Os Contos De Um Meio-sangue

3 Capítulo 3 - O Acampamento Semideus Brasil.


Notas iniciais
Confiram o mapa do Acampamento aqui neste capítulo no fim da página para melhor entendimento ;)

– Bem-Vindos ao Acampamento Semideus Brasil! – Disse Tati. O nome do acampamento era branco com brilho metálico que fazia contraste no mármore escuro.

– Se não fosse o nome brega, esse lugar teria a entrada mais legal que já vi. – Disse Laura.

Eu ri em concordância. Voltei-me para o carro, ainda admirando o grande portal de mármore e peguei minhas coisas no porta-malas, quando o fechei quase prendi os dedos, porém fui rápido e os tirei antes que isso acontecesse.

Tati carregava a maleta de bronze com certa dificuldade e com Laura, passava pelo grande portal e eu então, me adiantei para acompanhá-las, me virei para trás para ver se o carro estava vazio ali, mas ele rangeu o motor e acelerou sozinho afundando em meio às árvores.

Quando me virei novamente me deparei com o fim da floresta e com a abertura de um extenso campo verde que abrigava a maior feira renascentista que já vi, mas olhando melhor novamente, reparei que se tratava de uma variedade de edifícios gregos enfeitados da mais estranha maneira que já vi, um parecia ser feito de madeira e outro de plantas, alguns tinham estruturas metálicas com pistões liberando vapor e outro parecia a casa da Barbie.

Pessoas vestidas de camisas verdes e revestidas de couraças e armaduras corriam com cestos, plantas e armas nada amáveis para direções aleatórias. A maioria tinha algum tipo de cicatriz ou carregava um gesso em alguma parte do corpo. Algumas garotas brincavam na floresta em meio às árvores e outras pintavam as unhas sentadas na frente da casa da Barbie.

Acompanhamos Tati até uma praça pequena com fontes e caminhos de cascalho onde ela parou admirando, sorridente, o local.

– Aqui é a Ágora, uma praça onde se encontra os três principais edifícios do acampamento: o Pavilhão Principal – E mirou o dedo para uma grande estrutura gigantesca que por maior que parecesse era a mais parecida com os edifícios gregos, principalmente como aquele que eu tinha visto em meu sonho – O Anfiteatro – E se virou para um local com arquibancadas que formavam um “U” viradas para um espaço vazio – E a Enfermaria – E se virou para um edifico parecido com o Pavilhão, porém mais baixo e menor onde algumas pessoas entravam com lesões expostas apoiados em seus amigos e saíam tinindo com seu novo gesso pronto para ser assinado por qualquer um que passasse em sua frente – Naquele local vocês encontraram uma “casa” específica destinada a vocês, cada uma para um Deus diferente – E mirou para onde se encontrava as casas estranhas, como a de metais e a de plantas. As casas maiores formavam um “U” e bem no meio delas se encontravam duas casas imensas, outras casas menores continuavam uma parte do U e nelas se encontravam algumas casas estranhas, como uma rosa clara montada por pedras claras com símbolos brilhosos em cada uma e outro que parecia uma casa fantasma daquelas que se encontra em parques de diversão.

– Como são... Cinco horas ainda – Disse ela consultando seu relógio de pulso – Vou levar vocês para conhecer o Pavilhão e depois vocês jantarão, onde provavelmente serão reclamados por... – Ela parou de falar e sua expressão se tornou perplexa, ela mirava Laura que nos acompanhava, me virei então e me surpreendi.

Laura tinha acima de sua cabeça um raio turquesa brilhando fortemente que chamava a atenção de todos do acampamento. Pelo o que eu sabia, raio era o símbolo de Zeus e levando em conta de como Tati me explicou sobre reclamações de Deuses, pensei que então, Laura era uma filha de Zeus. Ela girava no lugar tentando olhar o que todos estavam vendo e então Tati disse:

– Uma filha de Zeus...

Com isso, os murmúrios cresceram e todos se reuniram envolta de Laura.

