Rio de Janeiro, Brasil, 2011

O caos se instaurou e o desespero foi tomando de conta a medida que a multidão se espalhava por todas as direções. Mais um míssil apareceu na noite estrelada e explodiu em outro prédio, colorindo de laranja tudo em volta, enquanto a bola de fogo crescia. Apertei a mão de Olívia e a puxando, comecei a correr. Conseguia ver Cesar e Diana através da visão periférica, também correndo, um pouco atrás de nós. Uma chuva de escombros das explosões voava até a praia, nos obrigando a desviar, enquanto as cinzas queimavam meus olhos e éramos espremidos e acotovelados pela multidão que corria em todas as direções.

Olívia me puxou no exato momento que um objeto não identificado e flamejante voou em nossa direção e passou a centímetros de mim. Tentei controlar meu próprio desespero, conforme minha garganta se fechava e o coração pulsava com o terror em volta.

Um prédio com a fachada de vidro foi atingido e enquanto grandes labaredas de fogo o engoliam estilhaços de vidro voaram na direção dos milhares de pessoas que corriam no meio da Avenida Atlântica.

Por um momento olhei para o chão e percebi que em vários pontos a areia estava vermelha, assim como nossas roupas tingidas de sangue. Os gritos eram cada vez mais estridentes e o pânico se propagava pelas pessoas como uma onda de rádio, aumentando cada vez que um prédio era atingido. Clarões borraram minha visão quando um grupo de pessoas em chamas passou em direção ao mar. Uma delas caiu na areia fofa a meio metro da água e rolando e gritando, tentava apagar as chamas. Eu não poderia ver aquilo e não fazer nada. Lancei um olhar a Cesar, e sem condições para dizer nada, corri na direção da pessoa em chamas. Cesar me seguiu.

Ao chegar perto, observei que era uma mulher, e ela havia parado de se debater. Seguramos seus braços e empurramos o corpo inerte até o mar a fim de apagar as chamas que ainda queimavam suas roupas antes brancas; agora apenas farrapos cinzentos. A mulher permaneceu deitada e não esboçou qualquer reação. Cesar me puxou.

— Vamos. Não podemos fazer mais nada.

Olhei novamente para a mulher. Ela ainda permanecia imóvel. Percorri com o olhar toda a extensão da praia a procura de ajuda, mas as pessoas desesperadas demais para parar. Cesar me puxou mais uma vez.

Antes negra, a noite brilhava em tons de laranja e amarelo com fogo que consumia tudo que havia pela frente. Da praia, eu conseguia sentir o calor que emanava das chamas que lambiam as estruturas das construções do outro lado da avenida.

O ápice de todo o momento de horror foi quando o Hotel Copacabana Palace ruiu. Ocorreram explosões em diversos pontos do prédio que desabou. Lembro de ter ficado maravilhado com a arquitetura francesa e fachada branca de mármore, mas agora, a única coisa visível eram as chamas que tomaram de conta do que antes tinha sido o enorme hotel. O desabamento lançou uma onda de fumaça e poeira que se alastrou pelo perímetro, cobrindo meu campo de visão.

Com a visão prejudicada, ficamos desorientados. Com medo de nos separarmos, eu segurava a mão de Olívia cada vez mais forte enquanto ziguezagueávamos pela multidão entre trombadas e empurrões. A neblina de poeira e fumaça que se formara queimava meus olhos, que ardiam e lacrimejavam. Antes pessoas, via apenas vultos negros que passavam e esbarravam em nós. Ora totalmente negros ora com partes do corpo consumidas pelas chamas brilhantes. Tentávamos a todo custo ficar juntos, mas era difícil identificar alguém. Um grupo de pessoas surgiu correndo em nossa direção.

Tive tempo apenas de ver que era loira, quando uma mulher esbarrou em Diana e logo depois em mim. Soltando a mão de Olívia, cai na areia.

Levantei zonzo, me esquivando para não ser pisoteado e procurando por rostos conhecidos. Desorientado pela queda, minha visão ficou ainda mais turva, enquanto a fumaça queimava minha garganta a cada nova inspiração e fazia meus olhos lacrimejarem ainda mais. Meus ouvidos pulsavam com os gritos, tentando identificar qualquer som que pudesse me levar a encontrar meus amigos.

