Os Contos de Gregg
6 Reunião de Pais
Notas iniciais
Finalmente sábado, depois de uma semana interminável, eu e meus amigos decidimos nos encontrar na casa de Caio para tentarmos achar as famosas pastas vermelhas. Eu e Pedro chegamos bem cedo, Caio já estava acordado, mas não queríamos começar nada sem Lisa, que por um milagre não demorou muito a chegar também. Os pais de Caio haviam saído na noite anterior numa viagem para ver parentes distantes, e falar sobre a morte de Nicolas, deixando Caio sozinho em casa durante o fim de semana todo, o que pra ele já é normal. Caio nos levou ao escritório de seus pais e nos mostrou a gaveta trancada.
– Nunca descobri onde meus pais escondem a chave. – ele disse.
– Quem precisa de chaves? – Lisa debochou.
Para o meu espanto, ela conseguiu abrir a gaveta com um grampo de cabelo.
– Como você sabe fazer isso? – eu quis saber.
– É um talento natural, lá em casa quase todos os móveis são trancados, por conta do meu tio viciado em drogas – ela contou.
– Não sabia que você tinha um tio viciado em drogas. – eu disse.
– Sem querer ser grosso, mas precisamos resolver isso logo. – Pedro falou.
Eu peguei as pastas, e Caio me ajudou a olhar uma por uma, enquanto Pedro e Lisa olhavam os papéis que tinham dentro da gaveta.
– Achou alguma coisa? – perguntei a Caio.
– Ainda não – ele respondeu.
Olhei duas pastas, e não tinham nada que pudesse nos ajudar, mas quando peguei a terceira, lá estava o nome, o bendito nome.
– Gente, acho que eu encontrei. – Todos pararam e vieram até mim.
– Abre logo, criatura fresca. – Lisa me encorajou, ou quase isso.
Eu queria abrir, mas ao mesmo tempo tinha medo do que poderia encontrar ali dentro. Pedro tocou minhas mãos e me olhou nos olhos.
– Se você quiser eu posso fazer isso por você – ele sugeriu.
Aquilo foi o mais próximo que já chegamos um do outro, e eu estava satisfeito, então entreguei a pasta para ele e ele a abriu. Logo em cima havia um distintivo, no formato de uma caveira, e Pedro leu algo que estava escrito atrás em alto relevo: Comandante Luiz Vegas do Esquadrão 451, de habilidades especiais.
Eu olhei para Caio e ele estava tão surpreso quanto a mim, Luís Vegas é o nome do pai dele, mas que Esquadrão é esse? E “habilidades especiais”? O que isso quer dizer?
– Caio, você sabe o que é isso? – Pedro o perguntou.
– Não faço ideia. – ele disse.
– Continue olhando! – Lisa ordenou.
Pedro então tirou de dentro da pasta uma espécie de cartão com todos os dados pessoais do pai de Caio, e uma foto dele, com uma espécie de roupa de combate, Caio me olhava com uma expressão de espanto, e a minha também não deveria ser das melhores.
– Tem um livro aqui. – Pedro anunciou.
– Pegue. – eu pedi
Era um livro com uma capa preta e uma caveira de rosas no centro, não tinha nome, mas quando ele o abriu dentro tinha escrito “Bestiário”. Eram páginas e mais páginas com fotos de criaturas horríveis e demoníacas, com nome e descrição, e todas marcadas com um X. Aquilo não estava me ajudando em nada, parecia apenas um livro de ficção, mas na última página, vimos algo que nos deixou em choque. Não havia fotos, nem descrição, nem um X marcado, havia apenas o nome, Gustaf.
– Mas o que é isso? – eu disse já entrando em desespero – Quando eu penso que estamos perto de respostas, novas perguntas surgem! Que inferno!
– Calma Gregg, nós vamos conseguir entender isso tudo, mas acho que não vamos conseguir sozinhos. – disse Caio – Tá na hora de falarmos diretamente com nossos pais.
Nós guardamos tudo do mesmo jeito que encontramos, e esperamos o fim de semana passar. Na segunda-feira à noite, eu peguei o envelope de dinheiro do escritório dos meus pais, escondi na mochila e chamei os dois para irem comigo até a casa de Caio, e eles logo aceitaram, disseram que tinham assuntos a tratar com os pais dele. Papai pegou o carro e nós fomos até lá, quando no caminho mamãe perguntou:
– O que tem nessa mochila?
– Nada demais, só livros pro Caio. – eu respondi.
Ao chegarmos na casa dele, nossos pais ficaram conversando na sala enquanto eu subi pro quarto dele. Caio estava de cueca, e tomou um susto quando entrei.
– Pô, achei que era minha mãe. – ele disse.
– Relaxa, sou só eu, e te ver de cueca já é parte da minha rotina. – eu disse, e ele começou a rir – Meus pais já estão aí, você pegou a pasta?
– Peguei sim, vamos lá. – ele terminou de se vestir e nós descemos.
Paramos atrás da porta ao ouvirmos nossos nomes lá dentro, e decidimos escutar um pouco da conversa.
– Eles ainda são muito novos Nick, vocês não podem fazer isso com eles! – minha mãe dizia.
– Nós fomos atacados Ângela, você não entende que nossos filhos estão em perigo? – dizia meu pai.
