Os Contos do Tempo

1 Prólogo – O começo do Tempo.


Notas iniciais
Leia sem pré-conceitos.

No começo, tudo o que existia ou iria existir estava compacto em um único ponto, infinitamente insignificante. A matéria e a anti-matéria lutavam incansavelmente aniquilando uma a outra e gerando novas partículas, que por sua vez continuavam o processo de novo e de novo. Todo o universo estava resumido aquela pequena bola nuclear. E a luta continuava, matéria e anti-matéria se aniquilando continuamente e seu cenário era a pequena bola que quarks que ali se encontrava. Não havia nada mais.

Até que a coisa mais improvável e incrível aconteceu. Até que ela chegou aqui.

Fugindo de seu mundo destruído e deixando tudo para trás, uma única partícula, invisível e insignificante em meio a várias outras. Essa pequena gotinha nesse mar de aniquilação causou uma onda incrível, a presença dela causou consequências que iriam atravessar o tempo e o espaço e mudar a existência de tudo. Essa pequena diferença de matéria e anti-matéria fez o universo se expandir violentamente. E ele continuou se expandindo, esfriando e permitindo que as partículas se ligassem para formar tudo. Tudo estava ali, pronto para se tornar qualquer coisa. Mas nada acontecia. As quatro forças não eram suficiente. Faltava aquele item, aquela força invisível, poderosa e absoluta. Aquela força que passa despercebida, mas que mantém tudo se movendo.

A pequena partícula continuava lá, vagando pelo quentíssimo ensopado de partículas. Ela não estava pronta para seguir em frente, continuar lutando, superar o que havia acontecido. E tudo continuava lá, imóvel, imortal.

Era um ciclo sem fim.

Não tem como calcular quantos ciclos ela continuou naquele cenário estático, se fosse possível por em números, toda história da existência poderia se repetir milhares de vezes nesse espaço de tempo.

Ela havia perdido as esperanças, perdido a noção de tempo. Só conseguia pensar no que perdeu. Ela conseguia se lembrar claramente do que havia acontecido, era assombrada pelas memórias, pelo sangue e pela morte.

Porém, em algum momento ela começou a sentir um fraco sibilo. Havia algo em sua existência. Uma pequena vibração.

“Vai continuar se lamentando?”

Aquela pequena frase ecoou por ela, e ela sentiu todas as suas lembranças atravessarem seu corpo microscópico, as memórias de tudo que havia acontecido, as partes tristes e as piores, as boas e as melhores. Então a pequena partícula começou a emitir um aspecto ígneo, que tomou a forma de uma massa etérea esférica e começou a atrair outras partículas, que se desfaziam ao se aproximar. A massa continuava atraindo partículas e as desfazendo com a aura que crepitava ao seu redor. De repente a massa subitamente se contraiu, e então se transformou em um fogo cósmico que queimou violentamente por alguns minutos e tomou a forma de um esqueleto que logo foi coberto por veias, que desciam como serpentes procurando cavidades ósseas, ao longo do corpo pedaços de pele ignescentes foram rapidamente se ligando a músculos luminosos que preenchiam lentamente o esqueleto etéreo. Em pouco tempo ela se reconstruiu, no lugar daquela pequena partícula rodeada de fogo cósmico se encontrava uma garota. Ela aparentava ter cerca de vinte ciclos de idade, seus cabelos castanhos levemente encaracolados desciam ao seu redor envolvendo a garota e cobrindo seu corpo nu, eles curiosamente se moviam como se estivessem crepitando suavemente. A garota secou as lágrimas que escorriam pelo seu rosto, suas bochechas estavam coradas e algumas mechas de seu cabelo balançavam suavemente pelo seu rosto. Ela se levantou e começou a caminhar pelo vácuo, seus cabelos ainda cobriam seu corpo e serpenteavam ao seu redor. A garota continuou com os olhos fechados e com um rápido movimento de seu braço direito conjurou aquilo que faria tudo se mover, a razão para as histórias que viriam.

Quando abriu seus olhos, que emitiam aquela mesma fagulha luminosa, o Tempo começou a passar.

...

“Parece que você ainda está presa comigo”

A vibração continuava a ecoar em sua mente, a garota sorriu.

— Parece que é você que está preso em mim. — ela disse para a vibração, rindo.

“Eu me desesperei, desculpe”

— Não tem problema, é bom ter você aqui. — A garota fitava o vazio com um melancólico olhar.

“É... Será que você poderia por alguma coisa?...”

— Qual é o problema? Eu estou coberta até demais. — Ela puxou os cabelos e descobriu parte do seu corpo.

“Mas o que você tá fazendo? Para, ei”

— É você que tá olhando.

“Mas não tem como não olhar!”

— Pervertido.

“Não é isso! Eu não, é que” A garota riu, enquanto a vibração se atrapalhava tentando se explicar. Aquilo doía, ela desejava que ele estivesse realmente ali, depois do riso um silêncio doloroso tomou conta dos dois e a garota fitava o vazio com aquela mesma melancolia.

“Não estou gostando do seu olhar” A menina se deu conta de sua expressão e rapidamente a desfez.

“Eu me sacrifiquei pra te salvar, não quero ficar me lamentando pra sempre, vamos fazer algo!”

— O quê?! Não há nada aqui! Nem você está aqui! — A menina disse irritada, algumas lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.

“Assim você me ofende, eu estou totalmente aqui, olhe só”

Subitamente, a garota sentiu um pequeno calor em seu ombro, nele ela pôde ver aqueles símbolos se formando, eles se desenharam e desceram pelo seu braço serpenteando até a ponta de seus dedos. Brilharam suavemente e logo depois foram avermelhando como uma espada sendo esquentada por um ferreiro e de um súbito escureceram até ficarem negros como carvão. Eles agora tomavam seu braço direito e parte de seu pescoço. As marcas liberavam rastros luminosos como finas linhas de vapor lilás brilhante.

— O que você...? — Ela não sabia como reagir, movia as mãos lentamente analisando as finas linhas brilhantes que as marcas emanavam. Ela sentia o poder dele fluindo pelo seu corpo — Você?...Como?

“Vamos criar algo! Não, vamos criar tudo! Tudo o que for possível! Vamos ver como esse tudo vai ser, estou empolgado!”

A garota riu.

— Mesmo reduzido a uma voz você não mudou nada, não é?

“Mesmo sendo uma voz ainda sou muito criativo, não seja preconceituosa” O dois irromperam em risos.

A garota estendeu sua mão, os símbolos se misturaram com aquela flama. Os rastros luminosos se moviam nervosamente ao redor de seu braço. Naquele momento tudo iria começar. Da menor célula até a mais grandiosa galáxia.

“Isso vai ser legal, Kardis!”

Notas finais
Quarks = tipo de elemento básico que constitui a matéria, os outros dois são os léptons e bósons. "Ciclos" = período de tempo fictício, equivale à dezenove "Períodos". (que por sua vez equivalem cada um à cento e trinta e sete dias) O tempo é registrado da seguinte maneira: Dia < Período < Ciclo < Idade < Era < Éon (Idades, Eras e Éons não são exatas quantidades de tempo, são delimitados por grandes acontecimentos).