Os Cinco Elementos
2 Um plano Incerto
Notas iniciais
Alden estava aproveitando seu passeio, já não se importava com a velocidade, se ele pudesse ficaria horas naquela balsa apenas sentindo o movimento do rio, ao seu redor podia-se ver os outros rios se aproximando, lembrara que de longe eram apenas linhas desenhas nas montanhas e agora estava desbravando-as, a paisagem ao seu redor começou a mudar, as pedras e rochas que cobriam o solo estavam sendo substituídas por arbustos e arvores, o declive acentuado se transformara em uma leve descida, percebeu que havia chegado a base do morro e logo sua balsa entraria no grande rio que cortava sua aldeia. Lembrou-se de que o grande rio possuía em seu trajeto partes planas nas qual a intensidade da correnteza diminuía e outras em declive na qual seria impossível para ele saltar da embarcação, pois a correnteza ficava muito violenta e diminuía suas chances de desembarcar com segurança.
Ao entrar no grande rio, Alden entendeu a dimensão do lugar onde morava, ao longe podia ver sua pequena aldeia, com muitos pontinhos se mexendo, todos atribulados, olhou para a floresta que estava a sua esquerda, com arvores enormes, de tão grandes pareciam igualar-se aos morros que cobriam as bases das montanhas, sentia-se pequeno ao vê-las, observava com carinho as águas que desciam dos morros, tinha a impressão de que os rios se abraçavam quando se encontravam. Esta experiência tinha mudado algo em seu interior, agora possuía algo intenso queimando dentro dele que lhe dava um sentimento de querer seguir em frente.
Navegou por alguns instantes pelo grande rio, olhou a frente e sua vila estava mais visível que antes, conseguia distinguir as pessoas e já avistava as pontes de corda, logo estaria na parte mais plana do descampado onde seria possível realizar o desembarque. Em poucos segundo a balsa diminuiu a velocidade, o que fez Alden perceber que estava próximo a sua parada, pois mais alguns metros a frente havia outro declive e essa era a melhor chance de desembarcar. Remou com as mãos até a balsa chegar próximo o suficiente da margem verificou se o cipó que amarrara no tronco estava firme, verificou se a outra ponta estava amarrada em sua cintura e sem pensar duas vezes deu um salto caindo em pé na margem do rio dando dois ou três passos a frente, teve sucesso em seu plano, tudo ocorrera exatamente como o jovem pensou.
Ao firmar os pés no chão sentiu um tranco vindo do cipó, a balsa que estava carregada de pedras ainda estava sendo levada pela correnteza do rio e ao tentar impedi-la de continuar seu trajeto tomou um solavanco, sendo arrastado. O jovem foi jogado na água com enorme violência alem do mais a balsa estava chegando próximo onde a correnteza se tornava muito mais forte e violenta, lutava sem sucesso para desamarrar o cipó que estava preso em sua cintura, o cipó alem de encharcado estava com um nó que ficava mais apertado a medida que se puxava uma das pontas, era quase impossível se livrar daquela situação.
Alden olhou para frente novamente e avistou o declive, não havia mais tempo a perder, pegou a faca que seu tio lhe presenteara, mas ao saca-la tomou mais um puxão da balsa que o fez perde-la , a balsa tinha chegado ao declive e começou a arrastá-lo com uma força incrível. Alden estava chegando próximo a uma das pontes de corda quando os aldeões o avistaram e ouviram seus gritos de socorro, muitos correram para tentar ajudá-lo, mas não conseguiam alcançá-lo, e quando estava quase se afogando, a balsa bateu na primeira rede de pesca que estava içada, diminuindo a velocidade. Isso permitiu que Alden se agarrasse a balsa e não mais fosse arrastado pelo cipó, mas foi apenas um breve momento de alivio, a balsa voltou a acelerar após passar pela rede indo em direção a segunda e penúltima ponte de corda.
Próximo a ponte estavam seu tio e sua mãe que correram até o meio carregando uma corda, na esperança de resgatá-lo. A balsa bateu novamente em uma rede que estava içada e acertou a outra balsa localizada no centro do rio, arrastando todo o equipamento de pesca com ela. Nesse meio tempo Meledes foi rápido, jogou a corda com um laço na ponta para seu sobrinho e amarrou firmemente na ponte. Alden segurou desesperadamente a corda jogada por seu tio, ao segura-la começou a desamarrar o cipó que estava em sua cintura, mas a balsa deu mais um solavanco, jogando o jovem novamente na água, agora Alden estava preso a duas cordas, uma amarrada a ponte e a outra presa na balsa, rumo ao precipício.
