Os Condenados

2 Me Meto Em Uma Grande Confusão.


Notas iniciais
Como alguém pareceu gostar, estou postando mais um cap.
Para você Karli.

Capítulo 2

- O teste nem foi tão difícil assim, — Katrina não tinha parado de repetir essa mesma frase, desde que tínhamos saído da sala de aula – era quase impossível não perceber sua grande vontade de romper o silencio que havia se instalado entre nós desde então – Quer dizer, bem... eu pensei que seria um tipo de besta de sete cabeças, mas até que foi fácil, bom... hã... eu achei, você não achou?

Estávamos agora no refeitório, esperando o sinal para a aula de Trigonometria. Havíamos sido praticamente “chutadas” para fora da sala, depois de terminar a prova, por uma Srta. Bones, que parecia mais do que satisfeita em se ver livre de nós, e utilizando a desculpa de que se continuássemos na sala atrapalharíamos os outros alunos, que segundo ela, não tinham a mesma “capacidade” de terminar a prova em tempo Record como nós, as vezes acho que ela não gosta muito de mim, mas enfim. Agora estávamos sentadas em uma da ultimas mesas ao canto esquerdo do refeitório, mais uma vez, em silencio sepulcral. Eu não tinha mais aquela vontade de conversar com Katrina, que eu havia tido anteriormente na aula de História. Não me parecia mais tão interessante quanto antes.

Eu estava frustrada por não ter visto Carly ou Tessie, desde a entrada, apesar de eu ter querido muito me livrar delas naquele momento, eu não tenho muitos amigos por aqui, elas me fazem muita falta quando não estão por perto.

— Keyce, você por acaso está me ouvindo? – Katrina me chamava enquanto acenava freneticamente com a mão em frente ao meu rosto.

- A sim... hã... me desculpe Katrina, eu viajei por um momento, mas o que foi mesmo que você estava dizendo? – eu sabia que se ela começasse a tagarelar outra vez, eu começaria a cochilar, então tinha que me manter em ação – Katrina, você por um acaso não viu Carly ou Tessie depois da entrada viu? – eu interrompi a sua detalhada sinopse sobre a questão número 5, que na verdade se tratava sobre uma revisão sobre a Segunda Guerra Mundial, e os ideais que levaram a ela, sabia que estava sendo um pouco rude perguntando de Carly e Tessie para ela, mas eu não consegui controlar a vontade de fazer essa pergunta, o que posso fazer? Eu estava curiosa.

— Bem, pra falar a verdade, eu não as vejo desde a entrada também, me desculpe – de repente ela parecia extremamente tímida, acho que deve ter percebido o quanto eu estava desinteressada no que ela me dizia, me senti culpada, afinal, ela só estava tentando ser legal – Ma elas tinham as mesmas aulas que você não é? Ainda devem estar fazendo a prova, mas não devem demorar pra aparecer – ela desviou o olhar de mim e apoiou os cotovelos na mesa, e a cabeça nas mãos, olhando distraidamente através da saída.

— Você deve estar certa, por um momento eu havia até me esquecido de que elas estavam na sala junto com a gente, você me distraiu muito bem sabia? – agora era esperar e ver se funcionava.

— Bem, obrigada.- derrepente ela parecia ter recuperado toda a sua euforia de antes — Esse é um dos meus dons, as pessoas ficam tão fascinadas pela minha pessoa que se esquecem do mundo a sua volta, mas relaxe, você não foi a primeira e garanto, não vai ser a última tão pouco. – ela piscou pra mim.

Silencio.

Então eu ri.

Eu gargalhei ta naturalmente como eu não fazia desde muito tempo atrás.

Ela parecia tão cômica com sua sobrancelha esquerda arqueada e sua expressão interrogativa, que eu não pude resistir.

— Você é meio convencida não é? – eu finalmente tinha me recuperado do meu ataque de risos, e agora a encarava novamente.

— Não, eu não sou uma convencida, só dou o devido valor as minhas qualidades. – um incontestável ar de naturalidade revestia as suas palavras. – Você deveria fazer a mesma coisa, se quer saber.

Confesso que eu fiquei meio confusa, mas logo ela voltou a fazer caretas e eu voltei a rir novamente.

Depois de um tempo, lá estávamos nós, feito duas bobas alegres, rindo uma da cara da outra, quando ouvimos o sinal para o terceiro tempo das aulas tocar.

A aula de Trigonometria era a que eu menos gostava, não pela matéria em si, mas sim pela professora que a ensinava.

A Sra. Vaine era uma mulher viúva, e na opinião de Carly, mal amada, de 53 anos, que vivia para lamentar a morte do seu marido, o Sr. Vaine, e descontar nos alunos suas frustrações pessoais, à mais de 10 anos, sempre reclamando da vida e do emprego que tinha, já que segundo ela, o salário de professora era muito baixo para ter de aguentar todos os dias aqueles adolescentes rebeldes, que não tinha o devido respeito pelos mais velhos e que achavam que tinham razão em tudo.

Agora eu enfrentaria a difícil missão de ficar acordada diante da voz sonífera da Sra. Vaine.

