Os Cinco Elementos

1 Aprendendo a Aprender


Notas iniciais
Muitas histórias começam com heróis míticos que caçam monstros e salvam donzelas, de cenários cheios de criaturas malignas, magos, dragões, gigantes e deuses. Mas como realmente surgem estes heróis?Nos contos mais comuns, são pessoas que simplesmente surgem do nada com poderes titânicos e armas invencíveis conseguindo sempre no ultimo minuto, quando todos perderam as esperanças, mudar totalmente o cenário salvando o dia.Mas existe uma história que quase foi esquecida pelos antigos menestréis, um conto quase perdido e de tão simples muitos ignoram a magnitude de seu significado. O famoso conto dos cinco elementos.

Por décadas os homens buscam aprimorar a tecnologia para aumentar seu conforto, criamos carros, aviões, computadores e maquinas que fazem o trabalho de mil homens. Mas o que os homens faziam quando não havia tamanho progresso tecnológico em seu dia-a-dia?

Essa historia começa muito antes dos heróis míticos e cavaleiros matadores de dragões, antes da separação dos continentes, em num lugar quase impossível de se imaginar, existia uma tribo, num povoado com pequenas fazendolas localizado no centro de um imenso descampado, onde era possível ver um mar verde de gramíneas balançando ao vento de forma que as ondulações lembravam uma leve correnteza percorrendo toda área. Ao redor do descampado havia três grandes montanhas que cercavam toda a parte norte, como uma grande muralha, abraçando o descampado em forma de lua, a seus pés vários morros donde se podia visualizar varias linhas prateadas desenhando pequenas veias que ao unir-se logo à frente criavam um grande rio, cortando toda a área em duas partes. Ainda a Leste do descampado havia uma floresta com variados tipos de árvores, que cobria toda a base da montanha direita, estendendo-se por todo o lado leste como um grande murro. Ao sul estava um lugar não muito freqüentado pelos moradores locais, era um local dito perigoso pelos anciões, onde o grande rio “desaparecia”, lá se encontrava um enorme precipício em declínio angular, na qual o rio descia com grande força abrindo caminho entre rochas, podia-se observar todo seu trajeto até que atingisse logo abaixo uma floresta tão densa que era impossível enxergar o solo.

Mas nada disso incomodava esses moradores, pois como viviam no centro do descampado próximo ao grande rio, conseguiam viver muito bem sem ter que sair de sua zona segurança, já que alguns tinham conhecimento em agricultura, plantavam diferentes tipos de grãos, hortaliças e leguminosas. Outros possuíam conhecimento em pesca, o que facilitava a procura de alimento, pois o rio possuía, na parte central, uma depressão côncava com pouca correnteza, na qual os peixes se acumulavam, criando assim um imenso tanque de pesca. Havia também caçadores, coletores, artesãos, ferramenteiros e uma infinidade de ofícios que fazia a aldeia prosperar organizadamente. Eram poucos, mas também poderiam ser encontrados, se assim posso chamá-los, pequenos comerciantes que praticavam escambo, trocando diversos tipos de mercadorias que facilitava a vida dos habitantes locais, entre elas uma das mais procuradas era uma ferramenta semelhante a uma foice, mas não era feita de aço e sim uma pedra escura extremamente dura que quando aquecida ficava maleável sendo possível entalhar o gume e afiá-la. Uma variação desta ferramenta era um facão feito com o mesmo material porem com dois tipos de gume, um era serrilhado para cortes grosseiros o outro era bem fino, utilizado para cortes de maior precisão. Todos viviam em grande harmonia, pois não havia ganância ou desejo de riqueza, sua sociedade tinha como base apenas viver bem e não com luxo. Não havia interesse em cruzar as grandes montanhas ou descer até a floresta alem do precipício para caçar ou coletar novas espécies de plantas, o conforto de sua sociedade era o suficiente para alegrá-los, seus dias eram de paz e passava tão vagarosamente que não era preciso contá-los.

Em todas as civilizações já existentes e até hoje, temos muitos indivíduos que se destacam por suas habilidades, uns são mais fortes, outros mais rápidos, alguns inteligentes, gerando uma diversidade muito grande. E neste povoado não era diferente, por mais primitiva que seja em uma sociedade teremos sempre uma variedade muito grande habilidades. Mas também temos aqueles que não são tão rápidos, fortes, inteligentes, que pouco se destacam e que não demonstram possuir qualquer habilidade que os separam dos demais. Nesta tribo havia um jovem que era exatamente este tipo de pessoa: simples desprendido de preocupações, passava os seus dias sonhando acordado olhando para nuvens durante horas apenas imaginando o que as fazia ser tão lindas, observando a correnteza do rio fluir com todo seu esplendor e admirando o balançar das arvores em uma dança continua e coreografada, seu nome era Alden. Um rapaz despreocupado que não tinha objetivos em sua vida, seu maior prazer era não fazer nada, sempre escapava das tarefas passadas pelos seus pais, deixando todo o trabalho para seus irmãos, principalmente para o mais velho Baraden, que era o encarregado de cuidar dos seus irmãos enquanto seus pais não estavam. Elza, a irmã do meio, sempre tentava dar um sermão no rapaz sobre a importância de ajudá-los em seus serviços, mas quando o discurso começava Alden fugia deixando sua irmã falando sozinha.

