Os Demônios de Mara
8 Capitulo 8
Fazem exatamente 9 dias desde a ultima vez que vi John.
Há 9 dias que eu não ouvi a sua voz. Que não vi seus olhos azuis, seus allstars surrados e seu suéter marrom. Há 9 dias ele não me salva e há
9 dias
eu só consigo
chorar.
Meu coração agora funciona como um animal selvagem. Ele se comporta na maioria do tempo, fazendo-se de bom garoto e fica preso nas minhas costelas que lhe servem de jaula.
Ultimamente tenho medo que ele as quebre.
Sempre quando penso nele – quando cometo esse grande erro que simplesmente não consigo evitar – meu coração ruge tão alto que não consigo conter as batidas. Ele dói, arranha, grita, começa a me rasgar de dentro para fora para tentar escapar.
Ele quer me quebrar – Eu sei disso.
Quer quebrar meus ossos, criar pernas e ir embora. Ele quer ir atrás dele, cumprir as coisas que eu tão estupidamente prometi.
Meu coração é um animal selvagem preso nas minhas costelas e ele não me pertence mais. Pertence a um garoto na Terra que é o único que pode me salvar agora, como já fez várias vezes antes.
E seja a besta que for, sempre retorna ao seu dono.
Não sei porque eu estou sentindo falta dele. Não sei porque o conheço a apenas pouco tempo e trocamos poucas palavras.
Mas ele me faz sentir diferente. Não entendo esse efeito que ele tem sobre mim.
Sinto que posso lhe contar qualquer coisa e preciso lhe contar isso.
Preciso contar o que eu fiz.
Preciso lhe dizer que agora eu sei. Sou Mara Reichert. Eu sou uma assassina. Eu me matei uma vez e morri outra. Eu fui um demônio. Eu fui um anjo. Fui uma alma apodrecida no limbo.
Eu não posso ser salva.
Acho que talvez, nem seja ele. Talvez seja só o fato de eu ter alguém para conversar. Alguém que compreende as imperfeições de ser um humano, por mais que eu seja um anjo.
Sou um anjo do senhor, e meu canto nunca salvou ninguém. Sou um anjo do senhor e minhas asas não funcionam como deveriam. Sou um anjo do senhor e eu estou caindo em um buraco sem nada para me agarrar. Eu sou um anjo do senhor que se sente no inferno.
Eu sou um anjo do senhor e estou pensando seriamente em pecar.
Mais dois dias passam se arrastando. Eu vou e volto apenas para buscar almas mas estou extremamente proibida de visitar John.
Jack me lembrou disso todos os dias.
Disse que se eu fizesse isso, cortaria minhas asas.
E eu nem mesmo consegui sentir medo.
Não estou mais com medo, estou com raiva. Estou com raiva de mim mesma, raiva de Jack por estar fazendo a coisa certa, com raiva de Mara Reichert por ter fracassado sendo humana. Por ter fracassado sendo um anjo. Por ter fracassado nascer da ultima vez em que me foi dada a oportunidade.
Mas talvez eu tenha tido sucesso sem ser um demônio.
Li muito pouco da minha ficha mas eu acho que eu entendo agora.
Eu devo ter sido um demônio terrível.
Talvez eu tenha nascido para ser má.
Talvez.
Esses pensamentos ficam me corroendo dia após dia. Eu sou patética. Sou um grande fracasso ambulante. E a única pessoa que poderia entender toda a minha confusão esta a um mundo inteiro de distancia e eu não tenho permissão para visita-lo.
Pergunto-me da próxima vez que me vir, John vai poder dizer que eu mudei. Que eu pequei uma vez, bem aqui no céu. Que eu desobedeci e desobedeci e que eu sou má e eu nem sempre fui um anjo.
Que eu costumava ser um dos demônios que enchia seu quarto a noite.
E mesmo sabendo que eu não deveria, que é errado, que eu sou culpada por tudo, eu não consigo evitar. Eu preciso vê-lo. Preciso que ele me salve de novo porque sinto que estou morrendo, sinto que criei um pequeno inferno dentro de mim e agora ele não para de queimar.
Afundo nas nuvens que suportam o céu e acordo na Terra.
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