Os Cavaleiros do Calvário

1 O Prenúncio da Guerra


Era uma manhã, aparentemente, tranquila. Aparentemente. Como de costume, levantei-me da minha cama e consultei o Oráculo de Crisis ao meu lado. Ele dizia que um nefasto ataque ocorreria naquela tarde. Não dei muita bola, afinal ele dissera isso dos últimos cinco dias, e a única coisa de "ataque" que aconteceu durante esse tempo foi a briga do meu irmão na escola por causa de um brinquedo. Sim, um brinquedo.
Por conta disso, procurei me abster de pensamentos que poderiam me preocupar desnecessariamente.
Me direcionei até a janela, que estava adornada com diversos adesivos cintilantes. "Provavelmente isso é obra de Mary", pensei.
Afora da janela, passando pela intensa névoa que permeava a manhã de Tenra, pude ver Mary e Erick retornando de suas escolas. Eles pareciam felizes, embora não houvesse motivo para isso.
Há pouco tempo, Victória Dunm Hauser, faleceu. Ela era a maior guerreira que já existiu em Tenra. Mas para mim e para meus irmãos, ela era mais do que isso.
Após sermos abandonados por nossa mãe logo após o falecimento de nosso pai, ficamos perdidos e sozinhos. Não sabíamos o que fazer ou para onde ir. Ficamos a mercê de bandidos e malfeitores que buscavam apenas lucrar em cima de nós. E bem, como malfeitores podiam lucrar em cima de crianças? Bem, essa é uma outra história.
Victória nos acolheu, nos deu uma casa, um lar, um refúgio. A tristeza que eu sentira no dia de sua morte excede a felicidade que eu sentira quando ela nos acolheu. Ainda lembro-me de sua gentileza... Tal qual era proporcional à sua força.
Depois de um certo tempo, enquanto eu olhava janela afora, ouvi alguém bater na porta do meu quarto.
—Ronan! Ronan! Ronan! -Era Mary que, pela sua voz, estava desesperada.
—O que foi, Mary? -Perguntei, abrindo abruptamente a porta e agarrando seus braços.
—Uma cigana me contou que nessa tarde monstros vão atacar a cidade. Precisamos evacuá-la imediatamente!
—Calma, calma, Mary. -Disse suavemente. -Meu oráculo também diz isso a dias. Acredito que seja apenas um recado mal interpretado. Você sabe que os oráculos pegam as informações da Casa dos Hogways, né?
—Sei, claro que eu sei! -Disse ela, aumentando a voz. -Precisamos sair daqui! Justamente por eu entender, realmente sei que há algo de errado. Uma sensação excruciante... sinto-a a dias. -Mary retraiu-se. Lágrimas ameaçaram emergir em seus olhos.
—Tudo bem. Falarei para o Erick arrumar as coisas. Partiremos ao anoitecer. -Envolvi-a nos meus braços e a confortei. Sua expressão estava tensa. Talvez ela tenha visto alguma coisa.
—Certo... obrigada. Desculpe por ter me exaltado. -Ela saiu dos meus braços e abaixou a cabeça.
—Tudo bem.
Ela saiu apressadamente do meu quarto. Provavelmente queria arrumar suas coisas ou avisar para o Erick que sairíamos da cidade. De qualquer forma, sentei-me na cama e ponderei para onde iríamos, o que levaríamos e se era realmente uma boa ideia sair da cidade. Minha intuição não era das melhores, eu confiava mais na intuição da minha irmã, que era realmente poderosa, do que na minha. Mas algo em mim me dizia para ficar na cidade. Até que, então, eu decidi: por precaução, eu deixaria meus irmãos na casa de Losch, um velho amigo meu, sua casa ficava próxima ao norte de Tenra, enquanto eu retornaria para nossa casa. Após chegar a essa conclusão, decidi ir no Centro e comprar os suprimentos necessários para nossa pequena viagem.
O céu estava deslumbrante. Não havia nuvens no céu. O sol brilhava com toda a sua força. Aquele céu de cor anil vibrava veemente no lago cristalino em frente à minha casa. Ao chegar no centro, percebi o quão movimentada a cidade estava. Diversas pessoas saíam e entravam das lojas carregando com elas dezenas de bolsas. Era difícil me mover em meio àquela multidão. Entrei em um pequeno mercado e comprei alguns suprimentos.
Na volta para casa, vi que o sol estava se escondendo em meio a umas nuvens cinzas. Achei estranho, afinal essas nuvens não estavam lá antes de eu adentrar o mercado. Mas enfim, ignorei-as e continuei caminhando para a casa.
Pouco antes de chegar em minha casa, ao longe, vi que o lago que ficava na frente da minha casa estava de um tom vermelho escarlate. Uma súbita tensão cresceu em mim. Sem nem pensar duas vezes, larguei as bolsas no chão e corri até o lago.
—Mary! Erick! –Gritei por eles enquanto corria.

"Esse sangue vermelho não deve significar uma coisa boa", pensei comigo mesmo.
De relance, eu não vi nada no lago, exceto sua excruciante cor que fazia meu estômago se retorcer. Eu decidi adentrar na casa e ver se meus irmãos estavam lá e, principalmente, se estavam bem. Abri abruptamente a porta. Gritei por eles o máximo que eu pude, mas ninguém me respondia. Um medo angustiante se permeou em mim, eu estava desesperado. Subi as escadas e, adentrando no quarto de Mary, eu pude ver: no leito de minha irmã, maculado por monstros, sua cabeça rolava ao chão; em uma parede distinta, onde havia diversas fotografias, havia um recado escrito, aparentemente, com o sangue dela "Não fujas de teu destino, jovem zagal".

