- Hermes? – Repetimos eu e Carlos em uníssono também.

- Sim. Hermes... Essa espada foi dada ao Pedro por Hermes... Só ele deve saber o que isso significa... – Disse Juan. – Luana tem um dracma?

Luana apalpou seu bolso em busca de algo e fechou a cara para Carlos que agora girava uma moeda de ouro em seus dedos que brilhava com seu sorriso. Luana puxou a moeda com raiva e a entregou para Juan que ao pegá-la, abriu caminho entre nós e se dirigiu à Ágora descendo os degraus do Pavilhão.

- Venham. – Chamou ele.

Chegando ao centro da Ágora, a fonte abundante se exaltava com o brilho do sol fazendo-a parecer mais bonita. A água borrifava no ar um fino lençol de gotículas que flutuavam no ar em harmonia formando um arco-íris pequeno e colorido.

Juan jogou a moeda dourada na direção do arco-íris que o engoliu.

- Oh Íris, aceite minha oferenda e mostre-me Hermes, o deus da medicina.

Rapidamente as cores do arco-íris se turvaram e ganharam tom cinza-claro e uma imagem se formou: Um homem jovem e loiro usando uma jaqueta preta de couro debruçado sobre uma mesa cheia de papéis e envelopes com selos que mais pareciam da antiguidade. Seus olhos azuis com olheiras mostravam uma expressão de cansaço, porém sorria como se nunca tivesse pegado numa única carta. Carregava em sua mão direita um caduceu onde duas cobras movimentavam seu corpo sem sair do lugar.

Deu-se uma pausa então Juan pigarreou.

- Hã? Oi? – Disse o homem em inglês sobressaltando-se e virando-se para nós. A imagem mais parecia uma tela de televisão.

- Hermes, senhor, sou eu, Juan, responsável pela divisão brasileira.

Por um momento pisquei os olhos fortemente tentando encarar a cena e depois os arregalei. Meu pai? Aquele era meu pai? Estava realmente ali na minha frente? E... Depois de todos estes anos... Ele aparece para mim dentro de um arco-íris? As dúvidas só aumentavam em minha cabeça. Eu iria explodir. Olhei primeiro para Carlos esperando alguma reação, mas ele apenas sorria.

- Não me chame de senhor, Juan. Estou ocupado, venha outra hora. – Respondeu Hermes em português, se voltando para as cartas e organizando-as.

- Senhor, precisamos de sua atençã-

Abri caminho entre Juan e os outros e me pus na frente da imagem. Não sabia se sentia ódio ou fascinação. Minha expressão antes enrugada e com raiva se esfacelara se tornando confusa.

— P-Pai? – Perguntei eu abrindo bem os olhos para acreditar na cena que agora via.

- O que foi? – Disse Hermes suspirando e deixando a mostra seu caduceu. As cobras se agitaram.

Ei, Martha! É o Brasil! Sabia que lá tem os maiores roedores do mundo? Imagine um rato gigantesco!

Silêncio, George. Preste atenção neles.

- Façam silêncio vocês dois. – Disse Hermes para as cobras que resmungaram – Você é...

- Senhor, este é Pedro – Disse Juan atrás de mim pondo a mão em meus ombros. Eu tremia um pouco e fechava o punho na Ekmidénisi.

- Como assim quem sou eu? Sou seu filho! Você não consegue me reco- — E parei de falar. Hermes, meu pai, nunca tinha me visto... Será que ele me reconheceria?

A expressão impaciente de Hermes se tornou calma e seu sorriso se abriu levemente.

- Eu reconheço todos os meus filhos, Pedro. E sei que você é um dos meus. – Disse ele. Senti-me um pouco indiferente, como se não fosse único. – Sabe... Quando uma pessoa é reclamada, o próprio deus em pessoa o reconhece. Eu estive te observando e te avisando sobre muitos perigos desde que nasceu... Talvez você não se lembre pois achou que fosse apenas sua consciência – E me lembrei de uma vez em que, andando numa avenida, um velho homem me avisou para não seguir ali e eu o fiz, momentos depois dele avisar, um assaltante roubou uma grande loja daquele local matando várias pessoas. – Ou um velho que te avisa o que fizer e quando o fizer – Como se lesse meus pensamentos. Sobressaltei-me.

