Notas iniciais
Demorei só um pouco, né... rs

VII

Foram dois dias treinando. Com poucas paradas obrigatórias, mesmo que para comer. A mesma sopa do primeiro dia era o que eu consumia todas as noites, e eu apenas tomava banho antes de dormir. O chuveiro era complicado, se é que podia ser chamado de chuveiro, e eu tinha que agradecer pelo clima estar quente, já que a água é sempre fria. Acho que eu devia agradecer primeiro por ter algo que me mantivesse limpa.

No final do segundo dia, aconteceu algo... Interessante. Mais uma aquisição para minha famosa lista de contatos. Foi engraçado, de um humor irônico, talvez. Era o fim da tarde, a única situação que eu me dava para descansar. Eu estava na cabana, sentada na cama, com a cabeça encostada na parede, exausta. E é aí que escuto uma batida na porta.

Não consigo me levantar a tempo, pois a porta já foi aberta. Entra na minha cabana algo muito pequeno. Ele parece uma miniatura da forma Crinos. Só que com chifres. Ele é consciente, olha para mim. E traz roupas nas mãos. Deixa-as ali na cama, me olha assustado e sai correndo. Eu acho graça. Em alguns minutos, o episódio até ali é apagado de minha mente. Eu decido aproveitar as roupas novas e tomar banho... Já que a minha túnica está rasgada. Minhas mãos ficaram feridas por causa do treinamento na primeira noite. Eu rasguei pedaços de pano da barra da túnica para enfaixa-las. Acho que alguém reparou nisso conforme eu andava por aí todas as manhãs e noites para conseguir comida. O interessante é alguém ter se importado. Parece que esse negócio de honra e reputação era levado bem a sério pelos Garou. Falhar no Rito de Passagem, como eu falhei, era uma vergonha imensa... Que só era reparada pelo meu impressionante pedigree.

Eu tinha esquecido o episódio, sim. Mas acho que isso não contava no caso dele se repetir, não? Aconteceu depois do banho. Já deveriam ser cinco da tarde, o sol se punha, e eu estava sentada no degrau da cabana. Não tinha muito que se fazer por ali, principalmente quando você é uma pária social. E quando estou ali, aquela mesma criaturinha aparece correndo, e não na minha direção, apenas passando. Mas ele para e me vê. O porquê daquele olhar sempre assustado, eu não sei. Eu sou tão ameaçadora assim?

Não me sinto confortável, então me esqueço dele – ou dela. Até ele vir falar comigo.

-Ei – Diz, timidamente. Uma voz infantil e masculina. – Você quer brincar?

Eu preciso sorrir depois disso. Eu não esperava. Não apenas por não ser muito sociável, mas pela minha falta de jeito com crianças. Crianças são um ponto cego para mim. Elas não merecem ser julgadas ainda. O certo e o errado, o sim e o não são conceitos para se estabelecerem com os anos, quando se tem pelo menos uma grande responsabilidade. Crianças não devem ser culpadas. Mesmo uma criança na forma Crinos.

Eu só não levo muito jeito, mesmo.

-Hm... Claro.

Ele fica feliz.

-Grande Fúria, né? Meu nome é Chifre.

Depois de dizer isso, o pequeno Crinos se concentra. Em frente a ele, começa a surgir uma flor, que cresce até o nível de um arbusto. Eu acho que estou ficando maluca, por causa dessa vida “mágica” de um Garou. A flor é meio translúcida, como se não estivesse realmente ali, embora seja em três dimensões.

-Viu, consegui! Com meu treinamento está ficando mais fácil!

Ah...

-O que está ficando mais fácil, Chifre?

-Ué... Invocar espíritos. Quer tentar? Quer dizer – Jura que ele está sentindo vergonha, agora? – só se você for um xamã, né...

-Hm... Não, eu não sou um xamã, desculpe...

-Mas não tem problema! Eu posso te ensinar, Grande Fúria! Eu posso te ajudar a treinar! – Curioso. Mal é uma criança. Mal deve poder fazer algo por si e quer me ajudar a treinar... E fica feliz com isso.

