Os Contos do Tempo

4 A Donzela do Sol.


Notas iniciais
Segunda Parte do Conto - O Mar Vermelho.

De todos os reinos élficos de Kannor, um deles nunca havia sido atacado. A metrópole de Devah. Uma cidade misteriosa, construída no interior de uma enorme rocha sedimentar e protegida a braços fortes por criaturas chamadas Hir’en, os guardiões de portão. De qualquer lugar do Deserto Vermelho era possível ver aquele monólito de rocha sedimentar, a pedra media mais de trezentas cabeças de altura. A trilha que o espadachim seguiu acabava a poucos metros do gigantesco pedaço de pedra, logo a sua frente o espadachim já podia avistar um enorme portão de ferro e duas torres de vigia ambos com pouco mais de cinquenta cabeças. Os guardas já havia percebido a chegada do inusitado espadachim, encharcado de sangue e encapuzado.

— Alto lá! — gritou um dos guardas, ele vestia uma simples armadura feita com anéis de ferro interligados e couro, eu elmo de ferro deixava a mostra suas orelhas pontudas. Segurava uma besta e carregava uma espada em seu cinto — Identifique-se!

O justador retirou o capuz e descobriu sua boca, seus olhos reluziram vermelhos.

— Ah! É o Enn’en! — disse o guarda. — Quais são seus negócios aqui, criatura?

O espadachim voltou a cobrir sua cabeça e disse:

— Vim para negociar com o rei Zett sobre

— Um rei élfico não negocia com mortais. — interrompeu o guarda — Se veio até aqui só para isso sugiro que enfrente o deserto de novo e volte para sua terra.

O Enn’en deu alguns passos pra frente e começou:

— Avise seu rei que eu posso dar-lhe algo em troca de uma audiência — ele abriu a palma da mão e o guarda pode ver três anéis, um negro, um dourado e um prateado.

— O que!!! — exclamou o elfo — Onde diabos você conseguiu isso??!!!

— Vamos dizer que uma aliança com vocês é muito lucrativa para mim agora. — respondeu o espadachim.

O guarda ponderou a situação por alguns minutos e gritou para o viajante:

— Você tem permissão para entrar Enn’en, mas como condição suas armas devem ser confiscadas durante sua estadia.

O justador tirou sua montante enfaixada das costas e fez um sinal com a cabeça aceitando a condição. O item começou a se remexer.

— Se comporte — sussurrou o espadachim — Você sabe exatamente o que tem que fazer.

Um estrondo chamou a atenção do jovem enn’en, a enorme porta de ferro estava se abrindo, uma criatura gigantesca saia da escuridão que o portal emanava e caminhava na direção da pequena figura. Era um Hir’en.

Feitos pelos anões da cordilheira de Drenndazor, os Hir’en são criaturas mecânicas construídas especialmente para proteção de fortalezas raciais. Lembram um golem de ferro. O hir’en em questão estava velho, provavelmente um dos últimos a serem construídos. O golem tinha trinta e duas cabeças de altura. Era sapiente e bípede. Parecia uma armadura andante, entre os espaços do peitoral, elmo, braçadeiras e outras partes podia se ver engrenagens trabalhando além de outras peças internas. Estava arranhado e curiosamente havia musgo no robô, além de algumas raízes presas entre suas engrenagens. Em sua cabeça, um adorno de ferro negro lembrava uma coroa.

“Minha escolta, é?”, pensou o espadachim “Eles devem estar realmente desconfiados”. O golem caminhou com passos pesados até o pequeno ser que estava diante do portal da cidade.

— Entregue suas armas e acompanhe este hir’en até a cidade — explicou o guarda.

Sem pestanejar o enn’en entregou sua montante negra enfaixada para a máquina. O antebraço esquerdo do gigante se abriu revelando uma caixa metálica retangular. Ele colocou a espada lá dentro e a caixa voltou a se fechar.

— Quando você estiver fora da cidade novamente sua arma será devolvida — o guarda avisou.

