Os Códigos Romênicos - A Descoberta Do Poder
5 Capítulo 4
Rio de Janeiro, Brasil, 2010
Cheguei à praia, tirei os tênis e fui descalço experimentar a areia sob meus pés. Senti a maresia que as ondas do mar traziam salpicando meu rosto, ouvindo o vai e vem da maré, e vendo o imenso paredão azul que formava as ondas, cortadas por figuras coloridas em cima de pranchas.
Ali fiquei por um tempo impossível de determinar, sentado na areia, com os olhos fechados, não pensando em absolutamente nada, levando todos os pensamentos e problemas para dentro de uma caixa em minha mente. Por mais difícil que fosse não pensar em nada, me esforcei. Parecia que havia tirado um enorme peso da cabeça. Queria apenas ficar ali eternamente, ouvindo o borbulhar das marolas quando elas quebravam na praia, sentindo o sol pinicar meu rosto. Mas após um tempo de imobilidade, ouvi algo se aproximando e uma voz me tirou da letargia.
— Lindo não é? — ela disse e quase caí para trás tamanho o susto que levei com a proximidade da voz em meu ouvido.
— O mar? Realmente. É muito bonito mesmo.
— Também. Mas não só ele, tudo na verdade. Toda essa paisagem. — ela respondeu e chegou mais perto de mim, sentada na areia. Tão próxima que todos os pelos da minha nuca se arrepiaram.
Desde o primeiro momento em que a vi, já tinha ficado perplexo por sua beleza. Era incrível como Olívia podia mesmo sendo idêntica a irmã, ainda ser tão diferente, com alguma coisa que eu não sabia dizer o que era; algo que desconhecia. Vendo-a tão perto, diria que ela tinha um Q a mais. Algo que estava presente nela, só não sabia dizer se era na pele clara, nos cachos castanhos, na boca rosada mostrando dentes perfeitos conforme ela sorria para mim. Ou se seriam seus olhos, aqueles olhos verde-escuros, aqueles olhos profundos que me fitavam com dúvida.
— O que foi? — ela perguntou me trazendo de volta a realidade mais uma vez.
— Nada. Não é nada.
— Vamos. Diga. Dá para ver que tem algo te incomodando.
Olívia agora me olhava com ansiedade. Esperando pelo que eu diria.
— Não é nada demais. Só que, sei lá, estou surpreso ao ver você assim. Falando comigo. — Droga, eu precisava controlar minha boca, ou acabaria falando mais besteira. — Desculpa. Não queria te ofender nem nada. E só que, eu não te conheço nem nada; é claro. Mas você está diferente. — Falei sem respirar.
— Tudo bem. Não me ofendeu. — disse sorrindo. — Gosto de ser vista diferente da minha irmã. Bem, e difícil às vezes quando se tem alguém que é igual a você. Acho que preciso ser diferente dela. A tão carismática linda e inteligente Diana.
— Mas você também é — respondi rápido e me arrependi quase que instantaneamente. Virei o rosto para o mar. Aqueles olhos estavam me matando.
Desta vez ela sorriu timidamente e prosseguiu:
— Bem obrigada. Mas não vim aqui falar de mim.
Olhei novamente para ela. Olívia parecia ter se aproximado mais de mim, o que fez meu coração bater mais rápido, se isso era possível. Ela esperou — provavelmente que eu dissesse algo — e diante do meu silêncio, continuou:
— E que depois da sua reação no café da manhã, eu fiquei preocupada. — Olívia dizia cada palavra pausadamente. — Você ficou daquele jeito por causa do que o Cesar falou?
— Não quero falar disso. — respondi, e percebi pelo rosto dela, que tinha sido de forma grosseira, emendei rapidamente. — Desculpa, e só que o Cesar e um idiota. Não dá pra acreditar em tudo o que ele diz. — Eu não sabia se não queria falar sobre o assunto ou sobre Cesar. O mero citar do nome dele já me deixava com raiva.
Tive que me controlar para não contar tudo para ela. Olívia transmitia uma paz e tão grande, além de confiança, que por pouco relatei tudo a ela. Mas ainda assim, por mais confiante que ela parecesse, eu sentia que aquilo deveria ser guardado, pelo menos naquele momento, não parecia seguro dizer.
— Tudo bem. Eu só queria que você soubesse que se precisar de algo, pode contar comigo.
Levantamos e fomos andar pela praia. De tempos em tempos o mar alcançava e molhava nossos pés, conforme a maré ia e voltava. Conversamos por um longo tempo, enquanto ela contava sua vida. Ela e a irmã tinham 21 anos e antes cursavam a faculdade em São Paulo, mas transferiram-se para Brasília — tive de me controlar para não pular de alegria — devido à transferência do trabalho do pai que agora trabalhava em uma embaixada na capital. Diana estudava Turismo, ela fazia História, e se dizia apaixonada pela área. Sonhava viajar pelo mundo e conhecer as culturas e costumes dos países. Estavam aproveitando a viagem para curtir o feriado de fim de ano, mas aparentemente esse não era o objetivo principal da viagem. Seu pai estava lá a trabalho para revolver uma questão com o pai de Cesar.
