Orleans
8 Capítulo 8 - One Thing
Sobre a cama no porão da Sra. Fighbright havia quatro caixas distintas que ainda aguardavam pacientemente a minha vontade de carrega-las para o apartamento. Era um lembrete de que muito em breve aquele lugar aconchegante em Nova Iorque estaria vazio e que Katerina Dalton não moraria mais ali com seus problemas familiares, sentimentais e psicológicos. Ou pura e simplesmente um sinal de que estava com medo de sair da minha zona de conforto.
Opção número dois.
Sem meus livros, roupas penduradas, chinelos embaixo da cama e o miado adorável de Tabby ao abrir a porta; o porão se tornava de fato uma toca, lembrando que alguma criatura morou ali durante um período quente do mundo e agora estava migrando para novos ares com a chegada do inverno (o que era uma coisa muito boa, já que agora o aquecimento do apartamento funcionava e do porão não. Obrigada Sr. Campbell pela indicação do serviço de reparos).
Lex estava comigo naquele final de segunda feira, ajudando a colocar dentro de seu carro apertado, o resto da quinquilharia que envolvia as benditas caixas.
— Deus! O que tem aqui dentro, Kate? Tijolos?
— São livros.
— Enciclopédias inteiras, eu aposto! Se todo este peso furar algum pneu do carro, o custo é seu, já aviso.
Óbvio que o peso não furaria nenhum pneu do amado automóvel do senhor Alexander, mas era engraçado vê-lo reclamar em carregar as caixas por alguns metros até o porta malas e simular uma crise de suor em uma noite tão fria como aquela. Seus dreads estavam embolados embaixo de uma touca de crochê engraçada, que dava a aparência de que o gerente tinha uma colmeia escondida no topo da cabeça e sua respiração pesada formava nuvens perto do seu nariz vermelho de frio.
Enquanto ele resmungava com a terceira caixa degraus acima, puxei a última caixa para perto, pronta para sair definitivamente dali. E teria saído se o livro no topo não tivesse chamado a minha atenção.
Shakespeare estava ali, com sua capa dura e negra, letras douradas e sérias, olhando na minha direção. Durante todos aqueles dias desde a partida dos ingleses e o último esbarrão na livraria, não havia tocado o livro nenhuma vez. Parecia que se abrisse aquelas páginas acabaria por me deparar com uma sobrancelha arqueada e um olhar de desagrado, talvez até escutar aquele sotaque inglês declamando algum soneto apenas para me atazanar com uma indireta clássica.
Se eu abrisse o livro, estaria concordando com Samantha e suas risadinhas, e assinando um termo sem volta de que sentia alguma falta daquele nariz-empinado-petulante-insuportável-frio-metido-a-sabe-tudo nas quartas da minha vida.
Não queria assinar nada, muito obrigada.
— Só falta essa, Kate? — Lex surgiu pela porta para me salvar dos pensamentos sobre as obras completas de Sir Shakespeare.
— Sim, é a última, Lex. Terminamos.
Ele apanhou a caixa com um sorriso, me examinando de canto e sem reclamar. Sabia que Lex entendia que precisava de um pequeno momento sozinha com o porão que era tão meu depois daquele longo ano. Era uma despedida de qualquer forma.
Assim que ele saiu para as escadas, analisei os cantos vazios dos armários embutidos, dedilhei a pedra da pia, respirei fundo o cheiro do porão que ainda tinha um pouquinho de Katerina Dalton em suas quinas. Afaguei o colchão da cama, as cortinas na janela e retirei meu chaveiro do molho de chaves, antes de encaixar na maçaneta e dedicar um sorriso tristonho para o lugar que me acolheu tão bem quando mais precisei.
— Obrigada por tudo. Espero que seus novos moradores cuidem bem de você. Adeus.
A mão de Lex pesou no meu ombro quando terminei de trancar a porta e ganhei um abraço apertado antes de andarmos abraçados até a calçada, fechando o portão de ferro que ainda rangia alto. Ele entendia que era um momento delicado. Nunca me senti em casa quando morava com minha mãe, nem mesmo quando mais nova com a minha família bagunçada e cheia de problemas. Em Nova Iorque pude recomeçar, mesmo que todos julgassem o porão por não ser uma casa de verdade — agora eu sentia que ele tinha feito parte de mim de alguma forma e contribuído para o que estava me tornando.
— Vamos para casa — sorri melancólica, vendo meu amigo dar a volta para entrar no carro.
Olhei para trás mais uma vez, a mão na maçaneta da porta do passageiro, apenas para ter uma última visão do lugar. E acabei me deparando com algo muito, muito inesperado.
Dolores Fighbright estava diante da porta de sua casa, as luzes acesas enquanto observava minha despedida silenciosa. Parecia conter o frio de alguma forma com aquele roupão felpudo azul e os cabelos contidos num coque. Bastou cruzar olhares comigo para erguer o queixo e pigarrear, apontando a bengala na minha direção.
— Você pode deixar as chaves comigo, Dalton.
Pedi que Lex esperasse um pouco mais e logo que ele anunciou que ficaria curtindo o aquecedor do carro, subi as escadas até a porta da Sra. Fighbright, estendendo o molho de chaves e esperando levar uma bengalada no meio da cabeça. Faria sentido.
Os olhos cinzentos da senhora estavam cheios de soberba, algo antigo e preso dentro dela por décadas e décadas, difícil de enxergar além. Nem mesmo seus óculos ocultavam algum desgosto por ter que lidar comigo, e eu nem sabia porquê merecia aquele tratamento (só podia torcer para que não fosse culpa daquela maldita noite de chuva).
— Obrigada por tudo, Sra. Fighbright. E me desculpe se causei algum incômodo por este tempo todo.
— Não me agradeça. Se dependesse de mim, o porão estaria vazio há muito tempo, mas não me cabe escolher isso. Agradeça meu neto, que é dado às bondades sazonais.
— A senhora não vai mais alugar o lugar? — tive que perguntar.
— Você está surda, menina? Não acabei de dizer que Maxwell aluga o lugar como bem quer?
— Sim, mas a casa é da senhora. Não é?
Dolores pausou e respirou fundo, prestes a dar um suspiro longo e provavelmente cheio de significados. Mas ela jamais deixaria transparecer nenhum problema em seus modos e mau humor constante, então mudou o assunto rapidamente, batendo a bengala no assoalho da pequena varanda.
— Você só precisa entregar a chave, Katerina? Porque uma pessoa da minha idade não deve se demorar em um frio destes.
— Sim... — ia me despedir dela, dar um abraço, mas a bengala era muito ameaçadora pra mim.
— Ótimo. Tenha uma boa vida, Dalton.
Fiquei com a boca aberta e algumas palavras suspensas quando Dolores deu a volta com as chaves em mãos e bateu a porta a centímetros do meu nariz. Alguma coisa dentro de mim dizia que ela precisava de um abraço, uma xícara de chá e alguém que lhe desse algumas horas de conversa. Mas quem arriscaria? Eu tinha muito amor nos meus dentes, obrigada.
Ainda tive a impressão de que a Sra. Fighbright estava na janela espiando enquanto Lex dava a partida e nos afastávamos definitivamente da rua cheia de casas pintadas com cores de doces, com suas árvores e porões aconchegantes. Fiquei pensando por longos minutos que deveria voltar um dia para visitar a Sra. Fighbright, mas estes planos ficariam para depois das festas de fim de ano.
Não tinha atendido nenhuma ligação de Adria depois do meu súbito surto de “mudança repentina de destino” no domingo pela manhã. Aposto que àquela altura ela estava imaginando que eu estava bêbada quando liguei ou que havia desistido, como sempre fiz em grandes reviravoltas na minha vida desde sempre.
Me lembro de como aquilo acontecia com frequência. Bastava estar diante de algo novo, perigoso (na minha avaliação de perigo) ou que necessitasse de uma dose de autoafirmação, para ver Katerina Dalton correndo o mais rápido possível para a direção contrária.
Era basicamente uma máxima na minha vida.
Sempre fui do tipo de pessoa que fica horas na fila da montanha russa e foge quando chega a vez de entrar no carrinho. Ou quem faz discursos acalorados sobre isso e aquilo, mas fica em silêncio quando precisa erguer a voz diante das pessoas para defender o próprio ponto de vista. Resumindo: sempre fui uma covarde em tempo integral. Fazia parte da minha genética gentilmente adquirida da fatia da família do meu pai.
