VI

Quando Orvalho Gelado saiu dali, ainda era dia. Agora, era quase noite, e eu estava na porta da minha cabana, sentada no degrau. Se eu fosse fumante, talvez fosse uma cena clássica dos filmes Hollywoodianos. Eu estaria lá, sentada, provavelmente fumando um cigarro enquanto a brisa batia nos meus cabelos compridos, negros e enrolados. Mas eu cago para a besteira hollywoodiana. Eu não estava como algum adolescente bobo e romântico esperaria que o personagem principal se sentisse numa situação como essas. Eu não ligava para algum amor perdido, e nem me sentia em dívida com a matilha pelas mortes... Sentia-me em dívida por causa de meu erro. Eu entrei para a matilha, fui aceita, e errei. Errei feio. Era essa a minha dívida. Tendo ela efeitos fatais ou não.

Apesar disso tudo, onde eu estava era um lugar relaxante, certamente. Muito rústico todo o caern, como se deveria imaginar para um refúgio-colônia de lobisomens. Diferentemente de tudo o que se passa em Hollywood, Hank dissera-me que somos um povo intimamente ligado a natureza... Na maioria dos casos. Quase todos ali não ligavam para convenções. Eu sentia a diferença em pequenos detalhes... Como as roupas. Mas logicamente, havia exceções, como o cara que estava se aproximando.

Primeira convenção que eu via ali. Camisa preta lisa, de mangas, calça jeans de lavagem clássica azul, e... Tênis, escuros com áreas beges. Pele clara, contrastante com a minha pele cor de ébano, e cabelos lisos que ensaiavam ser compridos. Caíam-lhe na testa, mas não alcançavam a sobrancelha, talvez dois dedos acima. Talvez ele fosse mais velho do que eu, mas certamente não muito, apenas por alguns anos. Era mais alto que eu, mas ainda assim com uma estatura apenas mediana, corpo magro, mas definido, e traços do rosto harmoniosos. Olhos escuros. Que me fitavam, diretamente, sem sombra de dúvida.

-Hey. Theodora, certo? – Eu ouço quando ele chega perto. Ele para. Sua voz soa baixa. Não baixa demais para que eu não o escute, julgando a distância, mas mais baixa que o comum.

-Huh. Chame-me como quiser.

-Ah- talvez ele esteja embaraçado. Bem, eu não estava num momento bom, mesmo – Ah, deve estar falando do seu nome Garou.

Não acho que ele estivesse precisando de resposta.

-Bem... – Talvez ele não esteja desconfortável. Acho que é a imagem que ele me passa por estar com as mãos nos bolsos o tempo todo – Eu queria vir te ver.

-Por quê?

-Bem... Eu já estive... hm, no seu lugar. E eu sei que não é muito legal, as pessoas te julgam e tudo o mais, mas...

-Como assim, no meu lugar? – Eu me levanto. – Deixe as pessoas falarem. Geralmente sou eu a julgá-las.

-Elas não falam, realmente. Só... Desprezam. Mas o erro não foi seu, Theodora.

-Ah, ótimo. Tudo bem, já pode ir. Obrigada.

Ele me ignora.

-Eu entendo que deve ser difícil para você, mas eu já estive onde você está... Não ligo para isso. Com o tempo melhora.

-Eu acho que você ainda não entendeu – eu acho que é a primeira vez que o encaro. Fixamente. Ele vacila por causa disso. – Eu não sou do seu tipo. Não sou manteiga derretida, rapaz. Vá cuidar de seus problemas, por favor. – Eu tento não parecer muito rude, mas firme, pois não o quero ali.

-Eu imagino que não seja... Cria. – Com um último sorriso, ele parte.

Oras. Esse rapaz estava fazendo troça de mim, é isso? Algum tempo depois que ele vai, eu já o tinha esquecido. Isso não seria incomum, exceto pelo fato de não ter chegado à conclusão nenhuma sobre ele. Humpf. Tudo bem, acho que não era importante, de qualquer maneira. Talvez já fosse hora de saber sobre a matilha. Orvalho Gelado, o líder, tinha me explicado – mais ou menos. Eu queria detalhes. Onde estavam os outros, exatamente? Eu queria vê-los. Especialmente Hank. Acho que eu talvez devesse algum tipo de desculpas formais a ele.

