Os Contos De Um Meio-sangue
6 Capítulo 6 - Uma espada com personalidade.
Notas iniciais
Acordei num lugar arejado onde o silêncio ocupava meus ouvidos. Abri os olhos e me ofusquei com a luz de um archote que estava colocado numa pilastra. Olhei para meu corpo e vi que estava em uma maca de bambu e haviam tirado minha armadura e minha camisa. Onde a garota havia acertado com o cabo de sua espada havia uma pomada verde claro com cheiro refrescante de eucalipto. Olhei para os lados e vi que estava na Enfermaria, várias camas estavam ocupadas e ao meu lado estava Laura que sentava numa cadeira como aquela que os diretores de cinema se sentam. Concentrava-se num livro verde e não reparou que eu havia acordado.
Do lado da minha maca minha camisa verde do acampamento estava no chão como se tivesse sido tirada às pressas. Curvei-me para pegá-la, mas meu abdômen repuxou-se com a dor e acabei uivando com a dor e voltando para o lugar. Laura desviou sua atenção para mim.
– Acordou, finalmente. – E pegou a camisa para mim – Você levou um golpe feio... Está doendo?
– Muito... Como eu vim parar aqui? – Perguntei pondo a camisa de forma que não movimentasse meu abdômen.
– O líder do seu chalé te trouxe... Ele ficou aqui por um tempo, mas estava muito cansado e um pouco ferido, então eu ocupei o lugar dele.
Reparei que ela tinha alguns band-aids no rosto e uma tipoia carregava seu braço esquerdo.
– Nós conseguimos ganhar?
– Não, o time vermelho capturou a bandeira poucos segundos antes de nós...
– E você... Está bem também?
– Meu braço dói um pouco... Nada de mais... Pedro, e essa cobra? – Disse mirando o olhar para trás de mim.
Virei-me para onde ela olhava e vi uma mesa larga que apoiava um aquário quão largo sobre ela. Nele tinha uma cobra de quase dois metros de cor preta com a barriga branca, havia ainda duas listras levemente cinzas em suas costas, na parte preta. Ela estava enfaixada em duas partes do seu corpo esguio e seus olhos cinza-escuros com a pupila fina se movimentava observando tudo em sua volta, porém seu corpo não se movia como se estivesse paralisada.
– Que cobra é essa? – Respondi.
– E eu que sei? Falaram-me que ela deu um bote na perna da garota que te atacou e ela a acertou com a lateral do gume da espada dela jogando-a longe... Você anda brincando de encantador de cobras?
– Eu não... Nunca a vi antes... – E se deu uma pausa, me virei para a cobra que fixava seu olhar em mim – Obrigado... Eu acho... Laura, que horas são agora?
– Umas três da manhã...
– Onde está minha espada?
– Aqui. – E pegou a Ekmidénisi e me entregou.
Fiquei observando-a e a toquei sua lâmina, mas nada aconteceu, eu sentia o metal frio como qualquer outro metal ficaria naquele ambiente, porém se alguém a tocasse e não fosse eu, provavelmente iria ganhar uma mão amputada. Recostei-a próximo à minha cama num criado mudo e me virei para a cobra. Imaginei se ela pudesse se comunicar comigo, porém ela continuava me mirando calmamente sem expressão.
– Bom, já que está melhor, vou dormir um pouco, pois estou morta de cansaço.
– Ok. Boa noite – E sorri para Laura.
– Boa noite.
Acabei adormecendo também.
Psiu.
Hã?
Ei, acorda, inútil!
Quem... O que?
Abri os olhos. A manhã irradiava sua luz na enfermaria deixando-a clara. Esfreguei os olhos e me sentei na cama de forma que não doesse meu corpo. Olhei para os lados e a maioria dos campistas, inclusive Laura, já havia deixado à enfermaria naquela manhã. Estávamos apenas eu e aquela cobra levantada no aquário que agora me observava chacoalhando a língua no ar.
Mandei você acordar. Mas parece que você é obediente e não tive que repetir.
Quem tá falando isso? É telepatia? Um campista é?
Não seu burro, sou eu. Olhe pra mim.
Virei-me para os lados, mas havia apenas aquela cobra que me mirava com desdém.
Só tem uma cobra aqui. Quem tá falando comigo? – Falei.
Quem mais? Se eu sou o único aqui, com quem você estaria falando?
Hã? Você é a... Cobra?
Não, o papa.