— Não sei se você soube da notícia do acordo entre Brasil e Rússia — ela me olhou e confirmei com a cabeça. — Não divulgaram todos os fatos, provavelmente para não causar pânico. Mas o departamento de espionagem brasileiro interceptou um sinal chinês com uma mensagem, meu pai não quis falar tudo, mas parece que a China prometeu um contra ataque, algo como uma retaliação.
— Existe algum perigo? — perguntei. Estava realmente incomodado com aquela situação. — Quero dizer, por acaso acham que eles possam fazer alguma coisa?
— Foi o que meu pai tentou descobrir. Antes de virmos para cá, ele estava em uma reunião com a embaixada chinesa. A ideia era levar um pedido de desculpas formal, representando o próprio presidente, mas eles nem quiseram saber de conversa. Então viemos para cá para ele se reunir com o pai do Cesar. Provavelmente para bolar alguma estratégia.
— Uau. E bem mais sério do que imaginei. E isso tudo por que somente assinaram um acordo. Imagine se estivessem bolando o ataque.
— Mas é ai que está à questão. Os chineses não são conhecidos pela paciência de esperar. A desconfiança já basta para eles. E com o evento de hoje, mais um motivo para ficarem de olho.
— Você quer dizer, a virada do ano? Eles seriam capazes de algo do tipo?
— Ninguém sabe. E por isso mesmo e melhor prevenir do que remediar. Foi o que meu pai veio fazer aqui hoje. Alertar.
E foi falando de Ano Novo que eu tinha percebido que com tantas coisas enchendo minha cabeça, eu tinha me esquecido momentaneamente que a virada do ano seria naquela noite. E eu estava na cidade onde acontecia a maior queima de fogos da passagem do ano. Num átimo de empolgação e aproveitando o momento acabei fazendo o convite:
— Olívia, é ano novo. Quer ir comigo ver os fogos de artifício? — Cuspi as palavras antes que desistisse de dizê-las. Ela por um momento parou de andar e olhou para mim inexpressiva. Então abriu um sorriso e respondeu para minha alegria.
— Eu adoraria. Então, podemos nos encontrar no saguão do hotel as dez?
— Tudo bem. Combinado. — respondi com um sorriso de orelha a orelha.
Caminhamos por um longo tempo. Olívia me mostrando as belezas que havia na orla da cidade. Quando percebemos, já haviam se passado horas, então voltamos ao hotel. Despedi de Olívia quando o elevador se abriu para o andar dela. Estava a ponto de pular de alegria quando o elevador se abriu e Cesar estava apareceu. Ignorei-o e segui rápido até o meu quarto.
— Espere, quero falar com você. — Cesar me seguia pelo corredor, quando um carrinho de bagagens me bloqueou, dando a chance para ele me alcançar. — Cara, me escuta. Eu queria explicar meu comportamento. Pedir desculpas.
Continuei andando até chegar à porta do quarto. Abri a porta para entrar e Cesar a segurou, impedindo que eu a fechasse na cara dele. Vi que não conseguiria me livrar dele, então me sentei em uma poltrona perto da janela e suspirei.
— Ok, diga.
— Desculpa cara. E só que desde que a gente chegou e a Diana ficou interessada em você. Mas eu me interessei por ela. Tentei de tudo para ela me dar moral, até joguei indiretas, e ela nada. Então vi vocês conversando hoje mais cedo e fiquei com raiva. Agora eu percebi o quando eu fui egoísta. Por que você gosta também dela e não tenho o direito de atrapalhar vocês só porque gosto dela também. — ele disse tudo de uma só vez, sem pausa.
Olhei surpreso para Cesar e não sabia o que dizer. Então comecei a rir.
— Por que é que você está rindo? Eu vim aqui pedir desculpas e o que você faz e rir?
— Cara, eu não estou rindo de você. Mas do que você acabou de dizer. De onde foi que você tirou que eu gosto da Diana?
— Vocês pareciam estar muito bem sintonizados no café da manhã.
— Sintonizados?
— Eu assisti a uma palestra sobre isso, ah esquece... A questão é que vocês se deram tão bem, desde que se conheceram, que eu pensei que vocês...
Cada vez que Cesar falava, minha vontade rir aumentava mais ainda.
— Ei, eu conheci ela ontem. Na verdade nem a conheço direito. Não tem como eu gostar de alguém assim em tão pouco tempo. — me interrompi quando disse isso e pensei em Olívia, não era lá verdade o que eu tinha dito. — Bem, pelos menos não dela.
— O que você quer dizer com isso? — Cesar semicerrou os olhos.
— E que depois que eu saí daquele jeito, bem, encontrei a Olívia e a gente conversou. Muito. E puxa vida, ela é incrível.
Foi à vez de Cesar gargalhar.
— Quer dizer que você não gosta da Diana, por que está gostando da outra irmã.
— Eu não disse isso. Apenas a achei interessante.