— Cesar... Olívia... Diana... — gritei a plenos pulmões, mas o esforço irritou minha garganta. Comecei a tossir, cada vez mais sem ar e esperei alguém conhecido responder.

— Estamos aqui — uma voz ecoou a minha esquerda. Segui o som e focalizei os três. Cesar e Olívia estavam agachados em volta de alguém: Diana.

Observei que ela estava coberta de alguma coisa vermelha. Corri na direção deles e percebi que era sangue, além de seu braço estar em uma posição estranha, desalinhado do ombro. Ela provavelmente viu meu rosto de contorcer de espanto, pois respondeu entre grunhidos de dor.

— O sangue não é meu. Uma louca me empurrou e caí por cima de um cara ensanguentado. Mas acho que quebrei o braço.

— Ele não está quebrado, só deslocado. — Cesar respondeu enquanto examinava o braço com olhos clínicos.

— E você sabe disso por que...

— Já participei de um curso de salvamento e primeiros-socorros. Eu estava a fim de uma garota e ela disse que faria esse curso, então eu aproveitei a chance para ficar perto dela, mas...

— Ok Cesar. — Olívia suspirou exasperada. — E você pode colocá-lo no lugar?

Diana engasgou assustada e se virou para Olívia:

— Você está querendo dizer colocar o meu braço no lugar? Ele colocar? — ela apontou Cesar com o olhar.

Ele piscou sem entender.

— Temos de fazer algo. — Olívia respondeu a irmã e se virou para Cesar. — Você pode colocar ou não?

— Bem... Acho que sim.

— Você acha? — Diana se mexeu desconfortavelmente.

— Ah, é que eu... Bem, pode ser que... — Cesar gaguejou e respirou fundo. — Eu posso. Sim, eu consigo fazer.

Um estouro forte seguido de mais uma explosão derrubou um prédio a trinta metros de onde estávamos. A nuvem de poeira mais uma vez tomando de conta de todo o lugar. Nós tínhamos de sair daquele lugar.

— Precisamos decidir rápido o que fazer. Não podemos ficar aqui. Vamos acabar sendo pisoteados, ou asfixiados pela fumaça. — falei. O nervosismo e a fumaça fazendo minha cabeça rodar.

— André tem razão. — Olívia olhava para mim apreensiva enquanto apoiava a irmã que parecia prestes a desmaiar. Ela olhou para Cesar. — Faça.

Cesar olhou Olívia e depois se virou para mim, como se esperasse autorização. Assenti com a cabeça. Ele então respirou fundo e pegou o braço de Diana que gemeu de dor. Ela apertou os olhos e mordeu os lábios. Cesar então firmou e posicionou o braço da garota e o puxou com toda força.

Diana cortou o ar com um grito agonizante.

Concordávamos que seguir pela avenida não era um opção. A queda de muitos prédios derrubava outros como em um efeito dominó, o que resultava em uma chuva de escombros no asfalto e na calçada. Então seguíamos, mesmo que a muito custo, pela praia, a passos lentos e inconstantes, de acordo com o andar de Diana, que mesmo melhor, parecia estar fraca. Cesar e eu apoiávamos a garota em nossos ombros. Meus pés afundando na areia com o esforço.

De repente, mais um clarão veio da direção do mar e um objeto grande chocou com mais outro prédio, explodindo sua lateral. Aquela altura, em meio ao inferno vermelho, já não havia mais tantas pessoas correndo. Várias silhuetas negras se espalhavam pela rua ou pelas areias da praia. Algumas gritando, outras deitadas e apenas gemendo e outras que não esboçavam qualquer tipo de reação — desmaiadas ou talvez mortas.

Na extremidade mais distante da avenida, no exato momento em que vimos e ouvimos várias sirenes, surgiram diversas ambulâncias e carros de bombeiros seguiam no sentido oposto ao nosso, desviando dos destroços e das pessoas caídas em plena avenida.