É. É isso. Quando saio da imersão de pensamentos, já estou andando. Devagar, pois não conheço o local. Não vejo muitas pessoas pelo caminho. Quando vejo alguém, um homem, eu decido pedir algum tipo de informação, que não me é negada, mas tenho certeza que não me foi dada de bom grado. Esse homem não gostava de mim. Mais um. Bem, pra mim isso é extremamente comum.

Andando na direção que o homem me apontou, de repente começo a encontrar movimento. Além de uma maior aglomeração de cabanas, o que naturalmente já causaria mais movimento, há fogueiras e pessoas em volta delas. Assando comida, contando histórias, cantando e rindo. Algumas poucas crianças brincam juntas em volta da fogueira. E por crianças, tenho que comentar que haviam alguns lobos “filhotes” por ali, também correndo. Brincavam todos juntos, sem restrições ou impedimentos, correndo sobre duas pernas ou quatro patas. Irônico.

Eu ando procurando uma cabana maior que as outras, para indicar que seria a o líder. Quando encontro uma, é gigante. Pelo menos o triplo do tamanho – e da altura — de qualquer uma das cabanas ali, além de ser a única construção de pedra que encontro no caern. Tinha portas de madeira, mas de uma madeira mais grossa, escura e resistente do que a madeira da qual as cabanas são feitas. Há até mesmo alguns degraus na escada. Ao chegar lá, vejo que não é muito provável que Orvalho Gelado durma lá. É um grande salão, com apenas uma estátua gigante de coruja ali, que me parece entalhada em madeira maciça. No lugar de seus olhos, pedras negras muito grandes e brilhantes que eram entalhadas como diamantes. Davam um aspecto hipnótico à estátua.

Eu ainda estava encarando a coruja quando escuto um “Belo, não?” vindo por trás de mim. É Orvalho Gelado.

Eu não o respondo.

— Tenho que admitir, você não me parece muito alguém que costuma se socializar. Nem uma pessoa muito espiritualizada, – quando diz isso, olha para a coruja e faz uma... Reverência? Com a cabeça. – então devo imaginar que está aqui procurando algo ou alguém. Eu soube pelo Mark que você estava me procurando. O que deseja, Grande Fúria?

-Só detalhes.

-Detalhes... Sobre o quê ?

-Sobre o resto da matilha. Você disse que eles mudaram de caern. Quero saber para onde foram.

-Hm. E por quê?

É, acho que ele não vai compreender muito bem. Se fosse entender, já teria captado a mensagem.

-Eu quero encontrá-los.

O silêncio dele dura alguns momentos. Talvez ele estivesse ME analisando – como se eu fosse demonstrar qualquer coisa exceto o que eu quero. Ou talvez estivesse pensando, concentrado, em alguma razão para eu querer isso. Imagino que ele vai perguntar em alguns minutos.

Eu estou certa.

-E para quê?

Eu não aguento. Eu suspiro.

-Dívidas.

-Entendo. Bem, eu não sei para onde exatamente eles foram. Eu não te contei mas... – agora acho que capto muito bem a essência dele. Ele fica subitamente solene... e muito sério. — Bem, a matilha se separou.

-Entendo. Escute... Hank, o líder da minha primeira matilha, me disse que o Rito de Passagem geralmente é um mecanismo de triagem. Disse que se eu passasse nele, eu seria aceita como uma Garou. Eu não passei.

-Ei. Eu planejava te dizer isso tudo depois, Grande Fúria. Você terá outra chance.

E aqui estou, de volta à suspeita. Era sempre assim?

-E por quê?

Ele cruza os braços. Olha-me nos olhos.

