Os Contos De Um Meio-sangue
4 Capítulo 4 - A Profecia.
Notas iniciais
Segui Tati e a garota correndo e fomos engolidos pela floresta escura, ao me virar para ver a fogueira, ela tinha se tornado um ponto em meio às árvores e, com o tempo, ia desaparecendo. Fiquei impressionado com a facilidade com que elas se agilizavam entre as árvores, devia ser por conta de sua raça.
Após correr muito entre copas e copas de árvores, finalmente paramos onde a floresta se abria num arco dando espaço para a encosta de uma montanha e, bem à base desta montanha, havia uma pequena cabana de madeira que aparentava abrigar apenas um quarto.
Nós três nos aproximamos da porta da cabana e então Tati deu uma batidinha e perguntou se podíamos entrar. Uma voz fina respondeu um sim desanimado e então, antes de abrirmos a porta, Tati disse:
- Pedro, o Oráculo de Delfos é uma garota que pode prever o futuro a partir de transes em que ela se conecta com o Espírito de Delfos. Peço que não se assuste e... Você deve entrar sozinho.
Engoli a seco e suspirei. Imaginei que esta garota devia ser no mínimo... Estranha. Tati abriu a porta e eu entrei.
O quarto estava escuro então tive que forçar o olhar para distinguir as coisas. Sempre tive uma boa noção de espaço, então reparei que o quarto era por volta de 4:3 metros. Tinha uma cama próxima a uma janela levemente refletida pela luz do luar. Consegui ver o vulto de uma mesa pequena com duas cadeiras e o contorno de uma bancada do outro lado do lugar.
Um fogo surgiu na ponta de um fósforo em meio à escuridão e então pude enxergar o rosto de uma garota de dezessete anos. Seus cabelos eram castanhos e ondulados, e seus olhos eram negros, usava uma camisa hippie laranja com azul claro misturado com verde. Seu olhar cansado mirou meu rosto estranhamente e então, ao acender uma vela encima da mesa, fez sinal com a cabeça para que eu sentasse.
Ela se sentou numa cadeira e eu puxei e me acomodei em outra. Fez-se um silêncio fatal e ela continuava a me olhar sombriamente, então perguntei:
- Este lugar é o... Oráculo?
- Eu sou o Oráculo – Respondeu ela após uma pausa, tinha a voz lenta e preguiçosa – E espero que vo-
Ela parou de falar e arregalou os olhos. Acho que eu nunca tive um arrepio na espinha como aquele. Seus olhos tomaram um brilho verde e sua boca se escancarou soltando uma fumaça verde e então uma voz rouca misturada com a voz da garota começou a falar:
“Três semideuses sairão
Em busca da sabedoria em vão
Duas mentes para compreender
O livro do caminho a percorrer
A mãe das mães a traçar
O destino de um ao lar”
Saltei da cadeira no meio da fala e me afastei, porém prestei atenção nas palavras do Oráculo. Ao terminar de falar, seus olhos voltaram ao normal, a fumaça voltou a sua boca e ela sacudiu a cabeça tentando se recompor. Colocou a mão no rosto e apontou a outra mão para a porta:
- Saia daqui.
Sem questionar, me afastei enquanto virava para porta e acabei esbarrando a perna em algo sólido, mordi os lábios segurando a dor e caminhei mancando um pouco até a porta de saída onde vi Tati e a outra garota sentadas numa pedra conversando.
A expressão das duas se tornou séria e então Tati falou:
- Ah Pedro, à propósito, esta é Miliana, uma dríade.
- Ah! Oi Miliana – Disse eu.
- Oi oi – Disse Miliana sorrindo. Tinha cabelos loiros, pele bronzeada e os olhos, mesmos negros, brilhando na noite – Como foi a profecia? – Disse tornando-se séria novamente.
- Bem... Estranha... – Contei a elas o que o Oráculo havia dito e as duas se entreolharam.
- Bom, o melhor a fazer é falar com Juan, o centauro que você viu hoje cedo, ele é o líder do Acampamento... – Disse Tati. Houve uma pausa e então Miliana disse:
- Vamos então... Não gosto deste lugar.
- Nem eu – Respondi.
Chegando ao local da fogueira, meu estômago embrulhou-se e me lembrei de que não havia comido nada. Algumas mesas já estavam vazias enquanto outras acomodavam um ou outro semideus, na mesa de Hermes, Carlos, o líder do Chalé esperava por mim sentado de mau jeito no banco enquanto conversava com outro garoto loiro de olhos azuis que terminava de beber enquanto ria. Ao me ver, ele se levantou limpando a camisa verde que havia escrito em silk: Acampamento na parte de cima, um contorno do Brasil com um tipo de pavilhão grego no meio e “Semideus BR” embaixo, completando o nome do Acampamento.
- E então, como foi lá? – Disse ele.
- Bem... Estranho... – Respondi.
- Ela fez a profecia? – Disse ele.
- Sim fez. – E contei a ele a profecia. Ele pensou um pouco olhando para baixo.
- Você deve estar com fome... Sua comida ainda está ali... Venha. – Disse ele se dirigindo a mesa onde o garoto loiro observava. – Não se preocupe, ela ainda está quente.
Sentei-me do outro lado e comecei a comer.
- Este é Gui, ele é o nosso melhor guerreiro.