Heladen era o pai desses garotos e tinha como oficio a agricultura, cultivava grão dos mais variados: feijão, milho, ervilhas, trigo e muitos outros. Alem de plantar um certo tipo fumo que crescia em tufos e era muito famoso por entre os anciões, que não faziam outra coisa alem de fumar e jogar conversa fora. Heladen era famoso por seu método de cultivo, pois em sua pequena fazendola possuía uma divisão de seis áreas. Ele aprimorou o método de seu pai Ataíren, que dividia em três áreas de cultivo e plantava todas as sementes em uma das áreas e a cada lua nova iniciava o processo para a área seguinte, criando um ciclo continuo de plantio e colheita, porem alguns grãos não cresciam havendo assim muito desperdício de sementes. Descobriu que em certas épocas alguns grãos cresciam com maior facilidade, já outros nem germinavam. Então durante anos ele testou em seis divisões cada grão até descobrir em qual ordem deveria plantar as sementes e em quantas luas nova elas chegariam ao ponto de colheita, aproveitando melhor o tempo que tinha para acelerar o processo de agricultura.

Baraden estava sempre com seu pai aprendendo tudo o que ensinava, em pouco tempo já conseguia realizar os serviços sozinhos sem ajuda, plantando as sementes exatamente como seu pai explicara. Já Alden não se interessava pelas descobertas de seu pai, na verdade não se interessava por nada ali em sua Aldeia, o jovem tentara todo tipo de serviço porem nada o agradava. Seu pai tentou ensiná-lo os segredos da agricultura, mas o jovem nunca lembrava em qual área deveria plantar as sementes, não demorou muito para desistir e procurar outra ocupação. Trabalhou com sua mãe, Albeia, realizando pequenos serviços de artesanato, também não foi muito bem nesta ocupação já que não conseguia moldar sequer um pequeno pote de barro, ele não tinha delicadeza suficiente para acariciar o barro e dar-lhe forma. Até que decidiu trabalhar com seu tio, Meledes, pedindo que o deixasse aprender o oficio de escultor ferramenteiro, laminando as pedras negras para confeccionar ferramentas de corte. Seu tio explicou todo o processo, esclarecendo da melhor forma o processo de aquecimento, pois se aquecê-la demais fica porosa e quebradiça, mas se a temperatura atingida não for suficiente a pedra não atinge a dureza necessária para ser modelada.

Como o jovem era muito distraído nunca conseguia retirar a pedra do fogo no momento certo, fazendo seu tio perder uma grande quantidade de matéria prima. Mas Meledes amava muito seu sobrinho e pensou em uma tarefa que o jovem poderia executar sem causar grandes estragos. Já que o jovem conhecia as pedras negras, após longas aulas com seu tio, Meledes o nomeou como seu coletor de matéria prima, pois como apenas os escultores, por trabalhar todos os dias com as pedras, conseguiam selecionar corretamente as melhores pedras e na época não havia animais para transportar uma grande quantidade deste material, todos os dias saiam pela manha para coletá-las e isso tomava um tempo muito grande.

Para encontrar as pedras era preciso ir até o pé da montanha central, onde encontravam as maiores e mais opacas, que eram mais fáceis de modelar, após a coleta colocavam a pedras em um cesto que carregavam como uma mochila em suas costas, amarrando firmemente para não perde-las pelo caminho. Como a viajem era cansativa muitos separavam alguns dias apenas para realizar as coletas e após acumular uma certa quantidade iniciavam a confecção de ferramentas. Alden aceitou o serviço e toda manha fazia o caminho até a montanha, era um caminho longo e cansativo, mas pela primeira vez não houve reclamações por parte do jovem, sentiu-se bem por realizar um trabalho que não necessitava ficar parado o dia inteiro repetindo o mesmo processo todos os dias. Isso acalmou um pouco seus ânimos, já que encontrara algo para fazer que era reconhecido como um oficio, ele não se sentia mais um qualquer, era um coletor de pedras.

Os dias foram passando e Alden trabalhava duro para seu tio, todos se espantaram com a dedicação do jovem, ele compreendeu as lições de seu tio e coletava pedras magníficas que geravam ferramentas extraordinárias, isso alegrou Meledes que pensava no próximo passo, retomar novamente as lições de escultor ferramenteiro.