Não pode ser...

Inadvertidamente, levei minhas mãos à boca, e lágrimas ousaram rolar em minhas bochechas. Cai de joelhos no chão. Minha mente rodopiava, eu não sabia o que fazer. Pelos meus erros… Pelos meus pecados… Pelas injustiças que eu cometi… Tudo isso custou a vida de minha irmã. De súbito, meu irmão me veio à mente. Se ela estava morta aqui… onde Erick poderia estar? O medo e o desespero se intensificaram ao pensar na possível morte de meu irmão caçula.
Fui até o quarto de Erick, porém ele estava do mesmo jeito que eu deixara antes de ir ao Centro e não havia nenhum sinal de monstros no quarto dele.
Desci as escadas rapidamente, ao abrir a porta eu corri, novamente, até o lago.
A água no lago estava ficando rasa e, com isso, pude ver mais a fundo, aproximando-me vagarosamente, pude ver a crueldade que ocorrera com meu pequeno irmão.
Jazia no céu uma escuridão tão tenebrosa que faria até o mais corajoso dos homens se acorvadar, porém nada fora mais sinistro do que ver meu irmão com seu corpo preso a uma corrente no fundo do lago. Seus braços, pernas, até mesmo sua cabeça foram decepados e tirados, violentamente, de seu corpo. Tal qual era crueldade que permeava aquele mundo. Caí de joelhos. Não podia ser verdade. Lágrimas rolavam do meu rosto desenfreadamente. Aos soluços, vi que seus olhos estavam abertos porém foram retirados violentamente, sobrando apenas um vácuo negro. Talvez tenham tirado o de Mary também, porém suas pálpebras estavam fechadas. Quem quer que tenha matado-os, fizera isso por causa de seus olhos e por vingança contra mim, isso não havia dúvida.
Minutos depois, minha tristeza foi substituída por uma raiva acentuada. Eu decidi me vingar. Apertei os punhos contra meu peito e fiz uma promessa para mim mesmo "Não importa quem tenha feito isso com eles, eu não deixarei a morte me levar até que a minha vingança tenha se concretizado!".
Eu já sabia o que haveria de fazer. Voltar aos meus velhos tempos. Por fim, decidi partir em direção ao sul.
O céu estava tão escuro. Era tarde ainda, mas jazia no céu uma escuridão mais acentuada do que a escuridão da noite. Ouvi um ruído. Um ruído de milhares de homens na guerra. Era um ruído familiar para mim; era o mesmo que eu ouvia em meus pesadelos. Agarrei a corrente que se envolvia em meu pescoço e parti em direção aquele ruído. Eu já sabia o que me esperava.
"Parece que a minha intuição errou. De novo", lágrimas me veio aos olhos ao dizer isso, lembrei-me da minha irmã. Sua intuição era impecável, por que não a ouvi antes?
Chegando ao local do ruído, eu vislumbrei diversos cavaleiros com uma armadura verde-água, eles sussurravam entre si. A presença deles era imponente, até mesmo as mulheres empunhavam consigo lanças e espadas tão afiadas quanto a mais afiada adaga já existente. Os lendários Cavaleiros do Calvário se encontravam aqui. Victória havia sido um deles. Ao longe vi uma linda mulher de cabelos escuros que empunhava uma lança, ela se encaminhou até a mim ao me ver. Conforme se aproximava, eu percebia ela me fitando com aqueles olhos negros e, por fim, me perguntou:
—O que fazes aqui, garoto? Esse lugar não é para crianças. -Disse ela.
—Eu sei. Eu não vim aqui para brincar. -Retruquei. Ela, então, abaixou os olhos e voltou seu olhar para o exército que caminhava lentamente à nossa frente.
Monstros humanóides vinham do sul, era um exército. No horizonte, via-se um longíquo portal negro. Provavelmente fora de lá que esses monstros vieram.
Haviam seis homens, contando comigo, e quatro mulheres para enfrentar aqueles monstros. Eu já havia lutado diversas vezes em frentes de guerra, mas essa seria a primeira vez que eu sujaria minhas armas com sangue de monstros "Desculpem-me, Hugin e Munin", disse agarrando a minha corrente.
Ao ver a aproximação deles, peguei minha corrente que se dividiu em duas adagas demasiadamente afiadas. O cara ao meu lado que, aparentemente era o líder, gritou para o restante do grupo:
—Vamos afuguentar essa criaturas vis de nosso reino! Não podemos deixar nossos civis em perigo! Avante, Cavaleiros do Calvário!
Ao dizer tais palavras, todos fizeram, em uníssono, um coro de gritos. Seus olhos queimavam, inclusive os meus. Por redenção ou por vingança, enchi minha adaga de sangue.
Matamos muitos monstros, mas eis mais uma vez em que qualidade não supera quantidade. Éramos poucos para aquela ameaça exorbitante. Tropas e mais tropas de monstros caminhavam até o Centro de Tenra, eu tentava impedir com todas as minhas forças mas não foi o suficiente. Nem a tropa dos Cavaleiros do Calvário fora suficiente. Todos pereceram. O mundo se via, mais uma vez, em caos.