Os Contos De Greenfar
2 Ano 1998 - Era Terra Acima
— Segunda vez essa semana que eles me enchem o saco... – disse cabisbaixo o menino magrelo de cabelos pretos enquanto caminhava ao lado do amigo de volta para casa. Solk deu uma risada breve e alegre passando o braço comprido pelo ombro do amigo. Apesar de ter apenas dois anos a mais do que o amigo que acabara de completar 12 anos, Solk já possuía o porte físico de um rapaz mais velho, porém muito desengonçado com as novas dimensões.
— Relaxa, Luca, enquanto eles acreditarem que eu sou muito mais velho eles não vão te perturbar mais. Luca sorriu e se lembrou da coragem do amigo ao se colocar entre ele e os meninos da rua de cima bradando para que não mexessem mais com ele, os fazendo correr apavorados.
- Espero que isso tenha efeito quando eu não tiver a sorte de você aparecer. — o desapontamento em sua voz era perceptível. Tentando mudar de assunto Solk falou:
- Vamos jogar vídeo game depois do almoço? – com um sorriso que fazia as meninas do colégio suspirarem, mas que o amigo de tantos anos já sabia que era uma tentativa de reanimá-lo.
Luca concordou e continuaram andando até chegarem a Rua Cachoeira, com suas pequenas casas coloridas, a calçada irregular e as árvores baixas que cresceram junto com os dois meninos. Ao cruzarem o primeiro poste começaram uma corrida rotineira para ver quem chegava antes ao último poste, mas antes que chegassem à metade do caminho Solk parou e puxou o amigo pelo braço, que quase caiu por parar bruscamente. Luca achou que o amigo estava tentando trapacear, mas Solk não estava mais correndo e olhava curiosamente para o outro lado da rua.
- Que luz é aquela?! – disse Solk intrigado. Luca se virou na direção que o amigo olhava e também notou algo anormal. Era uma luz muito brilhante que flutuava perto de uma árvore frondosa. Apesar da sombra da árvore, a luz ainda era muito forte.
Os dois se olharam como se hesitassem em ir até a estranha luminosidade que emanava do nada, mas a curiosidade dos meninos era maior. Foram andando muito vagarosamente na direção do brilho flutuante.
-Parece...um espelho. – gaguejou Solk enquanto examinava a superfície brilhante suspensa na sua frente.
Luca também observava curiosamente. Apesar de parecer um espelho, a tela brilhante não refletia a imagem dos meninos.
- Solk, se fosse um espelho apareceríamos nele... – disse enquanto se inclinava para olhar melhor dentro da tela, se aproximando mais do que deveria. Solk percebeu que Luca estava quase entrando em contato com “aquilo” e fez um movimento para afastar o amigo, mas foi tarde demais. Luca tocou a tela e Solk sentiu que o ombro do seu amigo sumiu do contato com a sua mão. Ele olhou para a tela e viu Luca dentro do “espelho” olhando assustado para fora.
- Luca! Você precisa voltar! – disse desesperadamente, mas antes que terminasse a frase, a luz se apagou e a tela sumiu. Solk agora estava sozinho na rua.
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