Os Cavaleiros do Calvário
2 O assassino
Estava tudo escuro. Minha mente borbulhava em pensamentos infelizes e nostálgicos. Mary. Erick. Victória. Pai... Senti um pesar e uma dor em meu coração enquanto lágrimas rolavam em minhas bochechas. Eu não conseguia enxergar. O mundo à minha volta jazia-se para mim tão negro como minha própria vida. Perdi todas as pessoas que eu mais amava, as únicas pessoas da qual eu realmente me importava.
Em meu rosto, eu sentia o calor escaldante do sol. Eu abri meus olhos e tentei me levantar, mas minhas pernas não respondiam. Por um momento eu esqueci o que tivera passado e me questionei "Onde estou?". Porém, como uma válvula que ativa uma enchente, meus pensamentos, que antes reprimidos, me açoitaram como uma fera feroz.
Eu não consegui me controlar, muito menos me recompor. Ao pensar no que eu tivera passado, meu corpo debateu-se contra aquele solo seco e meu coração se angustiava a cada cena que passava na minha mente. Corpos e mais corpos empilhados. Um genocídio em massa. Civis morrendo. Crianças sendo comidas vivas. Mulheres sendo usadas por monstros. Morte e mais morte. Gritos de desespero. O reino de Tenra estava culminando ao fracasso. E não havia ninguém para impedir isso. Com a morte dos Cavaleiros do Calvário, não tinha como salvar o reino de Tenra.
Meu corpo se acalmou, juntamente com os meus pensamentos. Recobrei meus sentidos e minha autoridade sobre meu corpo. Porém, isso não foi o bastante para eu conseguir me mover. Minhas pernas não se moviam, eu nem sequer as sentia.
Eu tentei avistar alguém próximo, porém não havia ninguém. Era um deserto. Não havia outra forma de vida além de mim. Eu não estava em Tenra, muito menos em Malbec. Como eu vim parar aqui? Que lugar é este?
Minha boca já estava ficando seca. Até que eu tive uma ideia.
—Hugin e Munin, acordem! -Gritei enquanto segurava a minha corrente.
Minha corrente se transformou em dois pássaros azulados. Eu já estava ficando com saudades dos rostos deles.
—E ai, meninos. Como vocês estão? -Perguntei para eles, enquanto os segurava em minhas mãos. Eles responderam em uma crocita fina, como em um coro.
Aqueles corvos eram um presente dado a mim pelos magos de Malbec. Meu pai havia nascido em Malbec, por isso, de vez em quando eu dava uma passada por lá. Antes de meu pai morrer, eu morava lá com ele, minha mãe e Mary, afinal lá era o melhor esconderijo para um mestiço como eu e para o casamento inapropriado dos meus pais. Hugin e Munin são corvos especiais, eles podem se metamorfosear em quaisquer coisas que eu peço, porém os dois são como um, o que um é o outro deve ser também.
—Preciso que vocês façam um favor para mim. Voem aos arredores deste deserto e procure alguém. Veja se existe alguém por essas bandas. -Disse a eles e imediatamente alçaram voo.
Não demorou muito até que eles voltassem. Eles me informaram que havia um pequeno vilarejo ao sul, e que alertou o guarda mais próximo que havia um homem incapacitado de andar (no caso, eu). Com isso os agradeci e perguntei:
—Certo... Mas vão demorar muito para chegarem? –Os corvos fizeram um som que consegui distinguir como sendo um “não”.
Aparentemente, eles estavam errados. Por estar sem relógio e sem nenhum outro dispositivo que me proporcionasse o luxo de ver quantas horas eram, não consegui calcular com exatidão o tempo que estivera esperando por alguém, porém posso presumir que já fazia a mais de cinco horas. Eu não estava aguentando mais. A noite já se fazia presente. Eu podia ver as diversas constelações surgindo, enquanto o céu ia se escurecendo à medida que elas apareciam.
Há quanto tempo estou aqui? Será que fazem dias? Ou apenas horas? Será que, de fato, ninguém virá ao meu socorro?
Tentei me colocar de pé, mas não consegui e terminei por desabar. Foi então que uma ideia me veio a mente.
—Hugin! Munin! –Minha corrente transfigurou-se em dois corvos na mesma hora. –Transformem-se em duas muletas! –Ao fazerem isso, tentei me levantar e me apoiar neles. E, felizmente, consegui.
Não era como andar com as minhas próprias pernas, porém era muito melhor do que permanecer parado. Consegui andar um pouco a ponto de vislumbrar variás casas ao norte, porém havia algo de estranho nelas: elas aparentavam estar em ruínas.
Conforme eu me aproximava, os destroços faziam-se mais visíveis. Comecei a me questionar por que Hugin e Munin não me contaram de tal catástrofe.