Ao perceber um alvoroço Heladen, que estava organizando algumas sementes em seu celeiro, correu para fora verificar o que estava acontecendo, quando se deparou com a cena de seu filho sendo arrastado pela balsa. Olhou ao seu redor para achar alguma vara ou até um pedaço de tronco, quando avistou Meledes no meio da ponte lançando uma corda. Apressou-se para ajudar seu filho e quando estava próximo a margem a ponte de cordas onde estava seu irmão e sua esposa rompeu-se, jogando-os no rio. Heladen agarrou-se a ponte segurando Albeia em seus braços, os aldeões que estavam próximo dali retiraram os dois da água e puxaram a ponte para fora do rio, quando Meledes se deu conta do que havia acontecido levantou rapidamente e correu em direção a próxima ponte onde estava a ultima rede de pesca.
Heladen que assistiu o ocorrido tinha avançado para a ultima ponte de corda muito antes de tirarem Meledes da água, gritou para os pescadores que estavam se preparando para abaixar as redes que não o fizesse, mas a rede já estava baixa o suficiente para permitir que a balsa passasse livremente por baixo da ponte. Heladen pulou no rio agarrando-se a corda que Meledes utilizara para laçar Alden e foi sendo arrastado junto com seu filho, o jovem que já estava quase desmaiado ouviu os gritos de seu pai e retomou a consciência, percebeu que estava indo em direção a queda do precipício e não tinha se desvencilhado do nó em sua cintura. Mas ao passar pela ponte Heladen conseguiu agarrar uma das cordas que içavam a rede de pesca, os pescadores que estavam na margem do rio o agarraram e começaram a puxá-lo, Meledes chegou rapidamente ao local e também se agarrou a corda. Nesta parte do rio havia muitas rochas e mais a frente a balsa se prendeu entre uma fileira delas, dificultando a retirada de Alden do rio, mas isso deu ao jovem tempo suficiente para se agarrar a uma rocha que estava próxima. Quando conseguiu subir em cima dela começou a cortar o cipó, que estava preso em sua cintura, esfregando na parte pontuda da rocha e finalmente conseguiu cortá-lo, a balsa que estava entre as rochas se desprendeu seguindo a correnteza e o jovem livrou-se de ser arrastado por ela novamente.
A corda que seu tio lançara anteriormente estava presa em seu pulso, a outra ponta os pescadores amarram em um tronco que servia de sustentação para a ponte, pois era a parte que estava mais fixa e que podia agüentar o arrasto até mesmo da balsa na qual Alden estava preso mesmo assim seu pai e seu tio seguravam a corda com todas as forças que possuíam, ainda tinham medo de que algo acontecesse, mas os pescadores que ali estavam começaram a acalmar um pouco a situação. Observaram que a corda estava quase se partindo bem no meio então não era seguro puxar o jovem com ela naquele estado, assim um dos pescadores pegou mais uma corda, amarrou sua ponta no tronco de sustentação e a jogou para Alden, como ele estava muito longe não conseguiram jogar próximo o suficiente para que ele a agarrasse tendo assim que repetir o processo novamente. Baraden, que também fazia parte do grupo de salvamento, era muito impaciente e não queria ficar assistindo os pescadores tentarem fisgar seu irmão então pegou a corda longa o suficiente e amarrou em sua cintura, deixando um bom pedaço de corda para amarrar em seu irmão, pulou na água e nadou em sua direção, Baraden era um excelente nadador, se a situação fosse contraria ele conseguiria sair das pedras sem dificuldades, já Alden não sabia nadar direito e mesmo se soubesse não tinha muitas forças para vencer a correnteza naquelas condições. Baraden chegou até seu irmão, segurou-se na pedra e subiu, ao começar a fazer o nó ouviu um grito, olhou para frente e viu o outro pedaço da ponte de corda vindo em sua direção, as amarrações feitas na outra margem tinham se soltado.