– Venha, vamos sair daqui... – Disse Tati puxando Laura e a maleta de bronze para fora da multidão. Fiquei perdido em meio aos outros e então, quando todos se dispersaram, me dirigi ao Pavilhão Principal. Subi as escadas de mármore e abri lentamente os grandes portões verdes escuros. Havia um corredor de pilares que dava em uma grande ala de piso polido com teto alto. Graças à acústica do local, eu pude ouvir que havia pessoas conversando, então caminhei pelo local e ao fundo tinha uma mesa longa com cadeiras vazias exceto por três pessoas: Laura, Tati com a maleta de lado e um homem de cabelo baixo, barba feita e olhos cor de mel. Usava uma abada de show de axé e parecia muito concentrado no que Tati falava. O problema é que metade do seu corpo, ao invés de pernas e cintura comuns, tinha forma de um cavalo marrom escuro. Devia ser um centauro, como havia lido antes.

–... Vamos deixar ela então no Chalé de Zeus. – Finalizou.

– Certo, pode levá-la... – O homem se virou pra mim e me cumprimentou com um sorriso leve. – Espero que seu amigo também descubra de quem é filho...

Houve uma pausa e então Tati falou:

– Vamos Laura, vou te mostrar o chalé de Zeus. E enquanto a mala... Eu a levarei para um lugar protegido...

Laura se levantou, mas não parecia muito animada, acho que ela ainda não havia superado o que aconteceu mais cedo, mesmo eu não sabendo o que realmente aconteceu. Tati, carregando a maleta, e o centauro também se levantaram e se dirigiram à saída e eu os acompanhei logo atrás.

Saindo do pavilhão um pouco sem jeito, me esbarrei num garoto que estava correndo com uma pilha de pedaços de armaduras deixando tudo cair ao meu encontro.

– Me desculpe... Espere, vou te ajudar – Disse eu tentando pegar a bagunça.

– Haha, não se preocupe, acontece sempre – Dizia ele sorrindo, tinha o cabelo mal arrumado e a pele corada, e ao pegarmos tudo o que deixamos cair ele disse – Sou Vítor, filho de Hefesto, prazer. Você é amiga daquela filha de Zeus? Ela parece bem legal... – Ele falava rápido e então tentei acompanhá-lo.

– Sim sou sim – Disse eu sorrindo – Sou Pedro, o prazer é meu... Você sempre anda correndo com essas coisas? – Falei enquanto comecei a ajudá-lo a carregar as coisas.

– Normalmente... Estou indo para as forjas, você é novato, certo?

– Sou sim, ainda não entendi tudo muito bem essas coisas, mas estou tentando raciocinar...

– Não se preocupe. Com o tempo você começa a entender tudo... Você já foi reclamado?

– Não ainda...

– Hmm... – Disse ele. Estávamos chegando a uma espécie de barraca que soltava muita fumaça por várias chaminés. – Essas são as forjas, aqui produzimos e concertamos armas e escudos. – Quanto mais nos aproximávamos, mais quente ficava.

– Há quanto tempo você está no acampamento? – Eu disse.

– Quatro anos... Tome cuidado onde toca – E entramos no local.

O ambiente era abafado e vários semideuses mexiam em fornalhas e bigornas. Ao fundo, havia uma grande fornalha com um símbolo de metal colocado encima dela, um martelo e uma bigorna. Vários garotos eram fortes e estavam sujos de graxa e fuligem, alguns que saíam tiravam seu avental e deixava à mostra a parte que a graxa não tocou como alguém que pegou muito sol e tirou o biquíni. Outros limpavam o suor com um pano manchado e voltava a martelar o metal quente.

– Pode deixar as coisas aqui. – E apontou para uma mesa onde já havia colocado – Valeu pela ajuda – E deu um sorriso aberto.

Depositei o peso na mesa e o perguntei:

– Onde ficam os semideuses que não descobriram seus pais? – Disse eu.

– De costume eles se sentam na ágora e esperam até o jantar... Vamos, eu te levo lá, mais tarde eu termino essas coisas...

– Certo. – Disse eu.

Saímos das forjas e caminhamos até a ágora enquanto ríamos da vez em que a tia de Vítor, Fátima, havia engolido um botão achando que era um analgésico.

