Notas iniciais
O penúltimo capítulo da história :'( Tá sendo difícil escrever esse final, não queria me despedir...

Todo o prédio parecia balançar, em cada andar uma nova ameaça surgia. Enfrentei mais mulheres tubarão-galinha, até leões com rostos humanos. Um enorme desespero me invadia por não encontrar meu pai em nenhum local. Chegando no 16º andar, fui pego de surpresa por vê-lo deserto, já que nos 15 anteriores sempre havia alguma ameaça. Conforme eu percorria todo o andar enquanto chamava pelo nome de meu pai eu via pessoas caídas, todas mortas.

– Pai! Você está aí? – eu tinha reais esperanças que ele respondesse. Mas nenhum som me foi devolvido. Os andares seguintes também estavam desertos e mais pessoas jaziam mortas ao chão. Eu não aguentava mais subir escadas e mais escadas e não encontra-lo, mas não podia parar, ele dependia de mim. Quando alcancei o 30º andar, uma figura surgiu em meu campo de visão, amarrada a uma coluna, com marcas roxas pelo corpo, o cabelo parecia ter sido passado em um liquidificador, os braços e pernas jorravam sangue por cortes profundos e marcas de presas das mulheres tubarão-galinha.

– Me ajude! – pediu Magda.

Eu soltei as cordas, e a diretora despencou em minha direção e eu tentei segura-la, mas meus braços atravessaram seu corpo e ela desapareceu. Atrás de mim ouvi apenas os passos de alguém passando por cima dos escombros do prédio e dos corpos.

– Tão solidário – disse Lisa.

– Lisa? O que faz aqui? – com certeza minha cara de espanto deveria estar impagável.

– Lisa? Você ainda acredita que sua amiga habita esse corpo? – ela respondeu.

Eu não sabia mais o que fazer ou falar. Sentia como se alguém tivesse me amordaçado, me acorrentado em um caixão de madeira e me arremessado no meio do oceano pacífico.

– “Ela irá traí-lo”, Jude me avisou, ela sabia! – eu sussurrei para mim mesmo. – Mas como?

– Sua treinadora era esperta – Lisa continuou. – Bom, na verdade, os únicos burros aqui são você e seus dois amiguinhos.

– Não pode ser! – nada mais fazia sentido para mim. – Como você tomou o corpo dela? Porque você quer me atingir?

– Sua amiga era fraca – agora era a voz metálica de Gustaf que eu ouvia. – Só precisei atormentar um pouco sua mente, lhe prometer poder, e ela me aceitou de bom grado. Esse corpo agora é meu.

O prédio estremeceu e começou a inclinar-se para a frente, eu não me segurei e voei em direção a Gustaf, nossos corpos se chocaram, mas antes que pudéssemos tocar o chão, ele desapareceu. Olhei para os lados desesperadamente, meu pai tinha que estar ali em algum lugar já que era o último andar. Foi quando ouvi gritos vindo de cima.

Corri em direção a última escada e logo alcancei o teto do prédio, onde uma tropa de todos os tipos de seres do submundo estavam encurralando meu pai e a diretora da DECS contra o parapeito.

– Ei! – gritei. Todos os monstros viraram-se em minha direção.

– O Filho do Último Irmão! – os seres gritavam para mim, me deixando mais uma vez confuso.

– O quê? – eu perguntei, e logo me arrependi.

Parece que eles não eram muito pacientes com perguntas, pois todos correram em minha direção com suas garras, presas, mãos flamejantes e olhos brilhantes a mostra. Deixei meu poder fluir, e senti todos os meus sentidos mais aguçados, meu corpo se tornando mais resistente e minha mente clareou. Não teria condições de batalhar contra todos sozinho, muito menos de perto. Precisava de um movimento que derrotasse todos de uma vez, ou pelo menos uma grande parte. Mesmo com medo de abalar ainda mais a estrutura do prédio, abri uma enorme fenda entre mim e os monstros, que sem conseguir parar, caíram no buraco em direção ao solo do andar inferior. Todos caíram, para minha satisfação, mas já estavam subindo a escada de volta, para o meu desespero. A fenda se fechou e eu corri em direção a meu pai e Magda, que assistiam tudo do parapeito, mas antes que eu os alcançasse os monstros reapareceram pela porta e correram em nossa direção. Já próximo a meu pai, movido pelo desespero eu pulei em sua direção, agarrei sua cintura, e juntos, despencamos do topo do prédio em direção ao solo.

O solo chegava mais perto absurdamente rápido, e filme nenhum se passou na minha mente com todos os momentos da minha vida, pelo contrário, minha mente congelou, eu encarava o chão e esperava o impacto, ouvia gritos vindo de todas as direções. A voz de Magda berrava insultos a mim por tê-la deixado lá, meu pai gritava algo que eu entendi mais ou menos como “Onde você estava com a cabeça? Que eu saiba você não tem asas”, e lá embaixo eu ouvia gritos das pessoas que esperavam nosso encontro com o chão. Meu pai me deu um soco e eu despertei, pensei em algo a se fazer e usei toda minha magia.

