Os Demônios de Mara
9 Capítulo 9
Não conto a John o que eu fiz para vir aqui. Não revelo a ele como sou suja, como sou um anjo corrompido, como minha moral foi destruída e como eu não me sinto nenhum pouquinho culpada por isso.
Eu me sentia um pouco. Me sentia como lixo, na verdade. Mas seu sorriso e seus olhos azuis me lembraram do porque estou ali. E fizeram cada um de meus erros e pecados valer a pena. O relógio na parede da cafeteria marca 9:35. Mesmo depois de tantas viagens a Terra, ainda não entendi como o tempo funciona. Não entendo esses números na parede, e não entendo porque os humanos se agarram com tanta firmeza e devoção a eles. Parece que sem aquele relógio que faz tic TAC tic TAC na parede, eles não saberiam mais existir. Sem um relógio para ditar uma hora, ficariam perdidos e sem rumo, sem saber olhar para fora e dizer se o sol esta se pondo ou se esta nascendo. Sem um relógio, esquecer-se-iam de seus compromissos, de seus aniversários, de suas reuniões. Esqueceriam de acordar de manha porque ninguém disse-lhes o horário correto. Tropeçariam em seus próprios pés sem saber para onde estão indo, aonde trabalham, o que são. Esqueceriam de onde começa o dia e onde termina, quais são as ordens da estação ou quando deveriam fazer seus pedidos de ano novo. Eles são tão dependentes desses números na parede. Mas não John. Quando olho para ele, sua face é de uma criança despreocupada. Brincando com o canudo pendendo para fora do copo, distraído. Completamente alheio e indiferente ao tempo que passa. Não consigo parar de pensar no quanto seus olhos brilham quando vagam sem direção, tão perdido em seus desvaneios que é... é adorável. É angelical. É amável. E de alguma forma, eu quero roubar aquele brilho e planta-lo dentro do meu peito, para que eu possa observar-me incendiar como o Sol. Um brilho tão puro e natural que proporciona a todos a incrível dádiva da vida. E não é nada como o fogo do inferno. Mara – John diz quando me percebe. Não sei quanto tempo faz que estou o encarando. Antes que eu possa perceber, ele se levanta e esta parado a minha frente, e consigo ouvir seu coração batendo. E ele bate muito rápido. Tum Tum Tum Tum Tum tão perto de mim. Como uma bomba relógio. Ele da um passo a frente, mais perto de mim do que jamais esteve antes e numa tentativa frustrada de me segurar em seus braços, ele agarra o ar que sou feita e solta um suspiro desanimado. – Eu queria tanto poder te tocar agora. – Ele sussurra, baixinho, tão baixinho que sou a única no mundo a ouvir. Quero agarrar aquelas palavras e as enfiar em meus bolsos para repeti-las em minha cabeça mais tarde. John desvia o olhar, envergonhado, e de algum jeito, acha forças pra falar: – Senti sua falta Mara. Eu pensei... eu pensei que você nunca voltaria. Sua voz é uma lamina afiada que me corta de dentro para fora. – Eu... Me descupe John, eu... – Engulo em seco, sem saber o que dizer. Não quero lhe contar o que tive que fazer para vir aqui. Não quero dizer o que aconteceu. Não quero fazer nada além de olha-lo, bem aqui, bem agora, e nunca esquecer da curva de seu nariz, do brilho de seus olhos, do jeito que seu rosto se enruga quando ele sorri. De repente, o medo de esquece-lo me atinge muito forte no estomago e sei o que preciso fazer. Preciso descobrir a verdade. E preciso continuar um anjo. Porque não aguentaria ser outra coisa outra vez. Eu não aguentaria nem mesmo o pensamento de esquece-lo. – Eu estou aqui agora – Digo, por final. John sorri para mim. E isso é tudo o que eu preciso pra desmoronar. Sei que eu não deveria estar fazendo isso. Sei que meus problemas não são problemas dele e que eu tenho que guardar minhas dores e meus demônios para mim mesma. John já tem dores demais. Demônios demais. Ele passa todos os dias em um hospital, pelo amor de deus. Mesmo assim, eu não consigo controlar minhas palavras. Eu estou vomitando minha historia, estou contando desesperadamente tudo o que eu li, tudo o que eu vi, tudo o que eu descobri em tão pouco tempo. Estou contando a ele que eu fui um demônio que é um anjo e que um dia foi um passaro voando do topo de uma ponte em direção a morte. E ele só fica ali, me olhando com aqueles mesmos olhos, em silencio. Quando finalmente termino, parece que um peso imenso foi retirado de meus ombros. E John ainda esta me olhando. Olho de volta, ansiosa e nervosa para descobrir o que esta passando pela sua cabeça. Seus lábios se separam. John respira. Suspira. Demora um pouco demais para falar. A expressão em seu rosto quase me assusta.– Eu te conheci. – Ele diz, e assim, de repende, meu mundo se parte. Eu não consigo nem falar. – Quando éramos pequenos... Mara, filha dos Reichert. O tempo quebra o relógio na parede e aparece para me devorar. Eu fui uma criança um dia. Fui pequena, pequenina. Eu fui viva. – Você morava na casa ao lado. Faziamos castelos de areia. Deus, faz tanto tempo. Não consigo me lembrar direito. Acho que nunca me recordaria se você não tivesse falado seu sobrenome. Reichert, eu nunca esqueceria. Seus pais tinham uma companhia, não me lembro do que. Mas o nome era Reichert. Meus pais sempre te chamavam assim. De “a filha dos Reichert”. Não estou nenhum pouco surpreso por não lembrar seu nome. Meu Deus, faz muito tempo. Acho que eu tinha uns 4 anos na época. Mas isso não importa. O ponto é que – Uma pausa – Eu te conheço Mara. Eu te conheço.
Você me conhecia. Não sou a mesma pessoa. Sou outro alguém diferente. Sou diferente. John me conhece. Ele conhece meus pais. Não consigo respirar. – Meus pais... você se lembra deles?– Um pouco. Sua mãe tinha uns cabelos louros e seu pai era meio bravo. Não me lembro direito, desculpe. Isso é tão estranho. Tão estranho. Cabelos louros e meio bravo. Essa era a minha família. Foi minha um dia. O negocio é que tudo é tão surreal pra acreditar. De algum jeito, não consigo engolir que eu fui outra pessoa um dia. Que eu tive a oportunidade de ter uma família, uma vida boa, amigos com quem fazia castelos de areia. Um dia eu pude ser feliz. E escolhi me matar. – Precisa me ajudar – Eu digo, quase sem fôlego, quase desesperada. – Precisa acha-los, John. Eu tenho que ve-los. John concorda com a cabeça sem hesitar. Sim Mara. Qualquer coisa. – Um sorriso. Um olhar determinado. – Qualquer coisa por você.
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