Minha tia May era o melhor exemplo disso. Bastava colocar uma bebida diferente na mesa para assisti-la desistir da difícil escolha e beber água por uma reunião familiar inteira. Certa vez ela colocou um talher errado em um jantar com minha avó e bastou alguém apontar o erro para todos assistirmos uma crise de pânico que acabou com May no hospital. Ansiedade e medo combinam.
Tudo bem que meu caso não era tão extremo, mas a breve existência de algum cromossomo maldito dos Dalton me fazia marcada a abandonar muitas coisas durante a vida. E obviamente minha irmã imaginava que uma viagem abrupta para a Europa fazia parte do pacote de bônus que envolviam sua irmã mais nova.
Assumo que em pouco mais de 24 horas já havia repensado a viagem mais de uma dúzia de vezes. Tinha uma boa lista com tópicos para desistir muito convincentes, bem mais do que tópicos para me fazer comprar as passagens e aceitar uma aventura pelas terras da Rainha.
Porém, eu tinha outras ocupações naquele momento. Ou achava melhor ocupar a minha cabeça com outras coisas que não envolvessem nenhum avião, passaporte ou malas. Coisas como levar minhas caixas restantes para o apartamento e dormir definitivamente em um espaço que podia chamar de meu.
Claro que pude contar com Lex e sua infinita capacidade de criar motivos para resmungar do que estava fazendo, além de ganhar o brinde de escutar cada suspiro ou gemido de cansaço, o dramalhão mexicano para cada passo até o elevador de serviço que foi gentilmente cedido para subirmos as coisas. Ele devia agradecer. A outra forma era enfrentar dois andares de escadas apertadas e estreitas até a porta amarela do meu lar, doce lar.
— Caramba! Já estava achando que ia comer essa pizza sozinha. Vocês demoraram demais! — Samantha estava esperando por nós no corredor, acompanhada de duas caixas de pizza e uma sacola com latas de refrigerante e cerveja.
— Kate estava se despedindo da casa, dos vizinhos e me matando de trabalhar. Será que vocês podem abrir a porta, porque estas caixas estão mesmo pesadas à beça.
— Ei, não é só você que está carregando peso, Rambo. Pode pegar a chave aqui, Sam? Eu tenho que mostrar pro sexo frágil como é que se carregam algumas caixas.
Samantha apanhou as chaves no bolso do meu casaco e rapidamente estávamos todos a salvo dentro do apartamento, sendo recepcionados pela curiosidade de Tabby em enfiar os bigodes dentro de cada uma das caixas que tomaram um pouco do espaço do lugar.
Sem querer, aquele era o nosso segundo jantar de inauguração oficial do apartamento, com direito a risadas altas, um pouco de música fornecida por um celular, pizza quase fria e cerveja (os refrigerantes eram meus, obviamente). Finalmente podia chamar aquele lugar de lar e me sentia muito aliviada em poder dividir aquele momento com pessoas importantes como meus melhores amigos na imensa Maçã fria.
Passamos grande tempo da noite escutando Sam contar sobre suas peripécias na viagem de família, rindo de cada imitação que ela fazia para falar dos defeitos do carro, dos hotéis baratos e pontos turísticos fajutos. Então Lex se levantou para ir ao banheiro pela segunda vez e notei que Samantha tinha um sorriso diferente no canto da boca enquanto abria para mim uma terceira lata de Cherry Coke.
— Você está escondendo alguma coisa, não está, senhorita Russell? Estou vendo essa risadinha escondida na sua boca. Vamos, desembuche!
— Sorrisinho? Você que está bêbada, Branquela. Não tem sorriso nenhum por aqui.
— Eu não falei sorrisinho. Eu disse que você tinha uma risadinha escondida. Vamos lá, Sam. Conta pra mim o que aconteceu — puxei minha almofada para mais perto de Samantha, já que estávamos sentadas no chão com as costas apoiadas na cama, e ela começou a rir baixinho, batendo o ombro no meu.
— Conheci uma pessoa na viagem — sussurrou entre dois goles roubados da minha lata de refrigerante.
— Eu sabia! Você não me engana, Sam!
— Fala baixo, não é pra aparecer no noticiário local. Não foi nada importante, mas é uma pessoa legal e vamos manter contato. Digamos que estou... Animada.
Dei um guincho de felicidade, quase derrubando refrigerante no tapete. Queria saber todos os detalhes da novidade, de onde Sam tinha localizado uma pessoa em meio a todas as adversidades daquela viagem para roubar seu coraçãozinho mafioso italiano do gueto. Claro que ela teria de perder um dia ou dois para saciar todas as minhas dúvidas, mas interrompemos as fofocas quando Lex voltou do banheiro anunciando que era tarde e tinha de ir. Afinal, segundo ele “alguém tinha de estar na livraria logo cedo”. Óbvio que isso era cabível para todos os presentes.
Nos despedimos assim que a louça estava guardada e todas as latas postas no lixo reciclável, e antes que Sam saísse pela porta pedi que me mandasse uma mensagem logo que chegasse em casa. Eu também tinha algumas coisas para conversar e alguns conselhos para pedir.
*****
— E o que você está esperando para clicar nesse maldito botão de compra, Kate? Compre logo!
Samantha estava ansiosa e impaciente, bufando sobre meu ombro nos últimos cinco minutos desde que acessei o site de compras da companhia aérea que me levaria diretamente para o outro lado do oceano. Ou pelo menos estes eram os planos.
— Não sei se quero fazer isso. E se eu não gostar da comida ou do hotel? Ou dos dois!
— Quais as chances disso acontecer? Deixe de covardia e pense na epifania que o senhor Shakespeare jogou na sua cara naquele café. Pense nas luzes de Londres, no clima, nos pubs...
Sam parecia mais animada com a Inglaterra do que eu estava nos últimos dias. Um dia após a chegada dela, passamos um longo período de almoço falando sobre diversas coisas. E claro que estas diversas coisas incluíam o novo romance de Sam e tudo que estava acontecendo em Nova Iorque enquanto ela se divertia em outro estado. Coisas como um anel de noivado e uma súbita mudança de planos para meu final de ano.
Mas o máximo que consegui sobre as novidades de Sam foi que o rapaz digno de um conto de fadas estava se comunicando através de mensagens, que eles se conheceram antes da viagem (Como assim? Por quê eu não fiquei sabendo disso? Estive tão ocupada com a minha vida que negligenciei minha melhor amiga? Impossível.) e que ela me apresentaria para ele assim que passassem as festas de final de ano. Pelo jeito o pretendente viria até a cidade para vê-la.
Espero que ela me chame para dama de honra se isso der certo.
E como era de se esperar, Sam me apoiou mais do que eu queria ser apoiada na questão da viagem. Na verdade, me sentia diante da líder do fã clube oficial de “Queremos a Kate na Inglaterra com fervor”. Parecia que estavam querendo se livrar de mim, sinceramente.
— Você vai sair daqui, entrar naquele avião, assistir filmes e comer guloseimas até botar os pés no aeroporto, encontrar sua irmã e ter um natal diferente, para variar. Visite todos os lugares, compre bugigangas e me traga um daqueles ônibus vermelhos em miniatura.
— Está bem — respirei fundo e com um esforço hercúleo de muitos músculos, cliquei na compra das passagens de ida e volta para Londres. Pronto, estava feito. A fatura do cartão comprovaria a minha ousadia. — Agora basta meu gerente adorado assinar minhas férias.
— Você comprou as passagens? — Sam espiou a tela de confirmação no computador da ilha de atendimento.
— Claro que comprei. Tudo por livre e espontânea pressão. Nada por indução amigável. Imagina só se eu, Katerina, seria induzida a clicar em um botão que gastaria mais do que eu poderia em uma viagem louca para a Grã-Bretanha, apenas por conta de uma série de vídeos fofinhos de um garoto ruivo e um trecho de um poeta enterrado há mais tempo do que eu sei. Menos ainda diante de uma ameaça clara de morte feita por uma amiga.
— Oh. Então nada dessa decisão louca tem a ver com aquele cara de casaco tweed das suas quartas feiras, que por um acaso tem um fetiche estranhíssimo por Shakespeare e um irmão, coincidentemente ruivo? Tudo por conta das minhas ameaças?