Achei graça, pois me lembrei de Harry Potter e sua ofidioglossia.
Tá de brincadeira comigo? – Disse eu.
Você é bem lerdo ein...
Arregalei os olhos e me levantei da cama me aproximando do aquário fechado.
Tire-me daqui – Disse a cobra. Ela não movimentava os lábios, era como se estivesse se comunicando pela mente.
Como eu sei que você não vai me dar um bote?
Ingrato. Salvei sua vida, aquela filha de Ares ia te matar. Se eu não a picasse na perna você estaria morto agora. Tire-me daqui.
Pensei um pouco e, após uma pausa, destravei o aquário e levantei a tampa e a cobra saiu. Ela se enrolou no chão e começou a me analisar.
O que quer agora? Tenho que encontrar meus irmãos. Se quiser um rato, vá procurar.
Você devia me agradecer, inútil... Eu... Eu não tenho condição de me rastejar com estas faixas... E... Não posso tirá-las agora. Preciso que você me carregue.
Para onde?
Bom, apenas até minhas feridas cicatrizarem. – Disse a cobra.
Pensei um pouco e acabei ficando com ressentimento se a deixasse lá. Tentei encarar a situação como se alguém estivesse me presenteando um animal de estimação, sempre quis uma cobra pra mim, então eu disse:
Não é muito comum ver um garoto com uma cobra... Se prometer não dar bote em ninguém, pode vir comigo, pedirei a um amigo meu para construir para você um aquário portátil... Vamos ao Pavilhão Principal... Vamos ver se o Juan deixa você ficar comigo até se cicatrizar...
Nunca imaginei essa cena, porém aconteceu. Ela subiu pelo meu braço e ficou em meu pescoço, por um momento pensei que ela fosse se fechar em mim e eu morreria sufocado com os ossos quebrados, porém ela apenas se fixou. Sua pele era gelada e me subiu um calafrio. Peguei a Ekmidénisi que estava sem sua capa e dirigi-me a saída e perguntei à cobra:
Você tem um nome?
Sim, me chamo Leptos. – Respondeu ele.
Saindo da Enfermaria, alguns campistas se assustaram com Leptos, alguns se aproximavam para ver a cobra enquanto outros apenas observavam. Tentei ser rápido para não atrair muita atenção e consegui atravessar a Ágora e chegar ao Pavilhão Principal. Na varanda Juan fixava seu olhar no horizonte e, ao chegarmos, virou-se para nós. Leptos soltou um chiado.
– Ah, olá Juan.
– Oi Pedro – Respondeu sorridente – Esta é a cobra que estava com você ontem certo?
– Sim é... Eu queria saber se e poderia cuidar dele até que melhore.
– Ele?
– Sim... Chama-se Leptos, ao menos foi o que ele me disse.
– Hmm... Era de se esperar tais habilidades de um filho de Hermes... Se você não deixá-la atacar ninguém, pode sim ficar com ela.
Expliquei a ele sobre o aquário portátil e então fui para o refeitório. No caminho perguntei a Leptos, ao reparar que ao menos a conhecia:
Você é de onde?
Sou da China.
E como chegou aqui?
Vim numa embarcação para o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, porém o caminhão que eu estava dentro escorregou na pista e caiu em um desfiladeiro... Minha sorte foi que meu aquário desprendeu-se e foi jogado para fora do container antes que o caminhão se colidisse com o chão. Apenas eu e cinco amigos conseguimos sobreviver graças ao aquário ter se soltado, porém todos os outros morreram com a explosão... – Após uma pausa ele continuou – Na mesma tarde uma equipe de busca foi mandada para lá e conseguiram achar os meus amigos e só eu escapei... Passaram-se alguns dias e eu consegui sobreviver graças à rica fauna e flora do Brasil e na noite passada me encontrei com vocês.
Sinto muito por seus amigos.
Ele não respondeu.
Chegando ao refeitório, sentei-me à mesa do Chalé de Hermes onde estavam Gui, a garota ruiva e outros dois garotos que conversavam entre si. Ao pegar os talheres meu prato se encheu com fatias de abacaxi e um pedaço cru de carne. Alimentei a fogueira e dei o grande pedaço de carne para Leptos que comeu com vontade. Ao terminar, fui às forjas onde encontrei Vitor.
– E aí, Pedro? – Disse me cumprimentando com sua mão sem luvas – Eu vi o que essa cobra fez... Você deve sua vida a ela.