Não havia uma alma na cidade. Prédios. Casas. Lojas. Até mesmo, carros e caminhões. Tudo estava à beira da desintegração. O ar à minha volta estava seco, nem sequer uma brisa ousava passar pela cidade. Tentei, miseravelmente, vasculhar os destroços; porém não foi uma tarefa bem sucedida afinal minhas duas mãos estavam ocupadas tentando me manter de pé com as muletas. Meus olhos passavam e repassavam pelos escombos. Parei por um momento no que, deveria ser provavelmente, o centro daquela cidade. Concentrei-me. O ar, por algum motivo desconhecido, estava começando a tornar-se rarefeito. Fechei meus olhos e deixei meus sentidos divagarem em meio àquela cidade buscando algum indício de vida. Um dos bons motivos de se ter nascido em Malbec, era a conecção que eu tinha com a vida e com a natureza, no geral.
Desde pequeno, eu fui treinado nas florestas de Malbec. Minha tribo era lunar, o que era uma coisa boa, afinal a caça era nossa a especialidade. Me acostumei a sentir a vida, tanto nas pessoas quanto nos animais. A magia também me ajudava nisso, aflorando meus sentidos.
Depois de um tempo tentando sentir a presença de alguém, por fim eu consegui. Era um leve resquício de vida, estava a alguns metros de mim. Andei o mais rápido que pude com aquelas muletas e a cada vez que eu me aproximava eu tinha certeza. Era uma criança.
Quando eu cheguei, supostamente, em frente dos destroço de onde ela estaria, proferi uns encatamentos e, por um breve momento minhas pernas já não mais precisavam daquelas muletas. Era arriscado. Esse feitiço consumia muito de minha força, mas não havia problema, eu tinha que salvar aquela criança.
Ela estava, aparentemente, desmaiada. Sua respiração era quase inaudível, assim como seus batimentos. Ela parecia já estar morta, embora eu ainda sentisse um leve resquício de vida emanando dela. Eu me aproximei dela com cuidado e o virei. Era um menino. Seus cabelos eram de um preto ofuscante que contrastavam bem com sua pálida pele.
—Ei. –Chamei suavemente por ele, enquanto o virava. –Ei. –Chamei-o novamente, porém um pouco mais alto. Alto o bastante para fazer suas pálpebras se mexerem. Vagarosamente ele abriu os olhos e pude ver aqueles olhos castanhos me olhando com uma certa incerteza.
—Q-quem é você? –Disse ele, começando a dar conta de si. –Não pode ser... –Os olhos do menino se arregalaram. Pude sentir uma sensação de medo nele, porém antes que eu pudesse dizer quaisquer palavras, ele continuou. –Me desculpe! Eu não queria fazer isso às pessoas da cidade... eu... eu não queria... eu não queria destruir nada... eu fui obrigado... por favor, acredite em mim! –Seus olhos vidraram-se em lágrimas. Senti um aperto no peito. –Por favor, James! Acredite em mim!
—James? –Respondi confuso.
—Você não é... James? –Antes que eu pudesse negar quem eu, definitivamente, não era, senti uma presença assassina se instalando naquele lugar. E não, não emanava do pobre garoto à minha frente.
Antes que, quem quer quer fosse, atacasse aquele menino por trás, disparei em direção às costas daquele menino para protegê-lo. Criei rapidamente uma barreira de força, e uma adaga extremamente afiada caiu chão abaixo. Estava escuro, eu não conseguia reconhecer quem era. Mas aquela pessoa era extremamente rápida. Antes que eu pudesse me dar contar, ele foi a frente do menino e tentou apunhalar seu coração. Mas, felizmente, eu fui mais rápido e consegui bloquear tal ataque.
—O que você está fazendo, seu desgraçado? Protegendo um assassino? –Uma voz extremamente embarganhada de raiva ecoou naquele lugar.
—Ele é uma criança. Alguém o controlou para fazer isso. –Disse, enquanto o menino corria para os meus braços. Eu ja vi aquilo ocorrer diversas vezes. Eu não podia deixar um inocente morrer por causa disso.
—Ah pelo amor de deus! Você não consegue enxergar o que ele realmente é?
—O que ele... realmente é? –Perguntei, confuso. Ele estava vendo algo que eu não via?
—Não acredite nele, senhor! Ele só está aqui para me matar! –Disse o pobre menino, enquanto sua voz soava embarganhada. Ele estava chorando, de novo.
Me abaixei e disse para ele:
—Está tudo bem. Eu te entendo. Eu te protegerei dele, tá bom? –Eu disse suavemente para ele, enquanto ele concordava com a cabeça enxugando as lágrimas.
—O que é isso? Virou um showzinho de drama? –Disse ele.
Aquele cara já estava me irritando. Eu teria que dar um jeito nele. Rapidamente. Meu feitiço já estava começando a se esvair, sem minhas pernas eu não conseguiria ganhar dele numa luta.
—Cara... –Disse ele, em um tom que era, aparentemente, amigável para ele. Para ele. –Não precisamos fazer isso. Eu não quero machucar você, muitos menos matá-lo. Eu só quero o garoto. –Meus punhos cerraram. Eu estava pronto para calar a boca daquele cara.