— Absolutamente nada a ver. Você é a culpada, Sam, aceite isso e o fato de que minhas resoluções não têm nada com nenhum Carma.
— Sei.
— Inteiramente, plenamente, impreterivelmente. A culpa é toda sua.
— Não vou morrer por conta disso. Agora me fala quando você embarca.
— Em dois dias... Oh, meu Deus! Quem vai cuidar do Tabby pra mim? E o apartamento? — será que ainda dava tempo de desistir?
— Tabby pode ficar tranquilo na minha casa. Jenny vai adorar cuidar dele de novo e ver como ele cresceu. E pode parar de engenhar desculpas, Branquela, porque eu estou vendo a sua cabeça queimando neurônios para arrumar um motivo bom pra te manter aqui na cidade. Assume de uma vez que está com medo do que possa acontecer em Londres.
— Nada vai acontecer em Londres! Adria vai me pegar no aeroporto, vamos para o hotel e no dia de natal, o jantar será no apartamento dela. Até lá tenho alguns dias de turista e descanso antes de voltar para cá. Se bem conheço Adria, logo vou estar me sentindo tão sozinha que devo retornar e passar a virada do ano com você, Sam. Não sei se quero me arriscar em voltar para minha cidade e ficar com meu pai por dois dias...
Samantha gargalhou alto e abraçou meus ombros, me apertando como costumava fazer quando queria me fazer sentir bem. Só parou de rir um pouco (como se tivesse algum plano maligno contra minha vida), quando avistou Lex terminando um atendimento na porta da livraria cheia. Não demorou em ser arrastada por ela até lá, tentando sorrir para os clientes que passavam e olhavam de canto ou riam, embalados pelo ritmo natalino das canções que tocavam nos alto falantes da loja decorada.
— Lex, você tem um minuto? Kate precisa falar com você sobre a data das férias. Ela comprou as passagens.
O gerente riu quando Sam me soltou e enfiou as mãos nos bolsos do avental do uniforme, analisando a situação por dois segundos antes de afastar alguns de seus dreadlocks para as costas.
— Resolveu viajar mesmo, Kate?
— Eu a convenci docemente — Sam sorriu com seu melhor estilo orgulhoso.
— “Docemente”? — ele adicionou as aspas com os dedos e fez uma careta. — Ela te ameaçou muito?
— Eu tenho amor nos meus rins. Prefiro não comentar — suspirei.
— Bom, eu posso conseguir te liberar entre amanhã e depois, estamos com o quadro completo e mais duas atendentes novas começando esta semana. Não vamos ficar apertados, mesmo você abandonando o time bem na semana maluca.
Semana maluca era a forma carinhosa com que todos chamavam os dias insanos que antecediam o natal, sempre repletos de clientes, com filas nos caixas e todo aquele clima natalino. Mas senti que Lex estava dizendo nas entrelinhas que sim, eu faria falta para a livraria, mesmo ele não podendo segurar as minhas férias.
Ah, se ele apenas soubesse que bastaria me pedir para ser o motivo perfeito para desistir daquela doideira... Sam cortaria minhas orelhas com um alicate de unhas, aposto. Também tenho muito amor nas minhas orelhas.
Dois dias depois meu estômago estava reclamando alto de todas as reviravoltas que a minha ansiedade o obrigava a dar no trajeto do táxi até o aeroporto enquanto Sam assoviava uma música brega que escapava de seus fones de ouvido. Como eu queria ignorar o mundo com a mesma facilidade.
Adria havia ligado na noite anterior e confirmado que não tinha sonhado com a minha ligação do domingo de manhã. Com a certeza da minha viagem, a filha mais velha dos Dalton foi tomada por uma onda de animação que não poderia ser mais típica: Adria deu gritinhos por quase um minuto.
Logo ela já tinha o hotel perfeito reservado (segundo a opinião dela, só pra constar, já que sua irmã caçula malvada não queria ficar no apartamento londrino. Não, muito obrigada.), planos de passeios turísticos e quais outros países europeus visitaríamos aproveitando da comodidade das viagens de trem pelo continente. Não podia dizer não para ela e seus caprichos, já que Adria havia cancelado as festas em Roma para ficar comigo.
O Natal seria uma “comemoração inesquecível”, como ela frisou dúzias de vezes enquanto eu tentava explicar que tinha tido aquela idéia cedo demais e agora achava que era muita tolice querer viajar para o velho mundo assim, sem razão, causa ou circunstância concreta.
Obviamente Adria ignorou cada palavra minha com sua risada ansiosa e finalizou a ligação com mil conselhos para o voo e desejando uma ótima viagem.
O motorista tirou minha mala do bagageiro e por pouco não me esqueci de pagar a corrida do pobre homem. Estava distraída demais tentando conter meus órgãos dentro do corpo enquanto lia pela quinta vez as placas de informação que indicavam os guichês das companhias aéreas.
— Terra para Katerina Dalton, Terra para Dalton. Responda Dalton, na escuta? — Sam estava rindo, arrastando a mala de rodinhas bem na minha frente antes de apanhar a minha mão e seguir me puxando até passarmos pelas portas de vidro do aeroporto.
— Ha-ha. Engraçadinha.
— Relaxa, Branquela. Vai dar tudo certo e você vai se divertir demais. Você vai me ligar e dizer: Samantha, você estava certa.
— Ou te culpar pelo resto da sua existência.
— Tanto faz. Agora pare de fazer essa careta porque vai te criar uma ruga bem no meio da testa e vamos direto para o balcão da British!
Convidar Samantha para me acompanhar até o aeroporto tinha sido uma ideia e tanto, já que precisava de apoio moral e psicológico para não correr direto para baixo das minhas cobertas naquele fim de tarde da quinta-feira. Ainda não estava nevando, mas o frio doía até os ossos e meus peitos até pareciam maiores debaixo das duas blusas e o casaco que tentava me manter aquecida.
Pegamos a fila até o guichê e foi uma questão de segundos para sentir minhas mãos suando. Quanto mais perto do balcão e da atendente sorridente, mais me sentia prestes a ter uma síncope nervosa. Nem reparei direito quando o homem que estava na minha frente, bateu seu ombro em mim e me empurrou para o lado de Sam.
— Tome cuidado, garota. Não fique no meu caminho — ele resmungou.
— Estamos na fila, otário — Sam não deixou por menos e bufou, quando viu que o homem não lhe deu nenhuma atenção, seguindo adiante com seus papéis em mãos e levando uma pasta preta marcada com um chaveiro da bandeira de São Jorge. — Você acredita nisso? Tem gente que pensa que comprou o mundo.
— Deixa pra lá, Sam. Não foi nada.
— Próximo? — a atendente chamou e coloquei meus documentos sobre o balcão, simulando um sorriso extremamente confiante a despeito do meu frio invernal na boca do estômago enquanto Sam ainda olhava o homem se distanciando.
Logo que a moça digitava meus documentos e confirmava meu assento na aeronave, Sam repassava comigo uma lista mental de coisas básicas que deveriam estar dentro da minha mala; como pares de meias, calcinhas suficientes para todos os dias e roupas decentes para não parecer uma turista maluca. Então a atendente começou a confirmar comigo alguns dados e me entregou uma passagem para a primeira classe.
— Ah... Moça? Tem algum erro aqui, eu não comprei lugar nenhum na primeira classe. Era uma passagem na econômica.
— Mas está correto, senhorita. Olhe — a moça começou a mexer no computador para confirmar e virou a tela para mim. Meu nome estava em negrito na lista, com os dados logo abaixo e a confirmação do lugar.
— Não estou entendendo. Eu fiz a compra pela internet, o pacote de ida e volta estava na promoção e...
Antes de completar toda a explicação útil sobre minhas compras online e os pormenores que não tornavam aceitável que estivesse indo para Londres na primeira classe, Sam me puxou pela manga do casaco, sussurrando.
— Você está doida, aceite logo a passagem e aproveite. Não é todo dia que se ganha passagens na primeira classe, Branquela!
— Mas e se o dono das passagens aparecer? Vou passar uma vergonha imensa pra trocar de lugar com ele no meio do voo.
— Coloque a culpa na companhia, peça desculpas e troque de lugar. Simples e indolor.