Meledes não tinha filhos, por um acaso do destino sua esposa era estéril e como ele precisava passar seu conhecimento para um sucessor viu em Alden um grande potencial para herdar seu oficio, como Heladen tinha três filhos seria possível que um deles assumisse os negócios do pai e o outro os seus. Assim depois de algumas conversas Meledes e Heladen entraram em acordo, Alden seria o sucessor direto de Meledes e seu herdeiro direto. Isso encheu o coração de Meledes, pois suas esperanças de ter um filho já tinham acabado e não queria que sua vida terminasse sem significado. Mas ninguém ficou mais feliz que Elia, esposa de Meledes, pois finalmente tinha uma desculpa para mimar seu sobrinho, ela o adotou tão rápido que seu marido nem teve tempo de explicar o que conversara com Heladen.

Alden ganhou uma nova família que o amava tanto quanto seus pais biológicos, para facilitar seu aprendizado, mudou-se para a casa de seus tios, pois o objetivo era tomar lições diárias sobre o oficio de escultor ferramenteiro. Mas as lições eram quase um pretexto para seus tios, a companhia de Alden era o mais importante para eles. Passavam horas apenas conversando sobre qualquer coisa, Heladen não tinha pressa, seu maior prazer era conversar e dar risadas com seu sobrinho, Elia sentava-se com eles e apenas observava, era evidente que o clima em sua casa mudara, tinham um motivo de felicidade e sentia seu coração repleto de alegria. Alden não sabia, mas tinha se tornado não só um herdeiro de seus tios mas também o motivo de felicidade deles.

Certo dia, em mais uma viajem de coleta, o jovem começou a desenvolver um pouco da curiosidade que herdara do pai, como a abundancia de pedras negras na região central era muito grande, nenhum outro coletor as procurava longe dali, foi assim que Alden resolveu seguir outro caminho, seu destino era a base da Montanha Esquerda. O caminho era muito longo e como não passava muita gente por ali, não havia trilhas o que dificultou muito mais sua jornada. Mas Alden estava impulsionado por algo a mais, não importava a distancia, ele queria saber que tipo de pedras encontraria ao chegar. Finalmente ao pé da Montanha Esquerda Alden encontrou uma paisagem que nunca tinha visto antes, um mar de pedras cintilantes perfeitamente arredondadas que encantou seu olhar, ficou admirando o local por um tempo até que lembrou-se de seu trabalho, pois tinha que voltar com o material pedido pelo seu tio e tinha prometido não se perder em seu devaneios.

Alden ficou um bom tempo pensando em como poderia levar as pedras que seu tio pediu, também queria levar as pedras cintilantes que encontrara, mas não conseguia pensar em método para carregá-las. As pedras negras eram mais leves, então era possível carregar uma cesta cheia delas, mas as brancas eram muito mais pesadas, mesmo dividindo a cesta em duas camadas de pedras, ele não conseguia caminhar mais do que alguns passos antes de cair sentado pelo elevado peso. Sentado olhando para a correnteza de um dos rios que ali passava Alden viu uma folha cair na água e continuar flutuando sendo levada pelo rio, em segundos seus pensamentos começaram a conectar idéias até que se lembrou de um método que os pescadores utilizavam para chegar ao centro do rio para lançar as redes. O método era simples, eles utilizavam uma ponte de corda para atravessar o rio, embaixo da ponte havia um conjunto de troncos amarrados em formato de balsa, em cada ponta da balsa era amarrada uma corta que dava a volta em dois troncos, um em cada margem do rio, sendo conectada no centro da balsa, assim ao mover a corda, a balsa se deslocava de uma margem a outra. Utilizando o mesmo conceito, Alden procurou alguns troncos que pudessem ser usados como base, com alguns cipós fez a amarração da balsa, sem pensar duas vezes colocou todo o material coletado em cima da balsa e saltou junto, cortou o cipó que prendia a balsa a um tronco na margem e começou sua descida pelo rio.

Como toda grande idéia Alden não pensou em como seria o trajeto, a balsa não possuía leme e não era possível manobrá-la, nas primeiras curvas do rio o Jovem sofreu com sua embarcação batendo nas margens e nas pedras que estavam em seu caminho. A descida dos morros era curvilínea e em declive fazendo o jovem ser jogado de um lado para o outro com violência, mas Alden sabia que logo a frente o rio seguia um caminho reto, e todo esse desconforto iria desaparecer, portanto não desistiria de sua idéia. Chegando ao final das curvas em segundos a balsa atingiu uma velocidade que de inicio amedrontou o jovem fazendo-o agarrar firmemente aos cipós de amarração, mas passados alguns segundos percebeu que era a melhor sensação que já tivera.

O caminho que levara horas para percorrer tinha sido feito em minutos, a paisagem passava tão ligeira que aumentava ainda mais as batidas de seu coração já acelerado, era uma aventura incrível, pois nunca pensara que seria divertido descer um rio daquela maneira. Alden não conseguia agüentar a emoção que sentia, queria mostrar a todos o que tinha feito, isso revolucionaria o método de transportes de material, tinha certeza que quando mostrasse aos seus pais, tios e irmãos todos ficariam muito orgulhosos dele.

Mal sabia o rapaz que logo a frente apareceriam dificuldade que ele nunca esperaria.

Notas finais
Comentae!