— Tudo bem — concordou o espadachim, seguindo em direção ao portão. O Hir’en o acompanhou e eles adentraram a gigantesca pedra.

...

Alguns minutos após adentrar o monólito o portão de ferro se fechou, a escuridão era opressora. Nada se via além do pequeno filete de luz que escapava dos olhos. O espadachim não temia, ou se perturbava. Aquilo era uma simples magia de distorção de espaço. O portão de ferro era como uma porta para outra dimensão, o monólito de rocha sedimentar era enorme, mas o justador teve a sensação de que já havia caminhado toda a extensão dele. Porém o corredor negro continuava a frente. O único som que era possível ouvir era os estrondos dos pesados passos do monstro mecânico e o barulho de suas engrenagens trabalhando. Após vinte minutos caminhando o espadachim começou a sentir uma fraca brisa e um maravilhoso cheiro de floresta, ele conseguiu ver o fim daquele túnel. A luz era tão forte que ele foi obrigado a fechar seus olhos, quando abriu pode ver, finalmente, a misteriosa cidade. Era impossível para qualquer ser não ficar maravilhado com aquela engenhosidade élfica.

Dentro daquele pedaço de rocha sedimentar, rios, árvores se espalhavam em um vivo oásis. O enn’en e o golem mecânico estavam em uma ponte de pedra, ela cruzava todo o território e ia até o grande castelo no fundo da paisagem. Era possível ver uma enorme montanha ao fundo. Enquanto andavam por ela o espadachim pode perceber e admirar a linda metrópole. Dentro daquele monólito adulterado por magia, uma grande montanha era abraçada por uma floresta, as arvores abrigavam as casas dos plebeus. Um grande rio atravessava todo o território, canais menores se esgueiravam por entre as árvores junto com alguns barcos e elfos que observavam a pequena figura a frente do monstro mecânico com espanto. Eles estavam mais aflitos com o pequeno espadachim do que com a máquina monstruosa que se movia pesadamente. Alguns sussurravam e murmuravam discutindo qual seria o objetivo daquele enn’en na metrópole. A metrópole era formada pelos castelos de Avahria, Desolath e Destrect. O ultimo ficava logo após a longa caminhada no corredor escuro, era basicamente uma paisagem de arvores, canais e um braço do rio principal. O espadachim já estava caminhando a pouco tempo mas percebera que a cidade não tinha muitos habitantes, era basicamente a área de caça e produção. Ao fundo alguns elfos derrubavam uma arvore e ele pode ver três caçadores atrás de um cervo cevado. Após meia hora de caminhada eles chegaram ao castelo de Destrect. Um cônsul estava esperando a chegada do ilustre visitante.

— Bem vindo à Devah! Meu nome é Argalad— saudou o elfo — O rei aceitou conversar com você caro enn’en, espero que já tenha...? — o oficial se virou para o Hir’en, este que estendeu seu braço esquerdo o abrindo e exibindo aquela caixa retangular novamente. A montante encontrava-se lá, inerte e enfaixada. Argalad suspirou aliviado e fez um sinal com a mão para o monstro mecânico. O braço se fechou novamente e o oficial disse para o espadachim:

— Espero que não esteja ofendido ou nada assim, você entende, não é?

— Fique calmo meu amigo. — respondeu o justador — Após ver a fortaleza de vocês entendo que se preocupam muito com a segurança de seus habitantes.

— Exatamente, acho que anos dentro de uma pedra nos tornaram um pouco paranoicos — os dois riram e Argalad pediu que o ele seguisse.

O elfo parecia ser da elite da metrópole. Trajava uma túnica dourada adornada com pedras azuis e botas de couro de boa qualidade. Ele parecia estar usando uma armadura por baixo de suas roupas. Quase todos os elfos daquela cidade utilizavam. Ele não usava elmo, em vez disso havia um diadema de ouro em sua cabeça prendendo o longo cabelo loiro. Em suas duas orelhas pontudas se encontravam dois brincos de rubi. Ele tinha feições leves e grandes olhos azuis

A porta do castelo já estava aberta, quando a cruzaram, o espadachim se admirou com a beleza do salão.

