Ayla andou com uma calma atípica até a porta e a fechou logo após Luca sair. Ela esperou ele se afastar e se virou para Fred com um olhar distante. Nenhuma palavra se fazia necessária naquele ambiente silencioso, mas ainda assim a curandeira olhava para Fred como se esperasse uma resposta para uma pergunta que não precisava ser dita.
— Eu nunca falei nada para ele. Não sei de onde ele tirou aquela frase.
— Eu sei de onde ele tirou. O Luca está ficando igualzinho a você, e isso me preocupa.
— Essa deveria ser a última das suas preocupações agora, Ayla. Ele vai tentar abrir uma passagem com a nossa ajuda ou sem. Não é melhor que pelo menos saibamos o que ele está fazendo?
Memórias invadiram o pensamento de Ayla e o silêncio, nada habitual naquela casa, reinou. Ela não queria concordar com o que Fred dizia. Era errado, arriscado e sem a menor garantia de sucesso, mas ela sabia que se o contrariasse ele ajudaria Luca de qualquer maneira. Esse era o Fred que ela tão bem conhecia. A melhor forma de evitar mais problemas era se envolvendo naquela loucura.
— Fred... — Ayla deu um longo suspiro antes de continuar — o que vamos fazer?
Fred se aproximou de Ayla, pegou suas mãos e disse docemente:
— Precisamos ajudá-lo a encontrar um sentido para ele ficar aqui. Da mesma forma que durante toda a minha vida eu sempre tive um motivo para um dia voltar.
A energia voltou ao rosto de Ayla e ele soltou as mãos de Fred levantando-se rapidamente indo em direção ao chá que havia começado a preparar quando Fred e Luca chegaram.
— Por favor, chame Luca. Precisamos ter uma bela conversa com esse rapaizinho antes que ele se atreva a mexer com magia por aí.

***

Em pouco tempo os três estavam novamente reunidos na pequena saleta da casa de Ayla, tomando o chá de jasmin das flores que a curandeira cultivava e observando, ao centro da mesa, o livreto de Hadel. Era um pequeno caderno com folhas muito finas, quase translúcidas e anotações e rabiscos praticamente indecifráveis. Pouco do que estava anotado ali era compreensível. Por vezes eles viravam o livreto em diversas direções para tentar encontrar um sentido para os garranchos do autor.
— Não existe uma ordem, tudo foi escrito de maneira aleatória. Como é possível alguém guardar algo tão importante desse jeito? — Ayla estava inconformada com a bagunça.
— É preciso existir um ponto de partida nessa confusão — disse Fred enquanto analisava uma parte que mais parecia um diário cheio de frases de ódio aos Magos da Natureza.
— Será que ele precisou da ajuda de um Mago da Natureza para abrir a passagem? — perguntou Luca com inocência.
— Isso jamais aconteceria. Os Magos da Natureza são também responsáveis pelo equilibrio da energia de Greenfar e isso iria totalmente contra seus princípios.
— Mas só os Magos dominam magia e energia, e com isso eles poderiam abrir uma passagem facilmente, não?
Fred se adiantou para responder a Luca:
— Sim, mas esse definitivamente não seria um Mago de verdade.
Antes que pudessem voltar a analisar o livreto alguém bateu a porta da casa de Ayla.
— Oh céus! Me esqueci completamente da vinda de Smarilon. Precisamos arrancar um dente de um menino rebelde.
Após abrir a porta Ayla deu um longo abraço no homem alto que havia chegado. Suas roupas brancas contrastavam com seu tom moreno de pele e ele parecia muito feliz em vê-la. Smarilion era um Ilusionista, um dom raro e perigoso de se encontrar. Eles tinham o poder de colocar imagens na mente das pessoas, podendo as levar a loucura. Havia dois caminhos para os Ilusionistas: ou escondiam seu dom ou trabalhavam com os curandeiros em casos mais difíceis. Eram como os anestesistas de Greenfar.
— Minha querida Ayla, como é bom revê-la!
— Te digo o mesmo, Smarilion. Se recorda de Fred e Luca?
— É claro, como vão os dois?
Ao ir em direção aos dois para cumprimentá-los, as anotações do livreto chamaram a atenção do visitante e ele disse em tom irônico:
— Tem chamado outro ilusionista para ajudá-la, Ayla?
Os três olharam para Smarilion com curiosidade e a senhora o indagou o porquê dessa pergunta.
— Anotações como essa só podem ser feitas por ilusionistas. Somos péssimos colocando coisas em ordem, então sempre que tentamos é algo "assim". Geralmente só nós conseguimos decifrar, por misturar a realidade no papel com ilusões que montamos.
A declaração fazia muito sentido para Luca. Apesar de ser um ilusionista, Hadel não pode usar seu dom com Luca. Embaralhar sua cabeça poderia fazê-lo perder as lembranças do mundo lógico, que é o que interessava a Hadel.
— Smarilion, como podemos "ler"o que está escrito aqui? — perguntou Luca ansioso.
O homem pegou o livreto, girou algumas vezes e por fim declarou:
— Só preciso colocar uma ilusão simples em sua mente e você conseguirá enxergar o que está escrito com clareza.
Percebendo a ansiedade de Luca, Ayla se adiantou:
— Mas antes, o dente!
E a curandeira saiu puxando Smarilion, deixando Fred, Luca e uma grande esperança no ar.