Os Cânticos de Ifen

2 O Ministério do Silêncio


Sofremos a mais profunda queda e o primeiro a estender a mão quando caímos… foi você.

Senhora dos mortos-vivos, dos calados, a primeira a romper com o ciclo sagrado, a profanadora da vida e a negadora da morte e do fúnebre. Lili'yat, a primeira reencarnada.

Tu que estendeu o véu da negação neste mundo contra os deuses, nos protegendo do mau olhar deles, se calou por algo maior, fez tuas armadas fúnebres abandonarem a conquista em Una' e as guiou pelos planos até o mundo desolado, trouxe a primeira virtude a esta terra abandonada.

Foi quem abdicou do falar pelo ouvir, negou a voz em prol da verdadeira sabedoria, nem mesmo seu coração bate, aprendeu a executar os mais poderosos feitiços sem entoar os ritos antigos. Fria como o véu polar, séria como as águas a predar, teu ser inspira autoridade, impede o falacioso, reprime o bajulador e enaltece o sensato.

Pedimos a ti, senhora dos mortos, que nos conceda o poder de nos silenciar, de impedir que as vozes da entropia e da insanidade nos levem à ruína, nos dê poder para ouvir de novo o belo, o correto e o momento certo. Nos dê o poder para que nossas bocas se calem antes de blasfemarmos contra vosso ministério, contra nossos irmãos feridos, para que jamais possamos profanar seus nomes e concordar com o entropico.

Peço que nos dê a graça do silêncio, a graça de ouvir antes do agir, que nos impeça de humilhar nossos irmãos traidores, que ainda não entendem a graça deste mundo sombrio, sem ter mais os grilhões da leviana divindade ordeira que nos fez marchar para a morte.

Dai-nos a força, dai-nos o conhecimento, dai-nos a honra em te servir, oh! Ministra do silêncio, até que nossa carne apodreça, até que nossos ossos se limpem com os vermes das terras negras e ainda assim, nós a serviremos, como seus fiéis devotos, para que possamos contemplar a dimensão de vossa grandeza. Que, mesmo com tamanho poder, mesmo com tamanha ambição, a sacrificou não só por sua mera imortalidade, mas também por nós…