Alden levantou-se rapidamente, queria poder reagir de uma maneira melhor, mas só consegui pensar em uma opção, empurrou Baraden para a água tirando-o da zona de perigo e por fim deixou a ponte chocar-se contra seu corpo. A corda que seu pai e seu tio seguravam arrebentou com o impacto permitindo que o jovem fosse arrastado pelo rio até chegar ao precipício onde em instantes sumiu da vista de todos, Heladen caiu de joelhos chorando enquanto Meledes ficou sentado atônito por não poder fazer nada, Baraden queria seguir nadando atrás de Alden, mas os pescadores o puxaram de volta tentando conte-lo como podiam. A Noite chegou e todos se recolheram, mas a tristeza pelo jovem era grande, tanta que na manha seguinte os anciões organizaram uma homenagem a ele, no centro de sua vila onde havia uma pequena praça comercial, foi posto um pequeno obelisco esculpido em pedra e sua base foi coroada com pedras negras simbolizando seu oficio. Ao anoitecer foi feita uma cerimônia típica desta tribo para ocasiões em que se perdiam pessoas amadas, na qual a família crema o corpo e joga suas cinzas ao rio junto com flores ou sementes, como um ritual de purificação para apagar as energias ruins, mas não havia cinzas para serem lançadas, as únicas coisas que tocaram o rio foram as flores jogadas pelos aldeões e as lagrimas de sua família.
....
Acordou sem saber onde estava e não sabia se seus olhos estavam abertos ou fechados, sentia seu corpo cansado, dolorido não conseguindo se mexer, tentou olhar ao seu redor e havia apenas escuridão, pensou: “Estou morto?”.
Alguns momentos depois os destroços da ponte, com Alden preso entre eles, entraram em uma área mais iluminada na qual finalmente o jovem percebeu que não estava realmente morto, mas também não estava mais em sua aldeia, sentia frio, fome e muitas dores, estava vivo só não sabia como. Mais alguns metros a frente era possível ver um lago, onde vagarosamente os destroços se dirigiram até parar completamente bem no meio, onde uma cálida luz se projetava por entre as árvores atingindo seu corpo. Seus olhos começaram a se acostumar com a iluminação, Alden se lembrara do que ocorrera e como tinha chegado a este lugar, ainda ouvia as vozes de seu pai e tio gritando seu nome e da ponte batendo em seu corpo depois disso não conseguia lembrar-se de mais nada. Com muito cuidado se levantou verificando seu corpo, não sentia nenhum osso quebrado, mas suas mãos, pernas e costas estavam com escoriações e em seu peito um corte na transversal começando do ombro direito e terminando próximo a cintura, sentiu um liquido quente cair entre os olhos embaçando sua vista, seu supercílio também estava cortado. Alden olhou ao redor e procurando um caminho para seguir, mergulhou na água com alguns troncos servindo de bóia, e remou até a margem direita do lago, sentou-se ali e limpou seu corpo. Ele não sabia quanto tempo ficara desacordado flutuando pelo rio, mas sabia que estava muito longe de casa e que para voltar precisava seguir o rio até o grande precipício e tentar escalá-lo, levantou-se e olhou novamente em volta tentando achar algo para comer, aos poucos se embrenhou na floresta até o ponto de não escutar mais o rio em que estava, após mais alguns passos quando já estava desistindo de procurar comida avistou algo que tomou totalmente sua atenção.
Ela estava em pé no galho de uma árvore procurando por algo, era possível ver todo seu contorno, em suas delicadas mãos estava uma lança com ponta de pedra, ele se aproximou mais, estava fascinado com o que vira, era uma jovem que trajava roupas de pele, seus cabelos eram escuros, mas não mais que seus olhos. O jovem estava acostumado com sua tribo onde todos possuíam pele levemente bronzeada e cabelos castanhos, variando de castanho claro a castanho escuro e o padrão de cores das Iris variava de castanho escuro e castanho médio. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi a cor da pele, um marrom vivo e elegante, como nunca vira antes.
Antes de o jovem tentar fazer contato com a desconhecida, ouviu um rugido enorme vindo do centro da floresta, uma enorme fera estava correndo descontroladamente em sua direção, olhou para cima e ele havia sumido, estava sozinho de frente com algo animalesco, sem saber o que fazer ou para onde ir sua melhor opção foi correr de volta por onde viera, mas a fera já estava em seu encalço e ele a sentia cada vez mais próxima, seu corpo estava parando de responder aos comandos o cansaço e a fome começaram a atrapalhar a sua fuga, mais alguns passos e ele seria pego pela “coisa” que o perseguia.
Em instantes Alden sentiu seu corpo tocar o chão, estava caído de bruços olhando a sombra da fera se aproximar cada vez mais, sentia sua respiração e a ouvia emitir leves grunhidos que o aterrorizaram. O jovem virou-se para encarar seu algoz, a criatura estava com suas patas levantadas mostrando suas garras, que eram tão grandes e afiadas quanto os facões que seu tio confeccionava, tinha a altura de dois homens e um corpo largo e truculento que parecia resistir a qualquer ataque.
Naquele momento Alden perdeu suas esperanças, não possuía nenhuma arma, não havia ninguém para ajudá-lo e tão pouco um plano de fuga para sair daquela situação.
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