Os Contos de Gregg
12 Eu Enfrento Gustaf
Notas iniciais
Lisa e eu soltamos os garotos da árvore, e tentamos acorda-los, mas não conseguimos. Os dois estavam frios e suando, o que era estranho, mas precisei deixar Lisa cuidando deles e voltei até o local onde estava o corpo da treinadora, para leva-lo conosco e fazer para ela uma última despedida. Mas quando cheguei ao local seu corpo já não estava mais no lugar que havia ficado, e eu entrei em desespero.
– Lisa! – eu gritei – Lisa! Venha aqui!
– Cale a boca, garoto estúpido – ouvi a voz de Jude vindo de alguma direção que eu não identifiquei.
– O que você quer? – eu entendi o que estava acontecendo. – Quer que eu acabe com você de novo, seu covarde?
A treinadora, ou o corpo dela, saltou de uma árvore acima de mim e pousou na minha frente. Era ela, mas não era ela. Seu corpo estava completamente curado, seus olhos brilhavam com tanta intensidade que davam medo a qualquer um, era uma coloração esverdeada, seus cabelos estavam tão incrivelmente arrumados que nem parecia que ela estava no meio de uma floresta a mais de uma semana caçando lobos do mal.
– Saia do corpo dela, seu infeliz! – eu não suportava aquilo.
– Usar esses nomes com o futuro dono do seu mundo não é muito inteligente – Gustaf dizia pela boca de Jude.
– Você não pode usa-la contra mim! – eu berrava, e lágrimas cortaram minhas bochechas.
Gustaf invocou em sua mão uma chama brilhante e ameaçadora.
– Esse corpo, com os meus poderes – ele dizia. – Você não suportaria. Você é fraco. Você é pequeno. Você é tolo.
– Cale a boca! – eu respondi. – Você a matou, e ainda acha que vai sair impune? Eu estava atrás de você para impedi-lo de destruir o único mundo que eu tenho, mas agora? Agora é pessoal. Você brincou comigo, você derrubou meus amigos como peças em um tabuleiro de xadrez. Mas eu te garanto, protótipo de demônio, que o cheque mate será meu!
Gustaf deu uma gargalhada tão alta que eu senti as árvores se encolherem de pavor.
– Eu vou desconsiderar suas últimas palavras, Predador – ele disse. – Eu deixarei que você me encontre. Pois agora sou eu quem quer ter uma batalha com você. Eu vou sentir seu sangue escorrendo pelas minhas mãos, e você verá quem de nós dois é o melhor. Você engolirá a sua arrogância e pedirá piedade ajoelhados aos meus pés, enquanto eu mato cada amigo seu na sua frente, um por um.
Deixei minha raiva tomar conta e senti meu corpo aumentar, meus braços ficaram fortes como se eu tivesse ido a academia durante toda a minha vida. Eu sentia minha visão novamente clarear e eu podia enxergar cada mínimo detalhe do corpo da treinadora mesmo naquela escuridão total. O poder pulsava por minhas veias, então eu me joguei em direção a ele preparado para lhe dar um soco no rosto.
Já próximo ao seu rosto, eu parei. Os olhos da treinadora voltaram a ser o dela, e seu corpo continuava machucado da batalha, ela me olhava nos olhos, e eu não consegui atingi-la. Foi aí que Gustaf retornou a seu corpo e me arremessou a metros de distância com uma explosão de magia tão forte que não tive como suportar. Me choquei contra uma árvore, mas antes de apagar ainda tive tempo de ouvi-lo dizer:
– Eu disse, você é fraco. Mas venha, venha ao meu encontro, fadinha.
Meus olhos se fecharam e eu afundei na escuridão.
Quando voltei a mim, estava na enfermaria da DECS, ainda sem saber como tinha chegado lá. Na cama ao meu lado esquerdo estava Caio, e na cama a direita estava Pedro. Lisa dormia em uma poltrona de frente com nossas três camas.
– Pedro? – chamei.
Depois de algum tempo de silêncio, ele respondeu:
– Tudo bem com você?
Como era bom ouvir sua voz novamente, eu me sentia renovado.
– Sim, estou – respondi. – E você? O que aconteceu com vocês?
– O lobo nos mordeu – ele respondeu. – Fomos envenenados.
Aquilo foi como um soco na minha barriga, fazendo todo ar fugir dos meus pulmões.
– Como você está se sentindo agora? – eu perguntei.
– Bem, eu acho – ele respondeu.
Eu levantei da minha cama e me deitei ao seu lado na sua, e quando nossos lábios se tocaram novamente eu senti toda a força retornar ao meu corpo.
– Eu amo você – eu disse.
– Eu também amo você – ele me respondeu.
Assim, caímos no sono, um nos braços do outro.
Depois de quase dois dias em uma cama de enfermaria, eu precisava muito esticar as pernas. Então assim que fui liberado eu corri ao meu quarto, tomei um banho, vesti minhas roupas de costume, e fui andar, sentindo o sol no rosto e o vento frio da manhã.
“Fantasmas” assombravam meus pensamentos. Eu coloquei meus amigos em perigo, a missão era minha mas eu os deixei ir. Perdi minha treinadora, e meus dois amigos estão hospitalizados com veneno de lobo demoníaco pelo corpo. A DECS continuava a ter baixas ao redor do mundo e cada vez mais Predadores deixavam seus postos. Gustaf se tornava mais poderoso a cada segundo e eu ainda não sabia nem se deveria mesmo estar ali.
– Gregg! – Lisa me chamou, vindo por trás de mim.
– Algum problema? – perguntei assim que ela me alcançou.
– Caio finalmente acordou – ela respondeu. – Mas ainda está muito fraco.
Aquela notícia era o que faltava para o meu dia ficar bom, então voltei com ela para a central e fomos a enfermaria ver como ele estava.
– Ei cara, tudo bem? – eu perguntei.
– Sinto como se carregasse 10 elefantes nas costas – Caio respondeu.
– Carregar essa barriga já é quase isso – todo rimos com esse comentário de Lisa.
– Você está me chamando de gordo, rainha dos anões de jardim? – Caio respondeu a altura.
– Olha garoto, eu só não te meto a porrada porque você tá todo fodido aí – Lisa disse por fim.
– Do que você se lembra? – a enfermeira perguntou a ele.
– Só me lembro de estar lutando contra o lobo, então ele tentou atacar Pedro e eu tentei ajuda-lo – ele disse – Foi quando o lobo me derrubou, me mordeu e eu apaguei.
Pedro dormia em sua cama, com os ferimentos ainda não curados pelo corpo.
– Onde está a treinadora? – Caio perguntou.
Eu apenas abaixei minha cabeça e impedi que mais uma lágrima escorresse por meu rosto.
– Ela foi uma heroína – Lisa o respondeu.
Caio fez uma cara de quem tinha acabado de ser atingido no rosto por um soco.
– Onde está a treinadora? – ele perguntou novamente tentando não aceitar a verdade.
– Caio... – eu disse
– Onde ela está? – ele perguntou novamente em prantos.
Caio começou a ficar exaltado e as enfermeiras decidiram que seria melhor seda-lo. Então quando ele finalmente caiu no sono, eu e Lisa fomos até nossos dormitórios e conversamos um pouco mais sobre o assunto. Até que um homem entrou no quarto.
– Precisamos conversar – ele disse. – Agora!
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