Enquanto Katrina e eu caminhávamos pelo corredor, que estava cada vez mais abarrotado de alunos, que saiam de todos os lados, eu recebia olhares curiosos.

Katrina parecia alheia a toda essa atenção que estávamos recebendo, presa e seu próprio mundo particular, mas eu estava plenamente consciente do peso de seus olhos sobre mim, e eu não precisava ser algum tipo de telepata pra tentar adivinhar o que todos estavam pensando.

“O que elas estão fazendo juntas?”

Boa pergunta, me conte quando achar a resposta.

Quer dizer, eu não achava que ela realmente fosse ficar me acompanhando a todo lugar como ela perecia estar fazendo.

Quando chagamos a porta da sala da Sra. Vaine, Carly e Tessie estavam me esperando, cada qual de um lado do batente d porta.

O olhar que Carly lançou a Katrina fez até mesmo a mim me sentir mal. Parecia que aos seus olhos ela tinha algum tipo de doença contagiosa, a qual, se eu me aproximasse mais, seria contaminada e, o pior, parecia que não havia cura para ela.

Tessie, por outro lado, nos dispensou um sorriso amigável, ela não parecia compartilhar das mesmas opiniões que Carly tinha para com Katrina.

Isso era um alivio.

No entanto, o próprio alvo dessas reações continuava caminhando ao meu lado, parecendo ao menos notar o que estava acontecendo a sua volta, depois eu é que era a distraída, mas ela parecia tão fortemente protegida na sua própria realidade, como se estivesse em uma caixa de vidro, e nada pudesse atingi-la. Quisera eu saber fazer isso.

Quatro segundos mais tarde, Katrina pareceu perceber onde estávamos, com quem estávamos, e os olhares hostis que eram lançados a ela. Por um momento ela pereceu estar extremamente chocada, como se alguém tivesse lhe dado um tapa na cara, mas rapidamente se recuperou.

A despedida saiu tão rapidamente de seus lábios que eu quase não a compreendi, e muito menos tive tempo de responder, enquanto ela sumia apressadamente pelo corredor cada vez mais entulhado de alunos, falantes e entretidos nos seus próprios afazeres.

— O que você pensa que estava fazendo com ela? – a voz de Carly era sibilante – Quer acabar com a sua imagem por acaso? Sabe quem ela é? E o que todos acham dela? É praticamente suicídio social andar com essa garota!

— Não. Eu não sei quem ela é. E não ligo para o suicídio social tão pouco. – eu estava cada vez mais cansada desse comportamento esnobe dela, podíamos ser amigas, mas não concordávamos em tudo e nem tínhamos as mesmas opiniões. – E também não vou querer sabem que ela é. Ela é uma garota legal. É o que me importa.

— Acho que Keyce tem razão Carly – Tessie se encolheu sobre o olhar mortal que Carly lhe lançou, então acho que não deve ter visto o meu, totalmente agradecido pelo seu apoio – Sabe... ela não... parece ser tão ruim assim. Talvez o que digam dela por ai seja... mentira, ou talvez... exagero.

— Tessie tem toda razão, Carly – eu me intrometi antes que Carly começasse a desfiar toda a sua teia de grosserias para cima de Tessie, que provavelmente ficaria chateada pelo resto da semana.- Mas me lembre uma coisa, desde quando você começou a agir como se fosse melhor do que todo mundo? E porque nós continuamos amigas depois disso?

— Não fui eu que mudou Keyce, foi você. Agora só me resta descobrir o que foi que te aconteceu para que você adquirisse esse senso ridículo de proteção para com os fracos e oprimidos. Você não era desse jeito. – ela parecia prestes a soltar fogo pelas ventas a qualquer minuto – Vai me responder ou não?

— Eu sei muito bem que você não precisa de uma resposta minha para tirar suas próprias conclusões – e de fato ela não precisava de uma resposta minha, pelo que eu conhecia dela, o que eu achava absurdamente pouco agora, ela já devia estar vivendo a sua própria teoria da conspiração sobre os motivos da minha mudança súbita, segundo ela. – Mas já que você insiste, terá uma.

Carly me encarava fixamente, esperando. Tessie estava acuada na parede do corredor, mas parecia pronta para se meter entre nós e separar uma possível briga que começaria.

— A algum tempo atrás eu comecei a prestar atenção em volta, e ao só no meu próprio umbigo – pensei no motivo que tinha me feito fazer isso – Percebi que todos tem alegrias e tristezas, que todos merecem a mesma consideração, e que também não devemos fazer julgamentos de pessoas que não conhecemos – ela continuava a me encarar, seu rosto de linhas perfeitas, cada vez mais retorcido em uma mascara de desgosto – E essa sua imagem que você tanto se orgulha de ter, e se esforça para manter – ela deu um passo na minha direção – É só mais uma das suas futilidades de menina mimada.

Eu estava tão concentrada na face incrédula e furiosa, e nas reações de Carly, que não havia notado um fato que me cercava por todos os lados.

Tínhamos plateia.