Eu acho que foi rude não responder logo. Ele reparou que torci a língua dentro da boca, como modo de ficar quieta, quando ele me chamou de Grande Fúria. Eu não ligo para troças sociais, mas eu não gostava que alguém ficasse brincando com as minhas feridas, ironizando-as publicamente. Eu sentia que deveria fazer algo a respeito... Algo agressivo.

-Ah, você não gosta do nome? – Ele deixa a flor sumir. – Eu também não gostava muito do meu, as pessoas ficavam me lembrando de que eu era o único que tinha chifres... Mas hoje em dia, eu o acho até legal! O seu também é legal, Grande Fúria. Todos o dizem com ironia, mas eu o acho muito legal.

Humpf.

-E porque, Chifre?

-Porque ele é um nome que inspira respeito. E deve dar medo nos inimigos! Imagina só, um inimigo ouvindo que a Grande Fúria está vindo aí! Nem todos sabem a origem do nome. Para todos os outros, ele é algo a se respeitar.

-É, é verdade – eu digo, e acho que realmente concordo. Danem-se os que o dizem lembrando-se de um erro que cometi. Esse nome agora é meu, e não pode se resumir a isso.

Ótimo, foi uma criança que me fez entender isso.

-Ih – ele meio que levanta as orelhas. E olha em volta. – Nossa já está quase de noite! Eu preciso ir, eu disse que ia ajudar o pessoal com o jantar. Amanhã eu apareço aqui, Grande Fúria!

Só me dá tempo de tentar sorrir. Ele sai correndo, com aquelas pernas pequenas quase desproporcionais ao corpo dele. E realmente já é tarde. E eu sinto meu corpo dolorido dos dois últimos dias. Acho que hoje não buscarei o jantar.

Hoje eu acordei mais cedo. Não devem ser nove horas ainda. E eu já estou cansada, talvez por causa do horário em que fui me deitar. Dormindo tão cedo assim, sempre acordo cedo demais. Não jantei, mas não tenho fome, e o refeitório não deve estar aberto para eu tomar o café da manhã. No fundo, eu sei que o único lugar ao qual me adapto é ali, mais atrás da minha própria cabana... Na floresta, treinando.

Eram por volta das 8h30 da manhã. Eu não queria fazer barulho lançando facas, então retorno ao treinamento inicial – meus punhos e meus pés. Socos e chutes não são exatamente o treinamento mais tranquilo para mim – eu fico com muitas feridas. Embora talvez exatamente por isso, eu ficasse mais forte enquanto nesse treinamento do que lançando e usando facas.

Nessa altura, praticamente todas as árvores da minha área da florestas já estavam marcadas de facas ou de porradas. Embora eu fosse forte, não consegui sequer arrancar a casca de nenhuma daquelas árvores. Escolhi (ou melhor, me designaram uma cabana) um local com muitas árvores velhas, o que me facilitava, pois eram mais difíceis de racharem e quebrarem. Eu imagino que eu, com minha força atual, não conseguiria sequer arranhá-las corretamente... E eu não sou fraca. Bem... Não nessa forma.

Eu ainda me lembro detalhadamente daquele... Incidente, alguns dias atrás, o incidente que levou algumas pessoas à morte. Minha força ficou certamente maior. Recordo-me dos rombos na porta daquele celeiro no qual acordei, após aquilo que ouvi chamarem de Primeira Transformação. Eu vi as marcas até meu corpo no chão. Na hora, eu devo ter guardado isso em segundo plano... Mas agora me incomodava. Eu mudava de forma. Ótimo.

Enquanto estou parada, com pensamentos conflituosos e irritantes na cabeça, ligeiramente apoiada e com as mãos nos joelhos, buscando ar pelo cansaço, consigo escutar passos. Escuto pois a pessoa não fez nitidamente esforço algum de conter o barulho por eles causado, e por isso seus pés fazem sonoros barulhos quebrando folhas e galhos, no caminho até essa pequena clareira. Passos claros e lentos, e certamente em minha direção, embora por trás de mim.