-Entre os Garou, linhagem é algo muito importante. A sua é uma linhagem puríssima, o que tem sido extremamente raro nessas épocas atuais, onde somos tão poucos. Muitos antepassados seus foram guerreiros extraordinários, o que nos faz acreditar que talvez você mereça a glória. O único problema que você terá com isso é manter-se à altura. Isso lhe fez ganhar uma nova chance... A comunidade tentará não te deixar manchar essa linhagem.

Entendi. Era assim que funcionava com os humanos também. Tudo depende de qual família você vem, mesmo que seja um idiota. Talvez aqui eu fosse uma idiota com pedigree.

-Você terá uma nova chance, mas não acredite que ela será fácil. Aliás... Será mais complicada do que a sua primeira. Vou te dar a missão que sua antiga matilha ia cumprir, já que você foi o fator que a fez se separar. Para você... Será uma missão suicida. Mas nem eu e nem você temos escolha.

Ele achava mesmo que eu recusaria? Talvez tentasse reclamar, barganhar. Ele podia conhecer muita gente assim, mas eu não era. Achava ridículo, chegava a ficar com raiva da ideia de eu precisar de uma linhagem para me garantir uma nova chance... Para me afirmar na comunidade Garou.

-Entendo... Obrigada.

Faço uma ligeira reverência, procurando ser respeitosa e me viro. Alguns passos depois, escuto Orvalho Gelado me chamando, num tom relutante e mortalmente sério.

-Eu não lhe disse hoje mais cedo. Eu esperava que a essa hora ele já estivesse morto... Lobo em Pé ainda está vivo. Está retalhado por balas, desacordado e em coma parcial e não há nada que nossos médicos possam fazer. Fico surpreso de ele resistir por tanto tempo... Bem, imaginava que você gostaria de saber. Se você quiser visitá-lo, ele está ali. – Ele me aponta a cabana exatamente a direita da construção com a estátua de coruja – Além disso... Há um motivo pelo qual eu não lhe recomendaria procurar sua antiga matilha. Chuva de Sangue, o Garra Vermelha do grupo, jurou você de morte. Ele não está a caçá-la. Saiu do país, mas se encontrar com você... Bem, ninguém pode impedi-lo de fazer o que ele desejar.

Hm.

-Obrigada, Orvalho Gelado, mas eu não sou do tipo que fugiria. Se ele quiser me matar... É o que ele fará. Depois da minha missão.

Simplesmente vou embora. No caminho, pego uma tigela de sopa de uma panela que deixaram lá para qualquer um servir-se, perto de uma das fogueiras. Eu levo para minha cabana. Olhares feios não são problemas para mim, mas talvez exatamente por isso eu não os amasse. Não me importo com o que os outros pensam, mas com certeza também não quero a companhia deles. Ao entrar na minha cabana novamente, eu deixo a sopa em cima da cama. Minha raiva precisa ser extravasada de alguma maneira.

Encontro-me na beira do bosque, atrás da minha cabana, que é mais afastada. Não adentro muito no bosque, mas não fico em algum lugar onde eu seria visível.

Minha mão certamente vai doer depois. Passaram-se algumas horas comigo socando – e chutando — troncos de árvores a esmo, treinando talvez. Disciplinando meu corpo como um castigo para a indisciplina da mente. Eu só tomo minha sopa antes de ir dormir, quando o caern já está mortalmente silencioso. Ao passar para minha cabana, podia jurar que vi uma sombra mover-se por trás das cabanas em frente a minha, embora eu não pudesse identificar. Bem, não estou interessada, pois provavelmente já era o início da madrugada. Poderia ser apenas alguém se movendo para sua cabana, embora eu não creia nisso realmente, e não apenas pelo movimento de fuga que a pessoa fez. Eu não achava que estava certa, mas também não me importava.

Ao me deitar, poucos instantes antes de adormecer, reparo que há outro artefato no quarto, que eu não reparei nas horas anteriores. A faca que Hank me deu para o Rito de Passagem ainda está ali. Ainda suja de sangue, agora seco, mas ela está ali, posicionada no chão perto de minha cama – o que deve ser o motivo de eu não tê-la visto. Olhando para ela, penso que já sei como vou treinar amanhã.