As paredes eram brancas com detalhes dourados e adornadas em pedras preciosas, o salão principal era na verdade um grande corredor. Havia galerias a cerca de vinte e oito cabeças do chão, o corredor era largo o suficiente para o Hir’en caber nele. O teto era arqueado e ficava a cerca de quarenta cabeças do chão, adornos de ouro que lembravam vinhas espalhavam-se pelas colunas de mármore branco. No final do corredor havia uma enorme porta vermelha, era feita de uma madeira muito resistente, runas élficas estavam marcadas ao redor dela. Uma pesada tranca de ferro travava a porta.

— Caro Argalad, o rei Zett não é o regente de Avariah? — indagou o espadachim — O que ele está fazendo no castelo de Destrect?

— Não, nos estamos indo para Avariah — disse Argalad — Você nunca leu sobre Devah?

— Eu acho que não li muito.

— Bom, — começou o elfo — Toda a metrópole é interligada por uma ponte principal.

— Aquela que atravessamos ali atrás? — interrompeu o enne’en.

— Exato — confirmou Argalad — Porém o que você não sabe é que ainda estamos nessa ponte.

O espadachim olhou para o chão e virou para a porta de entrada do castelo, olhando dali ele pode ver que a ponte se estendia desde o grande portão até o lugar onde estava. Intercalando entre chão de pedra e solo.

— Quando nós resolvemos nos isolar do mundo, não havia nada aqui, nossa magia era muito fraca. Passamos muito tempo com construções carentes e templos improvisados, meditando e aumentando nossa magia. Quando finalmente descobrimos o segredo das runas conseguimos criar esse incrível oásis — explicou o cônsul — Essa ponte começa no portão de entrada e acaba em Avariah. No pé daquela montanha que você deve ter visto ao chegar aqui.

— Com as runas certas — Argalad abriu a porta e desenhou algumas marcas no ar — Nós conseguimos deslocar rapidamente entre os castelos.

A imagem a frente deles começou a se distorcer, era como se o universo estivesse dobrando a frente deles. Um humano ou outro ser normal não conseguiria perceber essa dobra, mas ela não escapou dos olhos do enne’en. Ele conseguiu ver árvores e habitações se distorcendo ao redor deles três, ele viu algumas imagens distorcidas demais para serem reconhecidas também.

— Droga — O cônsul tocou as têmporas e fechou seus olhos — Essa magia sempre me deixa um pouco enjoado.

O justador não sentiu nenhum enjoo, enquanto esperava o cônsul se recompor virou para trás e não pode conter sua admiração.

A grande metrópole era viva e verdejante, o espadachim viu dois castelos imponentes na paisagem. Destrect e Desolath. O grande portão era visível dali um pedaço da parede de rocha sedimentar também estava visível, porem ele desaparecia em um azul ciano. Destrect ficava logo após o portão. Várias árvores e habitações o circundavam, além do rio principal e os canais. O espadachim conseguiu ver Desolath, o castelo lembrava um dos antigos feudos humanos, era rodeado por terras de cultivo e habitações simples. Ele logo conseguiu perceber a hierarquia na metrópole, Destrect abrigava os guerreiros, caçadores e as famílias dos guardas reais. Era o local de caça, esportiva e para alimento. Desolath era o centro agrícola e pecuário da metrópole, seus habitantes eram os menos influentes na cidade. Avahria era totalmente diferente de seus irmãos. Ele se agarrava no pé da montanha, não havia uma única porção terra de cultivo próximo ao castelo. As únicas árvores próximas ao majestoso palácio pareciam abrigar a elite da cidade.

