Os Contos De Greenfar
6 Ponta Fadada
— Venha, Ragi, vamos logo. Estamos chegando em casa, não é ótimo?
O pequeno javali ruivo soltou um grunhido nada agradável para o homem que se dirigia a ele com sarcasmo enquanto subiam uma colina íngrime coberta por grama queimada. O vento no sentido contrário os impedia de ir mais rápido e as vestes da figura esquálida que andava ao lado do animal balançavam furiosamente. Ao avistar o pequeno casebre quase na beira da falésia, o rosto do homem pálido e de aparência frágil se iluminou em um sorriso macabro. — Olhe, Ragi, o solitário Baobá continua escondendo nosso lar. Espero que não tenham nos furtado. Ele se referia a grande árvore de tronco largo que ficava entre a casa e o abismo, a protegendo de não ser varrida pelos ventos da região. O local se chamava Ponta Fadada e era completamente desabitado. Devido as condições climáticas e à fragilidade do terreno das falésias na beira do mar, o lugar a qualquer momento poderia desmoronar. Hadel o julgava o lugar perfeito para não ser incomodado. Após empurrar com dificuldade a porta emperrada, Hadel e seu javali enfim conseguiram entrar no único lugar que o vento não alcançava. O sibilar fantasmagórico do vento que rangia as janelas trancadas com antigas fechaduras enebriava o homem que olhava fascinado para a casa intocada. — A poeira não me incomoda. O que importa é que agora poderemos começar de novo, Ragi. E dessa vez sem erros. Hadel colocou alguns gravetos largados no chão na lareira e com um suave movimento da mão direita fez o fogo acender. Sentou-se na grande cadeira de madeira próxima ao calor, enquanto o animal se sentava ao seu lado e ele acariciava sua cabeça. Sete eras haviam se passado desde que eles deixaram aquele lugar. Era muito arriscado ficar ali após finalmente abrir uma passagem para o mundo lógico. A energia da passagem era muito forte e diferente de tudo que havia em Greenfar, além de demorar muito tempo para se dissipar. A qualquer momento um Mago ou alguém com mais sensibilidade energética poderia perceber e importunar. Ficar não seria sensato, mas também havia outro motivo para partir. Ele precisava buscar algo que havia perdido. — Estou muito surpreso que ninguém tenha vindo por aqui durante tanto tempo.O que me alegra, é claro, porque tenho certeza de que estamos seguros e sozinhos. Tudo será feito com muita calma e paciência. Não desejo esperar mais um ciclo de eras para atingir meus objetivos. Já está mais do que na hora de beber do conhecimento lógico, não é querido Ragi? Mais uma vez o javali grunhiu como se estivesse insatisfeito. — Entenderei como um ruído de carinho, seu animal idiota. O homem parou de acariciar o mascote e seu olhar passeou pelo ambiente sem cor. Ele se fixou na cama ainda desarrumada com um pano caído no chão e se lembrou da última pessoa que havia deitado ali. — Garoto maldito...e eu que acreditei que ele poderia ser a minha fonte, que com ele eu me tornaria o Ser Supremo...três dias aguentando aqueles gemidos, tentando arrancar uma mísera informação, uma gota qualquer de conhecimento...e quando ele finalmente resolve parar com aquele mentira de dores na cabeça sem fim, ele se revolta, sem nem me dar uma pequena chance de mostrar pra ele o quanto ele poderia...me ser útil. Hadel se virou para o javali ao seu lado. Segurou seu pescoço com força e disse com raiva: — E você, seu inútil, precisava ter ficado na minha frente na hora que ele saiu correndo com meu livreto? Animal burro! Se eu não tivesse tropeçado em você talvez ele não tivesse caído no mar com o elemento mais precioso que eu tinha! O javali soltou um ganido fino de dor e se recolheu próximo a parede quando Hadel o soltou. Após o acesso de ódio, o homem voltou a se recostar calmamente na cadeira. Com uma mudança de humor drástica, seu tom de voz agora era de satisfação. — Mas agora já está tudo bem, Ragi. Tudo o que estava no livreto ficou na minha mente, já conseguimos o mais importante que aquele menino levou com ele para a morte, o ciclo de eras se encerrou e poderemos começar de novo. Venha para perto do fogo, meu querido, venha. O javali com olhar assustado se aproximou lentamente da mão que novamente o acariciava.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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