de marca. Nunca se importou com o sentimento de ninguém, nem com os que diziam serem seus melhores amigos. Tudo que importava era ser popular, parecer a gostosona para os caras do time de futebol e ser odiada pelas nerds. Todavia, naquele instante Katherine se sentiu vazia, afastada de seu próprio orgulho, ressentida com as ofensas que tinha dito nos últimos dias. Porém, como uma brisa que passa serena sobre os campos gramados da faculdade, aquelas sensações aos poucos passavam e Katherine voltou a ser a mesma garota desagradável de sempre, seu único objetivo era acabar com a reputação de Santana, mas teria que ter paciência já que a treinadora Cristina jurou um grande castigo se ela voltasse a se meter em briga. Tudo precisava ser precisamente calculado.
- “Ok Santana, você faz da sua vida o que quiser, não me importa quem você come ou deixa de comer. Apenas viaje e me deixe em paz!” – Katherine disse como se fosse a vítima da história, uma atriz indecifrável.
Santana nem respondeu à Katherine, estava bestificada com a capacidade daquela vadia em ser dissimulada. De toda maneira não importa! Depois de ter conversando com Samara no dia anterior, a latina estava decidida a pedir ao Coordenador Bishop transferência de dormitório. Tudo iria ser resolvido em questão de dias, precisava apenas ter paciência. Essa viagem para Lima parecia que tinha vindo em ótima hora. Santana pegou todos os seus pertences e seguiu para a estação de trem, provavelmente estaria em casa às 19h. A latina lembrou que nessa confusão toda esqueceu de mandar um sms para Brittany avisando que logo mais estaria em Ohio. Já no trem, pegou seu celular e digitou a mensagem:
“Adivinha só, B? Te dou um doce se acertar o que estou fazendo nesse momento. San.”. Em pouco menos de um minuto o celular de Santana avisou que havia uma nova mensagem de Brittany.
“Um doce? Já posso escolher? Aposto que esta vendo as reprises de F.R.I.E.N.D.S. Britt.”
“Ihh nem precisa escolher porque você errou! Eu estou dentro do trem indo para Lima!”. A latina sorria boba durante a viagem.
“Sério que você esta vindo para casa? Não acredito Santy! Vamos nos encontrar hoje? Estou com saudades.”
“Acho que chego umas 19h. Que tal as 20h nos encontrarmos no Breadstix? Também estou com saudades.”
“Perfeito! As 20h estarei lá, amor.”
Santana corou por Brittany acabar de chamá-la de “amor”. Aquela pequena palavra tinha se tornado tão estranha em um tão curto espaço de tempo. Mesmo a latina achando que Brittany ainda não compreendeu muito o fim do namoro, não se importou naquela hora. Era apenas estava feliz em revê-la em breve.
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