A atendente sorriu quando nos viramos para ela e Sam tirou a passagem e o passaporte das minhas mãos, abrindo um largo sorriso para a moça ao sair da frente do balcão e deixar minha mala para ser embalada e despachada.
— Não se preocupe, está tudo certo. A passagem era uma surpresa de natal para a minha amiga, por isso a confusão. Desculpe — ela rapidamente arremedou para a moça antes do próximo tomar seu lugar no balcão.
Nos afastamos dos guichês rapidamente, antes que a atendente acabasse achando por bem me colocar junto com as bagagens. Sam ainda me puxava e empurrava, resmungando e murmurando quando eu tentava raciocinar com ela de que aquilo não fazia muito sentido. Paramos próximas da entrada de passageiros e ela finalmente me permitiu respirar fundo e falar um pouco.
— Não foi você que comprou essa passagem, não é, Sam?
— Claro que não! Acha que eu tenho dinheiro sobrando pra te mandar pra Inglaterra com todo esse luxo? Que isso, Branquela, ainda não estou nadando no dinheiro.
— Santo Edgar Alan Poe... Por que as coisas nunca podem ser simples na minha vida? Era apenas uma cadeira na classe econômica, um voo de cinco horas e colocar meus pés em terra estrangeira. Nem parecia tão complicado.
— Pare de reclamar. Quem sabe o senhor destino está te dando uma maré de sorte depois dos seus últimos muitos anos de azar aglutinado?
— Prefiro desconfiar disso.
— Realmente, se tratando de você, é melhor desconfiar mesmo, Kate.
Olhamos uma para a outra e começamos a rir alto, sem ligar pro que qualquer um pudesse pensar das duas doidas do aeroporto. Então Sam me abraçou apertado, me deu um beijo na bochecha e um soco no ombro (coisa que era bem mais sua cara do que aquele carinho todo). Nos separaríamos ali, já que eu tinha de passar por todo o processo de segurança antes de chegar na sala de espera para o voo e ficar algum tempo aguardando o chamado nos alto falantes.
— Cuide-se, entendeu? Não se meta em encrencas e pense no que eu faria no seu lugar.
— Não sei imitar Don Corleone...
— Nem tente. Isso é um dom. Seja Katerina “Branquela” Dalton, mas com juízo na cachola.
— Vou tentar — ri baixinho e apertei a bolsa contra o corpo junto dos documentos, fazendo figa com os dedos. Esperava que Sam estivesse certa desta vez e que o destino tivesse se cansado de brincar comigo e quem sabe (quem sabe?) pudesse soprar bons ventos na minha direção e tornar o final de ano uma experiência interessante e nada traumática.
Me separei de Samantha dando acenos até as cordas de segurança e após passar meus documentos entrei por um corredor de carpete vermelho que não me permitia mais ver o restante do aeroporto. O cheiro do ar condicionado se misturava agradavelmente com o aroma de café quente. Café quente e caro.
A sala de espera da primeira classe era separada dos demais, uma ala confortável e repleta de mimos para os passageiros, como espaços reservados, bebidas, petiscos e até champanhe.
Sentei em uma cadeira macia perto das janelas, de onde podia ver a pista de manobra com seus carros de malas, escadarias, trabalhadores e imensos aviões. Agora estava definitivamente sozinha, por minha conta até chegar a Londres e isso significava que pretendia ficar o mais longe possível de qualquer coisa desconhecida e de problemas.
Já estava ali há quase uma hora, entediada com os jogos do celular quando notei que uma jovem com o uniforme da companhia, completamente bem maquiada e penteada (completo oposto de mim), falava com os presentes. Ela servia todos com os itens que estavam no pequeno bar no fundo da sala, atendendo seus desejos por algo comestível ou líquido.
A gentil garçonete se curvou para me oferecer uma série de nozes e castanhas torradas como gentileza. Insistiu em uma lista de bebidas e refrescos, até que eu aceitei um pouco de água, apenas para ficar tranquila novamente, observando meu redor. E após me atender, ela abriu um pequeno espaço para que um senhor se sentasse ao meu lado, pedindo uma xícara de café expresso com três cubos de açúcar.
Tentei ser discreta em observar o homem, cujos sapatos sociais estavam tão limpos que podia ver minha cara refletida neles. Era um tipo executivo, um senhor de possivelmente mais de cinquenta anos, cabelos grisalhos avolumados e penteados para trás. Ele abriu um jornal Times e passou a ignorar completamente toda a existência humana que pudesse passar além do que seus olhos viam naquelas páginas. Seu olhar era rapino, sisudo, do tipo que não se quer atrair atenção alguma. Definitivamente eu não queria atrair nada.
A jovem voltou com a água e o café em uma bandeja e me serviu, antes de estender a xícara para o homem ao lado com tanta sutileza que ele sequer deixou o jornal antes de experimentar um gole.
Convenhamos, eu queria ter uma pitada de carisma para conseguir puxar qualquer conversa com aquele único ser humano sentado ao meu lado. Não precisava ser um dialogo profundo, poderíamos falar sobre o clima e o motivo das viagens, sorrir e quem sabe ele tivesse parentes em Londres e me falasse algo sobre pontos turísticos e boa comida?
Mas isso não parecia perto de acontecer.
Na verdade o que aconteceu foi uma campainha vinda dos alto falantes, seguido da chamada para o voo, cujo embarque começaria em minutos. Apanhei minha bolsa e a garrafa de água, e assim que me levantei e dei dois passos na direção da porta, o homem se ergueu. O movimento foi tão brusco, que trombei com ele e as folhas do jornal, derrubando a água tudo.
— Minha nossa, me desculpe! Me deixe ajudar — corri para pegar o jornal e depois fiquei sem saber como agir, vendo a irritação dele em bater as mãos no terno respingado.
— Desastrada! Não olha por onde anda? Por um acaso é cega?
— Não, eu só estava passando... Me desculpe de verdade.
A garçonete acudiu trazendo um guardanapo de tecido para o senhor se secar. Não era nada grave, mas quando se derruba água gelada em alguém e se destrói um jornal, dificilmente as pessoas ficam de bom humor.
Estava apertando as mãos de nervoso, sem saber o que mais falar ou reagir para que aquele homem me desculpasse, quando percebi sua pasta posta na cadeira ao lado, com o chaveiro da bandeira de São Jorge.
— Oh, isso explica.
— Explica? — ele esbravejou, apanhando a pasta e ajeitando o terno no corpo. Seu rosto estava corado com o acidente.
— O senhor trombou comigo na fila do guichê e foi muito sem educação.
— De fato, isso explica. Somente uma garota tão desligada e desastrada poderia causar dois inconvenientes para um mesmo estranho em tão pouco tempo. A senhorita deveria usar óculos! E manter-se longe de pessoas decentes.
Ele continuou esbravejando enquanto se afastava e a garçonete veio se desculpar em nome dele, toda gentil. Pobre coitada, ela não precisava se preocupar. Aquele ranzinza não estava lá muito errado sobre mim, mas de qualquer forma aquilo me deixou chateada e com uma sensação muito ruim na garganta. Se pudesse voltar para casa...
Fui a última pessoa a embarcar na primeira classe. A aeromoça me levou até uma cadeira absurdamente incrível e guardou minha bolsa no compartimento logo acima do assento. Em minutos já havia localizado cada novidade do banco, ligado os fones e fiquei na espera do avião decolar, observando o aeroporto pela janela e a noite chegando.
Bastou a decolagem terminar e o voo ficar silencioso para o sono me apanhar. Estava cansada. Cansada de tanta ansiedade e correria, de finalmente estar em algum lugar que parecia longe de toda a movimentação da minha vida.
Poder reclinar a cadeira e ser coberta com um edredom quentinho e ainda ganhar máscara para dormir, era um mimo mais do que bem vindo naquele final de dia (que como muitos na minha vida) era um pouco doido.
Não sei exatamente quanto tempo consegui dormir. Não tive nenhum sonho relevante, apenas um devaneio engraçado que tinha Samantha vestida de estátua da Liberdade enquanto eu parecia um Godzilla desengonçado pedindo desculpas para a cidade de Nova Iorque enquanto destruía prédios e apavorava civis. O verdadeiro retrato da realidade.