“Só não posso ficar atrás de cada um de vocês a todo momento pois sou muito ocupado... Sem contar que se eu me mostrasse a você, bom, as coisas complicariam. – Terminou ele.

- Complicariam? – Minha raiva voltou instável. – Como assim complicariam? O que custava dizer que era meu pai? Eu fiquei sempre em dúvida de quem era minha mãe biológica e sobre quem era você... Por quê? Por que não pôde se mostrar?

Hermes fechou seu sorriso e virou seu olhar para Juan esperando uma resposta. Juan pegou novamente meu ombro, dessa vez tentando me levar para trás. Resisti.

- Venha comigo, você precisa se acalmar – Sussurrou.

- Não! – Disse eu em voz alta – A primeira vez que vejo meu pai ele aparece dentro de um... Um sei-lá-o-que... E ainda tenho que me despedir... – Minha voz foi enfraquecendo como a minha expressão.

- Pedro... – Disse Hermes – Eu sinto muito por tudo isso...

Dessa vez, Carlos pegou meu outro ombro. Leptos avisava para me acalmar, mas eu o ignorava.

- Pedro, venha comigo... Confie em mim – Disse Carlos – Vou te explicar tudo, mas venha comigo.

Quando reparei, já estava ofegando. O suor frio descia a minha testa. Abaixei minha cabeça e consenti o pedido de Carlos. Entreguei Ekmidénisi para Juan e me virei de costas para Hermes. Carlos passou o braço para meu outro ombro como uma forma de abraço firme e me levou ao Chalé de Hermes.

Sentei-me em meu beliche e Carlos se sentou numa outra de frente a mim. Minha expressão continuava cabisbaixa.

- Pedro... Os deuses quando fazem seus filhos, bom, eles mantêm sigilo sobre isso para os próprios filhos para que não ocorram problemas. – Disse ele. Após uma pausa, reparei que Carlos também não estava muito bem. Leptos permanecia em silêncio, observando – Muitos monstros conseguem perceber um semideus de longe, quanto mais um semideus que saiba que ele é um semideus, por isso os deuses evitam se mostrar para seus filhos... Espero que entenda.

- Obrigado Carlos... – Respondi.

Após um pequeno silêncio, a porta do Chalé se escancarou com força e Juan entrou no Chalé com a espada. Não estava com raiva, porém determinado.

- O que aconteceu? – Perguntei quando Juan se aproximou.

- Hermes disse que nunca havia entregado espada nenhuma a você. Como você a conseguiu? – Disse ele. Não sei se ele estava com raiva ou com medo, mas ele estava exaltado.

- Eu consegui esta espada com a minha vó... Não me lembro de quando ela chegou lá, mas chegou.

- Carlos, ensine-o a fazer uma ligação e peça-o para conseguir o máximo de informações o possível... Levarei esta espada ao Chalé de Hefesto para ver se eles conseguem alguma informação pelo material. – Disse ele.

Carlos assentiu com a cabeça e Juan saiu trotando pelo Chalé.

- Venha – Disse Carlos se levantando e se dirigindo a seu beliche. O acompanhei.

Carlos se aproximou de seu criado mudo e puxou a gaveta tirando dela um pequeno recipiente cilíndrico de metal fechado. Parecia mais um daqueles potinhos de tic-tac, porém redondo. Ele deu três batidas leves na superfície do objeto que dividiu sua tampa num corte que a atravessava em sua face que se abriu como duas portinholas.

Dentro do pote, agora visível, se mostrava uma pequena quantidade de água que não tombava para o lado com a gravidade, apenas ficava parada cobrindo o fundo do objeto. Parecia estar congelada. Carlos soprou esta água e dela se levantou uma grande porção de gotículas, como fez a fonte na Ágora.