Uma pequena multidão de alunos e funcionários estava parada em torno de nós, pareciam ter saído de todos os lugares possíveis para lotar a corredor e ver nosso show. Dentre eles estava a Sra. Vaine, com sua mesma expressão rabugenta de sempre. Minha vontade naquele momento era de mandar todos irem cuidar das suas próprias vidas, mas eu já estava bastante encrencada no momento, não precisava piorar ainda mais a minha situação.

— Por favor – a Srta. Bones havia surgido do meio da multidão e parecia ter sido a primeira a se recuperar do silencio que havia se instalado no ambiente, logo depois do meu pequeno discurso sobre os direitos iguais para todos os seres humanos – As três, me acompanhem ate a sala do diretor – ela apontou para Carly e eu, nomeio da roda de pessoas, e uma Tessie encolhida no canto da parede, ao que parece, estava tentando se camuflar no verde desbotado que as recobria para tentar passar despercebida no meio de todo aquele alvoroço, mas não pareceu ser muito eficaz. A cor escarlate que dominava o seu rosto denunciava a sua vergonha por ter sido notada, e também por ser o centro das atenções quando dezenas de cabeças se viraram para acompanhar o gesto da Srta. Bones, parando diretamente nela. – E quanto aos outros, — ela se virou para os nossos espectadores – Vocês por acaso não tem aula? Seja como for, vamos circular pessoal, não há mais nada para se ver por aqui, o show já terminou.

Em meio minuto a confusão já estava completamente desfeita, e o corredor estava limpo e deserto, como se ninguém estivesse estado por lá.

— Desculpe, Srta. Bones, mas acho que Tessie não precisa ser envolvida nisso, quer dizer... como a senhorita deve ter visto, a discussão foi só entre mim e Carly. Ela não fez parte disso – eu não achava justo eu Tessie fosse envolvida em uma coisa que nem deve ter entendido direito, mas Carly ao menos parecia se importar com o fato de ela poderia ser acusada de algo injustamente, pelo jeito, agora ela só está preocupada em salvar o próprio pescoço magrelo.

— Acho que você está certa Keyce, — eu não pude conter o meu suspiro de alivio – Mas acho que não tem como livra-la de nos acompanhar, participando ou não, ela presenciou o que aconteceu, então, pelo sim e pelo não, ela vem conosco, não quero arriscar.

Seguimos o caminho todo em total silencio, nesse meio tempo eu parei pra pensar no porque eu estava fazendo esse percurso agora.

Eu havia brigado com Carly, minha amiga de anos, por causa de uma garota que eu, praticamente, tinha acabado de conhecer hoje, logicamente eu não estava tirando a culpa da atitudes de Carly, ela não deveria agir dessa maneira com ninguém, mas o que eu fiz, agora estava me perecendo tão... ilógico. Geralmente em uma situação dessas, eu não criaria muito caso.

***

O diretor, o Sr. Tompson, estava sentado em sua grande cadeira estofada quando chegamos a sua sala, parecia estar entediado, enquanto olhava para as pilhas de pastas cheias de papeis, que precisavam ser lidos, aprovados, reprovados e respondidos, fora as informações de alunos, novos, aprovados, reprovados, transferidos, e os que haviam causado confusão. Eu tinha certeza de que na manha seguinte haveria um novo relatório sobre a mesa já bem cheia do Sr. Tompson. O nosso.

Ficamos paradas, em frente a sua mesa até que ele percebesse a nossa presença, desviando assim, seu olhar da papelada em que estava concentrado para nós. Pela primeira vez, olhei ao meu redor, para Carly e Tessie, e também para a Srta. Bones, e, eu realmente me arrependi de ter feito isso.

Carly tinha um expressão afetada e irritada, mas não parecia nem um pouco abalada. Seu orgulho continuava intacto. Eu tinha serias duvidas de que algo pudesse danifica-lo, quem sabe, talvez se uma manada de rinocerontes raivosos o pisoteasse teria algum efeito?

Tessie, por outro lado, não parava de vasculhar a sala com os olhos, provavelmente procurando algum lugar para se esconder, tamanha era a sua vergonha de estar ali, mas quando me pegou a encarando, ela formou um “obrigada” mudo com os lábios, provavelmente por eu ter tentado, mesmo que tenha sido em vão, mantê-la fora dessa tremenda confusão.

Esperamos pacientemente durante mais ou menos 5 minutos, enquanto o Sr. Tompson lia com atenção uma pasta entitulada: “Alunos Acima da Média”. Eu diria que estava bem interessante, já que ele ao menos piscava.

Isso parecia estar irritando profundamente Srta. Bones, todos sabiam o quanto ela odiava ser ignorada quando tinha algo para falar, bem ao menos quase todos sabiam disso. Mas eu acho que ela não iria gritar com o diretor. Apenas acho.

Ela pigareou, sua irritação quase palpável.

Ele finalmente pareceu perceber a nossa presença em sua sala, nos dando um sorriso amigável, resplandescente. Isso acabou comigo.

Notas finais
preciso realmente de opiniões, então, comentem please!!