– Eles são apenas crianças! – a mãe de Caio retrucou.
– Débora, amor, eles precisam saber se proteger, depois pode ser tarde demais. – respondeu Luís, pai de Caio – Já perdemos um filho, não quero perder outro.
– Do que vocês estão falando? – Eu e Caio interrompemos, deixando os quatro sem reação. – Não precisam fazer essa cara, nós já sabemos que vocês estão escondendo alguma coisa. – Nós colocamos em cima da mesa de centro o envelope de dinheiro e a pasta vermelha.
– Filho, quando vocês acharam essas coisas? – meu pai perguntou.
– Não faz muito tempo, mas eu tenho procurado por explicações desde o dia que nossa casa foi atacada. – eu disse, com uma determinação que até eu mesmo desconhecia que tinha – E acho que já está mesmo na hora de nós sabermos de tudo.
Caio não dizia nada, só concordava comigo, coitado, devia estar em pânico, pensando apenas em ir assistir novamente Jogos Vorazes, mas eu o cutuquei, e ele resolveu falar.
– Pai, por favor, nós não aguentamos mais essa dúvida. – ele disse.
– Tudo bem, nós vamos lhes contar tudo. – disse Luís.
Nossas mães não sabiam se protestavam, ou se aceitavam, mas permaneceram-se caladas.
– Eu e Luís somos amigos assim como vocês, de longa data. – meu pai começou – Nós trabalhávamos juntos, no DECS, Departamento Especializado em Criaturas Sobrenaturais, em São Francisco, nos EUA.
Eu e Caio não conseguíamos esconder o susto. Criaturas Sobrenaturais? WTF?
– Crianças, acreditem, as criaturas sobrenaturais existem, fadas e duendes são criaturas da Ordem, criaturas que não causam nenhum problema aos humanos. – o pai de Caio nos contou. – Nós, eu e Nick, somos Predadores, nós caçávamos e exterminávamos criaturas do Caos, como bruxas, vampiros, lobisomens e demônios. Trabalhamos juntos no Esquadrão 451 desde os nossos 17 anos, sempre fomos muito amigos, e os melhores Predadores que já existiram, mas decidimos nos aposentar logo após os 25 anos, pois já estávamos cansados. Queríamos apenas uma família e uma vida normal, então viemos para o Brasil com as mães de vocês.
– Bom, nunca foi comprovada a existência de um demônio. — meu pai nos contou — Mas muitos mitos falam de um ser tão maligno que destruiu sua própria raça, para se tornar único, seu nome era... Gustaf.
–E agora alguém atacou nossas casas, e vocês não sabem quem. – eu disse.
– Digamos que sim – meu pai respondeu. – Nós, queríamos treinar vocês para que possam se proteger, não sabemos com o que estamos nos dando.
– Mas eu sei. — disse — É ele, é Gustaf.
Todos ficaram quietos e olharam para mim, e eu decidi não parar.
– Logo após os acontecimentos em nossas casas eu dei uma olhada nos arredores e encontrei plaquinhas de metal com esse nome escrito. Depois encontrei esse envelope no escritório de vocês, e Caio me contou da existência dessa pasta que também tinha esse nome. Nossos pais não esboçavam nenhuma reação. Uma coisa que eu não entendia é porque, porque esse Gustaf veio atrás de nós? Porque ele levou apenas nossa comida?
– Se o que você diz é verdade, temo que esteja mesmo na hora de nós treinarmos vocês. – disse o pai de Caio.
– Filho, no envelope têm escrito esse nome porque Gustaf é um codinome que ainda usamos para entrar em contato com a DECS. – meu pai disse. – Esse dinheiro eu estava enviando para pedir a eles que nos mandassem um dos novos recrutas para nos ajudar no treinamento de vocês. E essa pasta é tudo que nós ainda temos sobre as criaturas do Caos.
– Mas porque eles levaram nossa comida? – Caio conseguiu dizer.
– Porque... bom, essa parte é um pouco difícil... nós usamos Adrenalina nas comidas, é uma substância que nos permite manipular as lembranças de vocês – o pai de Caio respondeu – Sentimos muito, mas não queríamos que vocês descobrissem nada disso antes de nós os prepararmos, mas parece que no fim não adiantou muito.
–Eu quero ir pra casa. – foi o que eu consegui dizer, me despedi de Caio, prometendo falar com ele no outro dia, e fui para o lado de fora da casa.
Eu não podia acreditar naquilo tudo, parece mais uma história de terror, ou o roteiro de um filme, eu sou filho de um caçador de demônios, tive minhas lembranças todas manipuladas pelos meus próprios pais, e agora somos alvos do demônio em pessoa. É muita informação pra uma noite só, ou para um século só.
Meus pais saíram logo após e nós fomos para casa, minha mãe sempre tentando conversar comigo mas eu não queria responder, então fiquei o caminho todo em silêncio. Assim que chegamos em casa eu subi para o meu quarto, deitei na minha cama e comecei a pensar sobre tudo isso, muitas respostas ainda precisam ser dadas, mas por hoje, eu só preciso de uma longa noite de sono, algo que eu provavelmente não conseguiria ter, mas fechei meus olhos, e apaguei.
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