Após se recompor Argalad se dirigiu até a porta e a empurrou, mesmo parecendo pesada ela se abriu sem problemas. Atrás dela havia um corredor igual ao de Destrect, eles seguiram até a porta da sala do trono. Quando ela foi aberta uma grande voz soou:

—(Frase em élfico apresentando os visitantes)— disse um anunciante, que se encontrava ao lado da entrada da sala —(restante da frase).

A sala do trono era um amplo salão circular. Um enorme lustre com várias velas iluminava afrescos no teto abobadado. Eram imagens da linhagem do rei Zett, o próprio se encontrava ali. No fundo do salão podia se ver um enorme trono vermelho, seus braços eram duas cabeças de águia esculpidas em ouro puro. Atrás do trono era possível ver uma escadaria. Havia duas pesadas portas de madeira maciça na direita e esquerda. A sala estava cheia de guardas reais, que trajavam a mesma armadura que o guarda da torre. Porém dois deles usavam uma versão melhorada dela, com anéis mais grossos. Por cima da malha, usavam uma armadura pesada de ferro fundido pintada de dourado com detalhes em couro fervido. Esses dois guardas se encontravam ao lado do rei. Uma figura curiosa. Parecia ter cerca de cinquenta ciclos, usava trajes realmente dignos de um rei. Usava uma túnica branca com brocados em fios de ouro e uma capa dourada de fios metalizados, seus longos cabelos loiros caiam em seu colo. Tinha a característica beleza dos elfos, traços leves e pacíficos. Seus olhos eram verdes e brilhavam majestosamente. Em sua cabeça, um diadema de ouro puro com pedras preciosas cravejadas harmonicamente e adornos de ouro em suas orelhas pontudas o identificavam como governante. Logo após apresentar os visitantes o anunciante proclamou:

— (frase anunciando o rei) — O golem gigante havia adentrado a sala junto com o visitante, quando o elfo disse o nome do rei ele se ajoelhou e entrou em algo como um modo de descanso, ainda era possível ouvir o barulho das engrenagens. Argalad também se ajoelhou.

— Seja Bem Vindo, meu caro enn’en! — saudou o rei — Espero que tenha tido um passeio agradável até aqui — ele se virou para Argalad, o olhando com um olhar reprovador.

— Fui muito bem servido, Vossa Majestade — disse o enne’en acenando positivamente com a cabeça.

Argalad olhou para o espadachim, esperando que este se ajoelhasse também. Um silêncio tomou conta da sala até que o espadachim se adiantou:

— Como Vossa Graça deve estar ciente, eu vim até Devah para

— Não vai se ajoelhar perante o rei, criatura? — interrompeu, zangado, um dos guardas dourados. Os dois eram idênticos, mesmo com os elmos escondendo parte de seus rostos o enn’en pode perceber que provavelmente eram gêmeos, algo muito raro para sua raça.

— Me perdoe — respondeu, calmamente, o espadachim —, mas eu não sirvo a nenhum rei. Respeito sua autoridade, mas só posso me curvar perante aqueles que sirvo.

— Mas que ousadia! — exclamou o outro gêmeo, segurando a bainha de sua espada, ela aparentava ser um pouco menor que a montante do enn’en, cerca de duas cabeças. O cabo e a bainha eram ornamentados com couro fervido e adornados com pedras preciosas — devia lhe aplicar uma punição por dizer tal coisa perante nosso rei, criatura.

— Pare Baranon — disse o rei, sem tirar os olhos do enn’en — você também, Bellon. Um convidado não precisa se ajoelhar perante o rei que o acolhe, ainda mais um convidado que trás presentes tão preciosos como estes.

Os olhos do rei fitavam incessantemente os três anéis nos dedos da mão direita do justador.

— Minhas desculpas Vossa Majestade, mas estes artefatos não são presentes — disse o espadachim, guardando os anéis. Bellon e Baranon franziram o cenho — São objetos de barganha, cedidos a mim pelas tribos o Oeste e Leste. Os outros reis concordaram em dividir o poder destes anéis entre as tribos mediante uma condição, e é exatamente sobre isso que vim negociar com Vossa Majestade. A rainha Lies e

— Não discutamos assuntos assim agora, caro enn’en — interrompeu o rei — Você acabou de chegar aqui, está sujo e cansado, provavelmente também tem fome.