—Não deixarei você encostar nele. –Disse, em um tom sério.
—Ótimo. Espero que não se arrependa disso depois. –Ao dizer isso, sua presença sumiu. Simplesmente sumiu.
Naquela escuridão que permeava aquele lugar, a única coisa que me dizia onde ele estava era a sua presença; e agora ela sumiu. Fechei meus olhos e concentrei-me. Permaneci parado e pude sentir, suavemente, quase inteligível, uma onde de calor próxima ao meu ombro direito. Imediamente puxei o braço dele e o taquei chão abaixo, porém ele se recuperou tão rápido que meus sentidos não puderam o acompanhar.
Aquele era um adversário difícil. Sua rapidez e sua agilidade eram fantásticas de um jeito nefasto.
Eu estava, visivelmente, em desvantagem. Minhas armas, Hugin e Munin, estavam do lado de fora dos escombros e eu não podia desperdiçar muito tempo, afinal daqui a poucos minutos eu mal conseguiria me mexer. Foi então que eu decidi dar um fim à tudo aquilo.
Eu sabia que ele não me atacaria sabendo de minha capacidade de percepção. Ele esperaria eu me desconcentrar por um milésimo de segundo que fosse para me atacar ou para atacar o garoto. Foi então que eu me toquei. O garoto sumiu.
Eu não sabia o que pensar. Será que aquele assassino o levou? Ou pior, será que o matou? Corri rapidamente para fora dos escombros e lá eu vi ele. Porém, de um jeito diferente que eu imaginava.
—O que você está fazendo? –Perguntei, me aproximando do garoto. Seus olhos passaram de castanho para um vermelho. Um vermelho sangue.
—Afaste-se dele! –Gritou o assassino que tentara o matar outrora. Ele estava incapacitado de andar, suas pernas estavam, aparentemente, quebradas. –Ele... ele vai consumir tudo... ao redor. –Sua voz era quase inaudível.
—Ora, James... Não diga meus planos para esse pobre jovem. –Uma voz diferente da habitual emergiu da boca daquele menino. Ele não era um menino inocente. Ele matou todas aquelas pessoas propositalmente. O assassino era ele. –E então, ei de pegar suas essências para mim. –Disse ele em um sorriso funesto. Era assombroso.
Me senti um tolo. Meu feitiço estava se esvaindo cada vez mais, e minhas pernas já estavam começando a tremer. Porém, eu ainda tinha força e, felizmente, Hugin e Munin estavam lá comigo.
Aos pés daquele menino, estava algo parecido como uma invocação. Como se fosse um ritual. Tudo ao redor estava girando, como se tivesse um tufão no meio daquilo. Um barulho ensurdecedor emergiu, enquanto minha essência e minha alma eram sugadas para aquele meio tenebroso. Mentalmente, chamei Hugin e Munin e eles vieram se transformando em dois mosquitos pequenininhos.
Minhas pernas vacilaram e eu, finalmente, cai. Hugin e Munin pararam ao meu lado esperando pelas minhas ordens.
Aquela criança era um necromante, visivelmente. Tentei opar pelo ponto fraco dele e que, felizmente, era o meu ponto forte: a vida.
Hugin e Munin ainda em forma de mosquitos foram até o centro daquele tufão (sim, eles eram inimaginavelmente fortes fisicamente, e se eles desobedessem ou não cumprisse uma ordem dentro de seus limites, isso acarretaria em um castigo tenebroso para eles; eles eram racionais, de um certo modo). Chegando no centro, eles se transformaram em dois colares. Os colares de Têmis.
Têmis era a deusa da vida e da lua em meu país, minha tribo a cultuava. Os colares de Têmis levam a consigo a propriedade da deusa. Extinguiam, por si só, tudo que ousasse aniquilar quaisquer formas de vida presente.
O ritual do menino cessou e aquela atmosfera angustiante foi-se consigo. Hugin e Munin eram incríveis.
O menino ficou atordoado. Tudo havia cessado tão de repente.
—O-o que aconteceu aqui? –Disse o menino, aos berros. Ele estava tão atordoado que caiu de joelhos. Foi a sua sentença, James em um piscar dos olhos se recuperou e parou em frente ao garoto e fez uma menção.
—Levante sua cabeça ao menos, Laxon. Deixe que, pelo menos, a sua morte não se torne algo tão desprezível quanto você e a sua vida. –Com lágrimas ao olhos, o menino levantou sua cabeça. Sua sentença se concretizou e sua cabeça rolou ao chão. James guardou sua espada. Quantas armas ele levava consigo?
Eu estava exausto. Aconteceu tudo muito depressa. Eu podia ver aquele homem, — acho que James era o seu nome né? – ele parecia preocupado. Porém, sem conseguir evitar, meus olhos se fechavam à medida que minha consciência se esvaia. Eu não sentia mais nada; fui pego pela exaustão.
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