Os Contos do Tempo
3 O Vagante.
Notas iniciais
“Os Antigos falam sobre um grande deserto à Leste dos Desfiladeiros de Kannor, O Mar Vermelho. Nele ocorrera uma grande guerra, uma que deu origem a nomes, lendas e rumores”. — citação de velhos registros encontrados no Mosteiro.
A paisagem era árida e vermelha, muitos ciclos haviam se passado desde que o Grande Deserto caíra naquele perturbante e cruel dia sem fim. Do Sul das Montanhas Altas em WiseWard até o Norte das Florestas Imortais em Krent, estendia-se uma paisagem estéril, onde a morte e o sofrimento eram os únicos habitantes.
Uma estranha criatura caminhava com certa dificuldade pela areia fofa.
O vento árido daquele lugar cortava sua face e o calor dos sóis a castigava. Porém ela de nada sofria, por vezes parava e ficava ali a observar os sóis, que por sinal não machucavam seus olhos. Era um ser sapiente, bípede, estava encapuzado e usava um manto que já estava tão sujo de areia que era impossível reconhecer qualquer desenho ou detalhe a não ser a cor vermelha da areia. Não tinha um porte louvável e não tinha uma presença que marcaria alguém que o visse.
“Tenho que me decidir”, pensava.
Ela olhava para suas mãos enquanto andava. Elas eram finas e longas, pareciam estar rachando, mas não pelo calor do deserto. Pareciam estar a muito se quebrando, esfarelando com o tempo. A criatura puxou seu capuz para trás. Ao descobrir sua cabeça revelou uma máscara singular, era típica de uma das tribos dos Oeste. As costas de sua cabeça tinham o mesmo aspecto de suas mãos. Porém as rachaduras apresentavam um padrão simétrico, algumas retas e espirais subiam pelo seu pescoço até o couro cabeludo.
“Não posso deixar eles simplesmente se separarem desse jeito!”, pensou novamente, “Mas que inferno, bem quando todas as três estavam quase se unindo”. Em suas costas um objeto enfaixado se remexeu, como se estivesse vibrando. O caminhante ajeitou a tira de couro que sustentava o item em seu ombro e disse:
— Calma garota, eu vou te testar logo.
“Tão jovem e já está com tanta sede assim?”, pensou ele. Ele temia ter que usar aquilo tão cedo, ele sabia que algo tão nefasto não deveria ser empunhado por um ser como ele. Ele odiava ter que carregar algo assim.
A figura continuou andando, após mais alguns passos um leve som irrompeu no característico sibilo do deserto.
— Bem na hora — disse ele, descobrindo seu braço direito e observando curiosas marcas, que brilhavam intensamente.
A areia sobre seus pés começou a vibrar, junco com isso um som podia ser ouvido, era como se algo estivesse subindo daquele mar de areia vermelha.
— Hum... Duzentos e oitenta cabeças... — disse enquanto observava o braço, as marcas mudavam como se passando informações — Parece que você finalmente vai beber depois de tanto tempo — concluiu, dando um leve tapa no item em suas costas.
O artefato em suas costas começou a se remexer intensamente. A criatura tocou uma parte das faixas e então elas se afrouxaram de uma vez, revelando então o objeto sedento. Uma montante negra. Sua lâmina media cerca de três garras de ombro e duas cabeças e uma presa de comprimento, a guarda da espada apresentava adornos de ferro negro e as mesmas marcas que estavam no braço da criatura, o pomo tinha forma de crânio e apresentava três cristais transparentes em sua boca e olhos. A ponta da faixa que enrolava a espada estava amarrada em volta punho da montante. Quando a criatura tocou o punho da espada, as pontas dela avermelharam. Nesse momento a pequena vibração já havia se tornado um ininterrupto tremor. A cerca de dez metros uma explosão de areia somada a um arrepiante sibilo revelou a criatura que causava aquele abalo, um enorme Verme Krentiano. Tinha mais de quarenta cabeças de diâmetro de boca. A criatura tinha espinhos por toda a extensão de seu corpo, a parte superior de sua mandíbula apresentava presas pequenas, grossas e enfileiradas perfeitamente, já a parte inferior lembrava uma coroa de espinhos, milhares de dentes amontoados e longos. Uma espécie de veneno pingava de sua língua inundando sua boca e caindo na areia, o líquido derretia e endurecia o solo arenoso que tocava. Tinha seis olhos redondos e totalmente negros acima de sua boca, protuberâncias ósseas que lembravam chifres percorriam seu corpo como uma exo-coluna vertebral. A horrenda criatura deu outro sibilo, babando veneno como um cão ensandecido. A areia próxima a ela foi suspensa, mais tremores começaram. O Verme asqueroso pendeu para frente e mergulhou na direção de sua presa.
Era como se a vida estivesse em câmera lenta, o encapuzado estava segurando sua montante apenas com a mão direita, as faixas lentamente se enrolaram em seu braço.
— Vamos ver se eu finalmente acertei.
O Verme atingiu o solo arenoso em cheio causando outra explosão, era como uma serpente d’agua nadando rapidamente no mar. No ar, o espadachim pairava após um poderoso salto e observava o movimento do verme, ele percebeu que parte do solo se movia como se algo serpenteasse nela. Os tremores ainda continuavam, provavelmente outra criatura como aquela estava prestes a emergir. Quando o verme ressurgiu da areia após seu ataque o espadachim havia iniciado sua queda.
“Peço perdão por isso”, rogou em seus pensamentos, atirando sua montante em direção à cabeça do verme.