De repente, eu e ele estávamos deitados no chão, sem nenhum arranhão, e as pessoas nos olhavam ainda assustadas. Foi como se nosso corpo atravessasse uma fenda no espaço e parasse ali, no chão, são e salvos.

Pedro correu em nossa direção e nos ajudou a levantar. Meu pai foi levado por uma moça com uma maletinha de primeiros socorros, apenas para limpar seus ferimentos, que não pareciam ser muitos. Pedro me abraçou tão forte que esvaziou o ar dos meus pulmões.

– Nunca mais se jogue de prédio nenhum, moço – ele disse tentando sorrir para mim.

– Pode deixar, sou obediente – eu o beijei, mas logo lembrei do que havia acontecido lá em cima. Olhei para os lados em busca de Lisa.

– Onde está ela? – eu o perguntei. – Lisa.

Pedro apontou em direção ao outro lado do estacionamento do prédio, e eu a vi conversando com Caio.

Disparei em direção a eles, correndo como se estivesse fugindo de alguém, Pedro vinha logo atrás chamando meu nome. Quando os alcancei, me joguei contra ela e a derrubei no chão, subi em cima dela e apertei minhas mãos em volta de sua garganta.

– DESGRAÇADO! – eu disse.

– Gregg, saia de cima dela! – Caio e Pedro tentavam me puxar.

– O que você tá fazendo garoto? Pirou? – Lisa dizia.

– PARE DE SE ESCONDER! Se mostre infeliz, tenha dignidade – não imagino que um demônio ligue para algo como dignidade ou coisas do tipo, mas tá valendo.

– GREGGORY! – Lisa tentava falar. – SAIA. DE. CIMA. DE. MIM.

Eu afrouxei minhas mãos, e a encarei nos olhos, parecia realmente ser a Lisa que eu sempre conheci, aquela peste que me infernizou a vida inteira, e que sempre tem uma piada para tudo.

– Eu não entendo – disse enquanto saia de cima dela e a ajudava a levantar.

– Se tentar me matar de novo, eu mato você – ela me disse.

– Gregg, o que está acontecendo? – Caio perguntou.

– Gustaf – eu comecei. – Ele apareceu lá em cima, possuindo o corpo de Lisa.

– O QUÊ? – Lisa berrou.

Nesse momento um grande estrondo chamou nossa atenção e nos viramos em tempo de ver o prédio inteiro desabando, eu conseguia ver corpos sendo arremessado pelas janelas, e uma enorme onda de poeira se espalhou por todos os lados, dificultando um pouco a respiração e a visão.

Quando a poeira baixou nós quatro caminhamos em direção aos escombros para tentar encontrar algum possível sobrevivente, mas enquanto caminhávamos, ouvi apenas um som de lâmina perfurando carne. Quando me virei, Lisa já não era mais ela, e Pedro tinha uma enorme lâmina atravessando seu corpo, com a ponta saindo pela barriga. Caio ficou tão surpreso que eu o vi chorar, mas eu não tive tempo de me preocupar com isso. Gustaf investiu contra mim, mas meu corpo inteiro foi revestido por uma aura rosa brilhante.

Olhei para o céu e vi fadas de todas as cores e tamanhos colorindo a imensidão azul. Cada fada carregava com certa dificuldade um duende, e minha mãe vinha na frente, comandando a tropa. Era sua aura que me envolvia, ela me protegia com sua própria energia vital. Eu não desperdiçaria essa chance. Busquei toda energia que me habitava, cada resquício de magia que vivia em meu corpo “saiu” para combate. Eu me senti forte como nunca fui antes, meu corpo aumentou, literalmente, eu me sentia com mais de 3 metros e meus músculos ardiam enquanto aumentavam de tamanho. Caio também reagiu de forma parecida e seu Hulk surgiu de forma mais poderosa. Gustaf nos encarava com um brilho sádico no olhar.

– As florezinhas desabrocharam – ele nos provocou. Eu queria destroçar seu corpo, rasgar sua pele com minhas próprias mãos e vê-lo sofrer. Mas aquele corpo era o de Lisa, se eu o destruisse ele possuiria outra pessoa próxima a mim e assim eu mesmo mataria cada pessoa que eu amava. Olhei para o lado e vi algo que me confortou um pouco mais. As fadas cuidavam de Pedro e ele parecia melhor.

Gustaf abriu os braços, buracos surgiram no chão atrás dele, todos os tipos de monstros saltavam de lá e logo ele também tinha seu próprio exército. Os duendes vieram vestidos em trajes de guerra, uma visão pouco agradável. As fadas desceram do céu, e logo, criaturas da ordem e criaturas do caos batalhavam arduamente.

– Desistam, vocês não têm chance – a voz metálica de Gustaf invadia meus ouvidos.