Foi um pequeno burburinho no corredor que me tirou do sono, deixando aquele sabor de guarda chuva entalado na minha garganta, um claro sinal de que meus olhos discordavam de que aquela era a hora de acordar. Espiei sobre o ombro e um carrinho de serviço repleto de bebidas estava parado entre os assentos. A aeromoça parecia aflita atrás dele, enquanto o comissário de bordo pedia estritas desculpas por alguma coisa que não conseguia compreender. Quer dizer, não compreendi naquela hora.
Fiquei curiosa com o que estava acontecendo e outros passageiros pareciam incomodados com o falatório desnecessário, mas bastou o carrinho se mover antes de parar ao meu lado para conseguir ver aquele homem grosseiro do aeroporto mais uma vez, a dois assentos do meu. Tudo indicava que ele havia se desentendido com a aeromoça por algum motivo. Talvez ela tenha respirado muito perto dele.
— A senhorita aceita algo para beber antes do jantar? — ela se curvou, me ajudando a acomodar o banco antes de questionar também se aceitaria a refeição.
— Água, por favor. E não se preocupe, — dei um meio sorriso, baixando a voz para dividir a minha sensação com a moça — aquele homem é um grosso, acredite.
Ela retribuiu o sorriso enquanto servia a bebida e seguiu em frente depois que decidi minha dúvida sobre o jantar. Como nunca havia comido nada na primeira classe durante toda a vida, comeria qualquer coisa que ela resolvesse me trazer. Menos comida crua. Tudo que há poucos minutos ainda emitisse sons, não me dava muito apetite, obrigada.
Tive meu primeiro lance de sorte do dia quando outra aeromoça, tão gentil quanto a primeira, veio servir a comida. A mesa que se desdobrou na minha frente era espaçosa o suficiente para caber todos os apetrechos que ela retirou do carrinho: saleiro, pimenteiro, duas taças diferentes, um lindo prato com salada colorida e grãos, pães e manteiga, além do prato principal — um lindo filé alto acompanhado de batatas douradas e legumes. Um banquete! Até aceitei um pouco de vinho pra acompanhar.
Enquanto tinha meu momento de êxtase com a culinária, tevê com fones e pés quentinhos pelo cobertor, me ocorreu que deveria mandar uma mensagem para Samantha quando desembarcasse: “Estou viva. Sim, você estava certa até agora”.
O voo durou mais algumas horas e entre sobremesa, uma comédia romântica e cochilos, logo o anúncio de que o avião pousaria soou pelo sistema de som e tornou a me dar aquele incômodo frio na barriga. Espiei pela janela e lá estava a terra. Londres, ainda pequena pelo vidro, mas simplesmente linda pela manhã.
Após a aterrisagem e o movimento de todos para pegarem suas bagagens e pertences, senti uma estranha calma. Agora estava realmente feito. Aquele aeroporto do lado de fora, brilhando no sol enquanto o avião taxiava não era o bom e conhecido JFK. O lado de fora dizia claramente: Aeroporto Internacional de Heathrow.
Ainda tinha toda a parte burocrática para lidar na chegada. A passagem pela alfândega, convencer o agente inglês de que não, eu não tinha nenhuma intenção de permanecer na velha Europa por muito mais do que as festas de final de ano. Isso se sobrevivesse até o réveillon.
Bastou colocar meus pés na área da esteira de bagagens que meu celular começou a apitar dentro da bolsa como se sua vida dependesse do ato desesperado de atendê-lo. Óbvio que atraí alguns olhares até conseguir resgatar o pobrezinho do fundo de um dos bolsos, mas por sorte não era a única pessoa que parecia um turista deslocado em todo aquele amplo lugar.
Havia mais de vinte mensagens, incluindo áudios que Adria enviou a cada dois minutos, perguntando incessantemente se eu estava viva e em qual portão de desembarque ela deveria me encontrar. As últimas eram de apenas alguns minutos atrás e respondi que estava saindo pelo portão três.
Já conseguia imaginar minha irmã segurando uma faixa decorada com glitter e meu nome em letras garrafais, então imaginem meu alivio ao ver Adria apenas dando alguns pulinhos entre os familiares e guias de turismo que aguardavam seus clientes. Mesmo que ela estivesse usando calças coladas com uma estampa roxa psicodélica e um óculos escuro que parecia roubado de algum hippie, ela estava em um de seus dias mais normais.
— Princesa! Kate! Aqui! — Adria balançava os braços. Será que ela imaginava que era impossível de enxergar ou ouvir como ela gritava?
Arrastei minha mala na direção dela e recebi um abraço tão apertado que quase me faltou o ar. Não que Adria fosse tão forte, mas o perfume que ela usava era tão doce que mataria um diabético desavisado. A humanidade tinha de proibir esse tipo de aroma. Imagine como seria ficar preso em um elevador com uma criatura banhada em um perfume que lembrava a Fantástica Fábrica de Chocolate em modo hardcore?
— Que bom te ver, Princesa! Fez boa viagem? Você já comeu alguma coisa? Só trouxe essa mala? Você está muito cansada?
— Devagar, Adria. Devagar. Eu acabei de colocar meus pés em terra firme depois de sete horas!
— Não seja boba. Os Dalton são super-resistentes ao jetlag. Aposto que em alguns minutos você vai estar animada e doidinha para conhecer toda a cidade!
Adria seguiu repleta de risinhos e gritinhos de animação enquanto puxava minha mala, que nem estava tão pesada para ser digna de um segundo de dramalhão quanto ao peso do conteúdo. Logo ela me apontou um rapaz que estava encostado em um dos pilares do salão, digitando em um celular de ponta, ignorando completamente o mundo ao seu redor.
— Meu namorado — se gabou, batendo cílios e cutucando meu ombro. A velha mania de Adria em exibir seus homens como se fosse uma leoa mostrando uma gazela recém-abatida. Afinal os homens eram exatamente isso para ela depois do casamento furado: passatempos divertidos.
O rapaz devia ter dez anos menos do que ela. Muito alto, cabelos acobreados e olhos verdes que surgiram quando ele puxou os óculos escuros para o alto da cabeça. Sorriu um pouco, aquele tipo de sorriso de comercial de cueca.
— Você deve ser a Katerina — apertou minha mão e me deu três beijos na bochecha. Seu sotaque era claramente italiano.
— Kate. Prazer em conhecer você... Er...
— Paolo. Eu trabalho com sua irmã há um ano — eles trocaram um sorriso que me deu náuseas. Faltava apenas trocarem um beijo romântico para deixar claro para o universo que sim, eles eram um casalzinho apaixonado (mesmo que comumente as paixonites de Adria não durassem mais de seis meses).
— Entendi. E vocês namoram faz...
— Quatro meses. Estamos morando juntos há algumas semanas.
— Entendi — Sim, ainda dentro da faixa de paixonite de Adria. Paolo ainda tinha alguns meses de validade.
Claro que minha irmã começou a enumerar todas as qualidades de Paolo, mesmo que ele parecesse mais interessado em responder seu celular que bipava notificações insistentemente, e tentei dar meu melhor sorriso enquanto recomeçamos a andar para os estacionamentos.
Tínhamos terminado de sair da área de desembarque quando uma pessoa chamou minha atenção entre os parentes e amigos esperando os recém-chegados.
Um homem rechonchudo e de barba cheia e grisalha, metido em um uniforme distinto me arremeteu instantaneamente a imagem de Collins. Podia ser meu estômago perturbando com a lembrança do jantar magnífico do mordomo (tutor, motorista, cozinheiro, bibliotecário e babá nas horas vagas) ou uma daquelas coincidências absurdas que só aconteciam na minha vida. De qualquer forma, parei de caminhar por alguns segundos, tentando enxergar o homem que passou entre as pessoas e se perdeu por lá, não me deixando terminar de tirar a dúvida.
— Que foi, Princesa? — Adria estacou alguns passos adiante.
— Tive a impressão de ver alguém conhecido. Só uma impressão.
— Será que você não tem a resistência da família, Kate? — Adria começou a rir e passou o braço ao meu redor insinuando que estava com sono, empurrando a mala de rodinhas para Paolo puxar ao invés de continuar sua conversa pelo celular.
Realmente, eu tinha apenas os genes ruins dos Dalton. E isso incluía o jetlag, realmente. Quando chegamos ao carro e Adria avisou que levaríamos mais de meia hora para chegar ao hotel, simplesmente me acomodei no banco de trás e cochilei.