O rei se dirigiu até Argalad, este que se levantou, e disse:

— Nosso cônsul irá acompanhar-lhe até seus aposentos, se me permite — ele se dirigiu até a porta direita do salão — Preciso resolver alguns assuntos mais urgentes. Podemos tratar deste em especial mais tarde.

Ele passou pela porta, logo atrás dele os gêmeos e alguns guardas. A porta se trancou e dois guardas se prostraram na frente dela. O enn’en ainda protestou, mas devido ao cansaço e a fome, desistiu. Virou-se para Argalad, e pediu para que o cônsul o conduzisse até seu quarto. O elfo caminhou em direção à escadaria e o espadachim o acompanhou.

A escadaria dava em um corredor muito parecido com o anterior, tinha a mesma altura e lustres no teto arqueado. Em vez de colunas e galerias, o corredor tinha várias portas e no final dele havia outra escadaria. O espadachim notou alguns quadros pendurados na parede, eram pinturas a óleo da linhagem de Zett. O enn’en se impressionou com a quantidade de quartos que o castelo tinha. Ele se perguntou se os elfos também usavam a mesma magia de distorção no castelo, já que visto de fora ele não parecia ser tão grande. As figuras nos quadros eram distintas, a única coisa que se repetia eram os grandes e reverberantes olhos verdes. O penúltimo quadro era a pintura do próprio rei. O próximo era o de seu descendente, quando olhou o quadro o enn’en se admirou. Os sons de passos irromperam pelo cômodo, e a pessoa no quadro adentrou o corredor. Era Eirien, princesa de Devah e filha única de Zett. Sua beleza era icônica na sociedade élfica, chegavam a compará-la com a deslumbrante Rainha Lies. O espadachim havia ouvido falar da beleza da princesa, mas não pode conter sua admiração ao vê-la.

Eirien tinha os mesmos cintilantes olhos verdes de seu pai, porém eles tinham uma propriedade singular. A elfa nascera com os mesmos olhos de seus pais, mas às vezes passavam de um verde brilhante para um amarelo do mesmo fulgor. Tinha cabelos claros, uma mescla do loiro dourado do pai com o branco de sua mãe. Eles estavam trançados, com algumas mechas mais soltas. Seus lábios eram pequenos e delicados, sua pele era de uma clareza fantasmagórica. Não usava muitos adereços, somente o mesmo adorno de orelha que seu pai usava e um colar de esmeralda. Usava um vestido de linho branco sem mangas com detalhes e cinto em galão dourado por cima de um chemise longo de cambraia branca com mangas levemente franzidas. Ela era muito um pouco menor que o espadachim, sendo uma elfa, tinha provavelmente vinte ciclos.

— Boa tarde, Vossa Alteza — disse Argalad com uma reverência — Está indo falar com seu pai?

— Sim Argalad — respondeu a elfa, sua voz era doce e agradável de ouvir — Por quê?

— Ele acaba de se reunir com o conselho, provavelmente vai demorar — respondeu o cônsul.

— Bom — disse Eirien, olhando para o enn’en —, provavelmente mais tarde eu consiga falar com ele. Você deve ser o visitante de que todos estão falando, não?

— Ehhh — disse o espadachim, ainda maravilhado com a beleza da elfa; ele percebeu sua fixação e se recompôs — Sim, sou o enn’en, Vossa Alteza.

— Por acaso tem um nome? — perguntou a elfa.

— Eh... uh... — se atrapalhou o justador — Eu não recebi um ainda...

— Então quando receber quero ser a primeira à saber — riu a princesa.

Ela se despediu dos dois e continuou seu caminho, o espadachim continuou a olhar para a princesa enquanto ela andava.

