Os Contos de Gregg
11 Ela me Salva
Notas iniciais
Estava escuro, eu não ouvia ninguém, ou muito menos enxergava, as árvores me rodeavam e o frio da madrugada me dava arrepios da espinha. Eu segurava meu arco, pronto para atacar caso visse qualquer movimento suspeito, enquanto meus amigos e Jude também estavam espalhados pelo perímetro, prontos para fazer o mesmo.
– Alguém me ouve? – eu sussurrei, mas não tive nenhuma resposta.
Decidi sair do meu local, devagar e abaixado, sem fazer movimentos bruscos, passei por algumas árvores, todas iguais, mas eu as diferenciava pelas marcas de garras do lobo, que quase as derrubara no combate anterior. Continuei andando e encontrei uma arma caída ao chão, fiquei surpreso pois não havia escutado nada, e de quem seria aquela arma? O que havia acontecido?
– Pedro? – novamente, nenhuma resposta.
Repeti o nome de todos os meus amigos em meio a sussurros, mas nada, nenhuma resposta, nenhum sinal de vida. Eu estava só. Mas não, eles tinham que estar ali, eu não havia escutado nenhum grito, nenhum ataque, talvez eles estivessem apenas empenhados em seus papéis e não quiseram arriscar uma resposta. Mas continuei andando, dessa vez sem chamar o nome de ninguém, eu também não poderia me arriscar. Foi quando ouvi algo sendo arrastado, e me veio um flashback da noite em que minha casa foi atacada no Brasil. Comecei a suar frio, e sentir arrepios percorrendo meu corpo, o medo tomou conta de mim, e eu fiquei parado, completamente imóvel. Minha respiração estava pesada, na minha cabeça se passava um filme, eu sentia como se estivesse amarrado a uma cadeira levando socos no rosto, foi quando uma explosão me tirou do transe.
Apenas corri, corri na direção do som, eu precisava saber o que estava acontecendo, e com quem. Quando cheguei no local de onde achei ter vindo o som, encontrei apenas cinzas e um cheiro muito forte de queimado.
– Gregg, abaixe-se! – uma voz me ordenou.
Mas eu fui lento, e não tive tempo. O lobo pulou em cima de mim. O peso de seu corpo me deixou preso ao chão, ele me encarou por longos segundos, como se entendesse o que eu sentia e estivesse tentando me intimidar, mas quando mostrou suas presas eu reagi. Saquei o punhal escondido sob meu cinto e cravei-o na barriga do monstro, não lhe causou grandes danos mas tirou sua atenção e eu consegui tira-lo de cima de mim e levantei. De pé eu removi uma flecha de minha aljava e a preparei no arco. Os olhos do lobo brilhavam na escuridão, eu sentia ele rindo de mim, eu sentia a sede de carne pulsar em suas veias, eu via suas presas ansiando por sangue. Mas eu também sentia o medo, a raiva e o poder se misturar dentro de mim, o que me deixava incontrolável, mas se eu liberasse poder agora poderia machucar meus amigos, que talvez estivessem por perto.
Uma sombra saiu como um raio de trás dos arbustos e se lançou as costas do lobo, que começou a se sacudir e uivar de raiva querendo se livrar do peso, e aproveitando da situação eu disparei minha flecha, o lobo se livrou do ser em suas costas e correu na minha direção. Um monstro quase da minha altura, com pelos brancos como a neve, olhos amarelos brilhantes e presas enormes vindo em minha direção não me deixava nada satisfeito. Eu não podia mais segurar meu poder, então o liberei.
Meu corpo irradiou energia, senti minhas veias pulsarem meu sangue com mais intensidade, vi o cenário clarear e meus olhos arderem feito brasa. O lobo vinha em minha direção, sedento por carne fresca, levantei minha mão em direção a ele e o lobo ficou preso no ar, continuava me encarando, mas sem conseguir fazer um mínimo movimento. Vi um corpo mover-se no chão atrás da criatura.