Sei que deveria ter visto a paisagem dos campos que levam até o coração de Londres, as estradas, a arquitetura que mistura tantas eras como Tudor, George, Vitoriana... Mas minha necessidade de fechar os olhos era muito maior. A cidade estava ali e não sairia correndo para outro continente. Espero.
— Kate. Kate — Adria balançou meu ombro e me acordou com um largo sorriso. — Seja bem vinda a Londres!
Lá estava pela janela, bem ao meu lado, em sua imponência absoluta, o belo parlamento inglês e o imenso Big Ben. O céu azul sem nuvens só deixava a imagem ainda melhor, mesmo que tenha sido apenas um vislumbre muito rápido pela passagem do carro. Sabia que ali seria um dos lugares obrigatórios que deveria visitar nos próximos dias e não posso mentir, senti meu coração aquecido ao ver um dos tais ônibus vermelhos que Samantha havia dito — mas em tamanho real!
Os táxis pretos, as cabines telefônicas icônicas, homens com chapéus coco (Sim! De verdade!), turistas aos montes e locais tão indiferentes a presença deles quanto parecia. O frenesi dos visitantes não incomodava em nada a rotina dos ingleses pelo que notava.
Paolo riu da minha expressão de criança abobalhada com a testa colada na janela enquanto pegávamos algumas ruas mais estreitas atrás do Saint James’s Park; e Adria deu um de seus risinhos felizes como se fosse a anfitriã em nome de toda a cidade.
— Vou te levar pra conhecer tudo, Kate! Soho, Nothing Hill, Abbey Road, West End!
— Meu santo Edgar Allan Poe, eu não vou ter tanto tempo assim, Adria. A cidade é enorme!
— Que isso, Kate! Onde está seu senso de aventura? — Será que ela acreditaria se eu dissesse que deixei em casa?— Além do mais, vamos usar o Tube e ganhar tempo suficiente para você ver um pouquinho de tudo.
— Tube? — juro que pensei naquele site de vídeos.
— É como chamamos o metrô. O mais antigo do mundo! Você vai adorar.
Já era muita informação para poucos minutos e para minha sorte, Paolo estacionou o carro diante de um prédio que mais se parecia com uma imensa mansão vitoriana. Um manobrista logo veio abrir a porta para nós, enquanto um mensageiro rapidamente apanhava a mala, ambos muito bem uniformizados e sorridentes, embora sem exagero, com certa pompa.
O Bristol era onde ficaria hospedada naqueles dias de viagem. Já havia me conquistado logo de cara, com seus postes negros na calçada, janelas altas e amplas, parecendo ter saltado de algum cenário de um livro de Sir Arthur Conan Doyle. Adria não parecia dividir da mesma opinião comigo. Sabia que ela tentaria me convencer a ir para seu apartamento em Kensington, mas eu zelava pela minha privacidade, além de que viver sob o mesmo teto que Paolo estava fora de questão.
Fomos gentilmente levados através das portas grandes da entrada e diretamente para um hall lindo, decorado com flores da estação e repleto de detalhes que não conseguia absorver ao mesmo tempo. Estava quente ali, diferente do ar gélido na rua, o que era ainda mais agradável.
O concierge surgiu atrás do balcão com cumprimentos e boas vindas, e requisitou meus documentos para confirmar meu quarto. Enquanto ele digitava algumas coisas por trás da tela de um computador, Adria estava tamborilando os dedos pelo balcão.
— Você bem que podia ficar lá em casa, Kate. Poxa, seria ótimo ter sua companhia todos os dias, seria tão divertido!
— Eu vou estar lá no dia de natal e depois também, Adria. E você vai me ter dias inteiros no seu pé por aqui. É a minha guia turística oficial.
Aquilo deixou Adria um pouco mais feliz e nos despedimos logo que o concierge estendeu as chaves para o meu quarto, exatamente no último andar, o terceiro. Pelo visto as construções clássicas da Inglaterra não eram muito altas.
Combinamos de sair após o almoço, um passeio de irmãs para conhecer os arredores e segundo Adria, “me deixar com o frenesi da moda vanguardista londrina”. Então tinha algumas horas para descansar da viagem, conhecer o hotel e avisar Sam de que estava sã e salva na boa e velha Londres.
Que São Dickens me proteja!
*****
Tive três maravilhosas horas de sono no meu quarto do Bristol. E posso dizer sem sombra de dúvidas que aquele quarto era um sonho realizado. Não que eu tenha o costume de sonhar com quartos de hotel, mas quando se tem um lugar todo decorado como no século XVIII, não se pode discutir.
A cama tinha um dossel trabalhado e cortinas cor de sorvete de creme. Os tapetes estampados com bordô e dourado, os móveis colocados com todo o cuidado, até dentro do closet ou no banheiro (que tinha uma banheira maravilhosa por sinal!). O perfume nas toalhas, o roupão felpudo e quentinho, a caixa de bombons no criado mudo e as flores na mesinha diante das janelas; cada detalhe valia um ótimo sonho.
Acordei mais disposta e desfiz minha mala, lembrando meia dúzia de coisas que gostaria de ter levado e ficaram no apartamento, como mais meias, por exemplo. Apanhei meu celular para conferir o horário e aproveitei para tirar uma foto da vista maravilhosa que tinha da minha janela: o Big Ben, suntuoso entre os casarões e prédios. Claro que enviei no mesmo instante para Sam, seguindo da mensagem de que estava bem e tinha sobrevivido.
Samantha demorou um pouco para responder, afinal em Nova Iorque já passava da meia noite, mas sua resposta foi a mais animada possível, repleta de letras maiúsculas dizendo que eu era uma branquela sortuda. Coisas da Sam.
Preparei tudo para tomar um bom banho naquela banheira antes de descer para almoçar e ainda tinha toda uma tarde pela frente andando por aí com Adria querendo reformar meu guarda-roupa ao estilo britânico. Merecia um mimo antes de encarar meu primeiro dia de turista.
A água já estava quente e borbulhando bolhas quando meu celular apitou uma mensagem. Achei que pudesse ser Adria querendo almoçar comigo ou Sam me lembrando pela milésima vez que queria o bendito ônibus de suvenir, mas a foto sorridente daquele ruivinho sardento no ícone da mensagem me fez rir baixinho.
Como Luke ia reagir quando soubesse que sua amiga estava em Londres?
“Hey, Kate! Estou com saudades, não desapareça!” — dizia sua primeira mensagem desde aquele vídeo anterior.
“Desculpe não ter respondido antes, Luke, mas estou viajando.”
“Viajando? Que maneiro!” – ele inseriu uma carinha sorridente. — “Você viu o meu vídeo? Vai aceitar meu convite para o natal???”
Ri um pouco com o emoticon de árvore de natal que seguiu a pergunta do ruivinho e uma pequena ansiedade revirou meu estômago. Já tinha a ideia perfeita para contar onde estava.
“Não vai dar, Luke...” — as reticências aumentavam o suspense.
“Oh...:( Tudo bem. Está curtindo a viagem pelo menos?”
“Sim, esse lugar é lindo! Dá pra ver o Big Bem da minha janela, acredita?”
“BIG BEN????”
Comecei a gargalhar sozinha pelo quarto enquanto levava minhas roupas para o banheiro e não levou nem um minuto para meu celular começar a tocar. Será que precisava adivinhar quem era?
— Kate! Você está em Londres?! Quando chegou? Por que não avisou que vinha? Vai ficar até quando?
Lucas estava eufórico e era possível imaginar perfeitamente sua expressão pelo tom de sua voz enquanto eu ria da sequência de perguntas. Ele começava a se parecer com Adria quando estava agitada.
— Cheguei esta manhã, Luke. Foi uma viagem bem... Inesperada. Vou passar as festas aqui.
— É a melhor surpresa de todas! Onde você está?
— Ia ficar com a minha irmã, mas estou hospedada no Bristol. Acabei de acordar do meu sono de beleza — rimos juntos.
— Temos que nos encontrar! Não, tenho uma ideia ainda melhor! Você vai passar um dia comigo. Não vou aceitar uma recusa, Kate.
— Não vou recusar, senhor Lucas.
— Então marque na sua agenda que amanhã seu dia é todo com Lucas Valois D’Orleans!