- O nome disso é Irífono, uma coisa que os filhos de Hefesto inventaram. Serve para fazer uma ligação de Íris a partir de uma pequena quantidade de água... Enfim, para se fazer essa ligação, precisa-se ofertar um dracma, esta moeda – E de seu bolso tirou uma moeda dourada com um símbolo desenhado que não me esforcei para entender. – Esta moeda é usada em todo mundo grego... Bom, o que se tem que fazer agora é encontrar um arco-íris. Veja – Ele movimentou o Irífono que carregou como se estivesse parado no tempo, suas gotículas. Colocou-o então de forma que um feixe de luz se encontrasse com as pequenas gotas de água e rapidamente ali se formou um arco-íris. – Basta jogar a moeda e dizer: Oh Íris, aceite minha oferenda e me mostre fulano em tal lugar. Vamos, tente ligar para sua avó – Dizia oferecendo a moeda.

Peguei a moeda e, um pouco inseguro, a soltei no arco-íris do objeto. A moeda o atravessou e caiu dentro do Irífono.

- Oh Íris, me mostre minha avó na Avenida Olegário Maciel, 484.

Rapidamente as cores do arco-íris foram se movimentando como uma televisão buscando sinal e então finalmente se estabilizou numa mulher ruiva de cabelos curtos e rugas no rosto, minha avó. Ela carregava um pano de prato e secava as mãos.

- Vó? – Disse eu.

Em sobressalto, ela se virou para nós através da imagem.

- O-O que é isso? – Dizia ela se aproximando tentando tocar a imagem.

- Isto, senhora, é uma ligação de Íris... Serve para você se comunicar com seu neto a partir de uma imagem – Disse Carlos.

- Ah... Quem tá falando? Já disse que não quero ouvir testemunha nenhum.

- Sou eu vó, o Pedro – Disse eu, rindo.

- Pedro? – E finalmente ela focou a imagem e conseguiu me enxergar – Pedro! Você... – Disse ela tentando tocar a imagem, porém seus dedos não chegavam até mim.

- Eu sou Carlos, sou filho de Hermes, irmão de seu neto... – Disse ele sorridente.

- Ah... Oi? O Pedro tá dando muito trabalho?

- Não não – Disse ele rindo. Fiquei envergonhado.

- Vó, eu to ligando com isso pra poder te fazer uma pergunta.

- Hm.

- Quem te deu aquele baú de bronze? – Perguntei.

Ela hesitou um pouco e depois respondeu.

- Bom... Há quatro anos, um homem estranho veio aqui na minha casa... Ele usava uma camisa de duas cores, sempre me lembro dele por isso, metade era roxa e metade era laranja berrante. O mesmo valia para suas calças e seus sapatos, todos combinando nas duas cores... Ele dizia trabalhar para Hermes então eu acreditei, pois ele tinha dito que trabalhava pra ele e tudo mais... E me entregou este baú estranho dizendo se tratar de um objeto que Hermes estava dando de presente ao Pedro, mas que não devia ser aberto naquela hora. Tentei abrir o que tinha dentro mas não consegui...

- E como era o rosto dele? – Perguntou Carlos.

- Não me lembro... – Disse confusa – Não consigo me lembrar de seu rosto...

- E ele disse qual o nome dele? – Disse Carlos.

- Sim... Ele dizia se chamar... João... Não, Jane... Algo assim...

- Certo. Obrigado, vó – Respondi sorrindo.

- Hm, de nada... Acho que é tudo que me lembro dele.

- É tudo o que precisamos saber. – Respondeu Carlos. – Obrigado – E sorriu.

- Tchau vó...

- Tchau – E ela sorriu.

A imagem foi se desfazendo até se dissolver no ar.

- Você sabe de quem ela estava falando? – Perguntei Carlos que agora fechava o Irífono.

- Possivelmente de Jano... O Deus das Portas.

Leptos chiou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.