Diana parecia melhor, por isso começamos a correr novamente, percorrendo a orla da praia, refazendo o caminho inverso que havíamos feito horas atrás. O cenário de horror e desastre parecia não ter fim. A todo o momento escombros e estilhaços passavam a centímetros de nós em meio a lampejos vermelhos e brilhantes. E por mais aterrorizado que eu estivesse minha única preocupação era a de sair daquele inferno luminoso, barulhento, quente e catastrófico, não importasse como.

Finalmente avistamos o hotel ao qual estávamos hospedados. Aquela região não havia sofrido nenhum ataque. Cesar se adiantou na frente com Diana. No mesmo instante o silvo foi ouvido. Com um forte estrondo, tive tempo apenas de ver dois objetos metálicos atingirem em perfeita sincronia as laterais do hotel. A força da explosão impulsionou uma onda de ar que arremessou todos para trás. Caímos com um baque, por sorte na areia.

Ouvi diversos estrondos e senti o calor percorrer meu corpo como se estivesse envolto em chamas. Tentei me sentar, quando senti a dor aguda nas costelas. O clarão quente cegava e queimava meus olhos, mas ainda assim consegui presenciar a cena, com um calafrio. O hotel desabava reduzido a destroços, cinzas e poeira.

Levantei desajeitadamente, a pontada de dor subindo para o braço. Quando o zumbido em meus ouvidos diminuiu, ouvi os gritos que cortaram a noite e vinham da direção do clarão das chamas. Comecei a acelerar o passo quando uma mão segurou a manga da minha camisa. Olívia estava agachada na areia. Sangue escorria na lateral do seu rosto.

— Você não pode ir lá André. Está ferido.

Foi quando percebi que uma mancha vermelha empapava minha camisa. Minhas pernas tremiam fracas, mas os gritos constantes pulsavam em minha cabeça. Precisa fazer alguma coisa. Dei mais um passo cambaleante.

— Eu não posso ver isso e não fazer nada. Preciso ajudar.

— Você não pode. É melhor esperar os bombeiros.

— Não posso esperar. Até chegarem àquelas pessoas já terão morrido. — respondi respirando fundo e antes que ela pudesse me deter, corri na direção das chamas.

Entrei na massa de escombros flamejante. O que antes era o luxuoso saguão do hotel agora não passava de uma enorme estrutura incandescente prestes a desabar. Não identifiquei muitas pessoas, as que consegui ver, se estendiam perto do que antes era a recepção.

A estrutura rangia, sinalizando que iria cair a qualquer momento. Corri até o grupo de pessoas e vi que um homem com ferimentos mais leves ajudava os em pior estado. Dois homens entraram também e apareceram atrás de mim, ajudando no resgate as vítimas. Ajudei a levar as pessoas para fora do hotel. A adrenalina me dando forças para empurrar os corpos inertes que pareciam ter o dobro do peso normal de uma pessoa. Estava prestes a sair quando percebi que uma mulher acenava entre os escombros, sem forças para gritar. Uma montanha de ferro retorcido a envolvia.

A partir daquele momento outras pessoas já haviam entrado nos escombros para ajudar as pessoas; algumas em condições deploráveis, agonizando de dor ou inconscientes. Corri até a mulher e estendi as mãos levantando a massa de ferros retorcidos. Assim que toquei na peça senti uma dor aguda se espalhar pelas palmas das mãos e subir pelos braços, conforme o ferro em brasa queimava minha pele. A mulher saiu de debaixo dos entulhos e a conduzi cambaleando até a saída.

A fumaça constante e intensa queimava meus pulmões e cegava meus olhos. As mãos ardiam e sangravam. Sentia as palpitações do coração e a cabeça latejando, os sentidos cada vez mais fracos. Escorreguei dos ombros da mulher desabando. Pulsos agarraram meus ombros e me arrastaram para a saída, mas eu já não conseguia ver mais nada.

Pisquei e percebi que o clarão forte e alaranjado das chamas havia sido substituído pelo azul estrelado da noite. Uma nuvem de cabelos tampou minha visão novamente e logo após a escuridão, quando desmaiei.