Como não ficaria feliz com toda a vibração de Luke por me ter perto e passar algum tempo juntos? Já podia prever que o ruivinho me levaria a todos seus lugares favoritos na cidade, incluindo museus, parques e docerias. Seria arrastada pelo furacão ruivo pelas ruas de Londres e só podia me sentir aliviada por ter tido uma recepção tão boa assim.
Desliguei após marcarmos que ele viria me encontrar no hotel pela manhã e de fato fiquei ansiosa por rever o garoto violinista com toda sua alegria pueril. Agora o banho e um bom almoço me esperavam para reforçar minhas pernas para a tarde repleta de andanças com Adria.
Minha irmã nunca foi tão pontual. Talvez fosse a influência de Londres e seus ares. Mal estava saindo do restaurante do Bristol e lá estava Adria, em discretos jeans e sapatos baixos. Achei que o mundo estava acabando.
Não iríamos de carro. Adria insistia que eu devia conhecer os arredores à pé, como uma boa turista faria e conhecer a alma da cidade e respirar cada cantinho da terra da Rainha. Estava animada para conhecer tudo, mas fiz Adria me prometer que não iríamos muito longe, afinal eu ainda era uma recém-chegada e não queria ter uma crise de sono que me tirasse dois dias úteis de viagem.
Trato feito.
Saímos do Bristol e caminhamos por alguns minutos através das ruas sempre com Adria sinalizando prédios e lugares que poderíamos ver depois. Estava tranquila, até estarmos bem diante do soberbo Palácio de Buckingham. Tenho que admitir que fiquei emocionada.
Toda a construção traz um sabor de filme histórico na ponta da língua e juro que fiquei torcendo pela Rainha sair por ali e abanar a mão diante daqueles jardins incríveis. Tudo isso somado ao memorial da Rainha Vitória com seus anjos dourados. Londres estava começando a me amaciar e eu não queria sair caindo de amores assim, a primeira vista.
Atravessamos o Green Park e em menos de dez minutos estava diante da Rua Dover, com suas galerias de arte e lojas de estilistas renomados. O que explicava o motivo de Adria ter me arrastado até lá.
A primeira vista, a rua Dover não era nada especial, apenas prédios de quatro ou cinco andares, uns ao lado dos outros pela extensão toda; mas havia o charme da moda e bons restaurantes.
Adria queria me mostrar o Dover Street Market, um prédio de cinco andares repleto de lojas e mais lojas de roupas e acessórios. Claro que ela se divertiu bem mais do que eu, mas fiquei satisfeita em comprar algumas peças por um preço módico e um presente para Sam e Lex. Depois de mais algumas lojas, paramos em um café discreto para finalizar o passeio e aproveitei para conversar com Adria com mais calma sobre a viagem e a conversa com Luke naquela manhã.
— Então você viajou para cá na primeira classe? Você é muito chique mesmo, imagina só todo o luxo e tranquilidade. — Adria ria, entre goles de seu café italiano.
— A companhia disse que a compra foi de primeira classe. Estou morrendo apenas de imaginar o tamanho da minha fatura de cartão no começo do mês. Vou ficar quebrada pelo restante do ano novo.
— Não seja boba, vale cada centavo. E você merece, já que nunca sai de casa para nada mesmo. Um luxo não vai te matar.
— Espero que não.
Fiquei surpresa em ver Adria aceitar que meu segundo dia em Londres seria com Luke. Achei que ela faria um drama, com direito a lágrimas de crocodilo e sermões longos e falados às pressas; mas ela surpreendemente adorou a novidade.
Ela acha que eu preciso de mais amigos e menos pretendentes. Ótimo, nisso concordávamos.
Já estava anoitecendo quando acenamos para um táxi, já que estávamos cansadas de tanto entrar e sair de lojas durante a tarde toda e merecia ao menos um passeio naqueles icônicos carros pretos. Era como andar numa carruagem motorizada, o que era uma comparação estranha.
Adria me encheu de conselhos sobre a cidade, desde passes para transporte até ótimos pubs nas proximidades, e nos despedimos na frente do hotel com a promessa de que meus dias seguintes teriam toda a sua atenção. Ela tinha mais alguns dias de folga antes de voltar para Roma e eu não queria perder a oportunidade de estar com ela quando nos vemos tão raramente.
Subi para o quarto e a recepção me ligou para avisar que havia recebido uma ligação para mim durante a tarde, mas a pessoa não havia se identificado. Deixei meu celular para me encontrarem se fosse preciso e fui experimentar as roupas que Adria tinha comprado para mim naquela tarde.
Escolhi algo quente, confortável e bonito para descer até o restaurante na hora do jantar. Um strenchcoat vermelho com botões grandes pretos, meias grossas e botas altas. Até me sentia bonita naquela noite. Na verdade, me sentia bem disposta, alegre e por mais estranho que possa parecer — feliz de estar ali. Se Sam estivesse ouvindo meus pensamentos naquele momento, ficaria uma hora rindo da minha cara, com certeza.
Quando cheguei ao hall do Bristol, observei o movimento da rua pelas portas de vidro. A noite parecia tão linda lá fora, chamando para mais uma pequena caminhada e descobertas pela cidade. O que eu teria a perder? Já tinha atravessado o oceano, estava pagando por um hotel relativamente caro, vindo de primeira classe e tudo por conta de uma tabuleta de café. Sair pela noite londrina não me parecia nenhum tipo de insanidade.
Perguntei ao concierge do hotel se ele conhecia algum lugar interessante por perto, algum pub ou bar onde pudesse conhecer como os londrinos se divertiam ao invés de jantar em restaurantes. Ele sorriu. Todos os turistas deviam fazer aquele tipo de pergunta.
Me indicou um pub muito próximo, que não me gastaria nem dez minutos de caminhada. Rabiscou o endereço em uma página de um bloquinho e fez todas as indicações de endereço. Depois me acompanhou até a calçada e me disse para ter juízo. Coitado, ele ainda não conhecia Katerina Dalton. Era mais fácil o pub desmoronar do que alguma coisa sem juízo acontecer comigo.
Caminhar por Londres durante a noite não inspirava aquela sensação de alerta como em Nova Iorque. A cidade inspirava respeito e seus moradores não pareciam possuir aquela energia pulsante da Grande Maçã que tornava tudo uma imensa artéria viva. Ou pelo menos era o que eu pensava até chegar naquele pub.
O Jeremy Glass era uma mistura de desconfiança com curiosidade. A frente do prédio era apenas mais uma das construções com janelas grandes e tijolos aparentes, mas a música escorria pelas frestas. Alguns jovens bebiam cervejas na calçada, em rodas animadas e falantes, rostos corados, enquanto outros entravam pelas portas, liberando o barulho de dentro.
Não tinha escolha: era entrar ou voltar para o hotel e eu não ia me acovardar de novo. Se Katerina Dalton estava em Londres, ela tinha de mudar sua linha de pensamento!
Passei pelas pessoas na calçada e entrei junto com dois casais um pouco mais velhos, que foram muito gentis em segurar a porta para mim. O ambiente dentro do Jeremy Glass era colorido por bandeirolas azuis, vermelhas e brancas, quadros com marcas de cerveja e tevês ligadas em um jogo de futebol popular que não transmitia som.
No fundo do pub um grupo apresentava músicas pop e precisei de um pouco de contorcionismo para chegar no balcão e sentar em uma cadeira alta. Definitivamente nunca fui uma pessoa de ambientes cheios. Minha vista estava um pouco embaralhada e confusa, mas o barman atraiu a minha atenção com seu sotaque carregado e boas vindas.
— O que vai querer, docinho?
Docinho? Sério?
— O que você indica?
— Americana nova na cidade?
— Sim. Viagem de final de ano.
— Que bom! Está gostando da velha cidade? Você não me parece uma garota que curta beber, estou errado?
Sim, veja como eu pareço uma boêmia que amanhece na beira do Tâmisa abraçada com litros de cerveja.
— Gosto de beber socialmente.
— Vou trazer algo para você, docinho. Não fuja.
Ele piscou para mim e me fez rir. Se aquilo era um flerte eu estava definitivamente muito enferrujada, o que me fazia lembrar aquela noite com Bruce dentro do carro na tempestade. Apanhei um pote com amendoins para tentar afastar a lembrança.
O barman retorna com um drink colorido e uma cerveja preta que espuma como se fosse muito doce.
— A cerveja é por conta da casa, docinho. O drink, para animar a sua noite — ele volta a piscar para me fazer rir e arrisco um gole da cerveja, que esquenta minha garganta.
