Os Contos De Greenfar

3 Perguntas e Respostas


Luca acordou no meio da noite respirando intensamente. Olhou para os dois lados da cama e percebeu que foi apenas um sonho. O mesmo sonho das últimas noites: o conhecido javali com pelo avermelhado sendo acariciado na cabeça pela mão de dedos longos e pálidos. Levantou-se, prendeu os longos cabelos e saiu pela porta de trás da casa em direção ao bosque.

A água corria no seu ritmo habitual no riacho que beirava o bosque e o separava das casas da aldeia do Povo das Rochas. Luca sentou-se nas raízes de uma grande árvore, que pelo peso do tempo e dos galhos de sua copa, se curvava sobre o rio formando a sombra de uma ponte sobre a água. O menino agora era um jovem de quase 20 anos e embora não fosse alto como sonhou ser quando criança, suas preocupações agora eram bem diferentes do que na época em que brincava na Rua Cachoeira.

Como seria sua vida se não tivesse ido para Greenfar? Se não tivesse tocado a passagem e simplesmente tivesse continuado seu caminho para casa com Solk? Como estariam sua família, os amigos? As memórias dessa época ficavam cada vez mais distantes. Será que Hadel teria aberto outra passagem para a Terra, ou mundo lógico como todos a chamavam? Teria ele trazido mais alguém de lá e feito prisioneiro, como tentou com Luca? De todas as dúvidas que vagavam por sua mente havia uma que era maior que todas as outras: seria possível voltar?

Antes que pudesse concluir seu pensamento, Luca ouviu passos leves se aproximando e sabia a quem pertenciam.

- Acredito que mesmo que eu fosse um Mago da Natureza e pudesse voar como uma borboleta você ouviria se eu me levantasse da cama, não? – disse Luca ainda olhando fixamente para a curva do riacho enquanto Fred se sentava com certa dificuldade ao seu lado.

- O javali de Hadel de novo, não? – não era necessária uma resposta de Luca para que Fred soubesse o que estava acontecendo.

- Todo o meu conhecimento de uma vida inteira viajando por Greenfar são insuficientes para sanar suas dúvidas, meu filho. Queria ter suas respostas, mas não possuo. O máximo que consigo é tentar fazê-lo feliz aqui.

- Eu não tenho dúvidas disso, Fred. Você sabe que te devo a minha vida e eu sou feliz aqui, mas é difícil não pensar no que teria acontecido... – Luca preferiu o silêncio a terminar a frase que Fred já tinha escutado tantas vezes desde o dia em que ele o encontrou fraco e doente no bosque, após sua fuga de Hadel.

Fred já tinha quase 9 eras de idade, o que pode ser comparado a quase 70 anos. Quando era jovem percebeu que não tinha habilidades com magia como seus amigos, então decidiu sair da aldeia e conhecer o mundo. Passou a vida viajando, conhecendo lugares, pessoas e lendas. Sua coragem se transformou em conhecimento, mas um dia percebeu que as pernas já não conseguiam carregar tudo o que aprendera, então decidiu voltar para casa com o objetivo de passar tudo o que viu para os mais jovens.

Foi recebido na aldeia do Povo das Rochas com muita festa e alegria, sendo rapidamente reconhecido e respeitado. Foi nomeado um dos conselheiros da aldeia, junto com Ayla, a Curandeira, e Ortiz, o Shamã.

Quebrando o silencio que havia se estabelecido, Luca disse um pouco vacilante:

- Fred, vamos entrar novamente na Era da Terra Acima. Pensei em tentar usar o livreto de Hadel. – apesar da serenidade característica de Fred, ele tinha receio em saber qual seria a sua reação quando dissesse isso.

Quando fugiu, Luca trouxe o livreto de Hadel, com todas as anotações que ele fizera enquanto tentava abrir uma passagem para o mundo lógico. Eles já haviam analisado tudo o que havia nele, mas não era simples. A mente de Hadel era confusa, assim como suas anotações. Uma das poucas conclusões a que conseguiram chegar era a necessidade de se fechar o ciclo das 7 eras para se abrir a passagem.

Fred segurou a respiração por alguns segundos. Ele sabia que enquanto o ciclo das eras não se encerrasse o assunto não seria um problema, mas havia chegado a hora que ele mais temia.

- Luca, não sei se você deve...é arriscado. Além disso, você realmente quer voltar? – sua pergunta tinha mais por trás do que as palavras podiam expressar. Fred tinha Luca como um filho. Percebendo que poderia ter ferido os sentimentos de Fred, Luca logo corrigiu.

- Eu preciso de respostas, esclarecimentos...qualquer coisa, Fred. Não consigo ter uma vida plena, aqui ou em qualquer lugar com tantas perguntas sem resposta.

Um turbilhão de sentimentos tomou conta de Fred. Ele não queria perder Luca, mas sabia que ele só seria realmente feliz se pudesse entender melhor o que aconteceu e talvez, tendo suas respostas, ele escolheria ficar em Greenfar. Era um risco muito alto, mas necessário. E ele não deixaria Luca fazer isso sozinho.

Com um longo suspiro, Fred disse:

- Está bem. Vou ajudá-lo, mas precisaremos avisar Ayla. E não será fácil convencê-la.

Luca sabia que convencer Ayla seria talvez tão complicado quanto abrir uma passagem, mas o apoio de Fred o deixava muito confiante. Continuaram sentados na beira do riacho, aguardando o sol nascer por completo para irem até a casa de Ayla.