Quando eles param, eu saio do congelamento atento em que me encontrava e me viro, rapidamente, confiando no rápido treinamento dos últimos dias – pois apenas eu sei como me esforcei, mesmo em pouco tempo. E ao virar, vejo o rapaz de alguns dias atrás. O que sentia algo parecido com pena, e talvez por isso tenha vindo conversar. Um excluído que se importa, e isso o torna mais fraco. E eu nem sabia ainda seu nome... Muito menos o que ele queria aqui, de novo.

Chega com as mãos nos bolsos, hábito que ele parece cultivar, pois também estava assim da última vez. Tira uma das mãos e acena, por sobre a cabeça, como uma rendição, tentando se aproximar.

- Você sumiu – diz, quando chega próximo – eu reparei, e decidi te procurar. Parece que tem estado ocupada – termina, com um quê de diversão.

O que esse cara pretende? Eu não sei, e talvez eu deva descobrir, mas agora, não estou realmente ligando para ele. Assim que ele termina de falar, eu me viro e sigo a treinar. Como se nada tivesse acontecido. Porque não aconteceu.

-Eu nunca cheguei a me apresentar, não é mesmo? Meu nome é George.

Acho que ele se irritou com meu silêncio. Com alguns passos, ele correu para me interromper um soco. Eu quase tentei acertá-lo, mas ele se afastou antes que eu sequer pudesse tentar.

- Wooow – George disse, sorrindo – Acho que você está levando as coisas a sério. Se quiser mesmo treinar... Eu posso te ajudar.

Ele? Bufo.

- Você?

- Tente.

Ele ficou em posição de guarda, me parecendo que ele sabia lutar bem, talvez karatê ou judô.

Pensei certo. Quando tentei acertar um reto na altura do rosto, ele pegou meu braço e usou meu peso e movimento para me jogar no chão se virando e me usando de alavanca. Eu estava certa: ele realmente sabe lutar.

Ele se afastou para que me levantasse:

— Você é muito lenta. E ataca diretamente, é obvia — criticou George enquanto eu levantava.

Ignoro-o e mal ele acaba de falar parto pra cima dele. Tento um chute na altura da barriga dele, mas de novo ele me segura, agora eu teria que me equilibrar numa perna só, mas nem tive tempo para isso. Ele chutou a perna de apoio e quase caí de cara no chão.

Senti tanta raiva que não percebi que chutei assim que fui ao chão. Minha perna foi em direção às costelas dele, ele se defendeu, mas foi uns três passos pra trás.

George me deu tempo pra me levantar de novo. Foi o que eu fiz. Fui correndo pra cima dele com tudo, dando uma sucessão de socos na altura do rosto. E ele desviava e se defendia quase sem trabalho algum, quando finalmente consigo acertar um golpe, fazendo-o ir dois metros pra trás. Aproveitei a chance para tentar dar outro golpe certeiro, fui ao chão de novo. Ele se recuperou e agarrou meu braço outra vez, agora com mais força.

Foi a gota d’água. Minha fúria agora era intensa. Eu me senti mudando, aumentando talvez, e quando tive tempo para me olhar, estava mais forte e mais peluda. Meus socos eram mais fortes, mas em pouco tempo, vejo o rosto ofendido dele e vejo sua mudança. Em pouco tempo, ele se torna aquela forma... Que chamaram de Crinos. A forma guerreira.

Tentei arranhá-lo e ele agarrou meu braço e tentou me jogar no chão, mas dessa vez antes de ir ao chão me apoiei com as pernas e me levantei rapidamente, aproveitando a agilidade da forma de batalha (que tenho que admitir, é incrível).

Agora eu via a irritação nos olhos de George, mas vi também a raiva quando ele falou:

— Agora é minha vez!

Ele voou para cima de mim, foi o seu erro. George é rápido e me acerta um soco que não causou maiores danos, me dando tempo de agarrar seu braço. Maior e mais ágil agora, consegui agarrá-lo por trás. Preso e imobilizado o senti tentando algo com as pernas. Dessa vez não vou deixar.

Ainda com raiva subindo pela minha cabeça, mordo o ombro de George e ouvi seu grito, um brado de dor com um uivo tão alto que me assusto. Aí percebi que exagerei.

Notas finais
E aí, valeu a pena?