Caminhei até o lobo e o encarei, olhos nos olhos, e então percebi porque aquele ser era diferente.
– Venha – eu comecei – Não tenho medo de você, meu poder fará com que você seja destruído de forma cruel e dolorosa. Venha, seu covarde!
Minha carne queimava com toda a energia que eu estava liberando, foi quando eu me afastei, e dei apenas um comando:
– Morra.
Ergui a mão novamente apontando para o lobo. Seus olhos perderam o brilho, e com apenas um movimento, eu fiz seu coração explodir dentro de seu corpo, e a carcaça inútil do servo de Gustaf caiu ao chão, sem vida.
Tentei me acalmar, controlei minha respiração, minhas pulsações diminuíram e contive meu poder. Andei até o corpo no chão e vi Jude banhada em sangue, com marcas de garras e mordidas pelo corpo, mas o que me assustou realmente foi ver minha flecha cravada em seu tórax. Eu havia errado. Eu a havia acertado, por isso o lobo conseguiu se livrar de seu peso.
– Treinadora – eu dizia ainda assustado – Você vai ficar bem, calma, vou te tirar daqui, vamos, você vai sobreviver.
Jude empurrou minhas mãos e olhou em meus olhos.
– Salve seus amigos – ela disse – Só você pode conseguir. Seu poder é algo que eu nunca havia visto, Gregg. Só você pode nos salvar, mas o tempo está acabando...
– Treinadora, pare de falar, venha – eu a coloquei nos braços – Vamos, você vai sobreviver.
– Gregg – ela dizia em meio a tossidas – Não confie nela, ela vai trai-lo.
– Ela? Quem? – eu perguntava assustado enquanto caminhava pela floresta até onde havia deixado minha mochila.
Jude fechou seus olhos, inconsciente, mas eu ainda sentia sua pulsação fraca pelo corpo. A coloquei no chão escorada a uma árvore e tirei da mochila minha seringa com adrenalina, mas antes que eu pudesse injeta-la uma forte pancada me lançou para o lado, e eu ouvi um disparo. Minha visão estava turva, e a escuridão não ajudava, mas vi uma sombra se afastando rapidamente em meio as árvores.
Quando me aproximei novamente dela, a vi acordada com o peito jorrando sangue.
– Eu ainda acredito em você, Predador — ela dizia em meio a sussurros.
Lágrimas percorreram meu rosto, quando vi o olhar de Jude se tornar distante, e a vida deixar seu corpo. Raiva, eu apenas sentia raiva. Tomei seu corpo em meus braços e a prometi que vingaria sua morte, e estava disposto a pagar o preço que fosse necessário para isso.
De repente, ouvi um grito vindo dos fundos da floresta, e eu conhecia aquela voz, me levantei e corri, já havia perdido a treinadora, não podia perder mais ninguém. Quando alcancei a voz, vi Caio e Pedro amarrados a uma árvore e um lobo semelhante ao primeiro atacando-os. Eu não sabia o que fazer, será que eu controlaria meu poder mais uma vez? Acho difícil. Meu arco eu havia deixado para trás. O que eu poderia fazer?
Arremessei uma pedra na cabeça do lobo e ele se virou para mim com as mesmas expressões do colega que eu havia matado antes. Eu o encarei, e o vi em câmera lenta se aproximar de mim com a boca aberta, pronto para tirar a carne do meu corpo, mas quando vi, o corpo sem vida do lobo jazia ao chão, bem próximo a mim. Lisa estava em pé em cima de uma pedra, e sorriu para mim, enquanto eu tentava me recuperar da surpresa.
– Venha, vamos tira-los daqui – ela chamou – Cadê a treinadora Jude?
Eu não conseguia falar, apenas lembrava de cada palavra que ela me disse antes de morrer, ou de como seus olhos perderam a cor, lembrava dos nossos dias de treinamento e a implicância que existia entre nós, meses de convivência se passaram na minha cabeça, e então disse:
– Ela está morta.
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