A espada penetrou fundo na carapaça do inseto gigante e o fez soltar estridente sibilo de dor, um espesso sangue negro vazou do lugar onde a espada estava cravada. O hábil justador agarrou a faixa e de um puxão impulsionou seu corpo até a imensa massa monstruosa que se contorcia de dor. O vento zunia por seus ouvidos, fazia alguns ciclos que ele não sentia aquela excitação. Todas aquelas responsabilidades que lhe foram impostas haviam acabado com sua pouca liberdade, ele corria por todos os cantos de Kannor para completar seus trabalhos.
Ele pousou no corpo monstruoso e agarrou o cabo de sua espada, o monstro se remexia violentamente. Após pousar duas novas explosões revelaram dois vermes menores, provavelmente filhotes, exatamente iguais ao maior. Os instintos do espadachim haviam enferrujado com tempo. O monstro chicoteou para o lado e arremessou o justador em direção aos outros vermes.
— Droga! — ele praguejou — Vamos lá garota, não me diga que eu errei!
O jovem espadachim segurou a montante e impulsionou seu corpo para a direita aproveitando o impulso que o primeiro verme havia lhe dado. O crânio na ponta do cabo da espada estava diferente, as pedras transparentes apresentavam um forte brilho vermelho-sangue. O espadachim apontou a montante para um dos dois monstruosos insetos e com a palma aberta e os dedos flexionados apertou o pomo da espada. Uma onda de sangue percorreu a lâmina, as faixas se apertaram ainda mais o braço direito do espadachim, veias saltaram em seu pescoço, braço e rosto. Seus olhos se encheram com um vermelho vivo, sua íris se tornou rubro negro, linhas finas de vermelho vivo dançavam ao redor de outras linhas negras. Ele segurou sua montante com as duas mãos e era como se o tempo tivesse parado.
Os símbolos falaram com sua mente.
Ele pensou por um tempo e então ele desferiu um golpe cortando o ar. Um observador acharia a cena ridícula, mas então algo curioso aconteceu, na direção do corte uma gigantesca onda de choque cortou os dois vermes menores, foi um corte limpo e rápido, decepando os vermes e fazendo seu sangue jorrar no solo arenoso. A onda de choque ainda atingiu a areia, levantando uma enorme linha pelo deserto. O espadachim pousou no corpo de um dos vermes enquanto este ainda desabava morto, flexionou os joelhos e deu um salto em direção ao maior. Enquanto estava no ar voltou a segurar sua espada com a mão direita. O verme deu outro sibilo estridente e com um forte impulso subiu em direção ao pequeno corpo que voava. O espadachim mandou outra onda de choque em direção ao verme, este que desviou e continuou seu ataque. Um enorme estampido anunciou a queda dos dois outros vermes. A faixa que se enrolava no braço direito serpenteou pelas costas do justador e se enrolou em seu braço esquerdo. Uma segunda montante se materializou na outra ponta da faixa, era branca e também estava com as pontas avermelhadas. Tinha as mesmas medidas da montante negra e detalhes iguais. O verme abriu sua boca e cuspiu o veneno, um jato de liquido esverdeado voou na direção do pequeno justador. Ele usou as montantes para mudar de direção e desviou do liquido mortal, um pouco do veneno atingiu seu manto e rapidamente evaporou junto com a parte do manto que havia atingido.
Os olhos das caveiras brilharam e os símbolos falaram com sua mente de novo.
O espadachim pousou no corpo monstruoso do inseto cravando as duas espadas nos olhos do verme, este que silvou de agonia. Antes de ele reagir o espadachim segurou com força o punho das montantes, as faixas se apertaram em seus braços e ele saiu em uma rápida corrida pelo corpo da criatura, abrindo um enorme rasgo ao longo do corpo do monstro. O espesso sangue do verme sujava seu manto e encharcava suas botas. O corte parecia estar indo mais fundo do que o tamanho da espada. Quando o justador chegou ao chão arenoso, o verme desabou morto com um baque abafado.
A montante branca brilhou intensamente, rachaduras começaram a aparecer nela e em poucos segundos ela se quebrou. Os cacos viraram pó e voaram em direção as faixas, que absorveram as partículas.
Uma enorme poça de sangue encharcava a areia, o verme inerte sangrava e ainda babava veneno, derretendo a areia e a misturando com o grosso sangue fétido. A visão era horrível, o corpo do verme maior encontrava-se com parte de seu corpo ainda enterrado e um enorme rasgo do qual o sangue jorrava. Os dois vermes menores se encontravam a poucos metros dali, cortados ao meio, babando e sangrando também. O jovem caminhou em direção aos corpos e um cheiro mórbido invadiu suas narinas, era a mistura do sangue e do veneno dos vermes. Ele puxou seu cachecol para cobrir seu nariz, ele sempre sentia remorso após algo assim.
— Então eram vocês que estavam aterrorizando aquela vila ali atrás... — disse.
A poça de sangue estava se tornando maior, o veneno derretia e endurecia a areia e aos poucos um lago de sangue ia se formando.
— Eu não desejava isso, mas precisei fazer, espero que possam me perdoar — Ele se dirigiu até os corpos e marcou algumas runas de passagem em um pedaço solidificado de areia. — Se serve de consolo... — O espadachim olhou para o horizonte, ao fundo pode ver dunas altas que mais pareciam montanhas de areia, pode ver uma sinuosa trilha pelo deserto. Ele voltou a colocar o capuz e concluiu:
— Vocês foram somente os primeiros.
...
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