Sentamos-nos num banco que rodeava a fonte central da ágora que cuspia a água alegremente. Ficamos observando o tempo passar e quando reparei, era noite. O soar de um trompete anunciou algo que chamou a atenção dos semideuses.

– Vamos, hora do jantar, pode-se sentar na minha mesa já que ainda não foi reclamado – Disse Vítor pulando o banco e correndo para fora da ágora.

Levantei-me e me dirigi até onde todos se encontravam e então me deparei com várias mesas dispostas envolta de uma fogueira alta onde todos formavam fila para jogar comida fora... Espera. Jogar comida FORA? Não sabia bem o que se passava na cabeça daqueles semideuses, mas eles não deviam jogar comida no fogo desse jeito.

Vítor assoviou alto chamando minha atenção para uma mesa e então me aproximei dele.

– Vocês sempre desperdiçam comida assim? – Eu me perguntei em pé ao lado dele.

– Sim, são oferendas aos deuses – Disse ele rindo – Serve para você mostrar gratidão aos deuses. Vamos sente-se.

Consegui localizar Laura no meio das pessoas. Ela estava sentada em outra mesa, mas só havia ela e outro garoto pálido que conversava animadamente com ela.

Passei as pernas pelo banco comprido e me sentei. Assim que me posicionei, um leve estampido ocorreu na minha cabeça e todos se viraram para mim. Eu emitia um tipo de luz verde clara em tudo e então reparei que havia algo do tipo que apareceu na cabeça da Laura quando foi reclamada, tentei olhar para cima, mas o símbolo parecia se mover de acordo com a minha cabeça assim me impedindo de enxergá-lo.

– Você é um filho de Hermes – Disse Vítor usando uma lâmina de bronze como espelho para que eu pudesse ver. Havia um caduceu pairando sobre mim, um tipo de haste com duas cobras enroladas e um elmo com asas acima deles.

Levantei-me surpreso e após um silêncio estranho, uma mesa próxima começou a comemorar e então, sem que pudesse reparar, um garoto de dezessete anos apareceu do meu lado me cumprimentando.

– Olá novato! Sou Carlos, Líder do Chalé de Hermes, seja bem vindo à equipe! – Disse ele rindo. Era alto e tinha a pele clara, o cabelo era desajeitado e castanho, seus olhos verdes brilhavam como se ele acabasse de ganhar um prêmio – Venha se juntar a nós, seus novos irmãos. – E me puxou para a mesa me sentando ao lado de uma garota ruiva.

Após uma série de cumprimentos alegres e de tapinhas de consideração, várias perguntas surgiram em minha volta “De onde você veio?”, “Você tem alguma arma?” ou do tipo “Onde comprou essa camisa?”.

Todos eram muito alegres e no momento que todos pararam de falar reparei que a menina ruiva ao meu lado continuava calada.

– Essa é Danna, ninguém entende por que ela é tão calada, alguns já tentaram falar com ela, porém ela sempre ignora – Sussurrou Carlos.

Quando me virei novamente para a mesa vi que havia um prato, talheres e um prato de prata com comida nele. Era o que eu mais gostava: Carne moída com batata cozida e suco natural de laranja. Quando peguei o garfo para poder comer, Carlos me parou.

– Ei, calma – Disse rindo – Sei que está com fome, mas primeiro sirva a oferenda.

– E o que eu devo falar... Ou fazer? – Respondi.

– Apenas peça algo que deseja... Peça a nosso pai já que é o que você tem mais proximidade.

– Certo. – Me levantei do banco e me aproximei carregando o prato até a fogueira e derramei um pouco de comida no fogo. O fogo assobiou um pouco e então eu me concentrei e sussurrei pedindo que Hermes me ajudasse a entender tudo o que acontecia em minha volta. Não tinha muito que falar, pois ainda estava um pouco confuso com tudo, então me voltei para a mesa e então vi Tati e outra garota chegando correndo ao meu encontro.

– Rápido. O Oráculo de Delfos quer falar com você. – Disse ela pausadamente.

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