Eirien percebeu que o enn’en a observava e então o encarou, quando seus olhos encontraram o dele eles mudaram de cor, exibindo aquele tom solar e então ela lhe deu um sorriso. O espadachim sentiu seu rosto queimar por baixo da máscara e desviou o olhar.

Argalad e o justador continuaram seu caminho pela escadaria e terminaram em outro corredor. O enn’en ainda pensava nos olhos de Eirien e no jeito que haviam mudado de cor quando trombou em alguém, ele acordou de seu devaneio e percebeu que havia derrubado uma pequena serva ao chão.

— Me desculpe — disse, estendendo a mão à pequena elfa — eu estava distraído.

Ela acenou com a cabeça e se levantou, seguindo pelo corredor logo depois. Uma segunda empregada, provavelmente a governanta, a esperava no fim do corredor, as duas entraram em um dos quartos e bateram a porta. O enn’en olhou para o cônsul, confuso.

— Os servos não falam muito — disse Argalad — Eles não temem você ou coisa assim, se é o que está pensando.

— Eles não precisam me temer — disse o espadachim, enquanto ainda andavam — Nenhum de vocês precisa, não sou um inimigo.

— Nós sabemos — o olhar do elfo pesava no piso do castelo — Mais uma vez eu digo, ficamos ciclos demais presos aqui nesse pedaço de rocha.

Os dois continuaram pelo corredor até que o cônsul parou e abriu uma porta de madeira com uma trava de ferro negro. Ele continuou em frente a ela e disse:

— Bom, espero que goste de seus aposentos.

O enn’en entrou no quarto. Era uma sala mediana, com paredes de pedra bruta. À direita da porta de madeira havia uma cama, nos pés dela um enorme baú de madeira negra. A esquerda do cônsul havia uma porta menor, que dava em um banheiro. A iluminação do quarto era feita por alguns castiçais que se encontravam em cima de duas cômodas em lados opostos do quarto. No chão, tapeçarias protegiam os pés do enn’en do frio chão de pedra.

— Aquela porta ali — Argalad apontou para o fundo do quarto — atrás dela tem uma sacada, caso você queira um pouco de ar fresco. Pode descansar agora. No banheiro há uma tina caso você queira se lavar, sugiro que durma um pouco depois. Pelo seu estado parece que precisou matar muitos daqueles vermes para chegar aqui, deve estar muito cansado.

— Muito obrigado, Argalad — disse o enn’en, olhando para suas roupas sujas de areia, sangue e veneno de verme — Acho que devo descansar um pouco mesmo...

— Vou indo então — o elfo tocou a maçaneta da porta e enquanto a trancava completou — Bom descanso.

— Muito obrig — seu agradecimento foi interrompido pela batida da porta. O espadachim se assustou, mas logo depois decidiu ir se lavar; abriu a porta do banheiro e se dirigiu até a tina sobre a qual o cônsul havia falado. Algumas pedras negras estavam dispostas dentro dela, fazendo a água cristalina na tina lentamente evaporar. O banheiro era pequeno, nele havia apenas a tina e um penico. Uma pequena janela deixava a luz invadir o lugar.

O enn’en voltou até o quarto e começou a se despir; por baixo do manto sujo de areia e sangue ele usava uma armadura de ferro fundido com detalhes couro fervido. Ele deixou o manto no chão do quarto e retirou a armadura, colocando-a sobre a cama; ele usava ainda alguns trapos de linho surrado por baixo. Ele os retirou e seguiu até o banheiro, desatou o cinto e logo estava nu; exceto pela máscara que ele ainda trajava.

O justador era esguio e musculoso. As mesmas marcas que tinha em suas mãos e cabeça se estendiam ao longo de seu corpo. Nas suas costas havia uma grande espiral; que se espalhava em linhas retas e espirais menores por toda a pele negra do espadachim. Ele tinha várias cicatrizes pelo seu corpo. Seu sexo também tinha algumas espirais em sua extensão, o enn’en tinha as mesmas partes que um ser humano macho.