— Ah, corta essa. Está escrito no seu rosto. Você está “caidinho” por ela. Você não sabe o quanto fico feliz com essa notícia. Agora vou jogar com artilharia pesada.
— Espera um pouco, acho que você esqueceu alguém. E a Milena? Onde ela entra nessa história? Aconteceu alguma coisa?
O rosto de Cesar se fechou instantaneamente quando mencionei Milena.
— Milena? Nós terminamos. — ele respondeu com desdém, e diante da minha expressão de surpresa completou. — Foi antes da viagem. Quer dizer, ela já vinha há algum tempo um tanto insuportável, e quando falei que ia viajar, ela pirou. Disse que se eu viesse pra cá, estava tudo acabado, então acabamos.
— Nossa. É incrível a forma como você está lidando com isso.
— Acho que esse término veio em boa hora, se é que você me entende. Agora preciso me apressar. Agora posso convidar a Diana para passar a virada do ano comigo. — Cesar já estava saindo do quarto quando parou onde estava e virou. — Ah, desculpa, esqueci de você. Mas tudo bem, você pode ir com a gente ver os fogos.
Olhei para o mar através do vidro da janela e sorri para mim mesmo.
— Pode ir com ela despreocupado, sem mim. Tudo bem. Já dei um jeito.
— Não me diga que você vai com... — ele deixou a frase no ar. Mas eu sabia o que ele queria dizer e confirmei com a cabeça. — Cara, você não perde tempo.
Cesar saiu fechando a porta atrás de si. Permaneci sentado na poltrona ainda olhando a paisagem de fora da janela. Continuava sorrindo, ainda que alguns pensamentos insistissem em martelar na minha mente. Sacudi a cabeça para espantá-los. Tinha coisas mais importantes para pensar.
Cheguei ao saguão do hotel as dez em ponto. Alguns minutos depois ela apareceu, mais deslumbrante do que nunca em um vestido branco com rendas. Os cabelos caíam longos sobre os ombros. Caminhamos até a saída do hotel, quando Cesar apareceu:
— Olívia, por acaso você saberia dizer onde sua irmã está? Combinei de encontrar com ela aqui também.
— Desculpe Cesar, ela saiu antes de mim na verdade. — Olívia percebeu a expressão de desapontamento de Cesar e emendou. — Vem com a gente para a praia, algo deve ter acontecido. No caminho eu ligo para saber onde ela está.
A praia estava lotada, havia pessoas de todos os jeitos e provavelmente de vários lugares do mundo. Conforme passávamos pela massa de pessoas, ouvia pedaços de conversas, nos mais diversos idiomas. Conseguia identificar uma palavra ou outra, em meio à confusão de sons que estava o lugar. Como nós, a maioria das pessoas vestia branco — única característica a que se assemelhavam, de resto, eram pessoas completamente distintas.
Um grupo de cinco pessoas chamou a atenção, ao pular de roupa e tudo no mar, arrancando risadas dos espectadores na areia.
As horas passavam, e cada vez mais pessoas se aglomeravam, a praia parecia não poder comportar mais, por isso a avenida tinha sido fechada em uma faixa da orla onde uma plataforma havia sido montada no meio das duas pistas, com um palco em cima de onde se via um cronometro para a contagem regressiva da noite.
A avenida foi finalmente fechada para os carros e parte do público se encaminhou a ela, deixando a praia ligeiramente mais vazia, de forma que conseguimos andar pelas areias, enquanto Cesar ficou em um quiosque perto do hotel, a procura de Diana.
Olívia estava linda, os cabelos caindo pesadamente em cachos nas costas. Mas seu rosto não combinava com o resto, desarmonizando a obra; ela mantinha uma expressão de preocupação, como se esperasse por algo impacientemente por algo.
— Aconteceu alguma coisa?
— Só preocupada com minha irmã. Nada que você precise se preocupar. Vamos, o show já vai começar. — ele pegou minha mão e me puxou para a multidão que se concentrava em frente ao palco.
Os artistas principais se apresentariam logo após os fogos de artifício, por isso quem animava o público era um DJ que fazia um som legal. Olívia nitidamente relaxou ao ver Diana e Cesar se aproximarem. As horas passaram e quando nos deparamos já faltavam dez minutos para meia noite, a música foi encerrada e o cronômetro foi ligado.
A embarcação se dirigiu para o fim da baía conforme a meia noite se aproximava. A multidão observava a cena atentamente em silêncio, cinco minutos para meia noite, o barco parou em sua posição e aguardou a hora. Quatro minutos para a meia noite, três minutos, dois minutos, um minuto. Todas as pessoas agora aguardavam fervorosamente os segundos se adiantarem. E a contagem começou.
Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um.
Bum.
Ouvimos o estrondo, vimos às luzes, sentimos o calor, mas a fonte não veio do barco, e não foi provocado pelos fogos de artifício. O estrondo foi provocado pela bomba que se materializando no céu iluminou toda a praia e explodiu no prédio atrás do palco.
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