- Oi Pedro, está bem famoso ein? – Disse ele rindo enquanto me cumprimentava.
- Nem brinca... – Respondi.
Enquanto comíamos, conversamos sobre alguns semideuses estrangeiros que fizeram grandes coisas, como um tal de Perseu Jackson e uma Annabeth Chase. Quando terminei, nos levantamos e então segui Gui e Carlos. Chegamos ao local onde haviam chalés estranhamente estilizados e então ele se aproximou de um que mais se parecia com um chalé comum de acampamento, a pintura marrom estava descascando um pouco em certas partes e um caduceu como o qual apareceu acima da minha cabeça quando fui reclamado, colocado na parte de cima do chalé. As luzes estavam acesas e havia movimento no local. Aparentemente, estavam no meio de uma festa muito animada ou aquilo era a maior guerra de travesseiros já presenciada.
- Este é o Chalé do nosso pai, você irá morar aqui. Tomei liberdade de por suas coisas lá de uma vez. – Disse Carlos.
- Ah, obrigado, não precisava... – Respondi.
- Venha – Disse Gui, já entrando.
Ao entrar no local, me desviei de um travesseiro que voou acertando um beliche vazia. Havia por cerca de trinta beliches e minhas coisas estavam numa das primeiras. Houve alguns comprimentos, tapinhas no ombro de consideração e um travesseiro me acertando a nuca que animado, devolvi com a mesma força. Sentei no beliche inferior e passei a mão no rosto para dar uma acordada. Devia ser por volta das onze horas e o sono já começara a pregar meus olhos. Empolguei-me um pouco com a guerra de travesseiros entrando nela, acertei algumas pessoas e me voltei para o beliche cansado. Deitei sob o som das conversas, pois os travesseiros agora haviam parado de voar e ao fechar os olhos, dormi e acabei sonhando.
No sonho a mesma mulher que eu havia sonhado da última vez apareceu caminhando envolta de um berço onde uma pequena criança um pouco feia, mas simpática, brincava com bichinhos de metal. O local era um grande templo grego, possivelmente o mesmo que eu vira antes.
- Como vai queridinho? – Disse a mulher. Seu sorriso levemente sádico permanecia em seu rosto – Hoje nós iremos passear – E pegou o menino no colo.
Ela caminhou até a saída ecoando seus passos no local já que apenas se encontravam os dois ali. Ao abrir as portas do lugar, uma forte brisa de verão entrou assoviando alto. Caminhou para fora do templo onde reparei que o chão não era maciço e sim feito de nuvens. Ela se aproximou da beirada de uma dessas nuvens e mirou a terra. A altura era comparada a de um avião em voo. Logo abaixo da nuvem onde eles estavam, tinha uma ilha pequena com uma selva alta.
A mulher virou-se para a criança em seu colo e sorriu para ela. Caminhou para mais um pouco da ponta da nuvem e começou a abrir os braços. Tentei impedi-la, mas meu corpo não estava materializado, então aconteceu. Ao abrir os braços a criança chorou desesperada tentando se agarrar nas vestes da mãe, mas sem forças, caiu. A mulher continuou observando a criança cair metros e metros e finalmente colidir em meio as árvores.
- Adeus, Hefesto. – A mulher se virou e meu sonho se embaçou.
Acordei, porém não me levantei, fiquei olhando para a parte de baixo da cama superior do beliche. Ao que parecia, ninguém do Chalé havia acordado ainda, porém o movimento fora dele podia ser ouvido. Aparentava serem umas oito horas da manhã, me espreguicei ainda deitado e me levantei da cama. Encima da minha mala havia a camisa verde de uniforme do acampamento dobrada e uma anotação encima dela. Peguei a anotação e li: “Tome seu café e me encontre no pavilhão principal. Tati.”.
Troquei minha camisa e pus a do acampamento, o tamanho era perfeito. Dirigi-me à saída e, ao sair, a luz do sol bateu em meus olhos ofuscando-os e quando entraram novamente em foco, pude ver os Chalés, a movimentação e o grande céu azul.
A harmonia do ambiente me trazia motivação e eu sentia que aquele dia seria melhor.
Ao chegar às mesas do refeitório onde a fogueira não estava mais acesa, reparei que meu prato era magicamente completado, desta vez tinha ovos mexidos com bacon, bolo de chocolate e um cálice com suco de uva. Comi até me saciar e então me levantei calmo da mesa e fui até o Pavilhão Principal.
Abrindo as grandes portas do Pavilhão, encontrei o centauro conversando com Tati que deixava a maleta encima de uma mesa próxima à entrada que eu não tinha reparado da última vez. Os dois se viraram para mim e Tati disse sorridente:
- Hoje temos uma coisa pra mostrar para você. Ah, você ainda não conhece Juan, certo?
Afirmei com a cabeça. O centauro estendeu a mão e eu o cumprimentei.
- É um prazer Pedro, sou Juan, líder do Acampamento – Disse ele.
- O prazer é meu... Mas me digam... O que vocês queriam falar comigo?
- Ah sim. – Disse Juan se virando para a maleta de bronze. – Se trata disso. – E pegou a maleta.
Juan desencadeou as fechaduras e com uma chave abriu um cadeado pequeno no meio, abrindo a maleta.
Fale com o autor