Ele desatou a máscara de seu rosto entrou na tina; a água estava quente e confortável. Ele olhou para o pedaço de vidro na parede e viu o reflexo de seu rosto.

Ele respirava por dois finos buracos que lembravam as narinas de uma serpente; tinha traços fortes e queixo largo, seu zigoma era bem saliente. Tinha dois orifícios no lugar de orelhas. Seus olhos alternavam entre uma clara e escura cor acinzentada; sua pupila era pequena e um anel negro parecia girar em sua íris. Não tinha sobrancelhas ou outros pelos no corpo.

Ele soltou um suspiro de alivio, finalmente estava descansando. Após quilômetros de caminhada e lutas com aqueles vermes ele podia descansar, mesmo que por pouco tempo. A água quente deixava seu corpo quase anestesiado, as dores de suas contusões foram lentamente se esvaindo. O sangue seco em seu corpo foi se misturando com a água e se despregando de suas feridas. Em pouco tempo sua pele estava quase limpa de todo aquele sangue e areia.

O espadachim olhou para sua mão; ele estava usando os três anéis élficos que havia trazido.

“Todo esse alvoroço por causa disso”, pensou ele, segurando um dos anéis, com o indicador e o polegar. “Eles simplesmente me disseram pra fazer algo, como se fosse tão fácil assim...”

Ele fez um movimento com as mãos e os anéis sumiram, logo depois levou a mãos às têmporas. O espadachim não dormia havia quatro dias, e não comia há muito mais. Além de todo o dano físico, o uso das marcas havia agravado sua típica dor de cabeça.

“Como eu fui me meter nessa confusão?”, pensou, apertando a fonte de sua cabeça. “Morrer tentando unir três tribos de elfos teimosos, que piada”, ele esboçou um sorriso.

“Eles são da mesma raça, se estivessem juntos seriam mais fortes, seria a tribo perfeita, como não percebem isso! Eles têm quase tudo; as florestas, o deserto, se bem que as montanhas estão sendo um problema... mas se eles se unissem! Ugh! Droga!” ele espalmou a água, que já havia começado a esfriar.

— Acho que vou dormir — disse o espadachim, lavando o rosto — Droga, que dor.

Após alguns minutos a água já tinha esfriado. O espadachim se levantou e saiu da tina, puxando o pedaço de pele pendurado na parede. Ele andou até o quarto secando seu corpo. Pendurou a pele em um pino na parede de pedra e abriu o baú negro procurando alguma coisa para vestir. Encontrou diversas peças de roupa; túnicas, capas, cintos, mantos e capuzes, de linho até seda. Ele pegou uma camisa com ilhós e cordão e uma calça de algodão e as vestiu. O enn’en se dirigiu até a sacada, empurrou a porta de madeira e vislumbrou a parte de dentro de Avahria. Vários edifícios foram construídos dentro da enorme muralha que se agarrava à montanha. O espadachim pode ver os pequenos elfos brincando e suas mães os observando; ao fundo o sol já se punha. O azul claro do céu se mesclava com um laranja ígneo. O som das vozes radiantes das pequenas crianças era escutado pelo justador, que sorria com melancolia; fazia anos que fora criança.

Em um gazebo pode ver uma figura familiar, não conseguiu tirar o olhar dela, Eirien. Ele havia passado por toda Kannor, mas nunca havia visto tal beleza. Ele a observou por alguns minutos até que ela se virou exatamente para onde o enn’en estava. Ele rapidamente saiu de lá, correndo para dentro do quarto. Ele estava confuso, suas mãos suavam e tremiam; seu coração estava disparado. Algo estava acontecendo com sua mente.

—Eu... —, disse — Eu preciso dormir.

Caminhou até a cama e caiu nela, e ainda ofegante foi lentamente fechando os olhos e sentindo seu corpo amolecer. Antes de dormir, só conseguia pensar em Eirien.

...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.