Todo o corpo de Lisa fumegou, uma aura enorme em forma de um avatar de guerra surgiu, e Lisa flutuou até parar dentro do peito da criatura, onde deveria ser seu coração. Gustaf usava a força vital de Lisa para sustentar seu guerreiro.

Caio me olhava com uma cara de medo e dúvida, afinal, não podíamos ataca-lo senão mataríamos nossa amiga. Não tínhamos muito a fazer quando Gustaf atacou.

Gustaf invocou em suas mãos uma espécie de lança completamente feita de energia, e a atirou contra Caio, que a desviou usando a porta de um carro que ele acabara de arrancar. Pelo canto do olho vi uma fada sendo morta por um lobo demoníaco e minha mãe tentando ajuda-la. As fadas pareciam em vantagem, sua luz parecia cegar os oponentes, e elas se aproveitavam disso. Gustaf bateu o pé no chão e duas criaturas feitas de lava se levantaram da terra. Eu ataquei a primeira com uma esfera de água que surgiu em minhas mãos assim que eu a invoquei, mas em vão. A esfera evaporou antes de tocar o monstro. Caio se lançou sobre um deles e meu coração parou, ele seria incinerado. Mas não, ele conseguiu tocar a criatura e atravessou o punho em seu peito, fazendo o ser explodir lançando fagulhas para todos os lados. Enquanto ele se dirigia para a segunda, Gustaf surgiu por trás de mim e me deu uma forte pancada nas costas. Eu voei em direção a um carro e me choquei contra ele. Quando me levantei, concentrei todas as minhas energias apenas nele, e criei uma espécie de bolha a seu redor, que o segurou por poucos segundos.

– Pare! – eu gritei. – Seja justo! Saia do corpo dela! Assuma sua verdadeira forma!

No mesmo instante o avatar se desfez e o corpo de Lisa se chocou contra o chão, imóvel. Ao meu lado um homem alto e forte surgiu, vestido em um elegante terno preto e segurando um cajado marrom nas mãos. Ele parecia meu pai.

– Assustado? – reconheci a voz de Gustaf.

– O que é isso? – perguntei.

– Ah, o papai não contou para você? – ele zombava de mim.

– Explique! – eu exigi, mas tinha medo da explicação.

– Você não é tão burro assim garoto, pense – ele disse. – Vou precisar ter uma conversa com meu irmão, talvez seja preciso que você mude de escola próximo ano, essa que você está não parece muito eficiente.

Gustaf e meu pai são irmãos?

Talvez isso explique porque ele quis tanto me atingir, e porque os monstros haviam me chamado de “O Filho do Último Irmão”, mas eu nunca iria me acostumar com a ideia de meu pai ser um demônio e o meu tio estar tentando me matar para levar o mundo ao caos eterno. E porque meu pai não fazia nada? Se ele também é um demônio, porque não invoca todo seu poder e me ajuda?

– Não! – eu consegui dizer. – Você nunca será parte da minha família.

Gustaf bateu seu cajado no chão e um raio de energia foi lançado contra mim, tive poucos segundos para me proteger, mas consegui criar minha parede de proteção. O raio ricocheteou e votou em direção a ele, que apenas estendeu a mão e absorveu a energia.

– Esqueça garoto, é ridículo continuar com isso – Gustaf me provocou.

Mas agora eu já podia atacar, ele havia saído do corpo de Lisa. Caio posicionou-se ao meu lado e me olhou com uma expressão que eu não consegui interpretar muito bem, mas nós disparamos juntos em direção a Gustaf prontos para dar nosso primeiro ataque e provar toda nossa força.

– Morra! – caio gritou, mas o grito saiu mais rouco do que o esperado, pois até ele se assustou.

Gustaf permaneceu parado vendo nós nos aproximarmos e apenas esboçou um leve sorriso de sarcasmo, então seus olhos brilharam como fogo e nós não conseguíamos mais nos mover, era como se concreto tivesse sido derramado sobre nosso corpo. Ao nosso redor, tudo ia ficando desfocado, não conseguíamos mais ver as pessoas, víamos apenas borrões correndo de um lado para o outro, e logo esses borrões se transformavam em espíritos de fumaça e corriam desesperadamente em todas as direções gritando como se estivessem sendo torturados. A paisagem ao nosso redor escureceu e nós não tocávamos mais no chão, era como se estivéssemos flutuando no espaço, mas sem estrelas, planetas ou o sol, apenas escuridão, gritos, morte, dor e sofrimento. Caos. O que mais me assustou foi ele, Gustaf. O homem alto e forte de terno preto havia desaparecido. Um ser com aproximadamente 10 metros de altura estava em seu lugar, feito aparentemente de fumaça e poeira, mas seus olhos eram como duas chamas vermelhas, e sua voz era tão estridente que meus ouvidos sangraram.

– Bem vindos ao meu mundo – disse ele.

Notas finais
O que posso adiantar agora é que o próximo capítulo terá fortes emoções!