— O-Obrigada.
O barman se afasta e passo a observar as pessoas com interesse. Não acho que seja por conta da bebida, um gole não faria nada daquilo, mas talvez a mistura da experiência com o lugar novo tenha este tipo de encantamento. Quando dei por mim a cerveja já tinha acabado no copo e o drink não parecia chamar a atenção.
Me apoiei no balcão para acenar para o barman quando o celular vibrou dentro do bolso do strench. Fiz o pedido de outra cerveja, entre alguns olhares do barman galã enquanto olhava o visor do aparelho.
Número desconhecido.
Lembrei-me do que a recepção do hotel havia notificado: a ligação não identificada no meio da tarde devia estar tentando contato mais uma vez. Atendi, mas a ligação caiu e foram assim nas outras duas vezes que o toque insistiu.
Será que meu pai havia descoberto que eu estava viajando e conseguiu o número do hotel? Impossível. Talvez minha mãe estivesse furiosa por conta do apartamento e querendo vingança da filha nada tradicionalista e destruidora de riquezas alheias? Nada impossível.
Deixei o celular sobre o balcão quando a nova cerveja foi servida no meu copo, mas não houve mais nenhuma ligação. Mas o visor brilhou em azul por um instante e uma mensagem foi recebida, com o mesmo número não identificado.
“Boa noite. Onde a senhorita está?”
Torci os lábios e tive certeza de estar com a testa franzida. Era uma pergunta muito séria. Podia ser de qualquer um, até mesmo de Sam ou Adria querendo me perturbar um pouco.
“Onde estou? Curtindo minha noite, é claro. :D”
Era uma ótima resposta. Eu não precisava detalhar onde estava para ninguém, mas ficava um mistério no ar, afinal onde Katerina Dalton estaria na noite de Londres?
“Interessante. Gostando da sua estadia no Bristol?”
Agora minhas sobrancelhas estavam realmente criando aquela ruga no meio da testa. Se aquele era mesmo o número que havia ligado no hotel mais cedo, se tratava de alguém conhecido ou que tinha aquela informação. Até pensei em alguém do serviço de atendimento do hotel, perguntando sobre minha satisfação com a hospedagem, mas eu tinha acabado de chegar. Não fazia sentido.
“Sim... Com quem estou falando mesmo?”
Hora de resolver o mistério.
“Digitando.”
O quê? Além de não dar nenhuma informação ainda estava me corrigindo? É claro que eu sabia que estava digitando e não falando, era apenas uma figura de linguagem... Por quê estava me explicando mentalmente?
“Que seja. Quem é você?”
A cerveja estava esquentando no balcão. Não estava gostando aquela conversa.
“Isso é relevante?”
Claro que é relevante! Estamos na terra de Jack, o Estripador! Não é todo mundo que troca mensagens com números não identificados querendo saber sobre sua estadia.
“Claro que é! Vou bloquear seu número. Passar bem.”
Desliguei o visor e virei um gole imenso da cerveja, tão grande que precisei limpar uma gota que escorreu pelo canto da boca. Que conversa mais estranha.
Não houve resposta por quase um minuto. Estava quase imaginando que a pessoa tinha desistido da brincadeira sem graça quando outra mensagem chegou.
“Somos feitos do que são os sonhos; e nossa pequena vida é circundada pelo sono.”
Fiquei atônita. Aquela não era uma mensagem que eu esperava receber, nem mesmo ter uma reação tão clara quanto aquela taquicardia que doeu no meu peito como uma fisgada. Tinha de responder alguma coisa. Qualquer coisa.
“...”
Reticências. Parabéns, Kate, quanta articulação.
“A Tempestade (?)”
Arrisquei, numa resposta melhor.
O pub ficou muito barulhento pra mim de repente e com a bateria do celular quase acabando depois daquele dia todo em uso, me fez deixar o pagamento da bebida sobre o balcão e sair pelo Jeremy Glass olhando para a tela e desejando que o Bristol estivesse perto o bastante para o aparelho não desligar pelo caminho.
Não obtive mais nenhuma resposta.
“Estou certa?”, precisava saber.
“Pode responder minha pergunta?”, já havia caminhado um quarteirão quando a mensagem chegou. A tela foi tomada pelo aviso de que a bateria estava baixa. Apenas dez por cento.
“Que pergunta? Você não respondeu a minha.”
Tinha certeza de que estava certa. Era a Tempestade. Só podia ser.
Seria coisa da minha cabeça?
“Onde a senhorita está?”
“Great Smith. Acabo de sair do Jeremy Glass. Agora me responda se eu estou certa.”
As mensagens pararam de chegar e meu coração arriscou um descompasso de novo. Aquilo era um mistério mesclado com uma pitada de tortura e um pouco de loucura da minha parte em estar atravessando ruas sem olhar apenas para vigiar a bateria do aparelho.
Mais um quarteirão. Nenhuma resposta.
Dois. Três. Quatro. A rua do Bristol estava adiante, o hotel iluminado por luz amarela dos lustres através das janelas, avisando que lá dentro estava quentinho e seguro. A rua parecia mais fria ou ao menos eu sentia isso nos meus dedos dos pés e das mãos enquanto apertava o passo para correr logo para dentro.
Cinco por cento. Ficar ligando e desligando o visor não estava ajudando em nada. O mensageiro correu para abrir a porta do hotel e me desejar boa noite quando passei.
Bastaram dois passos dentro do hall do Bristol para o celular tocar, a música alta fez alguns hóspedes olharem seus próprios aparelhos para certificar se não estavam tocando. Mas eu sabia que era o meu, bem ali no meio das minhas mãos, com um número que não me era conhecido.
Atendi.
— Alô?
— Onde a senhorita está?
— No hotel — respondi arfando pela corrida, minha respiração atrapalhava um pouco para escutar.
— Obrigado por responder a minha pergunta — aquela voz. Aquele maldito sotaque.
— Pode responder se eu estou certa?
— A Tempestade.
Meu estômago deu uma volta e algo gelado correu por ele direto para meu mindinho. Detestável, arrogante, metido nariz empinado...
— Próspero.
— Senhorita Dalton — aquele convencional tom de falar sobre mim como se estivesse apontando para um rato na sarjeta não me causava nenhuma surpresa.
— Por quê diabos não disse que era o senhor desde o início? Minha bateria vai acabar e bem que poderia ter dito o que queria logo de uma vez! Ficar fazendo joguinhos? Que absurdo! — Sim, eu estava quase gritando no meio do hotel. Sim, eu sentiria vergonha depois.
— Se o celular está descarregado, não é algo que seja do meu interesse, correto? E estas mensagens apenas demonstram claramente o quanto é de fato, senhorita Dalton, uma pessoa distraída e facilmente alvo de problemas.
— Isso tudo foi um teste?
— Uma demonstração. Ao menos reconheceu um trecho de Literatura clássica. Já é algo positivo.
Eu poderia apertar o pescoço dele naquele momento. Sim, eu o estrangularia com muito prazer.
— O celular vai desligar. O que o senhor deseja?
— Lucas marcou um compromisso com a senhorita para a amanhã, mas será impossível estar em Londres pela manhã. Ele tem outros compromissos mais importantes, senhorita Dalton, portanto espero que às três da tarde seja um horário cabível para todos.
— O senhor pode dizer para seu irmão que marcamos para outro dia, eu não me importo, senhor Valois.
— Mas eu me importo.
O bipe da bateria emudeceu o celular por um segundo. Faltava pouco para desligar.
— Está bem. Ás três então, vou esperar.
— Esteja pronta, senhorita Dalton. A encontrarei no Bristol, pontualmente.
Espera. Como assim “encontrarei”?
— O senhor vem me buscar?
— Esteja pronta, senhorita Dalton.
Se Próspero disse qualquer outra coisa, o celular não me permitiu escutar. Apagou completamente logo que meu sobrenome saiu carregado com seu sotaque local. Minhas pernas estavam um pouco dormentes, estranhas como algo em mim sempre parecia reagir quando se tratava de bater de frente com aquele inglês detestável.
Como alguém conseguia ser tão... Tão... Tão...
ARGH!
Que fique notificado. Leopold Thomas Valois D’Orleans estava prestes a deixar Katerina Dalton maluca!
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!
Fale com o autor