Leptos chiou como se risse.
– É eu sei... Eu queria saber se você poderia fazer um favor pra mim.
– Diga.
– Como você disse, eu devo a minha vida a ela... E enquanto ela estiver com estas faixas ela não vai conseguir rastejar, você tem algo que sirva de aquário que eu possa ficar carregando?
Vitor se virou para um grande entulho de coisas que pareciam quebradas.
– Eu acho que tenho sim – Disse ele mergulhando no grande monte de coisas.
Quando saiu do meio dos entulhos, puxava uma caixa de vidro desmontada.
– Vou dar um trato nela, na hora do jantar eu te entrego ela pronta.
– Certo... Obrigado Vitor.
– De nada... Acho que vou ao campo de treinamento... Até mais.
Chegando ao Campo de Treinamento onde estava quase todo o Chalé de Hermes, deixei Leptos num banco de madeira estava indo em direção onde todos se encontravam quando senti uma mão me puxar pelo braço impedindo-me de ir. Virei-me e era Laura.
– Ei, você não vai treinar hoje, não com este ferimento.
– Mas eu-
– Nem mais nem menos. Venha, aquele centauro pediu para que fossemos até ele.
– O que ele quer? – Disse eu pegando Leptos e saindo da elevação do Campo de Treinamento.
– Algo sobre sua profecia... Não perguntei o que era.
Chegando ao Pavilhão Principal, Juan conversava com três garotos: Carlos, o irmão da Laura e uma garota de pele escura e expressões fundas, parecia descendente de um indiano. Aproximei-me deles, e Carlos se virou para mim enquanto os outros conversavam entre si.
– Estamos falando sobre sua profecia Pedro, aquele – Disse apontando para o irmão de Laura – É Gabriel, líder do Chalé de Zeus e aquela – Mirou à garota indiana – É Luana, líder do chalé de Atena. Venha.
Juntando-me a eles, Luana fechou sua expressão, Gabriel fez um leve sorriso e Juan pausou sua fala.
– Pedro, eu preciso saber se alguma parte da profecia pode ter relação com algo da sua vida. Você se lembra de algo que aconteceu que tenha relação com algum trecho dela?
Eu parei para pensar em cada verso da profecia analisando cada palavra dela, porém a que mais me tocou foi o livro. Será que aquele livro estranho tinha alguma coisa? Se eu o notei somente quando cheguei a minha casa, será que alguém da escola o colocou lá?
Reparei que estava demorando enquanto todos olhavam para mim esperando uma resposta.
– Bom... Acho que... – Disse eu receoso. – Este livro pode ser o que esteja comigo...
– O livro? – Respondeu Juan refletindo – Onde está ele?
– Nas minhas coisas no Chalé...
Juan olhou para Carlos que assentiu com a cabeça e correu em direção o Chalé.
– Como conseguiu esse livro? – Perguntou a garota indiana.
– Bom... Na verdade eu não sei, ele apareceu na minha mochila antes que eu viesse para o Acampamento, na verdade, no mesmo dia que eu vim ele apareceu.
– Alguém o colocou lá? Você viu alguém pondo? – Perguntou Juan.
– Não.
Após uma pausa, Carlos chegou de sua corrida ofegante trazendo o livro.
– É este?
– Sim é.
Este livro... – Sibilou Leptos. Por um momento esqueci que ele estava ali no meu pescoço.
O que tem ele? – Respondi
– O quê? – Perguntou Carlos.
– Estou falando digo... Eu consigo me comunicar com Leptos de alguma forma... Não sei como, mas consigo. Ele está me falando sobre algo do livro.
Juan analisava o livro atenciosamente.
Eu não sei... Não me sinto bem com ele perto...
– O que ele disse? – Perguntou Carlos.
– A presença do livro o incomoda.
Juan abriu o livro e começou a folhea-lo. Ekmidénisi começou a tremer chamando a atenção de todos como se também se sentisse incomodada com a presença do livro, então a segurei com firmeza para que parasse de se mover, mas então ela saltou da minha mão e caiu a metros de distância. Corri para pegá-la segurando-a firme e quando a trouxe novamente para perto de onde estava Juan e o livro, ela voltou a se agitar.
Juan analisou a cena um segundo e fechou o livro. Ekmidénisi parou de tremer e se tornou estável novamente. Juan virou seu olhar para Luana.
– Hermes. – Disseram em uníssono.
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